Love as Sakura | 爱如樱

30 第28章 O caminho para a decadência


Horas atrás...

Apenas quando chegou à ZhangYing, Yan Da descobriu que Ka Suo não iria à empresa naquele dia, mas deixara alguns documentos para que ela organizasse. Era estranho uma vez que, segundo Shi, o irmão era praticamente um workaholic. Contudo, não fazia parte do seu trabalho analisar o comportamento dos irmãos, de modo que ela caminhou até sua nova sala, bem ao lado da sala dele após um pequeno corredor, e viu a pilha de pastas sobre a mesa, um sorriso satisfeito iluminou seu rosto, ocupação era bem o que precisava para tirar aqueles pensamentos incômodos da cabeça.

Estava prestes a começar quando a fonte do seu caos mental surgiu à soleira em um terno preto simples e com um sorriso doce. Ying Kong Shi deu uma leve batidinha na porta e Yan Da precisou relembrar todo seu pacto pessoal de não se render àquele tipo de sentimento complicado. Ela anuiu para ele como um sinal para que entrasse e repreendeu seu coração por acelerar daquela maneira.

— Bom dia, senhorita Meng. — Cumprimentou. — Seja muito bem vinda ao seu primeiro dia oficial na empresa.

— Obrigada, Ying xiansheng. O que o traz por aqui tão cedo?

— Ka Suo acordou um pouco indisposto hoje, então vou assumir seu lugar em uma visita ao shopping, ao que parece tivemos um problema em uma das lojas, como sua assistente, a senhorita deve me acompanhar. — Explicou.

— Oh, mesmo? — Ela pareceu confusa. — Fui informada que ele havia deixado esses documentos para que eu catalogasse.

O jovem príncipe ergueu a sobrancelha para a pilha de pastas sobre a mesa de Yan Da. A incumbência era estranha por dois motivos: primeiro, Ka Suo nada lhe dissera sobre a tarefa antes de sair de casa, mas lhe recomendara que a levasse junto na visita ao shopping. Segundo, não era parte dos deveres de Yan Da catalogar documentos, ela os analisava, corrigia e entregava-os prontos para Ka Suo assinar. Era responsável pela sua agenda e na elaboração de propostas e contratos para os clientes da empresa.

— Deixe-me verificar isso, por favor. — Pediu ele. — De todo modo, esteja pronta para sair comigo em dez minutos.

Por ser novata na empresa, ela não quis refutar. Ainda mais por Shi estar um cargo acima dela. Mesmo que fossem amigos — pelo menos ela o considerava como tal —, no ambiente de trabalho as coisas não funcionavam do mesmo modo. A única coisa que permanecia igual era a insistência do seu coração em acelerar toda vez que ele se aproximava. Pare com isso! Brigou consigo mesma. Pegando a bolsa, ela colocou algumas coisas da pasta que poderia precisar e atravessou a espaçosa sala que lhe foi designada, mas ao abrir um pouco a porta ouviu a voz irritada de Shi ecoando pelo curto corredor que a separava da sala de Ka Suo.

Qi xiaojie, posso saber quando meu irmão lhe deu ordens para transferir suas obrigações para a assistente dele? Até onde me consta, Meng xiaojie não é uma secretária, portanto, não é dever dela catalogar documentos. — A voz dele era enérgica, mas seu tom permanecia inalterado. — Antes que seja tentada a mentir, gostaria de lhe informar que já telefonei para ele não estou sabendo nada sobre aquela pilha de pasta sobre a mesa dela.

— Ying xiansheng...

— Julgando o número de pastas, já tem um bom tempo que seu arquivo não é atualizado. — Observou ele. — Se não é capaz de fazer seu trabalho por que a contratamos?

— Por favor, Ying xiansheng, eu só pretendia fazer uma brincadeira com a novata, eu...

— Não estamos aqui para brincar. — Cortou Shi. — Você tem exatamente duas horas e meia para organizar toda aquela papelada enquanto eu levo Meng xiaojie para resolver o problema no shopping. Quando voltar, não quero ver uma única pasta sobre a mesa dela ou não precisa comparecer à empresa amanhã, fui claro?

— Perfeitamente, senhor.

