Love as Sakura | 爱如樱

55 第50章 A última noite na terra


Lan Shang suspirou, sentada ao lado da cama de Xing Jiu, enquanto olhava o céu dourado pela janela. Sabia melhor que ninguém o que aquilo significava e não podia deixar de temer o que aconteceria a seguir. As coisas não estavam saindo conforme os planos, mesmo ela — uma testemunha silenciosa e não muito importante em toda a história — não podia imaginar que Yan Da ia endurecer seu coração daquela maneira.

Olhando para o astrólogo desacordado, desejou no íntimo do seu coração que Ka Suo encontrasse uma maneira de acordá-lo, sabia que Xing Jiu era o principal soldado entre eles, apesar de não ser exatamente da ação era ele que mantinha todos juntos, que ajudava a solucionar enigmas e conseguia ver com clareza quando a mente do rei era cegada pelo desespero. Sem Xing Jiu, as chances de Ka Suo errar, sucumbir ou pior, desistir, eram muito maiores e ela desconfiava que Lian Ji sabia disso.

Se perguntava como a alma de Li Luo estaria, presa no abismo do tempo, aprisionada provavelmente em algum pesadelo cíclico e interminável, por isso a sereia não conseguia sentir culpa. Ainda lhe custava aceitar o fato de Ka Suo amá-la cegamente daquela maneira enquanto só lhe dispensava e tratava com indiferença.

A convivência com Liao Jian começava a melhorar desde o incidente envolvendo Yan Da e a lágrima ancestral, agora ela podia dizer que os dois tinham a coisa mais próxima de uma amizade quanto possível. Ele lhe tratava com gentileza e indulgência, ela gostava do seu estilo silencioso e um tanto rústico de ser, percebia as nuances sutis da personalidade dele cada vez mais como algo positivo, sobretudo o fato de, mesmo não gostando daquele mundo, se dedicar ao seu trabalho ajudando pessoas de baixa renda em processos geralmente burocráticos e nunca aceitando clientes criminosos porque contrariava seu código de moral apesar de seres estes os que melhor pagavam.

— Estou saindo. — Anunciou ele com uma batida discreta na porta. — Quer que traga alguma coisa?

— Não, estou bem. — Sorriu. — Tenha um bom dia.

— Cuide bem dele, por favor. — Pediu.

— Claro que sim. — Garantiu balançando a cabeça.

Para que o advogado cumprisse suas incumbências, a sereia se prontificara a cuidar de Xing Jiu, Huang Tuo a ensinara a trocar o soro para manter o amigo nutrido e hidratado, orientara sobre a aplicação de vitaminas e ligava algumas vezes por dia para saber se tudo estava bem. Na maior parte do tempo, Lan Shang apenas sentava ao lado da cama lendo um livro em voz alta mesmo sabendo que o astrólogo não podia lhe ouvir.

Quando o abalo ocorreu tingindo os céus de amarelo, Liao Jian estava no escritório e ela estava sozinha em casa. O terror que sentiu quando olhou para fora e viu aquele fenômeno e a certeza que seu tempo se extinguira, mesmo não tendo contado ao advogado seus temores, vivia na certeza que, cedo ou tarde, Lian Ji viria atrás dela cobrar o preço do seu destino incerto. Levantando-se, aproximou-se da janela e encarou a nuvem de areia cobrindo tudo, uma fina camada grudara nos vidros granulando ainda mais a vista, o coração da sereia se contraiu e ela fechou os olhos por um momento.

Então sentiu o frio.

A sensação era a de mergulhar em um lago glacial que entorpecia seus sentidos e petrificava os músculos quase instantaneamente. Uma onda de terror engolfou o coração da sereia conforme ela tentava se mexer e descobria-se presa no próprio corpo; não precisava olhar para trás para saber que Lian Ji estava parada dentro do cômodo.

— Você deve ter ouvido falar que traidores vivem pouco. — A voz dela penetrou seus ouvidos, ainda mais gélida que o frio que congelava seu corpo. — Bem, conheço alguns destinos piores que a morte.

O som de passos se aproximou e Lan Shang se recusou a abrir os olhos, sentiu o hálito de Lian Ji tocar seu rosto quando falou próxima ao seu ouvido.

— Pensou que não descobriria sua gracinha? — O tom era ameaçador. — Como ousa me ligar a um abismo do tempo? Muito bem, vou garantir que você sobreviva para me ver reinar sobre as ruínas desse mundo decrépito e pisar no cadáver daqueles que você tentou inutilmente proteger.

