Lowk
2 I – Ratinhos de Laboratório
Notas iniciais
Natasha terminou seu percurso, apoiou as mãos nos joelhos e soltou o ar que segurava nos pulmões, para depois beber um gole de água.
— Sua sedentária! — Brincou Akemi, que dava pulinhos sem sair do lugar.
— Você que é atlética demais. — Rebateu Natasha, com a respiração ofegante.
— Me lembre de apostar com você da próxima vez. — A japonesa riu.
— Pode deixar. — A russa se espreguiçou. — Hoje é nosso aniversário, acha que teremos mais uma das surpresas do Freddie?
— Imagino que sim. — Respondeu Akemi.
As duas amigas agora estavam fazendo o trajeto de volta para o orfanato em silêncio, até que Natasha o quebrou:
— Não acha estranho o fato de nós cinco termos nascido no mesmo dia?
— Nath, acredite, é melhor não pensar nisso. — A japonesa tinha um tom sério em sua voz, algo não habitual devido a sua personalidade. — Eu mesma já criei milhares de teorias da conspiração, porém nenhuma nunca me pareceu cabível o suficiente. Vai por mim, é perda de tempo.
A russa apenas assentiu e continuou correndo.
Aquela era a rotina no Orfanato Wammy's: treinos diários, físicos e mentais. No fim do dia, Paulo, Zaki, Akemi, Charlie e Natasha, um de cada vez, entravam numa sala e saíam de lá sem a mínima ideia do que havia acontecido. Apesar de parecer regrado, eles tem a liberdade de fazer os exercícios que quiserem nos horários que lhe parecerem mais convenientes, desde que os façam, está ótimo.
Além disso, jamais foram tratados de uma forma ruim por ninguém e sempre puderam interagir entre si. De acordo com o próprio Dr. Copper, "certas liberdades podem evitar a depressão e o estresse."
Tudo ilusão, pelo menos na visão de Natasha.
Eles cincos foram induzidos a pensar que devem suas vidas ao Wammy's e à Freddie, que ali estão seguros, tem comida, casa e amor, e se forem embora, perderão tudo isso. Quando eram menores, acreditavam, por isso seguiam as regras do lugar a risca, com medo de serem expulsos.
Entretanto, ao longo dos anos, essa ideia foi se desincrustando de suas mentes, e o que realmente acontecia foi sendo percebido por eles. Não sabiam o porquê de tantos treinos, nem nada do que acontecia ali. Por vezes, fugiram juntos. Porém, é óbvio que Dr. Copper era um homem prevenido, e pôs um chip em cada um deles.
Depois de tantas tentativas de fuga, os cinco acabaram aceitando que não adiantaria de nada aquilo. O melhor era esperarem suas maioridades para poderem sair daquele lugar e viverem de verdade.
Ao menos, era o que deveria acontecer.
***
Natasha bufou, impaciente. Estava na pequena salinha de espera sozinha onde, todas as tardes, aguardava para sua vez de falar com Freddie. Geralmente, quem entrava, depois de acabar a conversa, retornava e ficava conversando com os outros, para que o tempo passasse mais depressa.
Contudo, naquele dia, não foi assim.
Como de costume, Akemi fora a primeira. Ela foi até a sala, passou-se um tempo, e a secretária de Dr. Copper, Elizabeth, veio chamar o próximo, mas a japonesa não voltou. Todos acharam estranho e perguntaram à secretária o que aconteceu, porém a mulher não respondeu.
Nath passara o tempo todo formulando ideias para entender o que havia acontecido. Cada segundo lhe torturava e ela não tinha nada o que fazer para poder passar o tempo mais rápido. Andou de um lado para o outro, mexia nos fios castanhos de seu cabelo, e nada da hora passar. O tique-taque do relógio era ensurdecedor, até que Elizabeth apareceu.
Entrou na sala de Freddie, que sorria largamente, parecendo muito animado com algo. Natasha se sentou na cadeira que ficava em frente a Dr. Copper, e respirou fundo.
— Primeiramente, feliz aniversário! — Ele desejou. — Imagina o porquê de estar aqui, querida?
— Não faço ideia, doutor. — Respondeu Natasha.
— Eu irei entregar seu presente de aniversário, docinho. — Freddie contou, animadíssimo, o que fez Nath se sentir aliviada e muito mais feliz, ela até xingou-se mentalmente por ter feito tamanho escândalo por nada. — Faz ideia do que seja?
— Não senhor. — Natasha respondeu.
— Bem... então lá vai! — Copper deu uma pausa, a fim de criar suspense. — Você vai para outra dimensão!
Nath disparou a rir. De todas as loucuras que Freddie já inventara, aquela era a pior.
— Do que está rindo? — Ele indagou, sério.
