Love as Sakura | 爱如樱

76 第62章 Os dias passam - Parte I


Huang Tuo, Liao Jian e Xing Jiu estavam na sala de estar do apartamento provisório recém alugado de Ka Suo. Desde que tomara a decisão de sair do país para estudar gastronomia, não desejava ficar na mansão dos pais e se submeter às diversas tentativas de Chen Tong em demovê-lo da ideia de abandonar a empresa pela cozinha. Nenhum dos três sabia o motivo daquela pequena reunião, uma vez que o ex-empresário fora vago em seu telefonema convidando-os para irem vê-lo. Ka Suo veio da cozinha com uma bandeja contendo chá fresco e alguns biscoitos. Também trouxe aperitivos. Para Xing Jiu, ofereceu café forte, mas como ainda era cedo não quis dar álcool para Liao Jian.

Embora estivessem curiosos quanto ao chamado do antigo rei, nenhum deles fez qualquer pergunta, limitaram-se a servir-se esperando que o empresário contasse a razão de estarem ali. Ka Suo ficou por algum tempo em silêncio, o médico — que o conhecia um pouco melhor que os demais — percebeu certo constrangimento na maneira como ele permanecia meditabundo antes de finalmente se pronunciar.

— Obrigado por terem vindo. — Começou um tanto sem jeito. — Estou consciente que não tenho direito de pedir nada a nenhum de vocês e conto que estão aqui como meus amigos.

— Ka Suo, o que aconteceu? — Liao Jian quis saber. — Sinceramente, estou ficando assustado com a sua hesitação.

— Pode pedir o que quiser. — Salientou Xing Jiu. — Se estiver ao nosso alcance, faremos o melhor para ajudá-lo.

Os outros dois balançaram a cabeça em concordância com a colocação do, agora, mestre em TI. O empresário sentiu-se sinceramente comovido e grato pela amizade, desde o começo não teria conseguido nada sem eles. Nunca seria capaz de pagar a dívida que tinha com todos.

— Estarei indo para Londres em poucos dias. — Anunciou. — Já deve ser de conhecimento de vocês que Shi vai assumir a ZhangYing.

— Ah, sabemos sim. — Huang Tuo sorriu. — Isso é o que chamo de plot twist.

— Por favor, ajudem-no. — Pediu. — Sei que o feitiço de invocação está ativo, ajudem Yan Da a chegar até ele.

— Hmm, e como exatamente poderemos fazer isso? — Xing Jiu perguntou.

— Tenho algumas ideias. — Seus lábios se arquearam em um sorriso travesso.

— Adoro conspirações. — Brincou o médico. — Sou todo ouvidos.


— Xing Jiu, vou deixar com você um patrimônio líquido de aproximadamente doze milhões* de yuan para que invista na sua empresa de tecnologia. — Explicou. — Yan Da está estudando design de jogos, Pian Feng me disse. Incorpore isso no seu ramo de trabalho e atraia ela para ser membro da sua equipe.

Xing Jiu estava estupefato. Mesmo conhecendo a generosidade de Ka Suo, aquele era um valor muito alto para se investir em uma empresa. Não sabia como verbalizar um agradecimento e ficou paralisado por longo tempo até Liao Jian balançar a cabeça dele em anuência com a mão para fazê-lo acordar.

— Ei, garoto estrela, não trouxe nenhum balão de oxigênio comigo, só desentalar o “obrigado, Ka Suo” antes de desmaiar. — Provocou Huang Tuo.

Ka Suo e Liao Jian riram e Xing Jiu ficou vermelho.

— Confio no seu trabalho. — Emendou o empresário. — Além disso, sua vinda a este mundo também é minha responsabilidade, está treinando Xun Hao no seu ramo, você é o único de nós que não tem a vida encaminhada, merece isso. Liao Jian vai ajudá-lo com as questões burocráticas e tenho certeza que Yue Shen não se incomodará em auxiliá-lo nas questões corporativas. Te deixo em boas mãos. Além disso, você é o personagem principal na volta de Yan Da à Guāng Chéng.

— Não sei o que mais posso te dizer além de obrigado... — Murmurou o hacker. — Nada parece ser grande o suficiente para me expressar.