Não adiantaria apelar por clemência, ela sabia, tampouco negaria um fato verídico, Lian Ji sabia a verdade porque podia senti-la no íntimo do seu ser, além disso, aquela criatura não tinha um coração para o qual apelar, de modo que Lan Shang apenas permaneceu em silêncio e esperou sua punição. Não durou muito tempo, a dor veio em guinadas pungentes contra ela enquanto parecia que sua alma era arrancada do corpo junto com a pele, ela ouviu o grito ecoar por toda a casa, mas não tinha certeza se era mesmo o dela, a consciência foi se afastando lentamente e ela despencou no vácuo.

※※※

O portal de Pian Feng, ao contrário do que ele dissera, foi mais eficiente do que Yan Da esperava e os dois saíram nos portões de entrada da sua antiga casa. O guerreiro do vento franziu o cenho para as rochas escuras salpicadas de lava que se amontoavam por toda a parte lembrando-se de velhas mágoas passadas e a princesa não conteve um sorriso afetuoso.

— Me espere aqui. — Pediu. — Não há qualquer perigo para mim aí dentro, lhe asseguro, até porque não restou ninguém para ferir.

Ele pareceu ponderar por um momento a afirmação dela e, após um tempo, anuiu em concordância sentando-se em uma rocha próxima aos portões decaídos. Yan Da depositou um beijo em seu rosto e se afastou penetrando a escuridão da cidade fantasma que um dia chamara de lar. Quando pensava nisso agora, se surpreendia por não sentir saudade dali e por um dia ter realmente acreditado que aquela era sua casa. As únicas recordações boas que mantinha daquele lugar eram os poucos anos em que o sorriso da sua mãe preenchia os espaços do pavilhão no qual morava e a companhia de Peng Peng ao seu lado observado o lago de fogo.

A fuligem volitava pelo ar e um odor acre preenchia o ar. O silêncio salientava o som dos seus passos na pedra escura, que ecoavam tão alto quanto as batidas audíveis do seu coração. Ela acendeu uma chama na mão esquerda para ajudar a clarear o caminho, as casas dos antigos habitantes estavam em ruínas, havia pedras, madeira e restos de tecido espalhados pelo chão coberto de cinzas. Nas suas memórias, a pequena Yan Da corria por aquelas ruas movimentadas em busca de alguma coisa para lhe tirar da solidão e da amargura na qual a perda da mãe, e do único irmão que não lhe odiava, causaram no seu coração.

Yan Da respirou fundo antes de seguir adiante, conforme caminhava e observava os esqueletos fantasmagóricos das construções abandonadas, ela voltava a ver as cores vivas, os rostos cansados daqueles que trabalhavam o dia inteiro, os soldados andando com suas lanças pelas ruas, as crianças correndo de um lado para outro, tudo era restaurado diante de seus olhos como um filme em antigo com as bordas manchadas em sépia, o som das risadas infantis e despreocupadas, rodas de carroças pesadas arranhando o chão, passos de transeuntes e gritos de vendedores. Uma vida tão distante que não parecia ter sido real.

Conforme se aproximava do lago de fogo o ambiente ia se tornando mais claro, e as casas decadentes tomavam uma forma amarelo alaranjada, o crepitar da lava quebrava um pouco do silêncio agonizante que crescia como uma entidade em torno dela. Não podia ter certeza se conseguiria o que fora buscar ali, mas precisava arriscar, era sua única chance de salvar as pessoas que eram importantes para ela agora, uma vez o fogo sagrado negou seu pedido e amaldiçoou sua tribo, não havia garantias de não fazê-lo uma segunda vez, mas ela precisava ao menos tentar.

Levou mais tempo do que esperava para finalmente chegar ao último nível da montanha, mas convenceu a si mesma que não precisava ter pressa uma vez que a cronologia era distinta; não era como se fosse passar dias desaparecida, Hu Bing não notaria. Ficou diante da parede fechada da caverna sentindo aquela energia diferente, alguém havia estado ali recentemente, ela podia identificar a aura mágica como... gelo! Mas também havia traços do fogo, era algo muito específico.

Ying Kong Shi!

Não era possível. O que ele estivera fazendo ali? Apressada, Yan Da tocou a parede e a rocha se moveu de imediato reconhecendo-a, o rastro mágico de Shi seguia para dentro, ela não conseguia acreditar que ele havia conseguido entrar, será que o fogo sagrado reconhecia a identidade de Li Tian Ji nele e por isso o permitira na sua presença? Era a única explicação. Um traço de irritação percorreu a mente da princesa e ela quase se esqueceu de reverenciar o fogo sagrado.

Princesa do fogo, finalmente vens à minha presença. Estou há muito esperando por ti.”

