Love as Sakura | 爱如樱

58 第53章 Sacrifício


Uma hora atrás

Huang Tuo voltou com os exames da princesa e pediu que o casal de amigos esperasse do lado de fora. Ele analisou o prontuário diante de Yan Da que, por longo tempo, nada disse. O curandeiro fez algumas breves perguntas e marcou algumas coisas de acordo com as breves respostas obtidas.

— Eu sinto muito. — Disse após um longo silêncio e a caneta de Huang Tuo parou sobre a prancheta.

— Por que sentiria? — Ele franziu o cenho. — Você não fez nada errado, Yan Da.

— Sinto muito pelo modo como agi antes. — Explicou. — Sinto muito por ter entrado naquele portal, por ter ficado ao lado do meu pai no passado, por não poder salvar sua vida agora. Por tudo isso, me desculpe, Huang Tuo.

O curandeiro colocou a prancheta no suporte e sentou na cama ao lado dela, sua mãe ergueu delicadamente o rosto de Yan Da para que o fitasse e ele segurou sua mão apertando-a com suavidade, os olhos dele eram tão sinceros e acolhedores, a princesa do fogo se sentiu preenchida por uma ternura que só conseguia encontrar em Hu Bing e no casal de amigos do lado de fora.

— Não há nada pelo que pedir desculpas. — Sorriu do mesmo modo doce e brilhante que lhe era costumeiro. — No seu lugar, talvez não fosse muito melhor. Sei pelo que você passou, Yan Da, vi cada injustiça e lágrima que marcou o seu coração e por mais que admita ser meu desejo poder ter a vida inteira pela frente ao lado de Yue Shen, ter filhos e poder construir algo sem as amarras de todo esse caos, eu nunca, e preste muita atenção nisso, nunca aceitaria que a minha felicidade fosse construída sobre o seu sofrimento, Yan Da.

Ele secou uma lágrima que escorreu pelo rosto pálido dela.

— Se tivermos que morrer será o nosso destino e não sua culpa. — Continuou. — Não me arrependo de ter cuidado de você, de poder ter visto seus raros sorrisos ou ter recebido sua amizade. Gosto de você por quem é, tenho orgulho das vitórias que te tornaram a mulher maravilhosa que é hoje e te peço perdão por não ter podido impedir as cicatrizes que você carrega nessa vida. Então, independente do que aconteça, não se culpe por nada, hao ma?

Huang Tuo deu um leve apertão na bochecha da princesa que sorriu com os olhos aquosos para ele. Yan Da se sentia agradecida, seu coração aquecido, inclinou o corpo e abraçou o médico que envolveu-a com afeto acariciando seus cabelos de modo fraternal.

— Obrigada, Huang Tuo. — Sussurrou. — Obrigada por tudo. Eu adoro você.

— A melhor forma de me agradecer é continuar sorrindo, hao bu hao? — Disse baixinho em resposta. — Também adoro você, minha paciente VIP.

— Hm. — Murmurou Yan Da em anuência. — Hao.

Eles se afastaram e o curandeiro ainda bagunçou levemente o cabelo dela deliciando-se com aquele sorriso. Yan Da pediu para usar o telefone dele ao que o médico não se opôs entregando-lhe o aparelho e saindo para lhe dar privacidade. A princesa abriu os contatos e franziu o cenho ao ver os nomes dos contatos sem conter uma gargalhada quando viu a foto de Yue Shen ao lado do nome “minha vida violenta” e o contato de Shi nomeado como “Floco de neve problemático”, enquanto ria no meio daquele caos assustador, a princesa do fogo se perguntava se havia como amar mais Huang Tuo. Seu coração encheu ainda mais de carinho quando viu que ele a nomeou como “princesa do fogo fofa”.

Recuperando-se, enviou uma mensagem para Shi, poucos minutos depois, Hu Bing surgiu no quarto.

— Da’er! — Ele se precipitou até a irmã, abraçando-a. — Pelos céus, ainda vou criar cabelos brancos de preocupação com você.

