Love as Sakura | 爱如樱
27 第25章 Asas quebradas
Ying Kong Shi expirou profundamente sem saber o que realmente sentia no meio do pandemônio de emoções borbulhando em guerrilha no seu peito. Não conseguia assimilar tudo que ouvira e tampouco mesurar o tamanho da dor no coração de Yan Da. Queria matar Shuo Gang, como ele podia fazer algo tão vil com a própria irmã? Era inconcebível. Não entendia por que Yan Da não denunciara à polícia, por que continuava trabalhando para o pai, convivendo com aquele ser tão podre que era o irmão depois de tudo isso. O que ela não estava contando?
Ainda segurando a mão dela ele ofereceu um leve aperto como sinal de solidariedade. Havia milhares de coisas que Shi queria dizer e perguntar, mas nenhuma delas parecia certa para aquele momento e, ele sabia, nada do que dissesse poderia mudar a forma como Yan Da estava se sentindo. Dessa forma, ofereceu a ela o silêncio, na dúvida do que dizer costumava ser a saída mais segura. Quando interrompeu sua narrativa — deixando a sensação de haver muito mais a ser dito — ela caiu em uma espécie de contemplação, Shi havia até mesmo esquecido do compromisso familiar marcado para as oito horas, se houvesse sinal ali desconfiava que seu celular estaria vibrando loucamente.
— Zǒu ba. — Yan Da disse depois de um longo tempo, pondo-se de pé.
Os vagalumes se dispersaram com o movimento deles mergulhando a floresta em uma escuridão profunda. Yan Da ligou uma lanterna e a entregou para Shi, em seguida pegou outra para si e se pôs a guiar o caminho de volta. O jovem príncipe tinha a impressão de que ela lhe contara toda aquela história como uma forma de aviso, se ele chegasse perto demais, também seria um alvo. Um sorriso sombrio arqueou-se no rosto de Shi, ele desejava se tornar um alvo apenas para ter o prazer de eliminar aquela sombra negra da vida de Yan Da e ainda escapar ileso do assassinato sob a alegação de legítima defesa.
Um som estranho fez com que a jovem princesa estagnasse. Mirando o feixe de luz para todos os lados, Yan Da procurava a origem do som, mas nada parecia prestes a surgir por trás dos troncos gigantes das sequóias. Shi se perguntou se não seria Yue Shen fazendo sua guarda, mas descartou a ideia uma vez que já atestara que a guarda-costas — e ele ainda custava a acreditar nisso — era silenciosa como um fantasma. Outra vez o som, ele identificou como de galhos sendo pisados, havia alguém se esgueirando na escuridão. Ele se aproximou de Yan Da percebendo que ela tremia, em choque.
— Yan Da, está tudo bem, nada vai acontecer. — Tranquilizou-a segurando sua mão.
— É ele outra vez... ele descobriu... ele...
— Shh... — Shi passou o braço por sobre os ombros dela puxando-a de encontro a si. — Eu prometo para você, aquilo nunca vai se repetir, tudo bem? Você está segura, vamos voltar para o carro e ir para casa, hao ma?
Os olhos aflitos de Yan Da vasculhavam cada centímetro ao redor, o coração agitado dentro do peito, as memórias tenebrosas de anos atrás voltando como fantasmas para assombrá-la, imaginou Shi Acorrentado pelos pulsos, o corpo sangrando por feridas violentas. Um tremor sacudiu seu corpo, Shi a virou para si e tocou seu rosto com uma gentileza redobrada.
— Yan Da, olhe para mim. — Pediu e ela hesitou antes de obedecer. — Ninguém vai machucar você, eu não vou deixar.
— Não é por mim que estou com medo. — Sua voz tremulou. — Eu só... eu...
Shi fez um leve carinho no rosto dela, sob a pálida luz das lanternas eles se olharam fixamente por longo tempo, involuntariamente, o rosto dele se aproximou, Yan Da ficou hipnotizada, o coração acelerado ela já não sabia se era por causa do medo ou da proximidade absurdamente maior entre eles, conseguia sentir a respiração de Shi tocar sua pele, então o flash surgiu na sua mente.
— Você nos odeia?
— Sim.
Abruptamente, Yan Da deu um passo para trás. A força da imagem golpeou-a como um soco no estômago, ela baixou a cabeça lutando contra mais essa onda de sensações
— Confie em mim, vai ficar tudo bem. — Garantiu.
