Love as Sakura | 爱如樱
52 第47章 O fim de toda fé
Devido à situação nada animadora de Xing Jiu, Huang Tuo achou melhor transferir o astrólogo para a casa de Liao Jian. De todos os lugares, ele julgava como o mais seguro já que não ficava em tempo integral no hospital — o que podia deixar o amigo suscetível a um novo ataque —, tampouco era viável deixa-lo permanecer no apartamento de Ying Kong Shi, que só tinha dois quartos. Os preparativos começaram e uma verdadeira confusão se fez a volta, a preocupação pairava no ar como uma fumaça densa que sufocava todos no lugar, mas o único que não parecia ser abalado por aquele miasma de perigo era o jovem príncipe do gelo.
Ele continuava encolhido sobre o sofá na mesma posição em que se sentara desde sua volta do encontro nada amigável que tivera com Yan Da na frente do condomínio quando tentou falar com ela novamente.Ka Suo, além de todo o caos com que precisava lidar, ainda tinha o agravante de se inquietar pelo aspecto sorumbático do irmão como um lembrete da péssima situação entre o casal do qual dependia a existência de todos eles. Tão logo Xing Jiu foi movido do apartamento, Shi se trancara em seu quarto sem dizer nada, apenas aproveitando o momento para colocar todos aqueles conflitos em uma ordem que lhe permitisse ver luz no meio da escuridão.
Yan Da o amava. Ele não tinha qualquer dúvida disso, as palavras dela ratificavam o fato e mesmo que lhe soassem como adagas perfurando seu corpo, ele conseguia sentir que feriam a ela tanto quanto a ele próprio. Contudo, apesar de saber que ela se ressentiria pelas feridas do passado, nunca imaginou que teria uma reação tão violenta quanto aquela. Era por isso que ele não podia desistir. O passado ficara para trás, embora as feridas remanescessem, ele não era mais aquele príncipe insensível e insensato do império da neve, não havia qualquer barreira entre eles, Shi não podia perder Yan Da de novo. Estava determinado a fazer diferente, sofreria quaisquer castigos que ela lhe impusesse, mas conquistaria seu coração outra vez.
Os dois estavam destinados desde o início, a prova disso era a forma como ela caminhara em sua direção naquele mundo — independente da “ajudinha” dos outros — e lhe entregara seu coração tão docemente. A sensação dos lábios dela ainda era vívida na sua mente tal como o calor do seu corpo estava marcado na sua pele como uma tatuagem. Ying Kong Shi estava consciente da morte de todos os seus amigos, da destruição daquele mundo que o acolhera como um filho, mas não conseguia se importar com nada daquilo, tudo que preenchia seus pensamentos eram maneiras possíveis de conseguir o coração de Yan Da novamente e a forma como as verdades que ela lhe jogara na cara doíam de forma mortal.
“Não importa o que você diga, machucar todos nós foi escolha sua! Mentir pra mim, me usar para seus propósitos, se aproveitar dos meus sentimentos foi escolha sua! Então não ouse olhar no meu rosto e dizer que estou sendo injusta.” Era egoísta e errado, mas ele desejava que ela nunca se lembrasse daquilo, a pior parte era saber que, se pudesse voltar atrás, Shi não faria diferente. Ele queria ter tido um coração antes para não deixar escapar tudo aquilo que Yan Da lhe oferecera, mas como fazê-la entender que, antes, ele nunca havia conhecido de verdade o amor para reconhece-lo quando ele finalmente apareceu? Lian Ji não era uma mãe afetuosa, Lin Chao o tratava como um erro, Chen Tong, embora tivesse até certo ponto alguma benevolência, o via apenas como a lembrança da traição imposta do marido e todos em Snowblade o viam como um bastardo. A única pessoa que lhe oferecera carinho sincero e desprendido havia sido Ka Suo, aquilo fora o mais perto de sentir que ele havia chegado.
Mas como poderia explicar tudo aquilo para Yan Da? Ao contrário dele, que fora moldado tais quais as torres de gelo da cidade Ren, a princesa do fogo tinha um coração terno e cheio de sentimentos. Ela não conhecia a insensibilidade, a frieza e a indiferença — e se o sabia agora era por causa dele. Embora tivesse crescido em um lar sem afeto como ele, Yan Da era boa por natureza, sempre generosa e fiel aos seus. Shi não tinha certeza se, como Ka Suo fora para ele, Peng Yan representara essa figura de afeto na vida dela, dado o período da vida em que ela o conheceu, refutava essa hipótese, se a maldade fosse inerente dela não seria um cara que mudaria isso, ela era muito boa em mascarar sua fragilidade e bastante autossuficiente para mudar sua natureza por um homem — especialmente porque ela cresceu no meio de dez deles, dos quais nove não tinham qualquer espécie de caráter!