— Estou bem, da ge. — Tentou tranquiliza-lo. — Só uma queda de pressão, nada sério.

—Se está aqui não foi qualquer coisa. — Ralhou ele. — Se não fosse crime eu a manteria em um quarto de vidro à prova de balas e mísseis só para nunca mais te ver machucada.

— Mal está de volta e já exagerando. — Sorriu. — Se você e Pian Feng morassem comigo na mesma casa eu nunca encontraria um marido de tão mimada que seria.

Hu Bing fez uma careta ao ouvir a palavra marido, o que fez Yan Da rir. Talvez fosse o tempo que ficaram separados, mas ele não foi capaz de notar o sorriso triste no rosto da irmã de imediato, apenas quando seus olhos encheram de lágrimas e ela inesperadamente o abraçou, escondendo o rosto em seu peito como fazia quando criança, o cheiro amadeirado do perfume do irmão, ele a apertou com cuidado contra si beijando-lhe afetuosamente a cabeça.

— Senti sua falta, gege, muito. — Murmurou.

— Eu também, Da’er. — Ele apertou-a um pouco mais. — Nunca mais vou sair do seu lado, eu prometo.

— Sinto muito por tudo. — Chorou. — Me perdoe...

— Shh... você não tem que pedir perdão por nada, Yan Da. Nada do que aconteceu é culpa sua.

Ela ficou feliz por ele não entender que ela não estava se desculpando pelo passado, mas pelo futuro. Pelo peso que a decisão que tomara teria sobre ele. Suas mãos apertaram o paletó do terno de Hu Bing com todas as forças e Yan Da comprimiu os olhos até senti-los doer; o irmão não a soltou, como se desejasse sanar com aquele abraço os anos de culpa que lhe martirizaram enquanto construía sua vida longe dela. A princesa do fogo registrou cuidadosamente na sua mente a sensação do calor do corpo do irmão, seu perfume, o som suave e potente da sua voz.

Não desejava esquecer nada. As lembranças eram o que lhe daria forças para seguir em frente.

※※※

Pian Feng olhou o relógio de pulso pela enésima vez para irritação de Chao Ya que estava prestes a repreendê-lo outra vez. Ambos respeitavam a escolha de Yan Da em ficar sozinha com Peng Yan, especialmente dado ao tempo que ela não pudera vê-lo diante de todo o pandemônio que sua vida se tornara nos últimos meses. Mas desde o ocorrido, o guerreiro do vento se tornara obsessivo de tão superprotetor. Apesar de Chao Ya concordar que antes Yan Da precisava de assistência, agora ela tinha seus poderes de volta, era uma mulher forte e em total condição de se defender, irritava a cantora que o companheiro a tratasse como algo quebrável.

— Ela está demorando demais. — Observou ele checando a hora novamente.

— Pelo amor do manto de gelo, Pian Feng, deixe-a conversar com o amigo em paz. — Censurou-o. — Faz meses que ela não vem vê-lo, deve passar a primeira meia hora só pedindo perdão por ter faltado no seu aniversário de morte e no Qingming.

— E a outra meia hora, atualizando-o que sua vida está dando piruetas no meio de uma tempestade de raios? Porque faz uma hora e doze minutos que ela está lá dentro. — Apontou.

— Pare de ser tão paranoico, Yan Da não é nenhuma criança indefesa. Melhor que ninguém ela pode se defender.

Um raio caiu bem próximo ao carro e a cantora estremeceu.

— Olhe pelo retrovisor agora e verá como sua expressão contraria suas palavras. — Provocou o guerreiro.

— Tudo bem, vá atrás dela. — Suspirou. — Sinto falta de Xing Jiu.

Sem esperar mais, Pian Feng saiu do carro e, manipulando o vento, manteve o aguaceiro torrente longe dele enquanto abria caminho até o cemitério, sob a chuva forte, as lápides de pedra pareciam ainda mais solitárias e até mesmo sombrias, mas o que realmente fez a espinha do guerreiro gelar foi que, em uma primeira olhada, o cemitério estava vazio. Ele correu até o túmulo de Peng Yan, mas não havia qualquer sinal de Yan Da em lugar nenhum.

