Love as Sakura | 爱如樱

80 第63章 O Tempo das Nossas vidas - Parte I


Shi seguiu o carro de Yan Da, pois não havia nenhum motorista em Guihua que pudesse levar seu carro para a cidade. Os dois haviam concordado em se separar na Avenida Ren Xue onde o empresário passaria no seu próprio apartamento para tomar banho, já que havia saído direto da empresa para Luo Yin Po enquanto a designer “prepararia” Pian Feng para o primeiro contato oficial dele como namorado. Era um passo significativo e nenhum dos dois estava disposto a perder mais nenhum minuto de sua felicidade.

Chao Ya estava colocando a mesa enquanto o marido dava toques finais nas travessas quando ela entrou no apartamento. A expressão de alívio no rosto de Pian Feng a fez sorrir, aproximou-se deles e deu um beijo no rosto de cada um. Pensou em como deveria abordar o seu relacionamento com Shi e a recuperação das suas memórias, lembrava-se que Pian Feng lhe falara, naquela madrugada, sobre os “deuses do destino” e se perguntava se referia a si mesmo ou a outrem. Além disso, ele também se referira a “bens dispensáveis” e ela tinha uma ideia do que seria.

— Veio sozinha? — A cantora perguntou como se estivesse desapontada.

— Por que, deveria ter trazido alguém? — Forjou um sorriso inocente enquanto encarava o casal de amigos.

— Provavelmente ela estava esperando que você acabasse encontrando alguma espécie de criatura na floresta e trouxesse para casa a fim de cuidar. — O tom irônico de Pian Feng quase fez Yan Da rir.

— Defina criatura. — Pediu.

— As corriqueiras — deu de ombros colocando uma das travessas na mesa — coelhos, gatos, cachorros, pássaros...

— Príncipes do gelo perdidos. — Murmurou Chao Ya, frustrada.

Yan Da ergueu a sobrancelha e, colocando a bolsa no sofá, sentou-se à mesa diante dos dois, Pian Feng olhava de forma significativa para a noiva como se temesse o efeito das suas palavras sobre a designer.

— Escolha interessante de criatura essa sua, jie. — Riu. — Não encontrei exatamente um príncipe do gelo perdido, mas achei um empresário longe do escritório.

O rosto de Chao Ya Se iluminou e Pian Feng abafou um muxoxo de exasperação.

— Quer dizer que...

— Ele deve chegar em trinta minutos. — Sorriu.

— Então você lembra de tudo, tudo mesmo? — Ela segurou as mãos de Yan Da, radiante e empolgada.

— Sim, jie, agora tudo faz completo sentido. O destino finalmente retornou os meus bens dispensáveis. — Ironizou olhando para Pian Feng.

— Não me culpe por ser rancoroso. — O agente se encolheu. — Ainda acho que você é boa demais para ele.

— Pian Feng, já conversamos sobre isso! — Ralhou Chao Ya.

Yan Da sentiu o coração aquecer, levantando-se, foi até o amigo e o abraçou apertado sentindo quando ele apoiou sua cabeça com a mão e encostou o queixo nela. O braço de Pian Feng a mantinha firmemente presa contra seu corpo e podia ouvir seu coração compassado.

— Só temo que você se machuque... só isso.

Gege — disse baixinho —, obrigada por sempre pensar em mim antes de tudo. Prometo a você que vou ser feliz, o mais feliz que puder ser. Não vou perder um só detalhe. Dessa vez, nada vai dar errado.

— E se der, eu arranco a cabeça daquele Ying! — Prometeu apertando-a um pouco mais.

— Sim, vai ser a primeira pessoa que eu vou chamar para arrancar a cabeça dele, é uma promessa. — Riu. — Esperei quatro mil anos por ele, sempre foi ele, gege, sempre vai ser.

Pian Feng suspirou sentindo os olhos arderem, mas sem deixar as lágrimas caírem.