Levou alguns segundos para ela se concentrar nas palavras dele e finalmente anuir e eles voltassem a caminhar. Shi disse a si mesmo que podia ser um animal ou um caçador — por mais improvável que alguém fosse até ali naquele escuro atrás de alguma coisa — e, sobretudo, ele confiava em Yue Shen. A agilidade com que ela segurara aquela flecha em frente ao seu rosto e o levara em segurança para dentro da empresa, além do fato de Ka Suo confiar nela, foram provas suficientes para ele acreditar que a mulher era capaz de mantê-los seguros.
※
E ela era.
Yue Shen atirou com uma habilidade mortal a agulha envenenada bem na jugular do homem que caiu inerte no chão. Não muito depois que Shi e Yan Da alcançaram a clareira, uma vã preta com cinco homens chegou ao local, a ex-assassina observou-os de perto enquanto subiam pela trilha, ela abateu o primeiro pendurando-se em um galho baixo de uma das árvores menores e, sentando-se no ombro do mercenário, golpeou-o com força na cabeça usando as mãos nuas. Deu um salto elegante para trás e o homem caiu inconsciente.
Movendo-se silenciosa entre os troncos gigantes das árvores, ela foi eliminando um a um os homens com agulhas envenenadas — bem ao seu estilo original — antes mesmo que conseguissem parar a dez metros de onde o príncipe e a princesa estavam. Contudo, o primeiro que ficara desacordado não estava mais lá quando ela voltou. Murmurando uma imprecação, Yue Shen correu até a clareira olhando para todos os lados em busca de qualquer sinal de alerta. Garantindo que Shi e Yan Da estavam seguros, ela não teve como não ouvir boa parte da história contada pela princesa do fogo sobre o final trágico do seu amigo orquestrado pelo crápula que ela chamava de irmão.
Por ter tido uma irmã, Yue Shen compreendia laços fraternais e o que eles significavam. Shuo Gang era indigno daquele título. Fechando os olhos — e deixando, com muito custo, a indignação de lado — ela se concentrou nos sons, separando a voz da princesa dos barulhos feitos pela floresta e o que mais estivesse nela. Não havia nada. Ela se manteve perto dos dois, por precaução, e munida de óculos de visão noturna — um dos artefatos mais interessantes que encontrara naquele mundo — seguiu silenciosa os dois pela trilha e no momento que Yan Da parou, olhou em volta na busca pelo bandido. Não imaginava — dado o nível baixo de dificuldade que teve para derrubar os outros quatro — que o homem podia estar ainda no encalço dos dois depois de ter sido golpeado daquela forma, mas por um lado ficava feliz, ela gostava de derrubar os corajosos.
Esgueirando-se por entre as sequóias, Yue Shen mapeou o local em volta das duas altezas, contudo, não viu ou sentiu a presença de ninguém. Se havia mesmo um bandido ali, fora embora ou era tão cauteloso quanto ela. O medo da assassina era que o homem estivesse armado, repreendeu-se mentalmente por não ter verificado isso quando o derrubou, mas a pressa a impediu visto que queria impedir que os outros quatro alcançassem Shi e Yan Da. Meneou a cabeça, não era hora para isso, Shi conseguiu acalmar a princesa e os dois retomaram a caminhada lenta, Yue Shen seguiu bem atrás atenta a todos os movimentos à volta.
Mais próximo ao local onde o jovem príncipe estacionara seu carro, ela avistou o homem atrás de um dos troncos. Agilmente, Yue Shen moveu-se pelo local do modo mais silencioso possível e conseguiu intercepta-lo antes de ele sequer pensar em mostrar o rosto ao casal. Fechando o braço em torno do pescoço dele, ela murmurou baixinho:
— Só vou fazer essa pergunta uma vez, você escolhe me responder e viver ou morrer com a resposta. — Seu tom era ameaçador. — Quem enviou você, nome e sobrenome. Melhor responder depressa, não costumo ser paciente.
O homem resfolegou tentando se soltar, mas se vendo completamente subjugado por ela. Yue Shen apertou mais o gancho de braço no pescoço dele e ouviu um pequeno estalo, trapaceando, o sujeito tentou alcançar um punhal no sobretuto que usava, mas ela foi mais rápida e pegando a faca tapou a boca dele e esperou que Shi e Yan Da seguissem caminho antes de cravar a lâmina na coxa dele sem piedade.