— Quando estiver estabilizado, converse com Shi, a empresa de assistência técnica na segurança digital precisa ser trocada já a algum tempo. — Sorriu. — Liao Jian, como advogado, gostaria que representasse Yan Da na corte. Imagino que Hu Bing esteja procurando um advogado para representar a irmã e mantê-la longe do tribunal.

— Deixa comigo. — Anuiu o advogado. — Ligarei para ele imediatamente.

— E eu? — Quis saber Huang Tuo. — Até onde me consta todos estão em excelente forma, no que precisa de mim, pílulas para dormir?

— O que tenho a pedir a você é mais delicado. — Um sorriso triste se formou no rosto do empresário. — Huang Tuo, você é a pessoa em quem Shi mais confia, neste mundo vocês desenvolveram uma proximidade que me agrada muito e, mesmo no passado, ele sempre depositou grande confiança em você. Se posso te pedir algo, por favor, fique ao lado do meu irmão como tantas vezes aqui quando não pude alcançá-lo. Mais do que nunca, ele vai precisar de você.

— Não precisava nem me pedir isso, Ka Suo. — O médico sorriu, comovido e feliz. — Sempre estive de olho no floco de neve problemático, por que descuidaria agora? Ainda tenho provocações a fazer, não vou perdê-lo de vista até que se case e tenha filhos.

— Obrigado. — Ele olhou os três amigos. — Não sei como agradecer a todos vocês pela amizade e o apoio sempre.

Os três sorriram para o antigo monarca, então Huang Tuo pareceu lembrar-se de algo, seu rosto se iluminou com um daqueles sorrisos marotos e endiabrados de quando estava prestes a provocar alguém, ele então pousou a xícara sobre o pires e voltou-se para Liao Jian.

Dui le, Liao Jian, se bem me recordo, você me disse que caso sobrevivêssemos daria todo seu dinheiro para mim. — Apontou para ele. — Eu disse que tinha uma excelente memória e cá estamos nós, vivos!

— Sabia que minhas palavras me assombrariam um dia. — O advogado suspirou apertando a ponte do nariz. — Muito bem, promessa é dívida.

Aya, você é sério demais, homem! — Revirou os olhos. — Claro que não vou te deixar na miséria. 20% é mais que suficiente.

— Justo. — Riu. — Me manda teus dados bancários, vou transferir no fim de semana.

— Está falando sério? — Xing Jiu estava incrédulo.

— Vinte por cento de tudo que acumulei desde que vim para cá não é uma perda tão grande. — Liao Jian deu de ombros. — Além disso, eu prometi. Seria errado não cumprir.

— Huang Tuo, você não tem escrúpulos, o que vai fazer com tanto dinheiro? — Riu o hacker.

Ya, eu estou reivindicando o que me pertence. Nunca o forcei a prometer nada. — Defendeu-se. — E o que mais eu poderia fazer além de levar minha esposa para viajar? Casar custa caro, sabia?

— Já pediu Yue Shen em casamento? — Liao Jian estava surpreso.

— Ainda não... — Suspirou. — Quero que Shi se estabilize primeiro. Quando tivermos certeza que Yan Da está a caminho, vamos dar um passo adiante, foi o que combinamos. Sabem que conto com vocês, não é?

— Não perderia isso por nada. — Alegou Ka Suo e os outros dois concordaram.

※※※‌

— O quê? — Hu Bing estava furioso. — Mas isso é um absurdo!

— Os funcionários da empresa e o seu pai são testemunhas oculares que a senhorita Meng esteve no escritório do irmão no dia dos fatos. — O segundo juiz responsável pelo caso estava inexorável. — Precisamos apurar o caso.

— Não vou submeter minha irmã a isso, ela é a vítima aqui! — Protestou.

— Meritíssimo, como parente direto da acusada, o senhor não pode interferir na apuração desse inquérito. — Objetou.

— Minha cliente não tem nada a ver com essas alegações absurdas.

Os dois juízes olharam para trás, surpresos com a interrupção. Liao Jian se aproximou dos dois segurando uma pasta e trajado formalmente, trazia uma expressão austera que dava ainda mais visibilidade ao seu porte imponente.

— O senhor Meng está apenas usando isso como subterfúgio para incriminar a vítima desse caso e tirar o foco da sua própria condenação. — Disse ele, com voz grave. — Além disso, comparando a altura dos dois, o peso e a compleição física da minha cliente, seria improvável que ela tenha conseguido cometer tal ato violento contra ele.