O coração de Pian Feng acelerou, ele percorreu todo o cemitério até o portão lateral, mas não havia ninguém ali. Voltando para o carro e ignorando, inclusive, o controle do vento que o mantinha seco, ele entrou de forma abrupta e deu a partida deixando Chao Ya confusa.

— O que houve, onde ela está? — Quis saber a cantora.

— Eu não sei! — Gritou Pian Feng sentindo o desespero tremular sua voz. — Ela não estava em nenhum lugar, Chao Ya, ela desapareceu!

Chao Ya queria perguntar como aconteceu, mas era claro que o marido não estava raciocinando direito, então procurou manter a calma e se concentrar em encontrar a princesa. Não podiam contar com Xing Jiu naquele momento, então ela tentou ligar para Shi, mas o telefone estava desligado e Ka Suo não estava atendendo. A cantora sentiu o medo sufocá-la, Yan Da não atendia o telefone e temia que aquilo fosse alguma artimanha de Lian Ji.

O carro do casal chegou na rodovia e tanto a chuva quanto os raios desapareceram como se nunca tivessem existido.

※※※

Momentos atrás...

Shi julgou que, pelo tempo, aquilo devia ser suficiente. Apesar de não se sentir enfraquecido, o constante uso da sua magia o deixou um tanto cansado de modo que se acomodou na poltrona do escritório e pôs-se a pensar por um momento no passo seguinte. Dali de dentro, os sons da tempestade soavam abafados como se estivessem saindo de caixas de som em algum aplicativo de sons ambiente. O jovem príncipe do gelo travava uma luta interna para não se concentrar na discussão que tivera com o irmão no que agora pareciam vidas antes.

Estava irritado com Ka Suo. Não importava sob que ângulo analisasse a situação, o irmão apenas omitiu algo que poderia ter adiado ou até mesmo evitado toda aquela situação. Mas devia ser mais do que a superfície deixava transparecer, afinal, Shi nunca sentira nada além, mas descartava a possibilidade de Ka Suo estar mentindo, ele nunca diria algo do tipo se não fosse verdade. Olhou para suas mãos como se buscasse vestígios de algum poder desconhecido, todavia, nada sentia.

“Quatro mil anos atrás, as estrelas gêmeas se alinharam e a roda do destino cessou seu fardo. Tu te sacrificaste para que vivesse teu irmão, cá estás agora para salvar aquela cuja vida findou-se em troca da tua, mas, príncipe do gelo, não vês? A roda do destino seu curso finda, as estrelas gêmeas seguem alinhadas, mas não mais o mesmo plano habitam, dentro de ti está a resposta a teu requerimento.”

Naquela ocasião, as palavras do fogo sagrado não fizeram sentido para ele, mas agora faziam e o aperto em seu peito era inevitável, restava-lhe pouco a ser feito, se quisesse salvar Yan Da, mas o destino dos seus amigos era tão incerto quanto seu próprio. Parecia a Shi que tudo voltara ao começo. Suspirou, sentindo-se estranhamente esgotado, quando seu celular anunciou uma mensagem recebida.

From: Huang Tuo

Encontre-me em Yi Cheng*[1] em uma hora. Yan Da.

Seu coração acelerou ao ler aquelas palavras e, rapidamente, procurou colocar um guarda-pó e sair. Yi Cheng era um cemitério particular que ficava a quase dois quilômetros do condomínio onde eles moravam, ficava em um ponto afastado da cidade e o nomearam como “Cheng”*[2] porque ele era praticamente do tamanho de uma cidade. Levaria pouco mais que meia hora para Shi chegar lá dependendo do trânsito, com aquela chuva torrente ele não duvidava que o fluxo de carros estaria mais lento, especialmente devido aos raios imprevisíveis causando estragos por todo lugar, as recomendações eram permanecer em casa e evitar deixar aparelhos ligados.