— Quatro mil anos atrás você condenou a tribo do fogo a perecer por dez mil anos antes de poder ser restaurada em sua antiga glória, mas não restou nenhum descendente dela com memórias que um dia existiu além de mim.

E cá estás, prestes a fazer cumprir este destino.”

Respondeu ele, a voz reverberando pela caverna.

— Não posso trazer a alma contrita do antigo rei. — Retrucou. — Sequer acredito que ele tenha uma alma para se arrepender. Mas posso atar ele, Shuo Gang e Ya Xing com os selos da punição, desse modo, enquanto eles perecem a dívida pode ser paga e você ficará satisfeito.

“É uma oferta justa. Mas tu também estás incluída na punição. Que me podes oferecer em troca do teu perdão?”

Eu te oferto a alma que começou todo o meu suplício. — Respondeu, a voz tremulando nesse momento. — Eu condeno essa alma a perecer para sempre a punição dos ancestrais do mundo imortal.

“Aceito tua oferenda. Atai esta alma ao prego do destino e ela virá para mim.”

Quando a ordem foi dada, o objeto flutuou da câmara que pairava no ar até Yan Da que o pegou.

— Há mais algo que quero pedir.

Faz-me teu último pedido e este te será concedido.”

A princesa hesitou apenas um momento antes de fechar os olhos e entoar sua prece.

※※※

Pian Feng estava começando a cogitar a ideia de entrar atrás dela quando Yan Da atravessou os portões da cidade fantasma, para seu alívio, ilesa. Ele observou a expressão séria dela e se perguntou o que ela estaria escondendo.

— De que espécie de chance estamos falando? — Ele questionou não gostando nada da maneira como ela disse aquilo. — Em geral, quando existe esse tipo de coisa o preço é mais caro que o resultado obtido.

— Não diga bobagens. — Censurou. —Há segredos na tribo do fogo que só membros dela sabem. E eu sei o que estou fazendo.

— É precisamente isso que me preocupa. — Resmungou.

— Vamos lá, Pian ge, confie em mim apenas uma vez, hao ma?

Ya, não fale como se eu não confiasse em você! — Repreendeu. — Mas estou saturado do mundo imortal e suas soluções que em geral envolvem a morte de alguém.

— Não é como se eu fosse uma suicida em potencial. — O tom brincalhão na voz dela fez algo gelado subir pela espinha de Pian Feng.

— Yan Da, me diga a verdade, o que você vai buscar lá?

— Eu não posso te dizer. — Asseverou. — Vai ter que confiar em mim.

Havia uma centelha nos olhos de Yan Da que o estava preocupando. Ele sabia, como ninguém, o que ela era capaz de fazer por aqueles que amava; a princesa do fogo podia recorrer aos extremos inimagináveis por amor. Sabia que não adiantaria perguntar, ela nunca lhe diria o que acontecera lá dentro, então suspirou, resignando-se com a frustração.

— Conseguiu o que procurava? — Quis saber.

— Pode-se dizer que algo perto disso. — Sorriu. — Vamos, quero ver a jiejie antes de voltar para a casa de Hu Bing.

— Yan Da... — hesitou e ela o olhou, confusa. — além de Chao Ya, você é a pessoa mais importante na minha vida, sabe disso, não é?

— Claro que sim, gege. — Ela tocou-lhe o rosto com delicadeza, os olhos brilhando pelas lágrimas que não caíam. — Sabe que além de Hu Bing você e Chao Ya são tudo que eu tenho.

Ele a puxou contra si em um abraço apertado e depositou um beijo no topo de sua cabeça.

— Lembre-se disso sempre, está bem? — Pediu. — Não importa o que aconteça, você vai ser minha fadinha pra sempre e eu não posso viver sem você.

— Vai ficar tudo bem, Pian Feng, eu prometo.

Ele queria muito acreditar que era verdade.

※※※

— Primeiro Xing Jiu, agora Lan Shang, o que vem a seguir? — Liao Jian indagou, irritado, quando ouviu o que havia acontecido na sua casa.

— Prefiro realmente não saber a resposta da sua pergunta, obrigado. — Huag Tuo rebateu sarcástico.

Yue Shen suspirou.

— Ela atacou Xing Jiu para encobrir a estrela morta. Lan Shang foi por vingança, Lian Ji deve ter descoberto que foi atada a um buraco do tempo.

— Independente dessas motivações, nenhum de vocês está livre disso. — Ka Suo advertiu. — Além do óbvio, acredito que o objetivo de Lian Ji é me deixar sozinho, ela sabe que, sem vocês, sou vulnerável.