— M-M-Meng Sh-Sh-Shuo Gang! — Ele revelou sentindo a dor subir por todo seu corpo depressa como um veneno.
— Muito bom, estou quase cogitando ser misericordiosa. — Ela sorriu. — Quase. Há mais de vocês esperando lá embaixo?
Ele negou com a cabeça.
— Nunca esqueço um rosto quando vejo, o seu está bem gravado na minha memória, então se eu o vir outra vez, você não vai ver o próximo nascer do sol, entendeu?
Quando o sujeito assentiu outra vez, Yue Shen o largou no chão e atirou a faca longe fazendo a lâmina cravar em um dos troncos. Imobilizando-o, ela seguiu atrás do casal arrastando o homem consigo, desconfiada que pudesse ter mentido a respeito de não haver mais ninguém tentando emboscar os dois. Ka Suo podia querer interrogar o bandido. Se era Shuo Gang por trás daquilo outra vez, ele logo se daria conta que a situação era diferente agora e ele não estava no comando.
Ela faria questão que ele soubesse disso.
※
Yan Da só se acalmou completamente quando os dois entraram no carro sem maiores problemas e seguiram de volta para Guihua de onde partiriam após reabastecer o carro. Talvez, contar tudo aquilo para Shi a tenha deixado paranoica, o medo de repetir com ele os mesmos erros que cometera com Peng Yan era uma sombra em volta do seu coração. Ele não havia dito nada sobre o que ouvira e a princesa do fogo já se fazia acreditar que, depois daquele dia, nunca mais o veria outra vez. Parte de si se sentia aliviada com isso, não queria que Shi também fosse uma vítima do fardo que ela carregava, em contrapartida sua outra parte — e essa era mais forte — estava profundamente magoada com o fato.
Quando olhava para Ying Kong Shi, mesmo contrariando todas as possibilidades, ela não podia evitar aquela sensação profunda de reconhecimento, o sentimento sem nome que inflamava seu coração. Algo que ela não sentia desde que conhecera Peng Peng, mas dessa vez tinha um peso muito mais intenso. Por vezes, pensava que era como se sua alma reconhecesse a alma de Shi. Mas ela sempre meneava a cabeça afastando o pensamento. Yan Da não acreditava nesse tipo de coisa, aprendera na prática que a única coisa trazida pelo que chamavam de amor era sofrimento.
Ela nunca mais se permitira aquele tipo de fraqueza outra vez.
Ainda assim, era impossível ignorar aquela dor no seu peito quando olhava para Shi, o amargor quando ele não estava e até mesmo sua obsessão que o transportava para todos os seus sonhos. Contudo, ela era forte o bastante para resitir a tudo aquilo, se encontrara em si forças para sobreviver aos anos infernais que sucederam a morte de Peng Peng não havia uma prova mais concreta de que era dona e senhora dos seus sentimentos. Ying Kong Shi percebeu que ela estava muito contemplativa, não tinha certeza se era pelo que acabara de lhe contar ou pelo medo qe ainda assombrava seu coração, ainda assim, temeu falar alguma coisa e piorar a situação, não tinha muito jeito com esse tipo de assunto, na verdade, tudo relacionado a Yan Da era um aprendizado para ele. Por mais que levantasse mil tipos de frases na sua mente, era incapaz de externar o que realmente queria dizer a ela.
— Você está mesmo bem? — Perguntou finalmente quando chegaram ao pequeno posto para abastecer o carro.
— Sim. — Mentiu. — Só um pouco cansada, vai melhorar quando dormir um pouco.
— Por que não deita no banco de trás, acordo você quando chegarmos. — Ele sorriu. — Vou dirigir um pouco mais devagar para não balançar muito.
— Obrigada.
Ela o brindou com um sorriso doce e aceitou sua sugestão. Apesar de não estar realmente com sono, Yan Da desejava poder dormir para acalmar o nó que doía em sua garganta, o tremor que sacudia seu coração e afastar as lembranças dolorosas que ainda reverberavam nas paredes da sua mente. Havia prometido, muitos anos atrás, não mais chorar por causa daquilo, mas todos os anos quebrava aquela promessa, mesmo ali ainda o fazia. O tempo parecia ter passado mais lentamente desde que chegaram ali, eram sete horas quando ela ligou a tela do celular, havia 83 chamadas perdidas de Pian Feng e uma mensagem de Chao Ya.