Uma parte do príncipe do gelo encheu-se de esperança com aquele encontro. Teria Yan Da reconsiderado seus sentimentos e decidido dar-lhe uma chance? Seria uma pequena luz no meio daquele caos, mas ele admitia a si mesmo que era uma possibilidade remota. O que mais lhe frustrava era saber que ela o amava, mas não admitia isso para ele ou para si mesma, continuava deixando os erros do passado sobreporem-se a pessoa que ele era agora, a tudo que ele fizesse agora. Mas ele realmente não podia culpa-la, fora cruel com ela, destruíra todas as suas chances de se reaproximar do coração dela, se Yan Da o odiava ou o temia, ninguém além dele mesmo era culpado.

Tão concentrado estava na princesa, não percebeu Yue Shen seguindo-o de perto como uma sombra.

Quando chegou, Shi entrou no cemitério com um guarda-chuva para ampará-lo da tempestade violenta, caminhou por entre os vastos túmulos se perguntando como encontraria Yan Da no meio de todos eles. Raios caíam cada vez mais perto destruindo os estreitos caminhos de concreto entre as lápides, Shi franziu o cenho sendo cauteloso, o clima maluco, ele sabia, se dava ao abismo do tempo, era um lembrete constante de que seu tempo havia acabado. Ou destruíam Lian Ji ou seriam engolidos junto com aquele mundo e todos nele. Por fim, após andar alguns minutos, ele finalmente avistou a princesa de joelhos diante de um dos túmulos e aproximou-se com cautela para não assustá-la.

— Yan...

— Seis anos atrás, você disse que me amava. — Disse Yan Da e Shi congelou. — Quatro mil anos atrás você demonstrou isso, mas nunca consegui retribuir seus sentimentos ou tive coragem suficiente para assumir os meus. Agora entendo o motivo. De algum modo que não sei explicar, meu coração sempre esteve à espera de Ying Kong Shi, mesmo que por duas vezes tenhamos nos encontrado e eu tenha amado você com todo meu coração, todos os pesares que vivi só tiveram sentido quando encontrei aquele príncipe do gelo desgraçado outra vez.

O coração de Shi pulou uma batida. Por mais que parecesse errado ouvir a conversa de Yan Da, ele não conseguiu se mexer, ficou parado ouvindo como a voz dela tremulava ao falar com a pessoa enterrada ali e, pelo seu tom, não precisava olhar a inscrição na pedra escura para saber que era Peng Yan que estava enterrado ali. Era inevitável o ciúme e ele se achava um tolo por nutrir aquele tipo de sentimento por alguém que sequer vivia mais, porém, a memória de Peng Yan ainda estava viva no coração de Yan Da e, ele sabia, se o melhor amigo da princesa estivesse vivo, ele talvez nem tivesse conseguido o pequeno avanço que conseguiu com ela. Reprimindo um suspiro, o príncipe do gelo ficou em silêncio para não denunciar sua presença, não sem antes ouvir o que mais Yan Da diria sobre ele.

— Não sei se, muito tempo atrás, quando ele era uma ave do gelo eu fui o vento que guiou suas asas à morte para ser condenada a amá-lo dessa maneira, ou se fui a rocha na qual ele tirou sua vida, mas ainda que minha mente se empenhe com toda sua energia a odiá-lo, meu coração não consegue evitar amá-lo, esperar por ele. E quando paro para pensar em tudo que você e eu passamos nessas duas vidas, chego a conclusão que não merecia você, nunca mereci. Ainda assim o meu amor por você nunca vai morrer, Peng Peng, mas se o universo te der uma nova chance, e eu realmente espero que dê, desejo que ele te coloque longe do meu caminho, para que eu nunca tenha que viver com a culpa de te machucar, seja de que maneira for. Para que você tenha uma vida longa, feliz e com todas as realizações que foram interrompidas por minha causa.