— E o senhor é? — O outro juiz quis saber.

— Liao Jian, advogado representante da senhorita Meng Yan Da. — Apresentou-se. — Tenho aqui comigo um atestado psicológico que isenta minha cliente de qualquer participação neste juízo devido a traumas relacionados ao caso em questão, dessa forma, estou aqui para representá-la. Sem contar, meritíssimo, que todas as testemunhas oculares viram minha cliente entrar na sala do irmão de mãos limpas, portanto, a menos que o senhor esteja me dizendo acreditar no depoimento alegando “mãos incandescentes”, creio que não há mais nada a relatar sobre esse assunto.

O velho senhor analisou o atestado psicológico de Yan Da enquanto Hu Bing escrutinava o homem diante de si. Quando Liao Jian lhe telefonara dias atrás sobre a defesa da irmã ele não concordara de imediato, dissera que podiam marcar uma reunião antes para decidir. Estava feliz pelo fato de o advogado não ser o tipo que escuta ordens. Tirando um segundo papel de dentro da pasta, ele depositou-o diante do juiz.

— Esta é uma cópia do documento de perícia da estátua utilizada para infertilizar o senhor Meng. — Continuou. — Segundo o peso do objeto e considerando a força física da minha cliente, que também tenho documentada caso deseje ver, seria improvável que ela tivesse a força necessária para infligir um dano tão severo no irmão.

— Então como o senhor explica a presença da sua cliente na cena do crime?

— Cena do crime? — Liao Jian ergueu uma sobrancelha. — Se o ato alegado pelo senhor Meng constitui isso, esteja certo que minha cliente não tem nada a ver com o fato. É de conhecimento desta corte que o senhor Meng tem negócios ilegais e deixou alguns meliantes irritados por não pagamento de seus serviços, minha cliente esteve no escritório unicamente para confrontar o réu acerca do crime cometido contra ela. Não foi a primeira e nem a única pessoa a entrar na tal “cena do crime”, especialmente porque o pai do réu, também acusado por esta corte, não deu declarações formais a respeito e tampouco apresentou provas concretas do suposto ato no qual acusam minha cliente, reitero, uma vítima nesse caso.

— As impressões digitais da sua cliente estão na escultura.

— Meng Yan Da era uma funcionária da Huo Enterprises. — Esclareceu. — Ela estava no escritório junto com outras dezenas de funcionários que podem ter tocado o objeto em algum momento. O senhor, por acaso, tem alguma prova que apenas as digitais da minha cliente foram encontradas na escultura?

O juiz ficou em silêncio sabendo que Liao Jian fora preparado com provas que inocentavam Yan Da dos atos de que a acusavam. Não havia quaisquer provas irrefutáveis que apontavam a violência contra Shuo Gang para ela, além do fato de a princesa do fogo ser de baixa estatura comparada ao irmão e muito magra. Ele sabia que ela havia usado os poderes para se vingar de Shuo Gang, mas nem ele e nem ninguém mais poderia provar aquilo.

— Muito bem, se não há mais nada que ligue minha cliente a este caso, peço que o senhor Meng apresente um atestado de sanidade para corroborar sua alegação e apresente provas confiáveis contra minha cliente, tal como as testemunhas oculares que apenas a viram entrando na sala, mas não presenciaram nada do que ocorreu lá dentro. — Continuou. — Desejo que o senhor possa tirar o nome da minha cliente deste inquérito e tornarei a vê-lo como representante dela na audiência dos réus. Bom dia, meritíssimos.

Fazendo uma leve reverência, o advogado deixou na sala um Hu Bing satisfeito e o outro juiz irritado. Após obter a certeza que aquela acusação não seguiria adiante e Yan Da estava fora do foco de um inquérito que considerava absurdo, ele saiu atrás de Liao Jian que, para sua surpresa, o esperava no corredor. Hu Bing estendeu-lhe a mão que o advogado apertou com presteza.

— Muito obrigado pela sua ajuda lá dentro, senhor Liao.

— Apenas Liao Jian, meritíssimo. — Sorriu. — Não fiz nada mais que meu dever. Pian Feng me telefonou a pedido da sua irmã e me pediu para representá-la, recebi a procuração assinada por ela via fax essa manhã.