From: 潮涯
Anjinho, onde você está? Já tem um tempo que saiu e Pian Feng está prestes a colocar o nome de Ying Kong Shi na busca da Interpol. Mande mensagem ou ligue tão logo puder.
Recieved 6:45 pm
Yan Da deu um sorriso terno, aqueles dois haviam se tornado sua verdadeira família, uma que Shuo Gang não conseguira destruir, ela era grata todos os dias por tê-lo e a mensagem conseguiu trazer um pouco de conforto ao seu coração. Mesmo que Ying Kong Shi fosse embora ela não estaria sozinha.
Nunca mais.
Digitou rapidamente uma mensagem de volta tranquilizando o amigo e acomodou-se na confortável cama improvisada em que Shi transformou o banco traseiro do carro. Fechando os olhos, abraçada a uma das almofadas, Yan Da adormeceu.
※
Shi não estava errado. Havia doze ligações perdidas de Ka Suo. Com um suspiro, ele olhou para o carro, Yan Da havia se acomodado no banco de trás e aparentemente dormia, ele se afastou alguns passos e telefonou de volta para o irmão.
— Shi, você não virá?
— Não ia começar às oito? — Retrucou. — Ainda tenho tempo de chegar.
— Você sabe como nossos pais são, já perguntaram por você três vezes.
— Estou indo apenas por causa da vovó, sei muito bem o que eles querem comigo. — Soltou uma lufada de ar. — E no momento o compromisso que eu tinha era mais importante que um jantar em família.
— Não diga isso, é o aniversário de oitenta anos da vovó. — Protestou.
— Ge, a vovó vai viver pelo menos até os cento e cinquenta anos, pode apostar. — Sorriu. — Ela ainda vai enterrar todos nós e contar a história.
— Você não muda. — Havia uma nota de divertimento na voz dele. — Vou distraí-los até você chegar.
— Distraí-los? — Bufou, irritado. — Advirta-os que na primeira pergunta sobre netos eu vou embora.
Ka Suo deu uma risada e prometeu que faria o que pudesse, então eles encerraram a chamada. Olhando em volta, o príncipe do gelo procurou por Yue Shen, a guarda-costas devia ter alguma coisa a ver com o que acontecera mais cedo. Não precisou esperar muito até que ela se aproximasse com as roupas pretas sob o sobretudo até os joelhos — muito estilo Matrix, pensou ele — e as botas de cano médio. Yue Shen transbordava sensualidade e perigo.
— Gongzi*, algum problema? — Quis saber.
— Estava prestes a perguntar a mesma coisa. — Retrucou. — O que houve lá em cima?
— Algumas pessoas suspeitas chegaram, eu as tirei do caminho, mas uma delas conseguiu escapar. Foi isso que a jovem dama Meng ouviu. Eu o neutralizei antes de causar qualquer dano. — Explicou de forma quase militar.
— Ne—neutralizou? — A expressão de Shi era de espanto. — Quem eram? E quem os mandou?
— Não se preocupe com isso, gongzi, lhe asseguro que não vão voltar.
A expressão dela não dava margem para dúvidas.
※※※
Seis anos atrás...
Hu Bing a encontrara junto ao corpo de Peng Yan após receber dos sequestradores a ligação indicando o local da "desova". O coração do irmão mais velho se quebrou em milhões de pedaços quando avistou a irmã gritando em desespero pelo amigo morto. Sentiu-se não apenas impotente, mas responsável pelo que aconteceu a Yan Da e Peng Yan, se ele não os tivesse deixado ir sozinhos... mas os "e se" não serviam de nada. Eles não podiam reviver Peng Yan e tampouco apagar os momentos de tormento da mente de Yan Da.
— Meu amor — ele se abaixou ao lado dela segurando-a com delicadeza —, eu sinto muito... sinto tanto...
Os olhos de Hu Bing encheram de água enquanto tentava consolar a irmã, mas não havia nada capaz de tirar aquela dor de Yan Da. Por fim, seu corpo desgastado e ferido não suportou mais tempo e ela ficou inconsciente. Os policiais chegaram ao local junto com os paramédicos, ele acompanhou a irmã na ambulância e o corpo de Peng Yan ficou para ser avaliado pelo legista antes de ser removido.
Foram retiradas 72 agulhas do corpo de Yan Da. Além disso, a perna quebrada foi outro problema grave devido ao tempo da fratura que inchara bastante e por bem pouco não bloqueara o fluxo de sangue no local. Ela ainda apresentava sinais de desnutrição, estresse grave, duas costelas fraturadas, uma entorse no pulso — e ambos estavam, tal como os tornozelos, muito lascerados — e uma lesão no estômago.