— Dessa sua brincadeira. Outra dimensão? Fala sério! — Exclamou Natasha, e continuou gargalhando.
Dr. Copper bateu com a mão na mesa, assustando a garota.
— Não estou brincando. Por que acha que treinam tanto?! Ou então, por que esquecem o que fazem aqui? — Freddie gritava, descontrolado. Ele parou, respirou fundo, e abaixou o tom de voz. — Vocês são nossos ratinhos de laboratório. Se morrerem, ninguém vai se importar. Só nasceram por causa dessa operação, suas mães se venderam.
Nath, ao ouvir aquilo, sentiu um aperto no coração tão grande que desabou a chorar. Não queria ouvir mais nada, porque mesmo parecendo um absurdo, fazia sentido. Foi aí que ela tomou a decisão de parar de escutar, pois as palavras machucaram tanto que a garota só queria as esquecer. Levantou e saiu correndo da sala.
Ao fechar a porta, não se lembrava de nada, muito menos fazia ideia do motivo de estar chorando. Teria sido tão horrível?
Não teve muito tempo para pensar, pois sentiu uma agulha perfurar seu braço, e logo após sua visão ficou turva, os joelhos bambos. Ela caiu, e a última coisa que viu antes de desmaiar por completo foi Elizabeth segurando uma seringa.
***
— Natasha, ei... Acorda! — Era Akemi, sacudindo a cabeça de Nath.
A garota abriu os olhos, e tentou identificar onde estava. Era um lugar lindo. Tão lindo que parecia magia. Com toda certeza, elas não estavam na Terra. Só podia ser a outra dimensão, a qual o maníaco do Dr. Freddie Copper havia falado.
Tudo voltou a mente de Natasha. E não é que fazia sentido? Dr. Copper criou ela e seus amigos como ratinhos de laboratório. Aquele homem era repugnante. E agora os Nicolazzi não sabiam onde estavam.
Depois de Akemi e Natasha, em ordem, foram chegando: Zaki, Charlie e Paulo. Os amigos se reuniram perto de um lago cuja água era tão azul que parecia ter corante
Tudo parecia ser de mentira, como nesses filmes de ficção. Árvores altas, com pequenas rachaduras de moradias animais, folhas verdes e radiantes. Nuvens branquinhas, e o sol parecia de um desenho infantil.
Natasha e os outros passaram um belo tempo em silêncio, ainda em choque com o que havia acontecido.
— Fala sério! — Paulo exclamou jogando o PSP longe, que caiu na grama bem aparada. — Aqui não tem sinal! Como eu vou jogar LOL no servidor dos gringos? Que merda de lugar um homem não pode jogar? Eu quero os meus direitos!
Zaki, que tinha o sol iluminando seus enormes ombros e queimando sua pele negra, passou a mão no cabelo, cortado em estilo militar, e pareceu vacilar.
— Galera... o que o Copper disse é verdade? A parada da outra dimensão? Nós estamos nela?
— Manera nas perguntas, Zaki. — Charlie, uma americana ruiva e com muitas sardas no rosto, falou à Zaki, por fim. — Estamos todos perdidos.
Akemi revirou os olhos.
— Você sempre foi a preferidinha do Freddie. Alguma coisa deve saber, sua hipócrita! — A japonesa levantou com raiva, determinada a dar um soco na cara da ruiva, que levantou junto, pronta para brigar.
— Não sejam fúteis. Não você, Akemi. — Natasha lançou um olhar de repulsa para Charlie.
A garota sempre fora uma mimada de Dr. Copper, e a preferidinha. Mas pelo jeito, as experiências de Freddie eram mais importantes que ela.
Akemi se sentou e Charlie andou perto do lago.
— Estamos na dimensão alternativa de Lowk. Fomos preparados para isso desde pequenos, vendidos por nossas mães, e criados por Dr. Freddie Copper e seus aliados da Casa Wammy's. Cada um de nós é de um dos lugares mais conhecidos ou famosos da Terra, para demonstrar a miscigenação terrestre às pessoas que moram aqui. Eu sou dos Estados Unidos da América, Akemi do Japão, Natasha da Rússia, Paulo do Brasil e Zaki da África. Segundo Freddie, nós temos que ser bons ratinhos de laboratório e descobrir a ponte que liga esse mundo ao nosso. — Uma lágrima saiu dos olhos da garota, que secou rapidamente. — E devemos sobreviver.
Os Nicolazzi olharam para Charlie, esperando por mais
— É só o que sei. — Admitiu a americana. Paulo deu de ombros.
— Vamos logo, eu tô com fome. Aqui tem umas carnes pra fazer uma churras, pelo menos?
Zaki deu um soco no braço do amigo, e os Nicolazzi saíram em busca da sobrevivência.
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