Yan Da se encolheu. Nunca havia ouvido Shi daquela maneira. Entendia sua posição diante da situação toda, mas era estranho ver aquele lado dele. Especialmente porque, para ela — acostumada a cumprir todo tipo de tarefa na Huo Enterprises — aquele não era um trabalho difícil. Temia que o ocorrido acabasse criando uma inimizade entre ela e a secretária de Ka Suo, algo que ela realmente não queria, desejava poder assumir seu papel e construir sua carreira sem mais problemas.

Após tanto tempo, ela finalmente tinha a chance nas mãos.

Entendia que, ao contrário da empresa do pai, a ZhangYing trabalhava de forma diferente, não havia sobrecarga de funcionários, todos exerciam suas funções e, quando começavam a ter uma demanda maior que a produção, eles contratavam mais gente, foi assim que ela conseguiu chegar ali. Contudo — e isso podia ser só impressão sua — ela sentiu certa exclusividade no modo como Shi a tratou para a funcionária e aquilo era perigoso dentro de uma empresa. Talvez tenha achado um tanto quanto exagerada sua posição diante de uma ocorrência tão corriqueira, mas não estava em posição de opinar.

Ela havia voltado para sua mesa e começara a olhar os documentos ali, era algo fácil de catalogar, não levaria nem uma hora nas mãos de alguém competente, em poucos minutos ela já havia adiantado boa parte deles. Shi retornou à sala e, exibindo um sorriso cordial, que não combinava em nada com a voz ouvida por ela antes, fez sinal para que deixasse os documentos de lado e o seguisse.

Yan Da não questionou.

※※※

Chao Ya deu recebeu os primeiros socorros ainda na praça onde estava quando a ambulância chegou seguida por Huang Tuo que, usando seus poderes, estabilizou a cantora e fez uma análise do caso, mas diante dos paramédicos não podia dar detalhes para o desesperado amigo que parecia em choque. Quando ela foi movida para o hospital, ele acalmou o guerreiro com seu tom profissional e amistoso.

— Não se preocupe, apesar de ter sido perigosamente próximo, a bala não atingiu nenhum órgão vital, ela vai ficar bem. — Apertou o ombro de Pian Feng. — Vou cuidar dela, Pian Feng.

— Obrigado. Salve-a, por favor, Huang Tuo! — Implorou.

— Dou a minha palavra que farei isso. — Anuiu o médico. — Avise o ocorrido para Ka Suo e Yue Shen, logo mais à noite nos encontraremos na casa de Liao Jian. Ligarei para você quando Chao Ya puder receber visitas.

— Não conte para Yan Da ainda. — Pediu ele. — Vamos esperar ela estar em recuperação, então eu mesmo direi a ela.

Huang Tuo assentiu e partiu de volta para o hospital deixando Pian Feng sozinho. Olhando em volta, o guerreiro não alimentava mais esperanças de localizar o atirador por ali, mas pelo que o curandeiro afirmara a bala atingira um ponto perigoso perto dos órgãos vitais, para um tiro no peito mesmo não sendo versado em armas de fogo — mas sendo muito competente com flechas — ele sabia quão difícil era tal feito, precisava ser alguém experiente. Entendeu então que o objetivo, sob todo o desespero da sua mente preocupada, não era assassinar Chao Ya.

Era dar um aviso.

※※※

Ka Suo não sabia o que fazer. De todas as formas que analisasse a situação, era impossível para ele compreender o motivo que levara Li Luo a tomar aquela atitude suicida. Queria muito acreditar que estava enganado, tinha ouvido errado e não era a voz dela, mas Luna também a ouvira.

— Wàng, não quero tomar conclusões precipitadas, mas aquela voz... era Li Luo.

— O quê? — Huang Tuo olhou para Ka Suo, incrédulo. —Isso é impossível!

— Também não consigo acreditar. — Concordou Ka Suo. — Mas Luna está certa. Eu reconheceria a voz de Li Luo em qualquer lugar.