Talvez fosse por isso que ela mentia tão mal, porque sua alma era transparente como as límpidas águas do lago de gelo. Assim, quando suas palavras cortantes voaram até ele como adagas em um pedido desesperado para que ele a esquecesse e levasse consigo todas as memórias sobre o que ela fizera no passado, Shi sabia que ela estava mentindo para convencer a si mesma de ser forte o bastante para voltar ao período da sua vida antes dele. Tudo nela contradizia suas palavras, o coração acelerado, a respiração descompassada, os olhos aquosos, a voz vacilante. Era ainda mais doloroso para ele aquela certeza de que amá-lo fazia Yan Da sofrer daquela maneira. Mesmo assim não podia desistir dela, não apenas por sentir que ela o amava, mas porque devia isso a ela e a si mesmo, a chance de felicidade que lhes fora arrancada no passado.
As vozes do lado de fora haviam baixado ao ponto de quase desaparecer. Sozinho no quarto escuro, Shi rememorava os dias que passara ao lado dela desde que encontrara Yan Da naquele mundo, os olhos dela cheio de desconfiança e a postura defensiva cada vez que ele se aproximava, a competência dela no trabalho, a maneira como, gradualmente, a imagem dele mudou ao olhar dela. Sentia falta da forma que ela sorria e dos seus abraços inesperados, tanta falta que poderia enlouquecer. Eles estavam presos a um destino amaldiçoado, o príncipe do império da neve perguntava em seu íntimo se era muita afronta com a vida ele nutrir esperança de felicidade pelo menos uma vez.
※※※
Hu Bing levou apenas dois segundos para perceber que a irmã estava chorando por mais que a emoção em lhe ver. Ele conhecia Yan Da melhor que qualquer pessoa, a irmã, apesar de nunca se esconder dele, passava a maior parte do tempo reprimindo suas vulnerabilidades, a única vez que ele a viu chorar daquela maneira foi quando Peng Yan foi assassinado. Vendo a mala e a bolsa largadas no corredor, a primeira coisa na qual pensou — embora lhe soasse absurda de tão impossível — era que ela havia brigado com Pian Feng. A ideia era realmente desconcertante uma vez que o rapaz fazia qualquer coisa por ela, Hu Bing nunca o deixaria a cargo da proteção da irmã se ele não agisse como um pai ciumento e superprotetor. Mas havia uma primeira vez para tudo na vida, então por mais que aquilo parecesse realmente estapafúrdio, era possível. E julgando o modo como Yan Da adorava Pian Feng não lhe seria exagero vê-la magoada daquela maneira, contudo, nenhum tipo de conjectura conseguia amenizar em seu coração a dor que causava vê-la sofrer.
— Tudo bem, minha menina. — Afagou-lhe os cabelos apertando levemente a pressão do abraço. — Vai ficar tudo bem, estou aqui agora.
Ele a guiou para dentro do apartamento e pediu que a empregada levasse as coisas da irmã para o quarto que ela ocupava antes. A mulher ainda serviu um chá com mel para acalmar a jovem e Hu Bing esperou paciente, sem perguntas ou pressões, abraçado a ela até que a irmã recobrasse a calma. Aqueles anos longe, mesmo que ele tenha construído uma vida em outro lugar, nunca diminuíram a saudade dolorosa que sentia dela ou a preocupação constante se ela estava bem. A imposição de Yan Da para que se mantivessem com o mínimo contato possível não facilitara as coisas, embora ele se esforçasse para entender. Contudo, esperava que isso acabasse ali, com o seu retorno. Sua mulher e filhos viriam em seguida e ele mal podia esperar para Yan Da conhecer sua nova família. Mas uma coisa de cada vez.
Havia assuntos a serem resolvidos primeiro.
Quando ela pareceu um pouco mais tranquila, ele carinhosamente enxugou suas lágrimas com os dedos e ajudou-a a tomar um pouco do chá ainda sem fazer qualquer pergunta. Os olhos castanhos expressivos de Yan Da o encararam por um longo tempo como se quisessem se assegurar que ele não era uma miragem e, quando Hu Bing sorriu docemente, foi presenteado por um sorriso fraco, mas sincero dela. O simples gesto já ajudava a iluminar o rosto dela, a irmã lhe lembrava muito a mãe deles, suas emoções eram sempre sublimes por serem francas, sem maquiagem. A mão dele acariciou o rosto há muito não visto, ela parecia mais linda que nunca, porém tão triste quanto suas lembranças alcançavam.
Será que o destino nunca permitiria a ela a felicidade?