Eles não responderam a afirmação, mas Yue Shen empalideceu e o marido não deixou de perceber aquilo. A suposição de Ka Suo fazia sentido e eles podiam acabar se tornando alvos. Todos os momentos juntos podiam ser os últimos. O monarca dispensou-os advertindo-os que mantivessem cuidado redobrado. Ele esperaria Shi voltar e dessa vez resolveriam aquilo juntos, conseguiriam chegar a uma conclusão. Ka Suo estava determinado a recorrer aos possíveis extremos para não precisar seguir o plano de Yan Da. Machucar o irmão daquela maneira era algo que ele não se sentia capaz de fazer.

O advogado e o casal seguiram em silêncio no elevador refletindo sobre as palavras do seu rei. Não importava por qual ângulo olhasse a situação, Yue Shen enxergava seu fim como um fato inevitável, angustiada, ela abraçou Huang Tuo e escondeu o rosto em seu peito esforçando-se para não sucumbir ao desespero. Liao Jian seguia introspecto, estava preocupado com os amigos, tanto Lan Shang quanto Xing Jiu corriam o perigo de não acordar se as coisas continuassem piorando daquela maneira. Apesar de nutrir alguma apreensão, não estava realmente preocupado com Yue Shen, pela lógica, se Lian Ji tentasse machucá-la ia se dar muito mal, já que ela tinha a proteção de Huang Tuo, seria estupidez. Quanto ao médico, havia poucas coisas realmente capazes de furar seu escudo protetivo, a menos que a bruxa o pegasse desprevenido e o advogado não queria pensar naquilo.

Quanto a si mesmo, era algo que ele não ligava. Pensava em Chao Ya e no como ela amava aquele mundo, em Pian Feng e a forma que a fazia feliz, mas nunca se encaixou ali, não havia espaço para ele. Morrer ou voltar para casa realmente dava no mesmo. Ainda assim, sabia que era diferente para os amigos e de forma alguma queria que seus destinos terminassem daquela maneira. Todavia, não parecia haver solução, ele próprio tinha pouca fé que Shi ou Ka Suo conseguissem chegar a uma conclusão satisfatória e, mesmo que isso o frustrasse, começava a se resignar em repetir o mesmo fim de quatro mil anos atrás.

A trava automática do seu portão estava intacta, ainda que ele soubesse que Yue Shen havia desbloqueado a senha com certa facilidade — ela estaria passando algum tempo com Xing Jiu? —, não havia qualquer sinal de arrombamento ou entrada forçada em nenhum lugar o que indicava que Lian Ji estava usando portais para se mover sem ser notada e, com o astrólogo fora de acesso, ela tinha a vantagem. Nenhum sistema de segurança podia protegê-los daquilo. Suspirou, sentindo outra vez a frustração forçando espaço para dominá-lo, e subiu até o quarto em que Lan Shang estava, o mesmo onde antes Xing Jiu descansava no que eles acreditavam ser um lugar seguro. Ledo engano.

Era como se a sereia estivesse dormindo. Liao Jian se perguntava se ela estaria sonhando com Ka Suo. Provavelmente sim. Ele sentou ao lado dela na cama, sentindo-se culpado, talvez ela tivesse alguma chance se não ficasse sozinha. Logo meneou a cabeça afastando a ideia, ele sabia que não tinha forças contra Lian Ji, a maior parte do poder de Liao Jian se concentrava no físico, ele era um homem de músculos, a bruxa usava mágica. Os guardiões do norte viviam para proteger a fronteira e defender o reino do gelo, sua magia era limitada à arte da guerra e alguns poucos artefatos mágicos pertencentes aos ancestrais. Segurando a mão de Lan Shang, o advogado fechou os olhos por um instante.

— Sinto muito. — Disse baixinho.

Como esperado, não havia qualquer sinal do corpo de Xing Jiu na casa. Fazia sentido Lian Ji inutilizar o astrólogo para minar o progresso de Ka Suo, mas ela poderia saber que eles haviam descoberto uma maneira de acordá-lo e por isso o levara? A dúvida começava a deixá-lo mais inquieto. Não podia deixar de pensar quem seria o próximo alvo, se o intuito dela era realmente enfraquecer Ka Suo tirando o seu apoio, qualquer um deles era possibilidade, Huang Tuo seria a aposta mais alta, já que, depois de Xing Jiu, era o mais próximo conselheiro do rei do gelo. Mesmo que fosse mais leal à Shi. Yue Shen... bem, se Lian Ji tivesse o mínimo de bom senso, não se atreveria a enfrentar a envenenadora.

Ninguém se atreveria, na verdade.