— Li Luo recebeu parte do cultivo de sua majestade, seria o esconderijo perfeito para camuflar sua aura mágica, dessa forma, Xing Jiu não seria capaz de localizá-la. — Acrescentou Yue Shen. — Além do mais, vindo no corpo da rainha do gelo, ela sabia que os riscos de ser derrotada seriam menores já que sua majestade não seria capaz de feri-la.

— Maldição, isso nos deixa num impasse, o que vamos fazer agora? — Exasperou-se o médico. — Essa maldita não nos deixa escolha além de matá-la e mesmo que consigamos expulsá-la, nada nos garante que podemos destruí-la.

— Ela tem uma carta na manga. — Disse Yue Shen. — Nunca se mostraria dessa forma se não tivesse uma forma alternativa de se esconder.

Era culpa dele. Tudo aquilo era culpa dele. Suas escolhas, suas obsessões levaram a tudo aquilo e ele não podia permitir que por sua culpa o destino de todos eles fosse destruído mais uma vez. Não havia meio de escapar, era seu dever tomar as rédeas da situação e trazer as coisas de volta para seu devido lugar, devia isso a Shi, a Yan Da, a Yue Shen, a Chao Ya, a Pian Feng e a Liao Jian, eles mereciam o futuro que foi interrompido em nome de sua proteção, em nome da sua imprudência e incompetência como rei do império da neve.

Levantou da cama onde estava sentado meditabundo, trocou de roupa e pegou as chaves do carro pondo-se de pé disposto a pôr um fim naquilo, desde o começo não era sobre ele, Ka Suo sabia que as chances de reescrever a própria história eram ínfimas, aquilo era sobre Shi. E somente sobre Shi. Ka Suo não cometeria os mesmos erros.

Estava prestes a sair quando a ligação de Pian Feng o deteve.

— Pian Feng, o que houve?

Wàng, Chao Ya... ela... — A voz do guerreiro era instável.

— Fique calmo, o que houve com Chao Ya?

Um tiro... alguém atirou nela, mas não sei quem foi, não consegui ver. — Balbuciou o guerreiro. — Huang Tuo a levou para o hospital.

— Yan Da ainda está na ZhangYing?

— Não sei, meu rei.

— Ligue para Yue Shen, ela está protegendo Shi, se a princesa estiver com ele, alerte-a para que não perca os dois de vista e os mantenha longe das notícias. — Orientou. — Estou indo ao hospital, me encontre lá.

— Shì, wàng.

Estava muito claro o aviso. As palavras de Lian Ji reverberaram na sua mente como lâminas. Ela achava que podia influenciá-lo, e aquele aviso com Chao Ya mostrava não apenas que não estava brincando, mas que Shi — e todos eles — corria um sério perigo. Não havia tempo para especulação ou distrações, sua única saída agora era agir antes dela.

Ele foi até o armário e tirou o cubo dos sonhos convocando Xing Jiu. O astrólogo apareceu alguns segundos depois.

Meu rei.

— Faça os preparativos. — Ordenou Ka Suo. — Chegou a hora.

※※※

O carro de Shi parou no estacionamento usando uma vaga particular. Havia, Yan Da notou ao sair do carro, quatro vagas dessas, exclusivas para membros da presidência da ZhangYing. Ela, contudo, não teceu comentários a respeito ainda que tenha achado um tanto quanto diferente, não havia esse tipo de coisa na empresa do seu pai, ele tinha um estacionamento separado dos demais, apenas os carros de clientes e funcionários ficavam juntos. Os dele e de Shuo Gang eram separados em outro local privativo.

Até ali o percurso no carro foi silencioso, um tipo de silêncio confortável para Yan Da e opressor para Shi que buscava qualquer coisa para empreender uma conversa, mas tudo que conseguiu foi perguntar sobre a saúde dela e se desculpado por não ter se despedido após deixá-la em casa. Ao que, em resposta, ela lhe garantiu que sua recuperação estava quase completa, agradeceu por tê-la deixado dormir e por ter cuidado tão bem dela durante toda a viagem. Mas não passaram de uma breve troca de agradecimentos e elogios.

