Love without reason
1 único
Na escola que eu comecei a trabalhar como professor acontecia uma obra na rodovia e para eu voltar pra casa era preciso que eu a atravessasse, afinal, o ponto de ônibus era do outro lado, depois daquela confusão que estava.
Os alunos passavam e corriam quando o sinal estava prestes a abrir. Eu achava muito perigoso, porque além do tempo curto, o trânsito era confuso para os próprios motoristas. Houveram denúncias dizendo que os alunos estavam sendo imprudentes e a coordenadora passou a falar no microfone da escola um pouco antes do sinal bater "todos tomem muito cuidado".
Mas não mudou nada.
Adolescentes são muito idiotas e burros, mas até os compreendo, porque nessa idade eu também não tinha medo de morrer, mas agora tudo que eu quero é morrer, embora sejam eles que arriscam a vida e eu permaneço na faixa.
Meu corpo era fraco e precisei faltar um dia por conta da exaustão, portanto, eu tive que pagar hora no outro dia e só sairia às 18:30. Eu lembro que estava com medo de alguém me assaltar e tive a brilhante ideia de acompanhar um funcionário que saiu no mesmo horário.
Ele era jovem como eu, notei uma tatuagem numa de suas canelas porque vestia uma bermuda. Era bonito até e trabalhava como faxineiro na escola.
Não sei o motivo, já que morava nas redondezas e não ia pegar ônibus, mas ele andava muito rápido e eu quase tive um troço pra acompanhar.
Foi aí que percebi o quão sedentário estava e quem me dera se eu estivesse que nem ele. Ele era radiante.
— Foi você que limpou o xixi da Vitória? — Perguntei.
— Foi... tio, anda mais rápido.
Ele me chamava de tio que nem meus alunos, me sentia constrangido e eu tinha quase a certeza que éramos da mesma idade.
— Sinto muito, ela pediu pra ir no banheiro, mas eu não deixei.
— Tá tudo bem, anda tio, me dê sua mão!
Nós havíamos chegado na rodovia e eu não entendi o que ele estava pedindo. — M-Mão?!
Não deu tempo pra entender, ele pegou minha mão de supetão e nós dois saímos correndo pela rodovia cheia de carros e com quase nenhuma segurança. Eu só via estrelinhas que eram os faróis radiantes tanto quanto ele naquele início da noite.
Quando chegamos do outro lado, ele finalmente soltou minha mão e começou a rir de mim. Estava mais pálido que defunto.
— Tio, você não é muito de fazer isso, né?
— Por isso pegou na minha mão e me trouxe à força?! — Esbravejei, minha mente já estava em ordem e fiquei muito irritado. — Nós podíamos morrer!!
Ele deu uma gargalhada e eu percebi que estava mais radiante, eu corei com sua beleza.
— Relaxa, tio, eu sabia que você ainda era capaz.
— "ainda"? Por que você me trata feito um velho? Tenho sua idade.
— Sério?
— Por que a surpresa?! Eu tô muito acabado assim?!
Ele respirou fundo e me parecia constrangido. — Hoje é sexta, que tal a gente ir num bar que eu conheço?
— Bar?
— É... só nós dois... — Respondeu ainda acanhado, deslizando a sola do tênis nas britas que cobriam boa parte da calçada devido a obra.
De repente, até eu mesmo fiquei acanhado. — Okay.
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