Era aproximadamente 9:00 pm e a tripulação do maior navio — e aparentemente mais detalhado e diferenciado dos demais — já estava recolhendo-se para seus devidos cômodos para realizar tarefas internas ou para simplesmente ter a sua hora de descanso. Embora suas velas estivessem recolhidas, um forte vento era capaz de manter o balanço do navio tão constante que a impressão em que se tinha era de que o mesmo poderia desprender-se do local e começar a velejar sozinho — caso sua âncora não estivesse atividada. Killian Jones, ou mais conhecido como "Captain Hook", era o homem em que comandava os mares. Sim, os mares, pois até mesmo os marinheiros mais distantes reconheciam sua fama e o temiam, pois seu jeito não era lá tão amigável e muito menos receptível.
Killian encontrava-se de frente ao timão de seu navio encarando o horizonte a sua frente, obrigando-o muitas vezes a apertar seus olhos esverdeados como se fossem feitos de vidro devido ao vento cortante e cada vez mais gélido em que o decorrer da noite se intensificava. Após alguns momentos de pura distração, barulhos ecoaram por entre o solo e alguns baús espalhados aos cantos do navio foram levemente retirados de seu lugar devido à presença de um novo ser que, aparentemente, estava ali, fazendo companhia ao Capitão. Em passos arrastados e poucos disciplinados, Killian começou averiguar ao seu redor procurando por tal indivíduo em que estava ali, fugindo das regras.
Ser um capitão era muito mais do que apenas certo reconhecimento, pois Hook era rígido com suas ordens e cumpria com suas palavras a qualquer custo, sendo elas referentes às punições ou não. Pouco a pouco a paciência do rapaz fora se esgotando quando um barulho um pouco mais alto fora ouvido atrás de um grande baú cercado por dois barris à sua volta, e com sua voz firme e rouca, suas primeiras palavras foram dirigidas ao ser em que estava escondido.
– Não sabia que meus marujos poderiam ter amnésia, então, neste caso, serei obrigado a relembrá-lo o que aconteceu com Markus. Relembrar com... Atos. – Um breve sorriso sádico combinando com sua feição de ironia e até mesmo raiva foi estampado no rosto do rapaz, e visto que suas palavras não causaram nenhum efeito — o que era realmente estranho, pois além de Killian ser muito respeitado, seus marujos o obedeciam de primeira -, decidiu apenas ignorar e dar continuidade ao jogo de palavras, porém em sua mente, a tortura que havia lhe oferecido à Markus, um de seus marujos, vinha à tona, o que acabava lhe deixando um tanto quanto ansioso e impaciente para saber o quê ou quem estava lá testando a curta paciência do superior capitão.
Os passos de Killian foram se tornando cada vez mais próximos, o suficiente para que o mesmo posicionasse sua mão direita em sua espada apoiada em sua cintura, elevando-a e posicionando-a em direção do enorme baú à sua frente, logo o tocando de forma brusca o suficiente que fez o mesmo agitar-se, combinando com suas novas palavras ásperas e firmes.
– Não é hora de criança brincar de esconde-esconde por aí. Exijo que saia agora, pivete! – Uma risada escandalosa com um toque de cinismo fora ecoada após as palavras ameaçadoras de Killian serem pronunciadas, entregando o fato de que ali definitivamente não se encontrava uma criança, mas sim um adulto, necessariamente uma mulher. E o que Hook ainda não sabia, era do quão bela e sedutora essa mulher poderia ser após ser abandonada pelas sombras.
Em frações de segundos o movimento do corpo da mulher escondida deslocou-se para as costas do rapaz, fazendo o mesmo virar-se com rapidez, pronto para mirar e acertar sua espada em cheio caso o alvo fosse menos rápido do que aquela mulher era. E mais uma vez uma risada, agora não tão alta quanto a anterior, fora escutada, e com palavras roucas num tom de sussurro, a desconhecida dama pronunciou-se à Killian pela primeira vez, mas ainda sim, mantendo-se fora da vista do rapaz.