Yan Da havia pesquisado a respeito do shopping, Ling Chao o havia construído para empregar os funcionários que não haviam passado em entrevistas para a empresa ou precisavam de pouco tempo de contribuição para se aposentar, além da oportunidade de gerar novos empregos, já que eles estavam sempre fazendo entrevistas para novos funcionários e sempre havia pessoas muito talentosas em busca de uma oportunidade, o Shopping era essa oportunidade, alguns que demonstravam um desempenho de excelência conseguiam migrar para a empresa.

Ela gostava da política da ZhangYing: "Crescer junto é prosperar junto e garantir a felicidade de todos." Dava a ideia de família, ao fazer parte de uma empresa que se preocupava com seus clientes e funcionários e não somente com a margem de lucro, ela sentia prazer em contribuir para o crescimento dela uma vez que isso significava o seu próprio, tanto na área profissional quanto na pessoal e ela percebeu, por todos os lados desde que fora à entrevista de emprego, que os funcionários da empresa gostavam do que faziam.

— Ao que parece, o problema em questão é uma loja de lingerie. — Explicou Shi enquanto eles seguiam para a escada rolante. — Uma das funcionárias agrediu uma cliente e outra funcionária, nosso advogado deve estar cuidando dos trâmites relativos à cliente, mas somos nós que cuidamos da funcionária.

— Qual o procedimento? — Indagou ela lembrando do que acontecera minutos atrás na empresa.

— Bem, primeiro vamos entender as razões dela, depois decidimos se será uma demissão apenas ou precisaremos de medidas legais sobre as ações dela.

Ela anuiu, satisfeita. Se fosse na Huo Enterprises a funcionária não teria o direito de falar, seria colocada na rua sem nada isso se o pai não a colocasse na cadeia por causa do prejuízo. Quanto mais tempo passava na empresa de Shi, menos vontade tinha de ajudar o pai, vontade essa já praticamente extinta quando o conheceu melhor. Por isso, não importava o que acontecesse, Yan Da não conseguia se arrepender da decisão que tomara.

Os dois saíram da longa escada rolante e seguiram por um espaçoso corredor ladeado de lojas, um esplendor de brilho, propagandas em banners e painéis digitais, os mais variados tipos de lojas, todas elas espaçosas e com vendedores sorridentes, se eles fingiam gostar do trabalho era uma atuação digna de cinema. Desde que chegaram ao lugar, ela havia percebido, as atenções voltadas para Shi eram mais que o respeito dos funcionários que o saudavam conforme ele passava, mas os olhares vinham de todos os lados especialmente das mulheres e seus sorrisos fascinados.

Ele, contudo, parecia indiferente ou alheio àquilo e oferecia apenas discretos acenos de cabeça quando surgia um gritinho ou suspiro mais alto. Shi era muito popular com as mulheres, seu rosto estampava revistas de fofoca — que, por não terem o que contar sobre ele, viviam de inventar histórias — como o perfil mais desejado entre todas elas — uma generalização que Yan Da discordava. Apesar de levar uma vida o mais discreta e longe de holofotes possível, ele fazia parte da elite social, não havia como fugir daquela imposição da sua classe. Por isso, enquanto algumas tiravam fotos que certamente cruzariam o mundo nas redes sociais, ele se mantinha impassível e quando muito lhe apontava alguma loja ou curiosidade já que ela nunca havia visitado aquele Shopping.

— Vendo você agora percebo que não se deve mesmo acreditar no que lemos nas revistas. — Observou Yan Da em tom discreto. — O senhor, Ying xiansheng, pode ser tudo menos uma flor de pêssego frívola.*

Shi deu uma leve risada para deleite de suas admiradoras.

— Chao xiaojie me fez uma descrição muito pouco lisonjeira sobre o que dizem de mim nesses volumes. — Anuiu. — Sendo franco com você, não entendo nada de mulheres. Até agora, nunca havia me interessado por nenhuma delas, para mim pareciam incrivelmente iguais.

Até agora? Yan Da sentiu o coração pular uma batida.

— Então alguém o fez mudar de ideia e parar de nos classificar como tolas fúteis e caça-dotes? — Provocou.

— Ah, sim. — Ele riu outra vez. — Apesar de não pensar nelas exatamente dessa forma. Mas encontrei alguém que abriu meus olhos para uma parte do mundo que, até então, eu ignorava.