— Por que não toma um banho quente e descansa um pouco? — Sugeriu. — Vou pedir que a Qiqi cozinhe seus pratos favoritos e podemos conversar um pouco no jantar.
A gratidão no rosto dela era tão clara quanto a tristeza no fundo dos seus olhos. Hu Bing sabia que enchê-la de perguntas não ajudaria, ela devia vir aguentando muita coisa há muito tempo para se permitir desabar daquela maneira. Respeitaria o espaço dela, quando quisesse lhe contar o que havia acontecido, ele a escutaria e estaria a postos para fazer o que fosse preciso para trazer seu sorriso de volta, mesmo quando fosse impossível, como há seis anos, ele ainda estava disposto a tentar, porque Yan Da era tudo para ele. Sua única família verdadeira além da que ele construíra. Ele foi abraçado com ela até o quarto, deu-lhe um beijo na testa e deixou-a entrar. Após dar instruções à empregada para o jantar, saiu até a varanda fechando a porta de vidro atrás de si, olhou a cidade por um momento como se tentasse absorver que realmente havia voltado, respirou fundo várias vezes antes de pressionar o número 3 na tela do celular.
— Shàoyé?*[1] — A voz do outro lado disse, surpresa.
— Pode me explicar o que, pelos céus, está acontecendo aqui? — Exigiu saber.
— Você está na China? — Quis saber.
— Sim e mal tive tempo de desfazer as malas quando minha irmã que deveria estar protegida e feliz apareceu no meu apartamento como se tivesse sido expulsa de casa pelo pai. — Hu Bing apertou a ponte do nariz, impaciente. — Não era isso que eu tinha em mente quando pedi para cuidar dela.
— Oh, pelo espírito do vento, ela está com você! — A voz de Pian Feng soou aliviada. — Foi apenas um desentendimento entre ela e um estorvo que acabou refletindo sobre Chao Ya e eu, espero que melhore quando ela aceitar falar comigo.
— E quem seria esse “estorvo”, posso saber?
— Shaoye, prefiro que ela conte isso pessoalmente a você. — Suspirou. — Não é algo em que quero me meter mais do que já fiz.
— Pian Feng, sei que ninguém trataria Yan Da com mais zelo que você além de mim mesmo, é apenas por isso que estou te dando outro voto de confiança. — Ele encarou os arranha-céus como agulhas numa almofada por toda a cidade. — Verei o que posso fazer, mando uma mensagem dizendo quando deve me fazer uma “visita de cortesia”.
— Obrigado, shaoye!
A felicidade e o alívio na voz do outro fez com que Hu Bing ficasse ainda mais curioso sobre a razão para a irmã estar naquele estado, se fora ruim o bastante para ela brigar com as únicas pessoas que conseguiram furar o bloqueio dela, começava a se arrepender ainda mais por ter concordado com aquela ideia absurda de ficar fora da vida dela por tanto tempo e, mesmo que continuasse vigiando-a através dos olhos de Pian Feng, percebia agora que ele não lhe contava tudo. Resignado com a espera e a impossibilidade de Yan Da lhe dizer o que havia acontecido, ele voltou para a sala e tentou não pensar no que ainda precisariam enfrentar.
※※※
Yan Da se sentiu um pouco melhor depois do longo banho quente. Ela não tinha certeza ainda de qual das dores era pior: a descoberta de tudo que aconteceu com Ying Kong Shi ou a omissão de Pian Feng. Sempre que pensava no guerreiro do vento, sentia-se melancólica. Era inevitável a falta que ele fazia, especialmente porque durante todos aqueles anos em que Hu Bing estivera longe, ele fora a rocha que mantivera Yan Da de pé. Sem ele, ela sabia que teria sucumbido à dor da perda de Peng Peng e, pior, talvez tivesse sofrido uma violência horrível naquela noite no bar. Huang Tuo não estava errado quando os chamou de “pais coruja”, na maior parte do tempo, era exatamente como eles a tratavam.
Pensando melhor, agora que boa parte da explosão das primeiras horas amainaram, ela se lembrava vagamente de coisas que o guerreiro havia lhe dito em diversas ocasiões diferentes, pequenos alertas sutis e pistas que ela não compreendeu na época. Também era clara a oposição dele à Ying Kong Shi, mas antes ela achava ser apenas o ciúme normal de um pai coruja — como o pai dela deveria se portar se a considerasse um ser humano digno de receber amor! —, ainda assim, não conseguia perdoá-lo por não lhe dizer a verdade.
E não perdoá-lo doía muito.