Ele desceu até sua sala de estar e foi para o bar pegando uma garrafa de Everclear e, contrariando qualquer racionalidade que lhe restasse, bebeu um copo cheio puro. A careta que se seguiu comprovava que aquela era mesmo a bebida mais forte do mundo mesmo para ele, acostumado com os tipos mais fortes de álcool. Para Liao Jian, beber era uma espécie de arte, ele escolhia cada garrafa de seu bar pessoa à dedo, separava-as por teor alcóolico e, boa parte dela, era importava (muitas vezes ilegalmente) de outros países. Se havia uma coisa que ele aprendera sobre aquele mundo era que existiam poucas coisas que os tentáculos do dinheiro não conseguia transpor. Aquela garrafa na sua mão era uma boa prova disso.

Deu outro gole grande sentindo o líquido descer como se fosse ácido pela sua garganta, mas a sensação de torpor que aos poucos começava a se espalhar pelos seus sentidos era muito bem vinda. Na metade do segundo copo, ele já começava a perder o equilíbrio. Ótimo, pensou, é exatamente do que preciso: parar de pensar. Foi a névoa cobrindo seus pensamentos que o impediu de sentir a presença atrás dele, bebeu o resto do conteúdo do copo de uma só vez, lágrimas nublando sua visão de maneira involuntária, foi nesse momento que a dor o atingiu como uma pancada na nuca. O advogado emitiu um grito de agonia, era como se tivesse a alma e a pele arrancadas do corpo de modo simultâneo, a sala ao redor — já desfocada pela embriaguez — se tornou um borrão indistinto quando sua mente foi totalmente tragada por aquela dor pungente e ele caiu inerte no mundo dos sonhos atormentados.

※※※

Yan Da fazia um esforço hercúleo para disfarçar a angústia que consumia seu coração, não que acreditasse que Pian Feng estava ignorante quanto a isso, parecia inexistir algo relacionado a ela que o guerreiro do espírito do vento não soubesse ou não percebesse. Estavam a alguns quarteirões do condomínio — a princesa do fogo não sabia se fora o nervosismo ou a apreensão que fizera-o abrir o portal no lugar errado — quando seu celular começou a tocar, uma foto de Chao Ya em Tóquio aparecia no visor.

Jie, aconteceu alguma coisa?

Não exatamente... onde você está? — Ela sentiu o nervosismo no tom da amiga.

— Estou perto do condomínio, você não parece bem o que há de errado?

— Há algo que preciso conversar com você, é importante.

Claro, chegarei em alguns minutos.

Pian Feng franziu o cenho.

— O que houve?

— Não sei, ela parecia estranha ao telefone, disse que tem algo importante para falar comigo, será que aconteceu alguma coisa com Xing Jiu?

— Pode ser algo sobre Shuo Gang, ela ia ver Huang Tuo quando saí para te procurar...

— Não acho que ela estaria nervosa para me contar algo sobre Shuo Gang, eu não me importaria se algo acontecesse com ele, por que ela o faria? — Indagou a princesa fazendo uma careta.

— Faz sentido. — Anuiu.

Os dois continuaram, por causa da areia era difícil respirar e os olhos de Yan Da ardiam. Chao Ya os estava esperando à porta quando chegaram, havia alguma ansiedade no seu rosto que incomodou a princesa do fogo. As duas se abraçaram e, com carinho, a cantora acariciou o rosto dela como se não a visse há muito tempo.

— Entre primeiro, minha menina, preciso falar algo com Pian Feng e já a encontro.

Ela anuiu olhando uma vez para o guerreiro do vento antes de entrar e fechar a porta atrás dos dois. Deixou os sapatos na entrada e calçou os chinelos seguindo até a sala de estar quando, para seu choque imediato, encontrou Ying Kong Shi. Duas coisas passaram pela cabeça da princesa do fogo: a cantora a havia enganado para fazê-los se encontrar ou o príncipe do gelo entrara com um portal sem conhecimento dela. O coração de Yan Da batia tão forte no peito que ela temia ser audível, por que era tão difícil? Sentia a frustração tremer em cada músculo por não conseguir resistir a ele.

— Que diabos está fazendo aqui?! — Indagou, irritada. — Pensei ter deixado claro que não queria mais te ver, não temos nada mais para conversar.

— Dessa vez não vim conversar.

— Ent...

Antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, Shi colou seus lábios nos dela silenciando-a com um beijo tão intenso que Yan Da sentiu as pernas tremerem, perdendo as forças, a mão do príncipe enlaçou sua cintura firmando-a contra seu corpo, no início ela resistiu, tentando afastá-lo de si, mas os lábios de Shi provocando os seus como uma carícia, a língua percorrendo a sua boca com um toque lascivo, tirou dela qualquer capacidade de raciocínio, seu coração acelerou de tal modo que parecia romper o peito a qualquer minuto, ele a encurralou em uma das paredes pressionando-se contra ela, as mãos agora percorrendo o tronco de Yan Da com uma provocação luxuriosa, qualquer resquício de sanidade abandonou a princesa nesse momento envolvendo seu corpo inteiro naquele calor abrasador.

Era como realizar um sonho muito antigo. No passado, ela teria dado tudo que tinha por um momento como aquele, o toque abrasador e enlouquecedor de Shi, os lábios ávidos que abraçavam os seus sem espaço para respirar, aquele latejar no centro do corpo clamando para ser acalmado. Mas havia algo mais, uma espécie de fogo específico que fazia a alma dela reconhecê-lo como uma parte de si, por um segundo era como se Shi estivesse lhe devolvendo sua essência. Ela não fazia ideia quando os dois haviam chegado no quarto, mas sentiu o colchão contra as costas no momento que os lábios dele deixaram os seus e o oxigênio entrou nos seus pulmões que ardiam, agora a trilha de beijos seguia o seu pescoço, descendo pelo colo inflamando cada terminação nervosa do corpo de Yan Da.

Uma das mãos de Shi subiu pela sua coxa, a mente da princesa do fogo girava em um caleidoscópio de emoções, enquanto suas mãos apertavam com tanta força os braços dele que se fosse um ser humano comum já teria pelo menos um dos ossos quebrados.

“Você já viu alguma mulher tão linda quanto eu?”

A voz veio ao seu pensamento antes da imagem.

“Já.”

“Comparada a mim? Como ela é?”

“Vossa alteza não pode se comparar a ela.”

Ela não sabia o motivo de estar lembrando-se daquela cena em específico, mas podia ver claramente a si mesma de pé, nua, em uma tina enquanto Shi — o mesmo que agora tentava desajeitadamente tirar sua roupa — olhava para as cortinas desesperado para sair. Naquela época ele já estava mentindo para ela, agindo como um espião de Ka Suo, foi essa lembrança que fez a razão voltar à mente da princesa, só então ela se deu conta que sua blusa estava caída em algum lugar da cama, o corpo antes em chamas parecia ter recebido um banho de gelo e ela empurrou Shi com força fazendo-o cair do outro lado. Constrangida, irritada consigo mesma e frustrada, Yan Da abriu um portal pela primeira vez, sem direção e sem preparo, só queria fugir dali, evitar o olhar e as palavras do príncipe do gelo.

Ela não usava portais para se mover, além de precisarem de muita energia, o usuário precisava de concentração, habilidade e precisão do lugar onde queria sair. Era muito fácil se perder abrindo portais aleatoriamente sem preparo ainda mais em um estado mental tão confuso quanto o dela, e Yan Da estava ciente de todos os riscos, mas quando Shi se levantou pronto para impedi-la, ela não esperou ouvir seu nome duas vezes e, mesmo sem blusa, atravessou a fenda mágica sem olhar para trás.

※※※

Yue Shen permaneceu em silêncio todo o caminho até a casa de Huang Tuo, que se convertera em seu lar. Era isso que Huang Tuo mais temia. Preferia-a intempestiva, furiosa, sádica até, menos silenciosa daquela maneira. A esposa não era uma pessoa que deixava transparecer vulnerabilidade, quando ela se tornava sorumbática daquela maneira chegava a ser doloroso fisicamente para o médico, pois era um indicativo de que ela sofria.

Ele parou o carro na entrada e ela desceu ainda sem pronunciar uma única palavra. Era melhor deixá-la processar seus sentimentos um tempo, mas a agonia no coração do curandeiro vendo a esposa daquele jeito quase o forçava a pressioná-la a dizer o que fosse, mesmo manda-lo se calar serviria. Apatia não combinava com Yue Shen. Observou-a subir as escadas descalça e ouviu a porta do banheiro fechar, suspirou e foi para cozinha preparando uma refeição leve para os dois mesmo duvidando que ela fosse comer algo. Fez um chá e subiu alguns minutos depois, aquilo era o máximo de tempo que ele era capaz de deixá-la atormentar-se. Depositou a xícara na mesa de cabeceira e sentou ao lado dela na cama segurando sua mão com delicadeza.

— Amor, vamos conseguir encontrar uma maneira, não se torture dessa maneira ainda.

Ela não respondeu de imediato como era seu costume, ao invés disso ergueu o rosto em sua direção, olhos brilhando com lágrimas que não caíam lhe fitaram com incredulidade e angústia.