— Eu sei. — Beijou a cabeça de Yan Da. — Pelo carvalho sagrado, eu sei disso, minha fadinha. Ele teria de morrer mil vidas e ainda assim não seria digno de você. Mas sou capaz de qualquer coisa pela sua felicidade, mesmo aceitar aquele Ying ao seu lado.

— Obrigada, gege, você é o melhor.

— Como eu posso te negar qualquer coisa quando você faz essa carinha meiga e me chama desse jeito? — Ele deu uma leve risada com a voz embargada. — Você é um perigo, menina!

Chao Ya arrastou Yan Da para o quarto dizendo que ela precisava se arrumar para jantar com o namorado, parecia tão ou mais animada que a própria designer. Pian Feng viu as duas desaparecerem e suas vozes serem abafadas pela distância enquanto, com um sorriso, torcia em seu coração para que sua menina conseguisse a felicidade que tanto merecia. Puxando o celular, ele abriu os arquivos e enviou uma pasta por e-mail para Hu Bing, havia preparado há alguns meses, já esperando por aquele momento. Não importava as condições em que entrou na vida dela, amava Yan Da como seu irmão, seu pai, protegê-la-ia com a sua vida e faria qualquer coisa pela sua felicidade, mesmo tolerar Ying Kong Shi. Reconhecia o que o empresário passara por ela, mas ainda não o achava à altura da sua princesa, contudo, se era ele que ela queria, o agente se resignaria em abençoá-la.

Yan Da reapareceu vinte minutos depois — um recorde! — usando um qipao*[1] vermelho com motivos de flores douradas e saltos pretos. As madeixas escuras estavam presas em um coque elaborado e Chao Ya ainda adornara os fios com um ornamento de flores, ela estava deslumbrante e ele não pôde evitar dizer-lhe isso. A cantora, como boa mãe coruja e casamenteira que era, também se vestira formalmente e insistiu que Pian Feng colocasse um terno, algo a que o agente se recusou totalmente e Yan Da não insistiu, só o fato de ele prometer ser simpático já era algo grande. Tudo estava pronto e Shi chegou trinta e três minutos depois, como ela previra, usava um terno preto sob medida e parecia nervoso, Chao Ya o recebeu tentando deixá-lo confortável.

— Não há necessidade de formalidade entre nós. — Disse ela fazendo-o sentar ao lado de Yan Da. — Somos todos amigos aqui.

— Fale por você. — Resmungou Pian Feng, baixinho, recebendo um tapa discreto da noiva.

O empresário deixou de ficar nervoso para se tornar hipnotizado quando encarou a namorada. Yan Da lhe brindou com um sorriso terno e ele teceu vários elogios à sua beleza fazendo-a corar. Pian Feng e Chao Ya sentaram-se no sofá maior, ficando de frente para eles e encarando-os com uma mistura de felicidade, por sua menina, e — no caso do agente — a birra comum aos pais ciumentos. A cantora estava radiante ao vê-los juntos, podia sentir a felicidade emanando de Yan Da e o amor nos olhos de Shi. Ainda segurando a mão dela, o empresário virou-se para o casal.

— Sei que isso deve ser direcionado à Hu Bing, mas encaro vocês como pais de Yan Da já que cuidaram dela e ofereceram amor durante todo esse tempo. — Começou. — Dessa forma, gostaria de pedir primeiro a vocês dois a mão dela em namoro.

— Claro que sim! — Chao Ya bateu palminhas de excitação. — Obviamente nossa menina já é grandinha o bastante para decidir por si mesma, mas se quer mesmo ser tão formal, tem minha total bênção, vocês vão me dar netinhos lindos. Não é, Pian Feng?

O agente não disse nada por um tempo, depois suspirou.

— Você sabe cozinhar? — Foi a pergunta direta e séria.

— Sim, senhor. — Respondeu Shi, firme. — Aprendi no último ano.

— Gosta de jogos?

— Bastante, senhor.

Ge... — Yan Da interviu.

