Love me like a Cat
16 Flagra
Notas iniciais
A vergonha não passou, mas diminuiu um pouco. O loiro voltou a se sentar de forma decente em sua própria poltrona, retornando sua atenção para o filme. Logo que fez isso sentiu falta do cafuné que o outro fazia em seu cabelo alguns segundos atrás, e do perfume que tinha, e de tudo o que sentia estando abraçado com ele. Dênis suspirou e se afundou no estofado, colocando os pés no assento e abraçando as pernas dobradas, encostadas em seu peito.
Miguel achou graça de que, cinco minutos depois, lá estava o garoto praticamente em cima do moreno, ele mesmo havia colocado a mão de Miguel em seu cabelo para que mexesse nos fios. Pelo visto não havia limite para o quanto era folgado.
O filme acabou um tempo considerável depois, Dênis se espreguiçou, esticando os músculos e bocejando. Carente como era, estava mais do que satisfeito por ter recebido tanto carinho.
As luzes ainda não haviam sido acesas, mas quando Miguel olhou de perto para o mais novo, não conteve o riso.
“Do que você tá rindo?” Dênis apertou os olhos, parando de andar até a saída e virando-se para o outro.
Miguel parou de rir, mas ainda ostentava um sorriso “vem cá, vem…” Se aproximou dele, ajeitando seu cabelo que mais se parecia com um ninho de pássaros. Eles olhavam nos olhos do outro, quando as luzes se acenderam gradualmente “Melhorou. O que as pessoas iriam pensar se o meu convidado aparecesse todo descabelado?”
Dênis revirou os olhos e voltou a andar até a saída, estava se irritando com a capacidade daquele homem de o fazer ficar vermelho com tanta facilidade. Não era uma reação comum para si.
Apenas quando foram para o Hall é que a música ambiente chegou ao seus ouvidos, e Dênis percebeu que ali estava ocorrendo uma espécie de reunião. Em seu momento de desespero estava prestes a voltar para o lugar de onde saiu, mas foi puxado por Miguel no sentido contrário. “O que está acontecendo?” Ele perguntou, se sentindo deslocado.
“Não se preocupe, já estamos indo. Isso é só o coquetel de agradecimentos…” Ele mal terminou de falar e cumprimentou alguém. A autora do livro. Dênis ouviu a conversa oportunamente, descobrindo que o livro no qual o filme se baseou, Miguel fora o editor. “[...] esse é o Dênis, o trouxe como convidado, espero que não se importe”
“Claro que não, na verdade eu fico feliz que tenha trago alguém. Filmes sempre são melhores com alguma companhia.” Ela cumprimentou Dênis dando-lhe um abraço e um beijinho no rosto, nada muito incomum “gostou do filme?”
“Tá brincando? É o melhor filme de sereias que eu já assisti, a única coisa que podia ser diferente é…eu não gosto muito de ver animais sofrendo”
A mulher deu uma risada “eu entendo. Acredite, eu também não gosto.” Deu uma olhada de esguelha para Miguel, pediu licença e saiu.
Um garçom parou na frente de ambos e ofereceu uma bebida. Miguel agradeceu, mas acabou recusando já que estava de motorista. Dênis aceitou uma taça de champanhe.
“Vê se não bebe demais. Eu já volto” Ele murmurou para que só o loiro pudesse ouvir, tocou o ombro dele e foi cumprimentar outras pessoas.
Como se sentia muito deslocado ali, Dênis foi até a sacada onde não havia ninguém e esperou enquanto tomava sua bebida, devagar. No último gole, Miguel apareceu.
“Já estamos livres pra sair quando você quiser” o moreno chegou mais perto do outro, aproveitando que estavam sozinhos, o puxou pela cintura e sorriu de lado, seus corpos bem próximos.
“Talvez eu tenha algo mais interessante pra fazer aqui” Dênis retribuiu o sorriso, abraçou o pescoço de Miguel e ficou na ponta dos pés. O loiro paralisou ao ouvir o barulho da porta se abrindo.
“Migué-...” O nome parou na metade. Uma moça olhava boquiaberta para a cena, Miguel suspirou, soltando o mais novo. A mulher sem dizer mais nada, deu as costas e sumiu.
“Quem é essa?” Perguntou o garoto, um pouco confuso, culpado em parte.
“Ah, é só a minha chefe” ele respondeu com sarcasmo evidente, deu um beijinho rápido na testa do loiro e murmurou “já volto”
Outra vez sozinho. Não culpava Miguel, e não se importava em esperar, o que mexia mesmo com ele era o tempo que poderia estar passando com o moreno. Sem pensar muito, ele voltou pra ‘festa’, seus olhos correram pelos convidados procurando pelo companheiro, e logo o achou no corredor dos banheiros, conversando com a sua chefe. Eles pareciam estar conversando normalmente, nada de discussões. Ela cruzou os braços, mas tinha um sorriso maldoso no rosto. Em certo momento ela percebeu o loiro, o encarava sustentando o mesmo sorriso. Miguel parou de falar ao notar que a atenção de Marina estava voltada para outra coisa, e olhou para trás, vendo o garoto.
“A gente conversa depois” ele finalizou, sério, e ela deu um tchauzinho enquando o via se afastando. Pode vê-lo puxar o menino pela mão, até desaparecerem de vista. Quantos anos teria aquele loiro? Parecia tão novo e inocente, com um rosto tão bonitinho, até conseguia entender a atração de Miguel por ele, mas ainda sim aquilo era muito estranho. Ela tinha certeza de que Miguel nunca havia se envolvido com homens antes, e sinceramente, não achava uma boa combinação.
Como de praxe o trajeto não era muito longo, de forma que eles chegaram rápido, o que foi bom a julgar pelo silêncio desconfortável e o clima um pouco ruim. Pra falar a verdade, Dênis não estava seguro para falar qualquer coisa, não enquanto o outro estivesse sério daquele jeito.
“Boa noite Dênis, até mais” disse ao parar na porta. Para o loiro, fora uma despedida seca demais. Ele franziu os olhos para o mais velho. “O que foi?”
“Só isso?” Perguntou, cruzando os braços. Miguel se aproximou e lhe deu um selinho estalado.
“Só me desculpe por essa ultima parte da noite, o meu humor não está dos melhores.”
Quando Dênis entrou em casa, já era muito tarde, mas seu pai estava no sofá o esperando. Ele engoliu em seco e se aproximou devagar, prevendo a bronca (afinal tinha se esquecido de avisar ao pai que ia sair depois da aula).
“Você lembra qual era o acordo, eu não vou discutir. Você vai pegar esse celular e vai usar ele, e pode continuar fazendo o que quiser, contanto que nos avise” depois de ouvir atentamente o que seu pai dizia, pegou o celular que ele entregara, desejou boa noite e foi para seu quarto.
A relação com os pais era um pouco diferente comparando com as demais pessoas. Desde que descobriram — ou tiveram a certeza — sobre sua sexualidade, propuseram um acordo: ele não precisaria dizer com quem estava, desde que tivesse juízo (não usar drogas, não ir em lugares perigosos ou beber demais, usar camisinha, etc) , falasse onde estava e cumprisse suas responsabilidades.
Seria simples, se Dênis não odiasse usar o próprio celular.
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