Antes que percebesse, seus olhos enchiam-se de lágrimas. Shi se sentia responsável pela dor dela, ao mesmo tempo que se regozijava com o amor remanescente dela por ele, era muito difícil ouvi-la falar como se aquilo fosse algo doloroso para ela e amá-lo um dos piores erros que já cometera. No passado, ele não entendia as sensações que ela despertava no seu corpo e coração, mas agora, descobrir-se apaixonado por ela e refém daquele sentimento tão poderoso e sublime era a máxima da sua existência, a coisa mais incrível que ele já sentira e pelo que morreria sem hesitação. Por isso, as palavras da princesa eram como lanças atravessando seu peito, ainda mais quando ela dizia abertamente que amava Peng Yan com uma voz tão cheia de saudade, carinho e cuidado.

— Obrigada, Peng Peng, por ter existido duas vezes e me salvado do vazio de uma vida sem amor e sem amigos. Obrigada por ter me amado e me protegido. Me perdoe por não ter vindo antes e por nunca ter te dito essas palavras quando tive chance antes. Eu te amo.

Era pior que a sensação de ser esbofeteado com força. Shi não pôde suportar uma palavra mais, ele preferia ouvi-la dizer mil vezes que o odiava do que sofrer a tortura de presenciá-la afirmar que amava outra pessoa.

— Yan Da.

Ela não se virou de imediato, o príncipe se perguntou se fizera errado chegando um pouco antes do tempo estipulado, mas a ansiedade de vê-la de novo falou mais alto. Pensou ter visto os ombros dela enrijecerem, mas não tinha certeza. Yan Da se pôs de pé e virou-se de frente para ele, Shi a escrutinou por um momento buscando sinais de instabilidade, lembrava-se dela pálida e desfalecida sobre a neve, seria certo ela ter recebido alta tão depressa? Mesmo que, por causa da magia, seus corpos se recuperassem mais depressa, ainda ficava preocupado. Ela lhe diria a verdade se perguntasse como ela estava?

— Você realmente veio. — Seu tom era frio, muito diferente, ele notou, da forma como conversava com Peng Yan há pouco.

— Não podia ignorar um chamado seu. Nunca.

— Estou vendo. — Não conseguiu evitar o sarcasmo na voz. — Desculpe chama-lo no meio... disto. — Apontou para a tempestade ao redor.

— Por favor, não se desculpe, fiquei feliz por receber seu convite. — Adiantou-se. — Você está bem?

O silêncio entre eles só era rompido pela chuva, Shi percebia que ela evitava olhá-lo nos olhos e aquilo o incomodava. Estava prestes a dizer algo quando ela se adiantou.

— Sei o que isso parece e, o fato de ter te chamado aqui não é um sinal que te perdoo. Eu só...

Ele não a esperou terminar a frase. Temia o que viria depois e não sabia se após ouvi-la dizer que amava Peng Yan tantas vezes seria capaz de suportar a nova rejeição, mesmo que soubesse os verdadeiros sentimentos dela. Largando o guarda-chuva, cobriu a curta distância entre eles e a beijou. Rendeu-se à necessidade que sentia dela, Shi agora vivenciava na pele o desespero que ela passara quatro mil anos atrás enquanto ele a rejeitava, a indiferença gélida a que ela foi submetida. A impossibilidade de ser correspondida, mas a esperança insistente de alcançar aquele sonho. Sim, lhe frustrava ouvi-la dizer que amá-lo a machucava, mas ele sabia agora que amar doía, muito. Os braços dele se apertaram em torno do seu corpo e apenas o calor que trocavam os aquecia do frio da água gelada que despencava sobre eles. Shi se sentia completo tendo-a em seu abraço, recriminava-se com amargura por todas as oportunidades perdidas de beijá-la e abraça-la.

Quando se separaram, ávidos por ar, ela não lhe olhou, apenas virou-lhe as costas e se foi na direção do portão lateral que estava mais próximo da localização deles. Por um momento, ele pensou em segui-la, mas sabia que o resultado seria o mesmo e não queria mais machucá-la, respeitar a decisão dela era o mínimo que podia fazer. Enquanto a observava partir, desaparecendo entre as lápides como um fantasma, Shi pensava que talvez aquela fosse a retribuição do destino condenando-o agora a observá-la se afastar sem intenção de retorno.