Porém, ainda que aceitasse ver o guerreiro do vento de novo, era certo que não aceitaria Ying Kong Shi de volta. Nunca mais. Ele a ferira das maneiras mais cruéis, nem mesmo Shuo Gang, com a sua brutalidade, conseguira machuca-la daquela maneira. O que ele tirou dela não podia ser reposto nunca e ela ainda vivia com os efeitos colaterais daqueles dias. Eles não podiam reescrever as estrelas e mudar o passado. Seguiriam caminhos separados, esse era seu destino. Havia acabado. Ainda que doesse em Yan Da tomar aquela decisão a certeza do fracasso de um relacionamento sem confiança lhe dava forças para se manter firme. Ela não se permitiria ser usada por ele ou por mais ninguém.
Após uma hora sem conseguir conciliar o sono, desistiu de ficar na cama remoendo coisas que ainda não conseguia processar completamente e tentou focar no seu problema imediato: o que diria a Hu Bing? O irmão a conhecia bem demais para cair em uma desculpa fácil e, mesmo que dissesse meias verdades — como ter brigado com Pian Feng — ele ia querer motivos e ela não poderia explica-los já que ele não lembrava nada da sua existência quatro mil anos atrás. Yan Da fora castigada por tentar salvar a mãe de ser absorvida pelo pai e acabou por desencadear na morte do irmão que tentou defende-la. Mesmo que os dois não fossem tão próximos no passado nem tivessem tanto tempo para isso, já que ele morreu tão cedo, Hu Bing sempre a protegeu até o fim, ela não queria quebrar essa confiança agora que os dois eram tão próximos.
Encontrou-o colocando a mesa enquanto Qiqi dispunha a comida em travessas. Ele sorriu ao vê-la e Yan Da se aproximou para ajudá-lo, mesmo só tendo os dois em casa, ele sempre gostava de ter a mesa toda posta “nunca se sabe quando um amigo pode aparecer” era sua filosofia. Hu Bing tinha uma generosidade inerente, assim como ela. Se aquele não fosse um traço genético, ela certamente aprendera com o irmão. Agradeceu por não ter uma série de perguntas jogadas em cima de si mesmo sabendo que ele queria respostas e as merecia, seria o mais honesta que conseguisse, mas teria de omitir algumas coisas, toda a conversa de tribo do fogo, astrólogos e príncipe do gelo poderia ser demais para ele.
— Conseguiu descansar? — Perguntou casualmente.
— Não muito. — Admitiu. — Talvez não esteja esgotada o bastante para dormir, mas o banho ajudou.
— Quer conversar sobre o que aconteceu?
— Hum... acho que não. Pelo menos não agora. — Esboçou um sorriso triste. — De todo modo, é algo que preciso resolver sozinha.
— Yan Da, você não precisa passar por nada sozinha, sabe disso. — Enfatizou, a preocupação formando um vinco na sua testa. — Se tem a ver com o que aconteceu com Pian Feng, mais uma razão para eu saber.
Por um momento, Yan Da congelou. Sua vontade era perguntar o que havia acontecido com Pian Feng, mas sabia que Hu Bing era esperto o bastante para arrancar qualquer coisa dela com o mínimo de esforço e, se a melhor defesa era o ataque, era um claro sinal de inteligência saber quais batalhas lutar. Rapidamente, ela endireitou a postura e adotou uma expressão impassível afastando qualquer sinal da preocupação sobre até onde o irmão poderia saber?
— O que, de fato, aconteceu com Pian Feng? — Indagou.
— Ele mencionou algo sobre um estorvo, mas não entrou em detalhes.
A princesa do fogo suspirou e deixou o corpo cair em uma das cadeiras. Não havia uma maneira de se livrar daquilo e quanto antes dissesse o que o irmão queria ouvir para tranquiliza-lo, mais fácil seria ajudá-lo a esquecer o assunto. Claro que ela mesma não lhe diria todos os detalhes como o fato de conhecer o “estorvo” a mais de quatro mil anos e ter morrido por ele. Hu Bing era um irmão ciumento, não tanto quanto Pian Feng, mas o bastante para querer saber quando a primeira célula da linhagem de Ying Kong Shi tinha surgido.
Decidiu ser prática. Contou a ele que conhecera uma pessoa em circunstâncias inesperadas e surgira um tipo de sentimento que, por algum tempo, ela tentou repelir. Acontece que acabou se apaixonando e descobriu que a pessoa em questão não era o que ela pensava. Não deu muitos detalhes tampouco mencionou o nome de Ying Kong Shi, quanto mais pudesse amenizar a situação melhor seria. Surpreendentemente, Hu Bing pareceu aceitar aquilo.
— E onde Pian Feng entra nessa história?
— Ah... isso... — meneou a cabeça — estou com mais raiva de mim mesma do que dele. O tempo todo, Pian ge tentou me alertar e não dei ouvidos, prometi que seria cuidadosa, mas não fui e acabei assim.