Yan Da foi submetida a uma pequena cirurgia na perna e outra no estômago para reparar os danos. Os médicos a mantiveram sedada por algumas semanas para evitar que, caso ela estivesse em um estado emocional muito agitado, atrapalhasse a recuperação. Hu Bing a internou em uma clínica particular e pediu ao advogado para conseguir uma ordem de restrição para visitas à irmã.
Quando voltou à consciência, Yan Da teve um ataque histérico ao ver Shuo Gang ao lado de Huo Yi pelo vidro do quarto onde estava internada. Ela começou a gritar chamando o irmão de assassino, Hu Bing, junto com a enfermeira, tentou acalmá-la, o médico pediu que o pai e o irmão saíssem dali e, quando Yan Da começou a tossir sangue, ele a sedou novamente pedindo novos exames e movendo-a mais uma vez para a terapia intensiva. Após esse episódio, a ordem de restrição foi rapidamente aceita e apenas Hu Bing passou a ter acesso à irmã. Ele contratou dois investigadores particulares com a esperança de encontrar alguma prova que ligasse Shuo Gang à morte de Peng Yan e o sequestro de Yan Da, dois dos homens responsáveis pelo sequestro foram localizados e presos, mas se recusaram a falar o mandante do crime. Dois dias depois apareceram mortos em suas celas. Ele moveu todos os meios possíveis para ligar o irmão ao crime, mas era apenas a palavra de Yan Da contra a de Shuo Gang, não havia qualquer prova que pudesse ser usada.
A recuperação de Yan Da foi lenta e difícil, ela entrava em pânico quando via agulhas, arrancou o cateter da mão incapaz de suportar o aço sob a pele e o gesto acabou ferindo a pele. O psiquiatra hospitalar foi chamado para atendê-la, ele receitou um antispicótico e o acompanhamento conjunto com um psicólogo, mas toda vez que o assunto do cativeiro vinha à tona, ela tinha uma violenta crise de pânico quase imparável, até o ponto de parar completamente de falar, fechar-se em si mesma, tornar-se alheia da realidade. Hu Bing foi aconselhado a internar a irmã em uma clínica de repouso, mas se recusou, ele trancou a faculdade para dar toda a assistência que ela precisava e em nenhum momento saiu do seu lado. Ela ficava por horas olhando o céu em um silêncio meditativo, às vezes, lágrimas silenciosas caíam pelo seu rosto, noutras apenas erguia o braço como se quisesse tocar o firmamento.
O irmão mais velho de Yan Da também ofereceu toda a assistência para o funeral do seu melhor amigo, infelizmente, devido à sua condição, ela não pôde participar, mas ele a representou, oferecendo as condolências à Jichen em nome dela e prestando dignas homenagens àquele que tanto bem fez ao coração solitário de Yan Da. Mais do que nunca, Hu Bing estava disposto a se formar para conseguir todos os meios disponíveis e um dia levar Shuo Gang à julgamento fazendo-o pagar por toda crueldade que fez à irmã. Ele prometeu a si mesmo — e a ela — que descobriria a verdade e o puniria com todo o rigor. Para isso, não se contentaria em ser um simples advogado, ele subiria ao mais alto nível de magistratura, no dia que Shuo Gang fosse pagar pelos seus crimes, Hu Bing queria ser o próprio que leria sua sentença em alto e bom som.
Ele fez todos os arranjos para transferir a matrícula de Yan Da para Xangai, assim como sua própria. Levou quase um ano para ela dar mostras de um avanço na sua recuperação emocional, ela nunca lhe contou o que aconteceram naqueles vinte e nove dias em que esteve presa e ele nunca perguntou. Respeitava a decisão da irmã, queria, se possível, que ela fosse capaz de esquecer.
Mas não esqueceu. Não esqueceria nunca.
Depois do sequestro, Yan Da não era mais a mesma. Hu Bing tentou ter acesso ao laudo de Peng Yan, mas descobriu que, tal como todos os demais registros médicos — e o próprio legista — havia desaparecido. Também os registros médicos da irmã foram levados, a mídia nunca noticiou nada sobre o caso e o inquérito policial foi arquivado. Embora não tivesse certeza se Huo Yi sabia que Shuo Gang estava por trás de tudo aquilo, ele estava certo de que era ele que estava limpando as evidências que poderiam levar alguém a descobrir a verdade. Dez milhões de dólares não era uma quantia fácil de manipular, mesmo Huo Yi ficaria furioso se soubesse que o filho favorito escolhera aquela maneira de aplicar um golpe nele. Não. Shuo Gang agira sozinho.