Baixou a cabeça e fechou os olhos, por mais que sentisse as lágrimas pressionando seu peito e tentando romper a barreira da sua força ele não cederia, não era merecedor de chorar por Yan Da e mesmo que derramasse todas as suas lágrimas não conseguiria pagar — ou apagar — todo o sofrimento dela causado por ele. A chuva parou de cair sobre ele, só então Shi ergueu a cabeça para encarar Yue Shen, impassível como uma secretária fiel que vem buscar o chefe na porta da casa da amante.

Zou ba*[3], wangzi. — Disse ela com sua calma inabalável. — Precisa trocar essas roupas molhadas ou vai ficar doente.

Shi sentiu-se agradecido por ela tratá-lo como se nada tivesse acontecido. Sem perguntas, sem comentários irônicos ou provocações. A envenenadora colocou a mão no ombro dele e o apertou em solidariedade. O príncipe se abaixou por um instante para pegar seu guarda-chuva e pegou também o de Yan Da, que ela havia deixado para trás. Yue Shen abriu um portal e os dois desapareceram por ele.

※※※

Puxando o ar com força, Xing Jiu abriu os olhos e contemplou o teto de pedra bruta acima de sua cabeça. Quase achou que havia sido enterrado vivo, mas conforme sua visão foi ganhando foco e o oxigênio enchia seus pulmões afastou a assustadora ideia. Com algum esforço, sentou-se, os músculos enrijecidos pela ausência de movimentos; notou que estava em uma espécie de câmara subterrânea, várias estantes de livros, mesas e sofás, lustres elegantes e outros armários fechados. As paredes remanesciam em pedra bruta, mas algumas estavam cobertas com antigas tapeçarias, dois lances de escada levavam a mais estantes em um andar superior improvisado.

Enfraquecido, o astrólogo tentou se lembrar das orientações de Lan Shang sobre como sair pelas passagens subterrâneas. Só havia uma porta no cômodo, pintada de vermelho. Xing Jiu levantou do catre onde estava sentado, mas as pernas o traíram e ele caiu, seu corpo pesava e sua cabeça parecia rodar. Respirou fundo algumas vezes tentando sentir a presença de Ka Suo do lado de fora, mas não havia nada. Nenhuma essência mágica por perto, nem mesmo a de Lian Ji.

A voz da sereia continuava dando instruções na sua cabeça e era nisso que o astrólogo se concentrava para não se entregar à letargia que aos poucos se espalhava pelos seus músculos, precisava encontrar Liao Jian e Lan Shang, sobretudo, precisava ajudar Ka Suo a parar o abismo do tempo e evitar que todos eles fossem condenados. Xing Jiu fechou os olhos e tentou se concentrar, precisava de apenas um pouco para equilibrar sua energia, usara muita força na tentativa de invalidar o cubo de Lian Ji e voltar para seu corpo, mas seus amigos ainda continuavam lá.

O pensamento lhe deu forças para conseguir se erguer e arrastar-se até a porta apenas para descobri-la trancada. Xing Jiu precisava meditar para equilibrar seu poder, mas não tinha tempo para aquilo, não tinham tempo para mais nada. Dali, ele não podia ouvir os sons do lado de fora da casa, não conseguia ouvir nada além das batidas frenéticas do seu coração e se obrigou a recobrar a calma, quanto mais desesperado ficasse mais desgastado seu espírito se tornaria. Se ao menos tivesse o cajado das estrelas... meneou a cabeça, lamentar não lhe ajudaria em nada. Estava muito fraco para abrir um portal e pelo que Lan Shang lhe dissera, poderia haver algum tipo de barreira mágica ali dentro.