— Você sabe que ela é capaz de memorizar linhas infinitas de código para criar uma única cena, mas não lembra a senha da porta? — Continuou. — Ela vai passar dias inteiros imersa no trabalho e esquecer de comer porque é assim que ela é, então você precisa ser atencioso. Ela sempre vai anotar na agenda um compromisso de trabalho ou a data de um podcast novo, mas nunca vai anotar que precisa abastecer o carro.

— Oh, então você sempre faz isso? — Chao Ya perguntou. — Como era quando a gente viajava?

— Eu ligava pro porteiro. — Explicou dando um suspiro em seguida. — Sabe, Ying Kong Shi, ela é a pessoa mais doce e inteligente que existe, mas nunca se atenta a pequenas coisas. Sempre coloca as necessidades dos outros antes das dela porque é generosa a esse ponto. Então, espero que você sempre respeite, preze e cuide de cada pequeno detalhe que a envolve e nunca, me ouça bem, nunca a faça chorar ou eu vou arrancar a sua cabeça.

— Você tem a minha palavra, Pian Feng. — Ele sorriu, realmente tocado com as palavras do agente. — Vou protegê-la com a minha vida e cuidar de tudo sobre ela.

Os olhinhos de Yan Da brilhavam pelas lágrimas que não caíam, ela sentou do outro lado de Pian Feng e o abraçou recebendo um beijo na testa. Shi sentia o coração quentinho ao vê-los, era a família que desde o início ela merecia ter tido e ele estava feliz por Ka Suo ter pensado naqueles dois para ficar ao lado dela, sobretudo, por eles terem aprendido a amá-la como ela merecia. Os quatro foram para a mesa, a refeição seguiu tranquila no começo e, apesar de Pian Feng não falar mais nada, Chao Ya conversava pelos dois, fazendo perguntas sobre os planos de Shi e Yan Da a apartir de agora e sobre quando ela pretendia contar a Hu Bing sobre a relação.

Shi também afirmou que pretendia apresentá-la aos pais o mais breve possível, não sabia da reação deles quando descobrissem, mas imaginava que lidariam bem com isso. A Huo Enterprises havia sido comprada pela ZhangYing e dissolvida, os funcionários foram incorporados na empresa e garantiram seu sustento, Yan Da não tinha nada a ver com a queda da família, ao contrário, desde criança era uma vítima deles e merecia respeito mais que qualquer coisa. Ele tentaria ser discreto quanto a história, mas deixaria isso claro para os pais. Depois da decisão de Ka Suo, e pelo seu bom trabalho na ZhangYing no último ano, ele esperava que os dois fossem compreensivos. Tudo corria bem e, apesar de Pian Feng não estar se envolvendo, demonstrava certa aceitação por Shi e se mostrou satisfeito com os planos do empresário em levar sua fadinha para conhecer seus pais. Contudo, a situação mudou um pouco quando Yan Da falou dos seus outros planos.

— Ele vai se mudar para cá em alguns dias. — Anunciou Yan Da. — Foi ideia minha, aliás.

— Claro, não faço qualquer objeção. — O tom de Pian Feng era irônico e seu sorriso gélido como um iceberg — Temos três quartos de hóspede, senhor Ying, pode decorar os três de forma diferente e mudar de um para outro quando se sentir entediado.

— Devo fazer o mesmo com você, querido? — Questionou Chao Ya entredentes. — Não somos casados ainda. O quê você é, um monge budista?

— Chao Chao, nosso caso é diferente. — Ele se encolheu.

— Não venha com dois pesos e duas medidas para cima de mim, senhor Pian! — Reclamou. — Shi di*[2]vai dormir onde a xiao wu quiser que durma. A menos, é claro, que você deseje muito lhe fazer companhia e revezar os quartos de hóspede com ele.