— O destino foi generoso com você, então.

— Nem tanto. — Um sorriso misterioso arqueou-se nos lábios dele. — Ela é uma pessoa que não se apaixona fácil. Além do mais, começamos pelo lado errado.

— O que, você disse a coisa errada logo no primeiro encontro? — Sorriu ela.

— Quem dera fosse só isso. — Shi baixou a cabeça e deu uma risadela como que desesperançado. — Eu quase a atropelei no primeiro encontro.

O choque que aquelas palavras lhe causaram impediu Yan Da de responder.

※※※

Fazia uma hora e meia que Huang Tuo estava com Chao Ya na sala de emergência após anunciar que precisariam realizar uma cirurgia para a retirada da bala, mas garantindo — mais vezes que o necessário — que a cantora não corria risco de vida. Pian Feng ficou responsável pela papelada do hospital que Ka Suo acabou preenchendo em seu lugar dado o estado de nervos do companheiro.

As roupas do guerreiro do espírito do vento ainda estavam sujas de sangue tal qual suas mãos, que pressionaram a ferida da ex-rainha da tribo de música xamânica com seu paletó, agora uma bola de tecido suja de sangue seco ao seu lado. O monarca da tribo do gelo levantou por um momento e fez uma breve ligação voltando em seguida para o lado do soldado.

— Pare de se preocupar desse jeito, você conhece as habilidades de Huang Tuo, ninguém nesse mundo é mais capaz de salvá-la do que ele. Chao Ya ficará bem e vou me certificar que Lian Ji pague por isso.

— Então foi mesmo ela... — Ele anuiu. — Nunca vi uma capacidade de mira tão impressionante, só conheci Peng Yan e Yue Shen com tal precisão, eles nunca erravam um alvo a menos que quisessem isso. Além deles, a única que se aproximava dessa extraordinária habilidade era a rainha Li Luo.

Tão logo terminou aquelas palavras, Pian Feng se deu conta do que havia acabado de dizer e seu corpo inteiro foi tomado pela tensão. Ele se endireitou e olhou para o taciturno Ka Suo a seu lado.

— Não é possível, é?

— Acreditamos que Lian Ji usou o corpo de Li Luo para camuflar sua energia mágica. — Confirmou.

— Meu rei...

— Nossa melhor chance é agir antes dela. — Cortou Ka Suo antes que ele fizesse uma pergunta que não queria responder. — Esse aviso de Chao Ya se estende para todos vocês. Ela sabe que você e Liao Jian também não tem mais energia mágica, fiquem alertas.

— Shi wàngzi...

— Yue Shen está cuidando dele. — Garantiu Ka Suo. — Lian Ji não será capaz de tocá-lo mesmo que tente.

— Pelo menos não diretamente. — Observou o guerreiro. — Yue Shen é praticamente invulnerável e Lian Ji sabe disso. Tanto quanto conhece o único ponto vulnerável dela.

— Huang Tuo está seguro. Ele sabe se proteger bem e mesmo eu não me atreveria a despertar a fúria de Luna. O alvo de Lian Ji é Shi, ela sabe que se o destruir agora o jogo acaba e ela vence.

Pian Feng pensou nisso por longo tempo, se era verdade então mudava tudo. Ele respeitava Ka Suo como seu rei, mas tanto ele quanto os outros sabiam que ele era incapaz de matar Li Luo e Shi, ao recuperar as memórias, não o faria por causa da sua lealdade cega ao irmão. A preocupação do guerreiro se estendeu com mais força de Chao Ya para Yan Da, não conseguia encontrar uma maneira de salvar a protegida de ter seu coração partido outra vez e já queria esmurrar a cara do príncipe por machucá-la de novo.

Pensar em uma maneira de manter a jovem princesa longe dele era quase fora de questão, primeiro porque ele não sabia que boa desculpa daria para tal imposição, segundo porque ela estava muito envolvida com ele, mesmo que negasse, seu coração se sentia atraído na direção de Shi. Era injusto tudo aquilo. Quando ele recobrasse as lembranças, com esse novo agravante, Pian Feng já podia visualizar, Yan Da seria escanteada em nome da felicidade de Ka Suo algo pelo qual o príncipe do gelo já matara antes e não hesitaria em fazê-lo novamente.