— Por favor, me chame só de Hu Bing. — Pediu o juiz, animado. — Aceitaria um café, Liao Jian, gostaria de fazer algumas perguntas. Ou você tem algum compromisso agora.

— Tenho uma reunião dentro de uma hora o que me dá tempo suficiente para um bom café. — Anuiu ele. — Será um prazer.

Os dois homens caminharam lado a lado pelo corredor atraindo atenção por onde passavam. Pela primeira vez em muito tempo, Hu Bing sentia as coisas finalmente dando certo para a irmã e não podia conter aquela felicidade. Faria justiça para sua princesa e finalmente poderiam viver em paz.

※※※‌

Shi ainda sentia-se estranho quando assumia a cadeira do presidente na sala de reuniões, especialmente ao ver o seu pai na cadeira onde o irmão sentava antes. Ka Suo viajara para Londres duas semanas atrás e apenas Lin Chao, Liao Jian, Shi, Yue Shen, Huang Tuo, Xing Jiu e Xun Hao estavam no aeroporto para se despedir, a mãe deles, ainda irritada pela decisão do primogênito, se recusou a ir. Lan Shang fazia breves chamadas de vídeo para os amigos matando a saudade e dizendo onde estava, pois sempre que ligava era de um lugar diferente. Shi estava feliz por todos os seus amigos estarem vivendo bem, Xing Jiu e Xun Hao montavam uma empresa de grande porte voltada para desenvolvimento de jogos, proteção digital e rastreamento em tempo real. Liao Jian, que se tornara muito próximo de Hu Bing, havia virado matéria dos jornais ao representar Yan Da no julgamento de Huo Yi e Shuo Gang que devia acontecer nos próximos dias.

Huang Tuo aprendera que mesmo tendo perdido a imortalidade, seu dom de curar era mais inerente do seu bom coração que do poder da sua tribo. Ele havia se tornado referência médica ao participar de seminários sobre cirurgias e apontar várias melhorias e novas técnicas menos invasivas em alguns procedimentos. Além disso, encabeçava um grupo de pesquisa em parceria com a Universidade de Harvard sobre identificação de células cancerígenas em pacientes assintomáticos. Yue Shen, após a parceria que a cadeia de hotéis firmou com a ZhangYing, dividia seu tempo com a administração da empresa dos pais e sua própria pequena empresa de segurança privada que treinava guarda-costas e já tinha uma ampla procura no mercado.

Fazia tempo que não via notícias sobre Chao Ya e Pian Feng, eles não andavam atualizando as redes sociais, mas, às vezes, a cantora telefonava discretamente para atualizá-lo sobre Yan Da. Como a carreira da musicista estava em hiatos, tanto ela quanto o namorado, aproveitava a estadia em Pequim ao lado da princesa que, segundo o relato, estava muito feliz e animada com o curso de design e desenvolvimento de jogos. A princesa, pelo que lhe contara a cantora, só telefonava para Hu Bing e Huang Tuo, não dando o menor sinal de lembrar-se dele. Chao Ya também lhe contou que ela havia perguntado quem ele era quando Pian Feng mencionara seu nome no hospital e, posteriormente a ela, quando o agente não mencionou mais o assunto, pediu desculpas por precisar mentir e o empresário não se sentiu, de nenhum modo, magoado, mas entendeu a situação.

O tempo passava lentamente e os dias se confundiam na rotina interminável. Shi se esforçava para permanecer firme, mas sua confiança vacilava tal qual sua alegria a cada minuto longe de Yan Da. Ele olhava o céu, a cidade, mas não encontrava cor ou estímulo e se ainda buscava forças dentro de si para enfrentar cada dia com o melhor que podia oferecer, era pela certeza que sua princesa estava lutando pela própria felicidade em algum lugar. A certeza de Yan Da estar viva era a única coisa que mantinha Shi respirando.

— Ying xiansheng, há alguém aqui que deseja vê-lo. — A secretária informou tirando Shi de seus pensamentos.

— Mande entrar, por favor. — Disse ele, sem lembrar sequer de perguntar quem era.

A moça saiu da sala após uma breve reverência e, segundos depois, Huang Tuo apareceu com seu sorriso carismático de sempre iluminando o rosto bonito. A última vez que o viu foi no aeroporto quando se despediram de Ka Suo. Ficou de pé para receber o amigo, não podia negar a alegria que tomava seu coração quando estava ao lado do médico, a aura curativa de Huang Tuo o preenchia amenizando a mais profunda das dores. Os dois trocaram um abraço terno e, como de costume, o curandeiro bagunçou os cabelos dele, Shi deu uma leve risada com a atitude de irmão mais velho que o fazia sentir-se em casa não importava onde estivesse.