Shi e Yan Da observavam a discussão em silêncio sem saber se riam ou não. Sempre que seus olhares se cruzavam diziam um ao outro quão felizes estavam pelo simples fato de estarem juntos. A vida não podia ser melhor. O resto do jantar transcorreu de forma mais leve, Pian Feng chegou até mesmo a provocar Shi algumas vezes sobre o relacionamento deles algo que deixou a designer muito feliz. Após a refeição, eles se reuniram novamente na sala de estar para conversar um pouco e, por fim, o casal de amigos deixou-os um pouco a sós para desfrutarem da companhia um do outro, mas não sem antes o agente salientar que estariam “no fim do corredor com a porta bem aberta” o que só fez com que Yan Da desse uma risada.

Em um primeiro momento, eles ficaram sentados e abraçados sem dizer nada, apenas sentindo o calor do outro contra suas peles, ouvindo o som dos seus corações em sincronia, assimilando a realidade da sua reunião, estavam juntos e não se separariam mais. Após tantas provações e sofrimentos, a vida estava sorrindo para eles e Shi agarraria cada pequeno momento dela. Perto das dez horas, ele se despediu, Yan Da o acompanhou até a porta.

— Não quer mesmo ficar? — Indagou sem querer se separar dele.

— Prefiro não testar os limites de Pian Feng ainda. — Brincou Shi com uma risadinha.

— Não alimente muitas esperanças que Hu Bing vá ser melhor. — Ela o acompanhou na risada. — Ainda não sei como não me tornei insuportável de tanto que eles me mimam.

— Você merece ser muito mimada, meu anjo. — Ele acariciou o rosto dela e deu-lhe um beijo leve. — Logo vamos estar juntos, prometo, Da’er, vou deixá-la insuportável de tão mimada.

— Isso certamente vai contar como um ponto a seu favor. — Fez uma careta. — Dizer não de vez em quando é saudável para os limites, sabia?

Shi voltou a rir puxando a namorada para um abraço.

— Você já ouviu nãos demais. Quero encher você de todos os sim que merece, não vou te negar nada, minha Da’er, nunca. A única coisa que vou negar a você é ficar longe de mim.

— Para de ser fofo ou não vou te deixar ir embora. — Ameaçou e ele riu.

— Eu te amo.

Ela o beijou por longo tempo e quando se afastaram em busca de ar, suas testas permaneceram unidas.

— Se você não se mudar em trinta dias, vou te buscar.

E Shi deu sua palavra de que o faria porque não podia negar-lhe nada, porque não suportaria mais um minuto longe dela e porque não queria perder mais nenhum dos seus sorrisos.

※※※‌

O julgamento de Meng Huo Yi e seu filho, Shuo Gang acontece esta tarde na suprema corte de Guang Cheng presidida pelo Meritíssimo Hu Bing, a sentença é aguardada já que a mídia não pôde ter acesso à corte. Fontes afirmam que outro dos filhos mais velhos de Huo Yi, Meng Ya Xing, foi preso nos EUA sob acusações que envolvem Shuo Gang, o rapaz foi condenado a prisão perpétua por assassinato em primeiro grau, mas detalhes da sentenção não foram divulgados e a deportação do jovem para a China foi negada pelo governo americano. O quarto filho de Huo Yi, Xin Jue, viajou esta semana em regresso à China para acompanhar o caso da família, mas não quis dar nenhuma declaração sobre as acusações que recaem sobre seus pai e irmãos.”

Imagens de Xin Jue chegando ao tribunal eram mostradas pelas câmeras. Já fazia tanto tempo desde a última vez que Yan Da o vira que não foi capaz de reconhecê-lo, ele não era diferente de um estranho para ela. Ele fora um dos primeiros a sair de casa e, além de Hu Bing, fora um dos únicos irmãos dela que tivera uma vida digna. Era arquiteto formado, vivia com a esposa e dois filhos na Europa, ela não sabia muito sobre ele, apenas o que Hu Bing lhe contara por tê-lo encontrado algumas vezes. Não eram, contudo, muito próximos. Ao seu lado, Shi segurava sua mão enquanto Pian Feng desligava a televisão e voltavam a atenção para o notebook, exclusivamente para ela, Hu Bing autorizara um dos guardas a transmitir o julgamento na hora da sentença, mas poupando-a da apresentação de provas.