Se houvesse um meio, a única forma de proteger Yan Da seria reprimir as memórias dela para sempre. Pian Feng não queria que ela lembrasse, que seu coração se voltasse outra vez para um homem que colocava tudo e todos acima do sentimento dela. Ela merecia um futuro feliz, uma nova chance e pro inferno se todos eles morressem por causa disso, ele não compactuaria com um segundo final infeliz para ela, dessa vez não.

— Meu rei... — Começou ele.

— Rei. — Ka Suo retorquiu com um pesado suspiro. — Não sei por que ainda me chamam assim, nada fiz para merecer sua reverência e o mundo a que chamaram de lar já não existe.

— Mas foi graças a vossa majestade que recebemos essa segunda chance. — Retrucou Pian Feng. — E creio que falo por todos quando digo que não há arrependimentos, se tivéssemos de voltar atrás, ainda lutaríamos por vossa majestade.

Um sorriso triste arqueou-se nos lábios de Ka Suo.

— Sei o que você teme. — Disse baixinho. — Não vou permitir que aconteça, nunca. Não dessa vez. Eu tenho algo que Lian Ji não tem: amigos. Os demônios que Shi traz dentro de si não podem mais controlá-lo, ele só precisa lidar com a verdade.

— Mas e vossa majestade? Se o que me disse é verdade então todo o curso que tratamos muda aqui.

— Nada muda. — Meneou a cabeça. — Se Li Luo escolheu esse caminho, a única forma de demonstrar o que sinto por ela é libertando-a, mesmo que isso implique matá-la.

Pian Feng não acreditou no que ouviu. No passado aquelas palavras nunca atravessariam a boca de Ka Suo, de fato, ele havia amadurecido. Por enquanto — e só por enquanto — havia uma chance para Yan Da, ela estava a salvo.

— O que faremos então?

— Primeiro, vamos tirar o maior trunfo dela. — Anunciou Ka Suo. — Depois, veremos até onde ela estendeu suas linhas. Por hora, essas duas coisas já contarão muito a nosso favor. Chao Ya não poderá comparecer, mas você precisa estar hoje à noite na casa de Liao Jian, há muito que precisamos conversar.

O surgimento de Huang Tuo impediu que o guerreiro respondesse. Ele ainda usava as roupas da cirurgia, mas trazia uma expressão neutra no rosto bonito algo que serviu para pacificar os nervos de Pian Feng ainda que seu coração continuasse enlouquecido.

— Ela está bem, a cirurgia foi um sucesso, conseguimos extrair a bala, nenhum órgão foi atingido, ainda que uma pequena lesão no lado esquerdo do pulmão tenha sido revertida. Mas ela não corre qualquer perigo. Deixarei-a em observação nas próximas horas e, dependendo da velocidade de resposta, daqui a dois dias ela já poderá ser movida para um quarto comum.

— A energia dela? — Quis saber o rei.

— Eu a estabilizei, acelerei o processo de cura também, está completamente estável. — Garantiu. O alívio completo fez Pian Feng cair na cadeira.

— Obrigado, Huang Tuo. — Agradeceu Ka Suo. — Nos encontraremos logo mais à noite.

※※※

A loja de lingerie estava fechada ao público naquele dia. Shi foi recebido pela gerente e todas as vendedoras estavam enfileiradas usando o uniforme da loja. Ele e Yan Da foram conduzidos a um escritório espaçoso nos fundos da loja e servidos de chá com biscoitos.

— Comece me dizendo o que aconteceu. — Pediu Shi.

— Eu estava aqui dentro quando a confusão começou. — Começou a gerente. — Até então o dia transcorria normalmente e as vendas estavam promissoras. Uma das funcionárias disse que apareceu uma senhora na casa dos sessenta anos e foi direto para a atendente que causou o problema, elas conversaram por um tempo e, de repente, essa atendente agrediu com força a senhora que caiu por cima de uma das vitrines. Por sorte ela não teve nenhum ferimento grave.

— E a outra funcionária agredida? — Yan Da que perguntou.