— Da’er, você saber que Pian Feng é maluco por você, se esse é realmente o caso, acredito que deveria pelo menos ouvir o que ele tem a dizer.
— Vou fazer isso. — Garantiu. — Só não estou pronta agora.
— Sabe que respeito suas decisões, inclusive respeito o fato de ter coisas que não quer me contar, como agora. — Ele sorriu e Yan Da percebeu que havia sido descoberta. — Só quero que se lembre sempre que estou aqui pra você e sou capaz de qualquer coisa, Yan Da, pra te ver feliz.
Ela esticou o braço sobre a mesa e segurou a mão do irmão oferecendo-lhe um sorriso cheio de ternura. Os dois ajudaram Qiqi a colocar as travessas na mesa e, embora a princesa tenha questionado o irmão sobre sua volta, ele lhe garantiu que conversariam após o jantar. Pela primeira vez em muito tempo Yan Da se sentiu confortável e tranquila novamente.
※※※
— O cerco está se fechando.
Huang Tuo suspirou após checar Xing Jiu novamente, não havia tido qualquer sinal de progresso na condição do astrólogo, ele continuava inacessível. Sem o cubo dos sonhos, qualquer chance que eles tivessem de se comunicar com ele — considerando que estava no mundo dos sonhos — era nula. O curandeiro ainda tentava entender o propósito de Lian Ji em agir daquela maneira, claro que ela queria tirar de Ka Suo a chance de localizar seus passos, mas já tinha muito tempo que a estrela dela não se movia do mundo imortal, o que o astrólogo havia descoberto?
Foi nesse momento que o médico teve um insight. Considerando sua idade — já muito experiente quando todo aquele caos no mundo imortal havia começado — e tudo que estudara, pois sempre fora um ávido aprendiz de tudo, ele achava que poderia conseguir a resposta de que precisavam se acessasse as fontes certas. Liao Jian, vendo a expressão no rosto dele, franziu o cenho sabendo que o amigo havia tido alguma ideia que provavelmente os deixaria em alguma saia justa muito em breve.
— Chame Yue Shen. — Pediu. — Você vai ficar de olho em Liao Jian até eu voltar.
— Voltar de onde? — Quis saber ele, rabugento.
— Da tribo dos astrólogos. — Sorriu.
— Huang Tuo, não sobrou quase nada no nosso mundo com a queda de snowblade, você sabe disso.
— Nem tudo foi perdido. — Objetou. — Se souber onde ir ainda pode achar o que procura.
— E o que diabos você procura? — Perguntou o advogado, impaciente.
Huang Tuo sorriu largamente com um carisma capaz de alegrar o mais mórbido dos lugares.
— Respostas.
※※※
Yue Shen, Pian Feng, Chao Ya e Ka Suo estavam reunidos na sala mergulhados em um silêncio perturbador que, não fosse a natureza silenciosa da ex-envenenadora, ela estaria subindo pelas paredes com aquele clima irritante. Enquanto o casal estava inquieto por causa da princesa do fogo, Ka Suo estava preocupado com o comportamento do irmão, não ajudava a situação Xing Jiu estar “fora do ar” e as coisas com Yan Da não estarem indo bem. Embora não gostasse de ser pessimista, ela mesma via poucas chances da princesa do fogo realmente perdoar Ying Kong Shi, no lugar dela, a própria Yue Shen não perdoaria. Com um suspiro cansado e cheio de frustração, ela tentou desviar a atenção para os outros problemas que ainda tinham em mãos. Primeiro, a volta do irmão de Yan Da para China, ela não podia deixar de pensar que aquilo teria algum impacto sobre a situação, positivo ou negativo ainda não podia saber, embora Hu Bing não lembrasse quem era quatro mil anos atrás — e aparentemente apenas Yan Da fora “abençoada” com o recobrar das memórias entre todos os membros da tribo do fogo trazidos de volta pelo sacrifício — ele tinha alguma influência sobre a princesa, contudo, havia o fato de ele ser amigo de Pian Feng, o que contribuiria consideravelmente com a situação.