Shi havia cancelado todos os seus compromissos na empresa para ficar ao lado dela naquele momento, sabendo que seria difícil para ela, pelo bem ou pelo mal, aquelas pessoas eram sua família ainda que não a merecessem. Sobretudo, porque o crime julgado após oito anos, seria a justiça tão desejada para Peng Yan, se Yan Da vacilasse, ele queria estar ao lado dela para oferecer seu amor e apoio. Por serem delitos diferentes, Huo Yi foi julgado primeiro.

— Meng Huo Yi — começou Hu Bing, sentado na parte mais alta trajado com a beca formal e segurando a folha do veredito —, após deliberação por parte deste tribunal, os crimes de fraude fiscal, lavagem de dinheiro e assédio contra funcionários são atribuídos a você acrescidos das acusações de cúmplice de assassinato, tortura e contratação de serviços ilegais. Diante das provas apresentadas, este tribunal o condena a sessenta e sete anos e quatro meses em regime fechado sem direito à condicional.

A transmissão foi encerrada no momento que Huo Yi começou a gritar protestos dentro do tribunal afirmando ser inocente. Yan Da estremeceu e Shi passou o braço sobre seus ombros. Pian Feng segurou sua outra mão e Chao Ya ofereceu-lhe um pouco de chá. Ficara nítido na expressão de Hu Bing que ele achara a sentença branda, mas os dois juízes envolvidos no julgamento devem tê-lo demovido de uma condenação mais dura. Ela não entendia muito de legislação, então não podia ter certeza. Sabia o quanto o pai era vaidoso, passar praticamente o resto da sua vida na cadeia não seria algo fácil de aceitar.

Os jornais divulgaram a sentença em polvorosa. Os pormenores não foram acessíveis à mídia como uma forma de preservar a imagem de Yan Da e Peng Yan, mas Huo Yi já era nacionalmente conhecido como um homem desonesto uma vez que seus crimes de fraude foram noticiados em todos os veículos de comunicação. Pelos próximos meses seria difícil para ela lidar com o assédio dos repórteres desejando que ela se posicionasse a respeito. Shi e Pian Feng também se preocupavam com isso, considerando contratar a empresa de Yue Shen para protegê-la enquanto o assunto ainda estivesse em alta.

— Quando é sua reunião na Startec? — Chao Ya quis saber.

— Marcamos para a semana que vem. — Suspirou Yan Da. — Pedi a Xing Jiu que me desse tempo de ter toda a demo refeita antes de apresentá-la. Além de não ter terminado os demais cenários.

— Vou telefonar para Yue Shen. — Afirmou Shi. — Esses abutres não vão te deixar em paz e quero ter certeza que você vai estar segura.

— Não seria melhor fazer a reunião por conferência, fadinha? — Sugeriu Pian Feng.

— Discordo. — Objetou Shi. — Yan Da não fez nada errado, ela é uma vítima que está recebendo a justiça para o que sofreu. Não precisa interromper sua vida e ficar escondida porque a mídia não sabe ser humana.

— Ying Kong Shi tem razão. — Concordou Chao Ya. — Se ela evitar sair só vão surgir mais especulações e boatos infundados sobre ela. Vamos deixar Yue Shen cuidar disso, acontecem coisas todos os dias, logo os repórteres vão esquecer o assunto.

Após refletir brevemente, Pian Feng deu razão aos dois. Yan Da ainda estava alheia ao que acontecia ao seu redor e os três se perguntavam se ouvir a sentença de Shuo Gang não seria demais para ela. A apresentação de provas e deliberação duraria pelo menos duas ou três horas, Hu Bing não queria que ela visse nada daquilo porque seria o mesmo que reviver todo o terror sofrido por ela e Peng Yan e era algo que o namorado e o casal de amigos concordavam. Chao Ya insistiu que ela tomasse mais um pouco de chá e nenhum dos três saiu do seu lado em nenhum momento.