– Ohh, então o Capitão faz jus à sua fama, huh? Tão nervoso... Estou te irritando, querido? Hm? E ainda nem nos conhecemos. – Killian espalhou seus olhares ao redor do navio para tentar encontrar ou identificar de onde vinha a voz daquela desconhecida mulher, e com mais algumas palavras, colocou-se à frente, posicionando sua espada em defesa à si próprio diante do desconhecido.
– Meu navio, minhas regras. Quem você acha que é, sua insolente?! Dê o fora daqui antes que... – As palavras de Hook foram interrompidas devido ao fato da dama desconhecida ter se aproximado ferozmente do corpo do rapaz, conseguindo jogá-lo longe e depois o prendendo com o seu próprio corpo ao pressioná-lo contra uma das grades laterais do enorme navio, fazendo com que involuntariamente a espada desprenda-se da mão do Capitão por conta da velocidade e força em que a dama utilizou, logo o deixando completamente sem defesa.
– Mas você consegue ficar ainda mais charmoso fingindo que tem alguma superioridade, huh, Capitão? Para não chateá-lo, irei chamá-lo assim, e quanto à você... Bem, pode me chamar de Katherine. Caso prefira a formalidade, permito que me chame de Senhorita Kaherine. – A expressão satisfeita com a autoridade em que Katherine depositava em suas palavras contra o Capitão era tão evidente que dava a impressão de quem ditava as ordens ali era ela e não Killan, e sem perder a situação em que ambos encontravam-se, Katherine começou a encarar o rapaz à sua frente de maneira tão detalhada que era capaz de dizer em que a bela dama estava analisando a sua alma, e por manter-se perdida na beleza do capitão por alguns segundos, o mesmo conseguiu movimentar com força seu corpo contra o de Katherine para ter o caminho livre e de maneira ameaçadora, Katherine pressionou-se mais uma vez contra o rapaz, agora posicionando uma de suas mãos ao redor do pescoço do mesmo para apertar entre os dedos a região de a sua jugular, quase o enforcando. Os olhos da bela mulher desviaram-se para a espada e uma risada irônica e um tanto quanto baixa saiu dos seus lábios. Seu dedo polegar e indicador apertavam as vias respiratórias do rapaz cada vez que ele tentava se mexer contra o corpo dela.
– Você realmente acha que isso irá me machucar? Não seja ingênuo, Capitão. – Sua voz se tornou suave, mas ainda assim firme. Katherine se afastou minimamente de Killian e soltou a jugular do rapaz. Ele estava confuso e seus olhos pareciam estar arregalados.
– Q-Que tipo de demônio você é, garota? Que tipo de monstro você é? – Era visível a fúria na voz dele e um flash do que aconteceu tempo atrás com a sua mão. Ele tinha raiva de coisas sobrenaturais, mas ele não tinha certeza se ela era uma.
– A pergunta correta seria: “Que tipo de garota você é?”. – Katherine se divertia com a sua fala e provavelmente com a feição de Killian. – Olha, se você soubesse o que eu sou você não iria me aceitar aqui no seu navio. Só que como eu não preciso de permissão para nada... – Um sorriso largo se abriu no canto dos lábios dela.
– O que? – Ele perguntou, aproximando-se de onde a moça estava. – E o que te faz pensar que eu permitiria a sua estadia aqui, garota? Mulheres não são aceitas em meu navio...
– A não ser aquela mulher morena de olhos claros que eu vi preparando peixe para o bando de homens famintos e desesperados lá fora? – Katherine ergueu sua sobrancelha direita e se aproximou dele novamente, procurando deixar os seus olhos escuros fixos nos olhos verdes do Capitão que agora se mostrava um tanto quanto furioso por ter uma mulher afrontando-o.