— Você sabe que está mentindo. — Contrapôs. — Mesmo que por algum milagre Ka Suo consiga deter o abismo do tempo, ele não pode parar o sacrifício. Xing Jiu não está mais aqui. Estamos condenados, Yan Da nunca vai perdoar Shi.

O curandeiro acariciou o rosto da esposa com carinho, secando as lágrimas que riscavam a face delicada, beijou-lhe a testa e a apertou contra si em seu abraço. Em momentos como aquele, era impossível não lembrar de Yue Shen como uma criança aos seus olhos quase trinta mil anos atrás, e ainda assim ele se apaixonara por ela irrevogavelmente. Melhor que ninguém, Huang Tuo entendia como ela se sentia, também queria ter uma vida pela frente, conhecer lugares, sabores, possivelmente ter filhos, salvar mais vidas... Por mais agouros que existissem no caminho, viver era sempre a melhor escolha.

— Tem razão — admitiu —, eu não sei o que vem no minuto seguinte, se vamos estar vivos na próxima hora. E confesso a você, Yue Shen, também não quero morrer de novo. Uma vez já foi suficiente. Mas não estou com medo, mesmo que tenha sido um infinito muito pequeno, esse tempo que pude passar ao seu lado foi o melhor de todos os milênios já vividos e eu não trocaria esses meses por qualquer vida eterna.

— Eu também não, você sabe disso. Mas há tantas coisas que ainda queria viver ao seu lado. — Escondeu o rosto no peito dele. — Será que estamos mesmo amaldiçoados a nos separar?

— Shh... — Ele apertou um pouco mais o abraço, depositando um beijo na cabeça dela. — Mesmo que nosso fim chegue e eu vire poeira no universo, acredite em mim, eu vou encontrar uma maneira de fazê-la saber que ainda existo, ainda espero por você como sempre esperei. E se essa for nossa última noite na terra, eu vou passa-la bem aqui ao seu lado, segurando sua mão, aquecendo o seu corpo, dando o meu melhor para vencer os seus medos. Vou abraçá-la com tanta força que nem mesmo a morte conseguirá nos separar.

— É uma promessa? — Ela ergueu os olhos aquosos para o marido. Ele sentiu o coração despedaçar-se ao vê-la daquela maneira.

— É uma promessa. — Reafirmou.

Yue Shen ergueu o tronco e passou a perna por cima dele, sentando-se em seu colo, os braços enlaçaram o pescoço de Huang Tuo e ela o beijou sofregamente, ele retribuiu de igual modo, as mãos entrando na blusa fina da esposa e espalmando-se em suas costas lisas, a maciez da pele dela embriagando seus sentidos. Impaciente para sentir o calor dele, Yue Shen afastou-se apenas o suficiente para arrancar a camisa de seu corpo e o médico não demorou para livrá-la da blusa, as os lábios fechando-se nos seios intumescidos, arrancando um gemido baixo dela.

As mãos de Yue Shen enterraram-se nos cabelos sedosos do marido sentindo o calor dele trilhando um rastro de fogo em cada lugar tocado e beijado, desejava dissolver-se ali nos braços dele, fundir-se na limitação de sua matéria de uma maneira ilimitada, sua boca procurou as dele com sede quando o curandeiro virou a posição ficando por cima dela, o corpo dando sinais da sua excitação quando se pressionou contra ela, as unhas da envenenadora arranharam as costas másculas enquanto ela o puxava cada vez mais para si, doente e alucinada pela ânsia do prazer.

Talvez aquela fosse a última noite naquela terra, seu último momento de sentir-se, amar-se, viver-se. E eles o fariam até suas forças esgotarem, até que o ar dos pulmões fosse abstraído e não restasse mais nada além de suas almas amálgamas buscando lugar no universo. O corpo de Huang Tuo pressionou o de Yue Shen quando eles se fundiram no mesmo organismo, o arfar dela acompanhou o grunhido dele bem no momento que uma tempestade de raios riscou os céus apagando todas as luzes, a chuva torrencial golpeou teto e janelas, Huang Tuo puxou o ar com força e enxugou a lágrima que escorreu pelo rosto da esposa, vista sob o clarão tenebroso de um raio. Seus lábios buscaram os dela quando ele começou a oscilar contra ela que o puxava com mais avidez enquanto, do lado de fora, o sopro da morte vinha em sua direção.