Shi telefonou para Yue Shen e acertou alguns detalhes, ela concordou e se ofereceu para usar um grupo especial liderado por ela própria na proteção de Yan Da, algo que ele agradeceu sinceramente. Ainda sendo discreto, mandou uma mensagem de texto para Huang Tuo e pediu que o amigo viesse ao apartamento com alguma coisa, sua namorada parecia muito sensível e o médico tinha o dom de acalmar e distrair qualquer pessoa nos piores momentos. Ele respondeu a mensagem dizendo que tinha uma cirurgia em uma hora, mas iria tão logo terminasse.

Yan Da insistiu que estava bem mesmo sendo visível que não era verdade, mas se recusou a fazer qualquer outra coisa ou mesmo se levantar até a transmissão da sentença de Shuo Gang chegar ao fim. Os três respeitaram essa vontade, ela precisava fechar aquele ciclo, mesmo tendo reencontrado o amigo no Diyu e sendo isentada de toda a culpa pelo que ele sofrera, a impunidade de sua família e, sobretudo, saber que ela era a razão pela qual Peng Yan sofrera aquele destino tenebroso por duas vezes, pesava em seu coração. Era importante para ela ver a pessoa que causou tudo aquilo pagando pelo que fez e fora por seu próprio pedido que Hu Bing não condenaria Shuo Gang a pena capital. Ela não o queria morto. Morrer seria uma punição muito confortável para ele.

Todo o tempo, eles ficaram sentados ao lado dela tentando introduzir assuntos aleatórios para distraí-la um pouco, apenas duas horas e meia depois da sentença de Huo Yi ter sido proferida, a transmissão retornou, na tela do computador sobre a mesa de centro, Hu Bing e os outros dois juízes entravam novamente no tribunal. Liao Jian, representando-a, podia ser visto junto aos promotores na mesa de acusação e Shuo Gang, desfigurado, com a cabeça raspada e usando o uniforme azul do presídio ficou de pé ao lado do seu advogado, ele estava mais magro, mal parecia humano e, involuntariamente, Yan Da olhou para as próprias mãos, percebendo isso, Shi as segurou entre as suas e lhe sorriu.

— Meng Shuo Gang, de forma premeditada junto ao seu cúmplice e irmão, Meng Ya Xing, você sequestrou, torturou e matou Peng Yan, além de manter sob cárcere e tortura sua própria irmã, Meng Yan Da. Além das acusações de homicídio em primeiro grau, tortura, sequestro, contratação de serviços ilegais extorsão e abuso psicológico de vítima vulnerável, você ainda tem dois processos de falsa acusação contra a senhorita Yue Shen por agressão e sua irmã Yan Da, a vítima viva do processo, por agressão e tortura. — A voz de Hu Bing era dura enquanto lia. — Você foi frio, calculista e cruel, usou meios que dificultaram a defesa das vítimas, abusou psicologicamente de uma delas e ainda atrapalhou as investigações policiais. Após deliberação e apresentação de laudos que refutam o argumento da defesa que o réu apresenta doenças mentais, o júri condena-o a quatro sentenças de prisão perpétua sem direito a condicional pelo assassinato, sequestro e tortura de Peng Yan, sequestro e tortura de Meng Yan Da com o agravante de ser parte de sua própria família e ainda a uma multa estimada em quatro milhões de yuan referente aos dois processos de falsa acusação, devendo ser encaminhado, dois millhões em cada processo, para as vítimas. Bens do réu devem ser confiscados e usados para saldar a dívida. Salienta-se nesta corte que a pena capital, aplicada em crimes dessa natureza, foi amenizada em detrimento do apelo da própria vítima através de seu advogado aqui presente.