– Nem pense em se aproximar de Milah, demônio das trevas! – Killian deu um passo para frente, expondo sua raiva desconhecida em seu olhar.
Katherine não se surpreendeu com nenhum movimento do rapaz em sua frente. Ela permaneceu imóvel, com um pequeno bico no canto dos seus lábios. Rapidamente ela cruzou os seus braços na altura de seus seios e inclinou a sua cabeça para o lado.
– Milah é o nome dela? Eu diria que é um nome muito forte para alguém que me parece tão desprezível e totalmente fora dos padrões femininos. Ela se veste tão mal, e... – Katherine foi interrompida pelo gancho do capitão atravessando a sua jaqueta e perfurando a sua pele. Aquilo a fez abrir minimamente os lábios demonstrando surpresa e espanto, mas não dor. Ele não deveria ter feito aquilo. Killian não imaginava com quem ele estava lidando. Ou melhor, com “o quê” ele estava lidando. Katherine revirou os olhos e levou uma das suas mãos para o gancho cravado em seu peito. Ela sentiu a ponta aguda do mesmo arranhar o seu coração de leve lhe causando um breve ofego.
– Eu te disse... Que você é ingênuo de pensar que ferro me machuca. – Ela murmurou em um tom baixo e rouco. Os dedos dela fecharam-se contra o gancho dele e rapidamente ela arrancou o gancho do suspensório do pulso do rapaz. Os olhos dele se arregalaram ainda mais e os seus dentes estavam trincados. Se ele não fosse tão corajoso poderia confessar que estava com medo.
– Eu vou acabar com você agora mesmo, demônio das trevas! – Sua voz era trêmula, mas ainda assumia um tom de bravura. Aquela mesma risada baixa ecoou o local onde os dois estavam. Era Katherine se divertindo com o que o moço dizia.
– Ah, vai? E depois de você tentar acabar comigo eu vou arrancar o coração da sua Milah fora enquanto você observa e logo em seguida arrancarei o seu coração enquanto a sua tropa toda observa, e segundos depois arrancarei a cabeça de cada um deles até não sobrar nem mesmo um órgão de nenhum de vocês. – Katherine cuspiu as palavras rapidamente e deu dois passos para frente até deixar os seus olhos de frente para os olhos do Capitão. – Eu acho bom você não tentar mais uma dessa, Capitão. A não ser que você queira senti-lo atravessando o seu próprio coração. – Ela sussurrou e colocou o gancho novamente no suspensório, apertando o pulso de Killian logo em seguida. – E sim, eu vou ficar aqui por tempo indeterminado. Seu navio, minhas regras. – Ela brincou com a frase e virou de costas para o Capitão. Ele podia sentir o aroma de seus cabelos castanhos. Era um aroma doce e muito embriagante.
– Não pense que eu vou aceitar tudo o que você quer... Senhorita. – Killian se segurou para não ofendê-la novamente. Ele não queria que ela se vingasse atacando Milah. – Lembre-se que eu ainda sou o Capitão. Pode passar uma noite aqui. Ache um lugar para você. – Ele caminhou até a saída, mas sem tirar os olhos dos dela. – Amanhã conversaremos sobre a sua estadia aqui, sobre as suas obrigações e sobre tudo mais que eu quiser saber. Apenas não crie esperanças. Eu não costumo ser gentil com damas como você. – Killian deu as costas para ela, saindo dali e deixando-a sozinha. Katherine não disse nada, apenas sorriu. Com certeza ela planejaria algo que a faria ficar no controle de tudo. Mas já estava tarde e ela estava cansada, precisava descansar em algum lugar antes de agir novamente contra o Capitão. Algo nele a atraía, mas ela jamais admitiria. Katherine jamais se apaixonaria novamente por alguém. Para ela, o amor significava fraqueza e ela era do tipo de pessoa que não podia exibir suas fraquezas para ninguém.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.
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