※※※

Shi ficou encarando a parede do quarto, imóvel, sem acreditar no que acabara de acontecer. Como se pressentissem que algo estava errado, Chao Ya e Pian Feng vieram correndo para o quarto encontrando-o com a camisa aberta, a blusa de Yan Da amassada aos pés da cama, mas sem qualquer sinal dela em parte alguma, só o príncipe do gelo em choque. O rosto de Pian Feng se tingiu de vermelho e ele teria partido para cima de Shi imediatamente não fosse pela cantora que o conteve, empurrando-o para fora do quarto.

— Shi, o que aconteceu? — Quis saber.

— Ela... se foi. — Balbuciou, como se não entendesse as próprias palavras.

— Como assim se foi? — A voz dela se tornou irritada. — Para onde? O que houve? Por que sua camisa... ah, céus, me diga que você não fez isso!

Levou um minuto para Shi conseguir recobrar a razão e entender quão perigoso fora o ato de Yan Da. Ele conseguiu explicar da melhor forma que pôde o que havia acontecido ali e uma espécie de choque se misturou com fúria em segundos no rosto da cantora. Sem medir as consequências, Chao Ya o esbofeteou com tanta força que a boca de Shi encheu de sangue, mas ele não disse nada em sua defesa, merecia aquilo. Dando as costas para ele, a musicista saiu ao encontro do marido, precisavam encontrar uma maneira de acha-la.

O desejo de Shi era abrir um portal e ir atrás dela, mas não tinha ideia de onde Yan Da fora parar, sequer sabia se ela já fizera aquilo antes. Apesar de, tecnicamente, qualquer um deles poder abrir um portal, nem todos sabiam realmente viajar através deles. Yue Shen, Huang Tuo, Ka Suo, Xing Jiu e o próprio Shi eram aqueles que o faziam com segurança sem risco de se perder ou perder os que os acompanhava. A mente do príncipe ficou em branco por um momento e não ajudou em nada quando Pian Feng irrompeu pelo quarto e o esmurrou com tanta força que ele perdeu o equilíbrio, voando contra a mesa no canto do quarto. Sua cabeça inteira doeu, mas reconhecia que o guerreiro não usara toda a sua força de modo que o príncipe ainda conseguia pensar — o que era o pior.

— O que diabos você tem na cabeça?! Como se atreve a fazer isso com ela?! — Gritou, a fúria injetada em seus olhos tão vermelhos quanto seu rosto. Uma rajada de vento forte percorria o pequeno cômodo tirando tudo do lugar. — Ela está perdida naquele portal, o que você vai fazer agora, Ying Kong Shi?! O QUE VOCÊ VAI FAZER PARA TRAZÊ-LA DE VOLTA?!

Chao Ya tentava de todas as formas acalmar o marido, mas o vento forte de Pian Feng repelia até mesmo ela. Shi conseguia se manter firme de pé com alguma dificuldade enquanto jarros se espatifava contra as paredes, lençóis flutuavam em rodamoinhos no ar, mesa e cadeiras batiam contra as janelas e despencavam do prédio. Apenas quando, do lado de fora, a tempestade de raios escureceu ainda mais os céus e as luzes desapareceram, outro tremor abalou a terra e os ventos dentro do quarto cessaram sendo trocados pelos da chuva que açoitava as paredes e molhava o príncipe do gelo dentro do quarto através da janela quebrada.

Os três ficaram estáticos olhando o fenômeno furioso da natureza que rugia como uma mãe em dores de parto. Um dos carros estacionados na rua explodiu quando foi atingido por um dos raios, Chao Ya se encolheu, o segurança da guarita correu para dentro do prédio, assustado. Shi contemplou os céus enegrecidos e ocasionalmente pintados de prata pelos clarões tenebrosos cada vez mais próximos deles como se fossem para-raios.

— O abismo do tempo se abriu. — Murmurou.

Uma risada debochada começou a ecoar como se vinda dos céus. O frio que subiu pela espinha do príncipe nada tinha a ver com a chuva do lado de fora. Sentindo o coração falhar, Shi se apressou em abrir um portal que o levaria até Ka Suo, não havia mais tempo, precisavam encontrar Yan Da. Quanto tempo desde que ela entrara no portal? O tempo podia avançar ou retroceder de acordo com o lugar onde ela havia ido parar, a cronologia era inconstante ou inexistente dentro dos portais.

O casal o seguiu, a morte em seu encalço com os dedos gélidos em volta de seus ossos. Mesmo diante do fim iminente, Pian Feng e Chao Ya só conseguiam pensar em Yan Da perdida dentro de um portal que a levaria Deus sabia onde. Shi, ao contrário, sabia que podia — e iria — encontrá-la. Sempre. Para sempre. Dessa vez ele a salvaria e não havia meio termo ou fim capaz de impedi-lo.