Secando o suor gelado que escorria pelo rosto, o astrólogo definiu suas prioridades: 1. Ficar de pé; 2. Procurar algo que o ajudasse a abrir a porta ou alguma fonte secundária de magia; 3. Usar o mapa dado por Lan Shang para escapar; 4. Encontrar Ka Suo. Se o monarca não estava onde disse que estaria era porque algo sério havia acontecido e ele precisava do astrólogo. Listar as coisas daquela forma dava a Xing Jiu uma sensação de possibilidade. Só precisava se concentrar em uma coisa de cada vez, ele era o mais jovem e talentoso astrólogo de sua tribo, podia fazer aquilo.

Olhou em volta buscando algo que o ajudasse a abrir a porta, mas não havia nada ali. Examinou a fechadura, Lian Ji era cuidadosa, mas aquela era a casa de Shen Hairong, afinal, se ela havia mandado construir aquilo tudo, ele tinha que olhar sob a ótica das sereias e não da semideusa. Para que mais a rainha das sereias construiria um lugar como aquele? O que ela desejaria proteger ou esconder ali? Xing Jiu usou essas perguntas para analisar seu cativeiro outra vez, era confortável, espaçoso e tinha muitos livros, apesar da decoração precária, os móveis eram luxuosos e tinha o necessário para alguém viver ali dentro por meses.

Lian Ji usara o lugar de cativeiro e era exatamente o que ele era. Shen Hairong construiu aquele lugar como uma medida desesperada para proteger Lan Shang dela mesma quando julgasse necessário. Então, claro que não haveria nada ali dentro para abrir a porta, a tranca seria externa. Mas ela conseguira escapar de Lian Ji dali de dentro, então havia uma maneira de sair. Pensando como a princesa sereia, o astrólogo fez algumas tentativas mágicas na porta, considerando que o poder de Lan Shang seria limitado até certo ponto ali dentro, o suficiente para esgotá-la se passasse do ponto. Tomando como base de nivelação o feitiço que ela usou canalizando a lágrima ancestral para devolver o corpo da semideusa, ele tinha uma ideia de até onde podia ir.

Na terceira tentativa, a porta abriu.

Com um sorriso de satisfação, o astrólogo apoiou-se nas paredes para sair da câmara, seu coração batia acelerado no peito enquanto se apressava o máximo que o corpo permitia em busca dos seus amigos.

※※※

— Onde ela pode estar?!

Chao Ya quase não conseguia ver nada por causa da chuva em seus olhos. A tempestade dos céus havia cessado, mas a tormenta em seu coração parecia apenas estar começando. Os dois procuravam por toda a cidade, mas parecia que Yan Da havia sido engolida por outro portal. Estavam na avenida principal quando o telefone de Pian Feng começou a tocar, a cantora viu o nome de Yue Shen no visor e atendeu.

— Luna.

— Onde vocês estão?

— Yan Da desapareceu, estamos tentando encontrá-la. — Balbuciou a cantora.

— Chao Ya, ouça bem o que vou dizer e não faça perguntas — ordenou — siga para a ponte Luo Ying imediatamente com Pian Feng, não há necessidade de procurar pela princesa.

O coração de Chao Ya pareceu parar naquele momento. A voz de Yue Shen foi substituída por um bipe contínuo anunciando o fim da chamada e as mãos trêmulas da cantora deixaram o telefone cair em algum lugar no piso do veículo. Ao seu lado, Pian Feng apertou com mais força o volante fazendo um esforço sobre humano para não gritar de frustração.

— Vá para a ponte Luo Ying. — Ordenou a cantora.

— O que aconteceu, o que Luna disse? — Quis saber.

— Ela disse que não precisamos mais procurar por Yan Da. — Respondeu com a voz trêmula. — Sabe o que isso quer dizer, não é?

O guerreiro do vento não respondeu. Batendo no volante com violência ele deu a volta e pegou a segunda pista na direção da ponte. Seu coração agitava-se dentro do peito enquanto aumentava a velocidade se recusando a acreditar na verdade implícita naquelas palavras. Yan Da estava bem, logo eles se encontrariam e dariam risada da preocupação exagerada dele. Sim, Pian Feng não a perderia.

“Vamos para a tribo do fogo. Consegue abrir um portal?”