Entretanto, pensando bem, ele não era inteligente àquele ponto, certamente havia alguém com cérebro por trás auxiliando-o, Hu bing chegou a conclusão que, pegando o cérebro da operação, seria capaz de encurralar o irmão de uma vez por todas. Essa, não obstante, era a parte difícil. Ele não sabia sequer por onde começar a procurar, ligou para um dos detetives e mandou que levantassem todas as conexões e possíveis contatos do irmão.
Quatro meses após Yan Da voltar a falar o mínimo e recuperar um pouco as energias, os dois se mudaram para Xangai. Ela não teve problemas em recuperar o tempo perdido, era muito inteligente e dedicada, estudar também era uma maneira de fugir dos seus pensamentos intrusivos e das memórias dolorosas que insistiam em assombrá-la. Nas noites, os pesadelos ainda a mantinham alerta ou aos gritos, nesses momentos Hu Bing estava sempre ao seu lado, confortando-a, prometendo que tudo ficaria bem.
Mas não ficou.
Nada, nunca mais, seria a mesma coisa.
※※※
Yue Shen revirou os olhos enquanto, no porta-malas, o homem se remexia inquieto com as mãos e os tornozelos amarrados. Ela pensou que ele estava ativo demais para alguém com um ferimento tão profundo na perna e avaliou se não era uma boa ideia parar para "acalmá-lo" um pouco. O ritmo do príncipe era mais lento e, por não ver a princesa sentada no banco do carona, imaginou que ela estaria dormindo no banco de trás. Era um bom avanço, disse a si mesma. O esforço de todos eles finalmente mostrava sinais de recompensa. Ela nunca havia sentido tão viva a esperança de uma vida ao lado de Huang Tuo como naquele momento.
Tocando no painel do carro, ela deu um comando de voz para a ligação com o rei do gelo, queria fazer seu relatório para demorar o mínimo possível já que o soberano ia se encarregar do irmão pelo resto da noite. Ela desejava voltar para o médico tão logo pudesse.
— Yue Shen. — A voz do rei soou baixa, ao fundo, sons de conversa podiam ser ouvidos.
— Wàng, relatando. — Começou Yue Shen. — Não houve maiores problemas entre Shi wangzi e Yan Da gongzhu. Contudo, Shuo Gang enviou homens atrás deles. Ouvi um pouco do relato da princesa, ao que parece o príncipe do fogo está por trás da morte de Peng Yan, da tribo do espírito do vento. Yue Shen traz o sobrevivente dos bandidos para interrogatório.
— Muito bem, Luna, você nunca falhou comigo. — Ka Suo estava aliviado e satisfeito. — Leve o homem para Liao Jian até que eu possa cofrontá-lo.
— Shì, wàng. Estou escoltando o jovem príncipe de volta para a cidade. Devemos chegar em segurança por volta de uma hora, sugeri uma rota alternativa. Contudo, ele pode se atrasar entre trinta a quarenta minutos para o compromisso.
— Não tem problema, já dei uma desculpa para isso.
— Wàng, Yue Shen solicita sua permissão para uma visita de advertência ao príncipe Shuo Gang.
— Concedida. Se ele está mesmo por trás da morte do jovem Peng Yan precisamos estar em alerta com ele também. Talvez ele pense melhor os próximos passos se souber que não está no controle de tudo. Shuo Gang sempre teve um comportamento impulsivo acreditando que era o dono do mundo.
— Deixarei claro que não é. Agradeço sua permissão, majestade.
— Mas descanse hoje, você trabalhou duro. Obrigado mais uma vez.
Ela agradeceu e desligou satisfeita tanto pela aprovação do seu soberano quanto pelo prazer que sentiria ao confrontar Shuo Gang. Por sorte, não voltava de mãos vazias, ela havia recolhido as pedras do caminho e seria ela a atirar contra o teto de vidro do príncipe do fogo.
Yue Shen mal podia esperar.
*Gongzi [公子] — como mencionado anteriormente, essa palavra pode ser expressa como "jovem mestre", "mestre".
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