A segunda coisa era o ataque ao astrólogo. Ele era um trunfo importante na jornada deles. Era Xing Jiu que localizava e monitorava todos eles, sempre graças a eles o grupo conseguia se achar e obter algumas respostas. Além do fato de ele ser o único que podia acessar informações através dos sonhos. Levar o cubo dos sonhos também foi uma boa jogada de Lian Ji, mas Yue Shen não conseguia ver especificamente o que ela estava planejando e, sobretudo, o que o astrólogo podia ter descoberto para receber aquela retaliação. Havia algo ali, e a ex-assassina sentia que era uma coisa importante, mas não conseguia imaginar o que seria. Yue Shen era mais nova que Yue Zhao e, por mais que tenha habilidades superiores, ao abdicar da magia branca pela magia de assassinato, muito do conhecimento antigo que poderia ter adquirido sobre outras tribos lhe foi igualmente negado, ela se tornara uma pária dentro da própria família e da sua tribo, mesmo depois de tudo que passou era difícil acreditar como Huang Tuo, o príncipe dos curandeiros, se apaixonara por ela.
Outro problema, e esse talvez fosse o mais urgente, era o prazo do abismo do tempo. Logo ele começaria a dar sinais de que estava abrindo e não haveria volta, aquilo era uma preocupação que Yue Shen não via como nenhum deles podia resolver, a alma de Li Luo desapareceria junto com aquele mundo inteiro e eles junto no processo. E sem Xing Jiu, localizar Lian Ji parecia impossível. Seu celular tocou tirando-a dos pensamentos pessimistas que começavam a ocupar os espaços da sua mente.
— Sim, Liao Jian, alguma novidade sobre Xing Jiu?
— Nada. Continua na mesma e seu marido não parece muito esperançoso. — Suspirou e ela podia visualizar seu semblante carrancudo provavelmente apertando a ponte do nariz com os olhos fechados em frustração. — Ele quer que você venha para cá, vão juntos para o reino imortal.
— Zhidao le,*[2] estou a caminho.
Quando desligou após a breve conversa, os demais a olhavam um tanto apreensivos como se esperassem boas novas sobre o amigo. Ela lhes tirou a esperança meneando a cabeça.
— Ele está na mesma. — Contou. — Huang Tuo quer que eu o acompanhe de volta ao mundo imortal.
— Por quê? — Ka Suo ergueu a cabeça.
— Não sei. Liao Jian não disse, mas se ele quer ir deve ser importante.
— Tudo bem, me mantenha informado.
— Shì, wáng.*[3]
※※※
Qiqi foi dispensada tão logo o jantar terminou, Hu Bing se prontificou em lavar a louça e Yan Da prometeu ajudá-lo. Ao se verem sozinhos no apartamento, a liberdade de conversar livremente deixou-os mais confortáveis e havia muito a ser dito. A princesa repetiu a pergunta sobre o tempo de estada do irmão na China, afinal, sabia que Hu Bing tinha construído uma vida na Europa, mas a resposta dele a pegou de surpresa.
— Não vou voltar. — Assegurou. — Vim para resolver os problemas do passado e ficarei de uma vez por todas.
— Ge, mas a sua família...
— Virá para cá em breve. — Sorriu. — Minha esposa não fez objeções e acho que vai ser bom para as crianças também. Sei que vai adorá-los.
— É claro que sim, mas está mesmo tudo bem deixar sua vida para trás assim? — Ela mordeu o lábio, preocupada.
— Minha vida é onde minha família está, Yan Da. Você está aqui, logo eles também estarão e isso me basta. — Beijou-lhe a testa. — Não quero perder mais nada da sua vida, esses anos foram mais que torturantes.
— Também senti saudade, gege. — Aconchegou-se nele, encostando a cabeça em seu peito. — Estou ansiosa para conhecer os meus sobrinhos e minha cunhada.
— Mas antes há algumas coisas que precisamos resolver. — A voz de Hu Bing ficou mais pesada. — Durante esse tempo que passei fora, procurei cumprir a promessa que te fiz antes de ir embora, bem, estou aqui para isso.
Yan Da se afastou um pouco para olhar o irmão nos olhos, seu coração acelerando dentro do peito ao processar aquelas palavras com mais atenção. “Yan Da, lembre-se sempre, você é aquilo que eu tenho de mais valioso, eu amo você com todo meu coração e quando tudo isso acabar, vou trazer justiça para você e para Peng Yan. Eu prometo”. Sim, ele havia prometido e ela sabia que o irmão nunca deixava de cumprir uma promessa.
— Isso quer dizer que...
— Sim. — Anuiu. — A outra razão de eu ter voltado é julgar de uma vez por todas os responsáveis pela sua tortura e a morte de Peng Yan.
— Como? — Os olhos dela marejaram e sua voz quase não saiu.
— Não foi fácil. Tenho de admitir que Shuo Gang não é tão estúpido quanto aparenta, na verdade, creio que o mérito seja, na verdade, da pessoa por trás dele e, lamento dizer, nós conhecemos muito bem.
— Quem é? — Yan Da sentiu a espinha gelar e sua voz soou áspera.