— Você parece bem. — Apontou ele quando sentaram-se na sala de estar do escritório.

— Ando ouvindo isso com alguma frequência. — Sorriu. — Mas ao contrário de você que sempre parece incrível, devo gratificar meu esforço mais que a vontade.

— Se continuar desse jeito quando Yan Da voltar não vai ser capaz de te reconhecer nem segurando seu cartão de identificação. — Provocou o médico. — O que você precisa, meu amigo, é adiar suas reuniões matinais de amanhã e sair para beber comigo.

— Ora, e o renomado doutor Huang Tuo não está com a agenda cheia no hospital onde as pacientes ficam curadas só com a sua presença e as enfermeiras se estapeiam nos corredores pela sua atenção? — Rebateu o empresário com um sorriso diabólico.

Aya, cada um usa o tempo como quer, pirralho, você usa o seu pra ficar com essa cara de fantasma enquanto eu uso o meu para ser lindo. — Deu de ombros com um sorrisinho meigo. — Mas todas elas sabem que só tenho olhos para minha linda esposa.

— Você é um cínico, Huang Tuo. — Shi deu uma risada pela primeira vez em semanas. Pegando o telefone, disse à secretária que cancelasse seus compromissos da manhã. — É bom ver você, para variar.

— Estou sempre disponível, você que nunca me liga. — Fez beicinho fingindo mágoa.

— Continue assim e vou acabar contando à Yue Shen que está flertando comigo. — Ameaçou e Huang Tuo sorriu, convencido.

— Claro que não vai. — Provocou-o. — Com ou sem imortalidade você ainda se borra na frente dela.

Shi fingiu estremecer e os dois riram enquanto deixavam a sala da presidência e usavam o elevador privativo de Shi para chegar ao saguão.

— Como assim “me borro na frente dela?”, não diga absurdos.

Dui, dui, dui! — Concordou. — Você se borra na frente de qualquer mulher, ou pensa que esqueci quando Yan Da tirou a fruta do demônio de dentro de você?

O empresário se encolheu sabendo o que viria a seguir e, mesmo lutando para não corar, sentiu o rosto e as orelhas queimando, a risada de Huang Tuo ao vê-lo como um tomate maduro não ajudava em nada a situação.

— Por que trazer à tona algo que aconteceu há mais de quatro mil anos? — Devolveu.

— Ora, por quê?! — Reclamou o médico. — Todo um clima erótico quando ela te puxou pela abertura do hanfu, olhando bem nos seus olhos, puxando aquela pílula do mal enquanto os olhos imploravam que você a beijasse e você fez o quê? Foi embora! Ying Kong Shi, o que vou fazer com você? Do jeito que está vou ter que te dar aulas para a lua de mel!

— Está muito confiante por que não posso mais congelar sua cabeça? — Aquele velho sorriso gélido voltou ao rosto bonito de Shi. — Não esqueça que o louva-a-Deus persegue a cigarra, inconsciente do papa-figos que está atrás.

— Esse é o Ying Kong Shi que conheço e amo! — Sorriu Huang Tuo passando o braço sobre os ombros do mais jovem e abraçando-o apertado.

— Ainda chuto seu traseiro e você não vai sentar por sete dias! — Ameaçou o amigo com um tapa no abdome.

Estava claro para ambos o esforço que o antigo príncipe fazia para sorrir, o médico ficava, ao mesmo tempo, agradecido e preocupado em vê-lo daquela maneira. Não podia dar garantias do que aconteceria entre ele e Yan Da no futuro mesmo com as preparações de Ka Suo, mas torcia que Shi, tal qual a princesa, tivessem um final feliz. Shi disse a si mesmo que era bom passar um tempo com o amigo, para Huang Tuo ele não precisava fingir estar bem vestindo a máscara que usava o tempo todo. O curandeiro ainda conseguia puxar o melhor dele sem muito esforço. Sentindo o sol beijar-lhe o rosto, era a primeira vez em dias que Shi conseguia ver um pouco de cor no seu mundo cinzento.