— Ela tentou controlar a outra, mas acabou sendo empurrada contra um mostruário e cortou gravemente a perna. — Relatou. — As outras vendedoras entraram em pânico, disseram que nunca viram aquela garota tão fora de si.

— Chame uma das funcionárias presentes na ocasião, por favor. — Ordenou Shi.

A mulher anuiu e levantou deixando a sala, Yan Da não sabia o que pensar. Teria aquela senhora dito alguma coisa ofensiva para deixar a funcionária tão histérica ao ponto de agredir até mesmo uma colega? Ela não entendia. A jovem vendedora que entrou com uma mistura de medo e encantamento na sala não parecia ter mais de vinte anos, Shi fez sinal para que ela sentasse, a menina, Yan Da notou, não conseguia tirar os olhos dele.

— Qual seu nome?

— H-Han Qin Mei, xiansheng. — Respondeu baixinho.

— Han xiaojie, você ouviu o que a cliente conversou com sua colega de trabalho?

— No momento que a cliente entrou eu estava atendendo um casal, xiansheng. — Contou ela. — Mas passei por um momento atrás dela para pegar uma peça no estoque e ouvi uma parte da conversa.

"— Está usando minha neta como isca para seu plano sórdido. Achou que eu não saberia?

— Isso não tem nada a ver com você, velha, acha que pode me deter?

— Você não tem poder aqui. A mesma lágrima que pode te dar uma nova vida vai te fazer apodrecer como deveria ter acontecido desde o começo!"

Shi e Yan Da trocaram um olhar confuso, nada no teor daquela conversa fazia sentido. A funcionária tinhas as mãos nervosas cruzadas sobre as pernas.

— Foi apenas isso?

— Ela deve ter dito alguma outra coisa que não ouvi, xiansheng, pois apenas depois foi agredida com violência. Entretanto houve mais uma coisa que achei muito estranho, xiansheng.

— O que?

— A cliente chamava minha colega de Lian Ji. — Contou. — Mas o nome dela é Li Luo.

Shi anuiu e dispensou a moça. A gerente foi chamada outra vez e ele pediu para ver as gravações da câmera de segurança ao que foi informado que apenas uma cópia foi mantida, a outra fora levada pela polícia. Ela colocou um laptop diante deles na mesa de centro e abriu o vídeo da gravação, não havia áudio, apenas imagem, as cenas eram assombrosas, a atendente dava a volta no balcão e empurrava a senhora com violência após estapeá-la com força, outra funcionária corria para tentar contê-la enquanto os clientes se afastavam, horrorizados, a atendente pegou a funcionária pelo pescoço e atirou-a contra um dos mostruários, a moça caiu sobre o vidro que espatifou-se em vários pedaços, um deles alojando-se na sua perna. Yan Da se encolheu e Shi baixou rapidamente a tela do aparelho.

— Onde está essa funcionária, Li Luo?

— Depois desse episódio ela deixou o shopping, xiansheng, a segurança tentou contê-la, mas não conseguiram, um deles teve o braço quebrado. — Explicou. — A polícia também não conseguiu localizá-la.

Ele se recostou no sofá, pensativo, os olhos fixos no aparelho sobre a mesa revendo apenas na sua mente as imagens. Reconheceu as duas mulheres na cena em questão, uma delas era a mulher que seu irmão amava.

A outra era a avó de Lan Shang.

※※※

Yue Shen estava encostada em seu carro enquanto observava o gigantesco prédio do shopping onde Shi e Yan Da haviam entrado. Não havia qualquer sinal da presença de Lian Ji ali dentro ou outra energia mágica que não a das próprias altezas, de modo que ela se permitiu relaxar um pouco. A demora, contudo, estava lhe deixando um tanto impaciente, queria ir ao hospital, mesmo que Pian Feng tenha lhe garantido que Chao Ya estava fora de perigo e não podia receber visitas ainda.

Havia muitas coisas rondando sua mente naquele instante, perguntas que não conseguia responder por mais que tentasse freneticamente buscar soluções. O ocorrido com Chao Ya era claramente um aviso, mas Yue Shen sabia que o verdadeiro alvo era Shi. O jovem príncipe do gelo era o verdadeiro bilhete premiado. Seus sentidos ficaram em alerta, olhando em volta, ela sentiu a aura, tênue, mas ainda assim estava ali, em volta. Virando-se, a maga negra se concentrou no epicentro da energia na tentativa de localizá-la.