Hu Bing sabia que aquilo ia ser um pouco demais para a irmã, então fez uma pausa longa avaliando as emoções dela antes de responder.
— Ya Xing.
O choque no rosto de Yan Da não foi surpresa. Ela se sentiu tão enjoada que poderia colocar o jantar para fora a qualquer momento; desnorteada, levantou e apertou o pulso com força na tentativa de acalmar a náusea. Ya Xing nunca gostou dela particularmente, mas tampouco fora cruel como Shuo Gang, Yan Da apenas não conseguia entender a razão de tramar um plano tão diabólico como aquele e destruir a vida de um inocente. No passado, ele fora um dos primeiros filhos que Huo Yi devorou depois de Hu Bing quando precisou de mais poder, de alguma forma, o pai lhe lembrava de Urano.
— Yan Da... — Hu Bing começou.
— Por quê? — Interrompeu, a raiva e a revolta nítidas em sua voz. — Me diga a verdade, Hu Bing, por que ele faria isso comigo? Com Peng Peng que ele sequer conhecia? POR QUÊ?!
— Eu não sei todos os detalhes, Da’er, levou muito tempo até conseguir ligar Ya Xing ao plano. — Explicou. — Nossa melhor chance era rastrear o dinheiro, Shuo Gang não pagou direito os capangas que contratou e com um golpe de sorte e alguns detetives particulares auxiliados pela polícia internacional, consegui chegar até uma conta em Las Vegas. Ya Xing se formou em artes plásticas, mas não tem qualquer talento, vivia nos EUA sustentado pela esposa com quem tinha quatro filhos. Eles se divorciaram a dois anos. Por sorte, a mulher era rica e não tinha muitos problemas em mantê-lo junto aos filhos, mas não sabia que o marido era viciado em jogos. Ya Xing estava devendo dois milhões a um grupo criminoso.
“Ele ligou pedindo ajuda a Shuo Gang, sabia que de todos ele era o único que poderia lhe dar ouvidos. Mesmo o caráter de Xing Jue não sendo dos melhores, ele não concordaria com esse comportamento e estava muito bem estabelecido com a própria empresa e a família na Irlanda. Além disso, a personalidade podre de Shuo Gang combinava com a dele. Só que nosso irmãozinho só tem acesso ao dinheiro que o pai dá a ele, se colocasse as mãos em uma quantia tão alta o pai saberia e não ia acabar bem.”
— Ele, de fato, nunca foi muito benevolente com Ya Xing. — Concordou Yan Da. — Não ficaria nem um pouco chocado se Shuo Gang devesse dois milhões em jogo, quantas mulheres ele já subornou a ficar calada depois de ser assediada ou violentada pelo filho nojento dele. Mas o mesmo não se aplicaria a Ya Xing. Huo Yi devia pelo menos disfarçar o favoritismo.
— Foi quando a ideia dele surgiu. — Continuou. — Claro, foi Shuo Gang que sugeriu levar você, acho que a intenção desde o início era te machucar, mas foi Ya Xing quem montou o esquema e orientou-o durante todo o processo, se tudo desse errado, ele continuaria nas sombras e Shuo Gang, por ter sido visto por você, contaria como o único culpado. Foi uma jogada de mestre, tenho de admitir. O preço cobrado pelo resgate pagaria as dívidas dele e ainda daria para Ya Xing levar a vida que queria mesmo sem a esposa. Infelizmente, eles não contavam que Peng Yan estivesse com você no dia planejado e ele acabou sendo uma vítima inocente em toda a armação.
— E Shuo Gang adorou isso. Eu sei. Ele faria qualquer coisa para me ferir onde mais dói.
— Shuo Gang cometeu alguns deslizes e Ya Xing não ficou feliz, mas ele conseguiu manter você sob controle e não deixou nenhuma prova para trás, exceto talvez uma. — Revelou. — No local onde vocês foram mantidos, encontraram uma abotoadura daquelas que nossa mãe encomendou da França como um presente para ele. Só que não era prova forte suficiente para incriminá-lo eu precisava de coisas mais substanciais. Claro que Ya Xing não ia se expor tão facilmente, ele abriu uma conta no nome de Shuo Gang em Las Vegas e fazia transferências para sua conta com regularidade. Isso continuaria colocando Shuo Gang como maior suspeito.