A face desfigurada de Shuo Gang contorceu-se em uma máscara de insanidade quando a sentença foi proferida, ele começou a se debater quando os guardas o seguraram para levá-lo de volta ao presídio, seus gritos de ódio e desespero ecoavam pela sala, Chao Ya baixou a tela do laptop assim que a respiração de Yan Da se tornou um resfolegar, seus olhos estavam marejados, a tez muito pálida e suas mãos geladas. Shi a abraçou e o casal fez o mesmo.

— Acabou meu amor. — Disse ele, com a voz baixa. — Finalmente acabou.

Huang Tuo, com um timing perfeito, chegou nesse instante. Ele acompanhava as notícias pela mídia enquanto seu carro seguia o trânsito, ficou sabendo apenas alguns minutos depois do grupo no apartamento da sentença de perpétua do irmão de Yan Da. Foi Chao Ya que o recebeu e encaminhou-o até a designer na sala de estar. Ele ministrou um calmante leve apenas para tranquilizá-la mais um pouco, podia dizer apenas olhando para ela que aquela era apenas a emoção de receber a justiça sobre uma falta muito grave após tantos anos. Shuo Gang tirara dela Peng Yan, a liberdade, o amor próprio epaz, torturara sua mente durante anos, de uma única vez perdeu todas as posses e a liberdade, o médico ainda achava muito pouco perto do que ele devia. Huo Yi, que devia proteger a filha, a submetera aos caprichos cruéis do filho, tirara a confiança dela e passaria boa parte do resto da sua vida pensando nisso, assim como Ya Xing que arquitetara aquele plano por motivo torpe.

— Você conseguiu, Yan Da. — Sorriu para ela enquanto segurava sua mão. — A justiça foi feita e você nunca mais precisará viver com medo ou culpa.

As lágrimas finalmente caíram, mas ela sorriu. Sorriu para Huang Tuo, Chao Ya, Pian Feng e Ying Kong Shi, sorriu também para Peng Yan, na certeza que, de alguma forma, ele veria. Naquele dia, ela não condenara sua família, Huo Yi e Shuo Gang podiam compartilhar algum traço sanguíneo com ela, mas não eram sua família. A família dela estava ali ao seu lado, segurando suas mãos, dando-lhe apoio e carinho, caminhando a seu lado em uma estrada finalmente sem sombras e nuvens escuras. Ela esperava que seu melhor amigo e o pai dele pudessem seguir em frente e ter a merecida vida feliz.

Quando ela se acalmou de verdade, Pian Feng fez um lanche para todos enquanto Huang Tuo tentava distrair Yan Da e afastá-la do momento pesado que antecedeu sua chegada. Ele gostava muito dela, desejava de coração que finalmente tivesse a felicidade que merecia, especialmente ao lado do floco de neve problemático que tanto sofrera desde o desfecho da luta contra Lian Ji. Vê-los juntos daquela maneira — mesmo com Pian Feng desejando muito sentar entre eles e sendo controlado por Chao Ya — lhe dava a sensação de que todas as coisas estavam em seu devido lugar finalmente. O futuro sorria para todos eles.

— Não tive a chance de te agradecer pelo que fez por mim. — Disse Yan Da. — Vocês todos desistiram da sua imortalidade para que eu pudesse voltar, obrigada, Huang Tuo.

— Imagina, isso não é nada. — Ele sorriu. — Não seríamos capazes de viver felizes se você e o floco de neve problemático não tivessem um merecido final feliz.

— Quem é floco de neve problemático? — Shi quis saber entredentes.

— Não faça perguntas idiotas, Ying Kong Shi. — Retrucou o médico em tom provocativo. — Você sabe, xiao Da, que esse paspalho ficou bêbado e chorando que só iria para casa se você fosse buscá-lo? Tive que arrastar ele para fora do bar!

X-Xi-Xiao Da?! — Shi estava estupefato. — Quem deu a você essa intimidade seu médico escorregadio?! E por que está contando os segredos de outra pessoa?