Shi e Yan Da apareceram ao longe dentro do prédio vindo na direção das portas de vidro. Yue Shen pulou sobre o carro e deu um salto mortal correndo na direção das portas duplas de vidro para intercepta-los antes que saíssem. Notou que a princesa parecia um tanto inquieta enquanto o príncipe estava pensativo.

— Yue xiaojie, algum problema? — Quis saber ele ao vê-la parar diante dos dois.

— Zhang xiansheng me enviou para lhe comunicar que deve retornar para casa, ele o está esperando. — Mentiu. — Disse também que já avisou seu pai. A senhorita Meng pode enviar o relatório por e-mail e está dispensada para descansar também.

— Muito bem. — Disse Shi. — Um tanto melhor, acho que fui pouco cuidadoso em alguns detalhes hoje, sinto muito Yan Da.

— Não se desculpe, estou bem. — Ela sorriu.

— Vou leva-la para casa e pedirei que alguém leve seu carro até o prédio.

— Me permita acompanha-los até o carro. — Yue Shen pediu lançando um olhar significativo para Shi.

— Claro, será um prazer, Yue xiaojie, aproveite para me mandar notícias do hotel com o qual fechamos contrato a alguns meses.

Yue Shen entrou no jogo e Shi manteve-se bem ao lado de Yan Da, o mais próximo possível, enquanto a maga negra se mantinha na linha de visão dos dois bloqueando o corpo dele de um possível ataque externo, seus sentidos atentos em todas as direções. Ela os levou até o carro e seguiu-os atrás durante todo o percurso, mas não havia mais sinal da presença ameaçadora.

Havia começado.

※※※

Ying Kong Shi e Yan Da entraram no condomínio juntos. O percurso até ali foi feito em um silêncio constrangedor. Ela queria perguntar sobre o que ele dissera antes, mas não encontrava palavras para tal, era claramente uma espécie de declaração, mas no fundo tinha medo de ouvir uma confirmação.

Por ter uma reunião com o irmão, Shi não se demorou e apenas certificou-se que ela ficaria bem em casa, reiterando que poderia chama-lo a qualquer momento caso precisasse de alguma coisa. Após ter certeza que tudo estava em ordem, ele a deixou no apartamento e voltou para o elevador seguindo para a própria casa.

— Ge?

Tudo estava muito quieto quando entrou em casa. Não havia qualquer sinal de que Ka Suo havia sequer levantado da cama. Estranhando o fato — uma vez que Yue Shen garantira que o irmão queria uma reunião — ele foi até o quarto dele, mas estava vazio, a cama desfeita como se ele tivesse saído às pressas. Foi até o escritório, mas também estava vazio.

Shi voltou para a sala a fim de pegar as chaves do carro e sair atrás dele, foi quando a presença da figura na sala entrou no seu campo de visão. Ele sentiu um estremecimento, era o mesmo homem que vira das outras vezes, que parecia um espectro lhe assombrando como se desejasse fazê-lo acreditar que enlouquecera. Ele deu um passo para trás, o coração batendo agitado no peito, tentou escapar pela porta, mas descobriu que esta não abria.

— Sinto muito, Shi wàngzi. — Disse ele em tom pesaroso. — Receio que isso será um tanto quanto doloroso.

A mente de Shi ficou embranco, o homem ergueu um cubo estranho que pairou a alguns centímetros da sua mão como se sustentado por telecinese, uma luz forte começou a sair dele em feixes dourados, brancos e azuis, as pernas dele cederam e se viu caindo no chão, ajoelhado, um zumbido agudo em crescente na sua cabeça parecia perfurar seu crânio, era uma dor insuportável. Shi não tinha certeza se gritara, mas num átimo de segundo o mundo à sua volta desapareceu e ele foi tragado pelo vazio infinito.

*Flor de pêssego frívola — homem que flerta com mulheres sem se preocupar com a conduta. Referência de Mo Dao Zushi.