“Consegui cópias de todas as transações e algumas outras provas com os capangas insatisfeitos que não receberam sua parte no acordo. Apesar de Shuo Gang ter conseguido livrá-los tirando-os da China, não os deixou completamente felizes ao cumprir meio acordo e ficar com todo o dinheiro. Prendi e condenei Ya Xing na Califórnia. Ele havia fugido para Los Angeles quando descobriu que eu estava em seu encalço. Por ele ter a cidadania americana pelo casamento, isso o ajudou a não ser deportado de volta para a China então o julguei pelas leis dos EUA, claro que ele logo acusou Shuo Gang como a mente por trás de tudo e contou todo o esquema armado, mas eu conheço nosso irmão muito bem para saber que a inteligência dele não vai tão longe. Então reuni todas as provas que consegui com a captura dele e, após condená-lo lá, infelizmente com uma pena menor do que eu realmente gostaria, voltei para cá a fim de fazer o mesmo com Shuo Gang.”
— Não consigo acreditar nisso. — Yan Da voltou a sentar e cobriu o rosto com as mãos, horrorizada. — Quanto ódio eles sentem para fazer isso comigo?
— Tem mais, minha menina. — O tom cauteloso de Hu Bing a fez se encolher. — Huo Yi não é totalmente inocente nessa história também.
— Fico em dúvida se o fato disso não me surpreender ser bom ou ruim. — Esboçou um sorriso amargo. — Deixe-me adivinhar, ele deu a ideia de enfiarem 72 agulhas em mim? Ou, ainda, deu a ideia de fatiarem meu melhor amigo como um presunto?!
— Sei que está revoltada e tem todo direito, Yan Da, estou aqui para trazer justiça para você e Peng Yan. Não vou permitir que eles saiam impunes, eu prometo. — Asseverou. — Quando você foi para o hospital e reconheceu Shuo Gang gritando que ele era um assassino as coisas ficaram complicadas, a polícia começou a investigá-lo mesmo sem ter provas concretas contra ele e Huo Yi não queria isso. Ele subornou alguém do hospital para desaparecer com todo o seu histórico médico e com o laudo de Peng Yan. Além disso, há a forte possibilidade de ter sido ele o mandante do assassinato do doutor Kang, o legista responsável na época. Mas só consegui provas do roubo dos registros, por sorte o hospital colaborou com a polícia e, pela escalação daquela noite, conseguimos reduzir a lista de suspeitos. Prenderam o enfermeiro em Xining, mas consegui manter as provas em sigilo e ocultei o fato junto com a polícia sabendo que ele era uma testemunha chave para acusar Huo Yi.
Hu Bing se aproximou de Yan Da e a abraçou apertado percebendo que a irmã tremia diante daquela história de horror. Mas logo, tudo aquilo teria fim e ele sabia que ela não precisaria viver com medo ou remorso pelo que acontecera nunca mais.
— Acabou, minha menina. — Ele beijou o topo de sua cabeça. — Já decretei a prisão de Shuo Gang e Huo Yi. Todo esse pesadelo acabou.
Ela queria que todos os seus problemas fossem apenas aqueles.
※※※
Ka Suo bateu outra vez na porta, mas Shi não abriu. Ainda não queria ver ninguém. Pensar em Yan Da começava a enlouquecê-lo, não sabia o que fazer para que ela acreditasse nele. Por já ter sofrido separações ontem, ela conhecia aquela sensação melhor que ele. Seu eu do passado era insensível e só conseguia ver o irmão diante de si, mesmo quando a perdeu, quando a viu esvair-se dos seus braços, ele não compreendeu o peso das sensações que lhe oprimiam. Ele não entendia que a amava. Agora, quando todos os sentimentos fervilhavam dentro dele de maneira enlouquecida, o príncipe do gelo se dava conta que só percebeu o que queria enquanto se separava dela e ele não queria perdê-la, por ser a primeira vez para ele, só agora conseguia entender.
Ele podia senti-la muito fracamente, como se aos poucos ela se afastasse um pouco mais dele só restando o frio que sempre ocupou seu coração. Shi tentava se agarrar à essência do calor dela dentro de si com todas as forças, tentando localizá-la, sentir que ela estava viva em algum lugar naquele mundo com ele.
Foi quando sentiu. Um tremor sacudiu tudo e as paredes vibraram, os móveis começaram a balançar e parecia que o equilíbrio da terra havia se desfeito. Do lado de fora, Chao Ya gritou assustada. Shi abriu a porta e viu o irmão procurando lugares seguros para se abrigar, mas Shi sabia, de alguma forma, que aquele não era um terremoto comum. Durou apenas um minuto e, quando os corações voltaram a bater de modo compassado outra vez, a visão do lado de fora da janela foi aterradora. Uma densa nuvem de poeira havia amarelado o céu e cobria a cidade em um cenário apocalíptico. Ka Suo se aproximou do irmão e, com olhos esgazeados, pronunciou em tom fúnebre.
— Começou.
— O quê? — Pian Feng perguntou de trás. — O que começou?
— O abismo do tempo começou a se abrir.
Fale com o autor