— Eu sei que sou mais bonito que você, floco de neve problemático, mas não precisa beber vinagre por minha causa. — Alfinetou. — Ou prefere que eu a chame de qin’ai de?*[3]

— Você deve confiar muito na Yue Shen para flertar com a namorada de alguém assim na cara dura, não é? — Riu Chao Ya.

— Flertar? — O médico soltou uma lufada de ar. — Como se pode flertar com esses dois? Ying Kong Shi não daria bola nem pra Fan Bingbing se ela estivesse na frente dele! Só tem olhos para Yan Da. E ela dispensa comentários, quem insistiria nesse pirralho problemático por quatro mil anos mais acréscimos? Além de teimoso ele ainda ousou dizer que a mãe dele era mais bonita que ela.

— E eu estava lá, nua numa banheira. — Lembrou ela, entrando na provocação.

Aya, Huang Tuo, a panela está chamando a chaleira de preta?!*[4] — Retrucou Shi. — Você vivia correndo atrás de Yue Shen como um cachorrinho abandonado. Como pode me censurar por ter entrado em pânico quando vi a própria Guanyin na minha frente e disse a primeira estupidez que me veio à cabeça? Eu era um idiota, admito, só tinha meu irmão pateta na cabeça e não quis admitir que fiquei hipnotizado por quase ter visto uma mulher sem roupa na minha frente pela primeira vez!

Quase literalmente, você apreciou mais a decoração.

— Eu estava sendo educado. — Defendeu-se. — Acha que eu sou de ferro? Como ia arcar com as consequências de olhar para baixo no meio daquela confusão toda?

Fez-se um longo silêncio depois disso. Yan Da ainda estava um pouco surpresa com as palavras dele, ouvir do próprio Shi que ela despertara aquelas reações nele era lisonjeiro e desconcertante, especialmente por ele ter agido de forma tão impassível na época. Mas o que a tocou ainda mais foi saber que ele pensou nas consequências, nela, e cogitou olhá-la de verdade.

— Que tal todos vocês pararem de falar sobre o episódio de nudez da minha fadinha antes que me recorde e deseje arrancar a cabeça do meu futuro genro de novo? — Sugeriu Pian Feng colocando a travessa de aperitivos na mesa de centro.

Shi se encolheu e, inesperadamente, todo mundo caiu em uma sonora e gostosa gargalhada. Riram a ponto de ficar sem ar e lágrimas caírem por suas faces. Por incrível que pudesse parecer, ela não se sentia constrangida com a situação do passado e poder falar de tudo aquilo e rir significava que podia tratar tudo como uma história, sem mais qualquer ressentimento. Sentia-se orgulhosa de si mesma por isso. Ela beijou o rosto de Shi e todos se puseram a comer.

— Amor, você realmente ficou bêbado e chorão na frente de um bar inteiro?

O empresário colocou uma almofada sobre o rosto e gritou de frustração fazendo todos eles voltarem a rir de forma descontrolada. Contudo, apesar de ser o bode expiatório, estava feliz por ver sua namorada sentindo-se mais leve e rindo, não se importaria de sofrer qualquer tipo de chacota se pudesse ver o rosto iluminado de Yan Da daquela maneira para sempre. Era uma promessa que tinha feito a si mesmo, lutaria todos os dias para que ela nunca mais precisasse derramar uma lágrima outra vez.



Notas finais
[1] *Qipao [旗袍] — é um tipo de vestido justo de origem manchu. É um vestido de gola alta e justa, com a saia parcialmente aberta na lateral. Era conhecido como o vestido mandarim durante as décadas de 1920 e 1930, quando foi modernizado por socialites chinesas e mulheres da classe alta em Xangai. [2] *Di [弟] — é uma abreviação de didi [弟弟] irmão mais novo em mandarim. É o contrário de Ge. Também usado com amigos para indicar ou salientar hierarquia pela idade ou uma forma de carinho. [3] *Qin’ai de [亲爱的] — Querida. [4] *a panela chamando a chaleira de preta — O equivalente ao nosso “sujo falando do mal-lavado”