“Não sou particularmente eficiente nisso. Mas por você posso tentar se me disser o que pretende fazer lá.”

“O que mais eu poderia ir fazer lá além de buscar a única chance que tenho de salvar você e a jiejie?”

Pian Feng sabia que um dia aquelas palavras voltariam para assombrá-lo e parecia que o momento chegara. O que Yan Da tinha em mente? Por que ela sempre tinha de fazer aquilo, antes ele entendia que ela não tinha nada a perder porque não havia lhe restado ninguém além de um príncipe idiota que não sabia reconhecer seus sentimentos, mas agora era diferente, ela não estava sozinha, então por que estava fazendo aquilo com eles?

“Yan Da, me diga a verdade, o que você vai buscar lá?”

“Eu não posso te dizer. — Asseverou. — Vai ter que confiar em mim.”

Os nós dos dedos do guerreiro ficavam cada vez mais brancos conforme suas mãos apertavam o volante. Chao Ya colocou a mão sobre o braço dele como que para lembrar-lhe de que estava ali.

— Vamos conseguir salvá-la, Pian Feng. — Mentiu.

— Eu não dou a mínima se esse mundo desaparecer — murmurou, a voz rouca pelo embargo —, mas se Yan Da se machucar outra vez eu não vou deixar Ying Kong Shi escapar disso!

— Lembre-se do que combinamos meses atrás — a cantora tentava manter a cabeça do marido equilibrada —, eu seguro e você puxa a cabeça dele.

Apesar do sorriso do guerreiro ter sido diabólico, pelo menos por enquanto Chao Ya podia acreditar que tudo ficaria bem.

※※※

Ao contrário do que temia, Yan Da não sentiu dor quando Lian Ji a atacou. Precisavam ser convincentes se quisessem fazer aquilo funcionar e ela não queria estar consciente quando a semideusa fizesse o que as duas acordaram anteriormente. A última coisa que ela viu foi uma luz ofuscante fazendo seus olhos doerem, então o vazio a acolheu em seus braços, transportando-a para sonhos distantes de momentos que nunca existiram.

— Tem certeza que isso vai funcionar? — Inquiriu a semideusa, desconfiada.

— Sua melhor chance de destruir Ka Suo é confiar em mim. — Asseverou a princesa. — Ele caiu na minha armadilha, não há chance de falha.

— Você tem coragem, princesa do fogo, gosto disso. — Sorriu.

— Apenas cumpra sua parte do acordo.

— Não se preocupe, seus amigos não me interessam, eu só quero Ka Suo.

— Ka Suo e o poder. — Lembrou ela. — São todos seus. Mas deixe meus amigos em paz.

A lembrança evanesceu junto com seus sentidos e Yan Da abriu os olhos para contemplar as ruas do palácio do fogo. Não precisava olhar duas vezes para saber que estava no Pavilhão da Névoa onde morava e, esporadicamente podia ver sua mãe que vinha visita-la do Pavilhão das Flores. Ao contrário dos irmãos, que moravam todos juntos no Pavilhão das Chamas, Yan Da ficava sozinha tendo por companhia apenas a criada que a atendia.

Ela viu a si mesma com três anos dando passinhos ainda um tanto incertos pelo salão sob a supervisão cuidadosa da sua criada que parecia sempre prestes a segurá-la antes que caísse. O som de uma risada veio por trás dela e Yan Da sentiu todo seu corpo estremecer em reconhecimento. Virando-se lentamente, encarou a mãe trajando um belíssimo hanfu azul escuro com majestosas flores de fogo douradas espalhando-se pelo tecido. Seu enfeite de cabelo era uma fênix que Yan Da herdaria, mas nunca se sentiria digna de usar.

— Xia Lin, não seja tão paranoica, minha menininha é muito esperta, não cairá facilmente. — Ralhava a rainha, com doçura, enquanto se aproximava da filha.

A pequena Yan Da sorria enquanto estendia os bracinhos para a mãe que a acolhia num abraço protetor e amoroso. Suas mãos acariciavam os sedosos cabelos escuros da filha.

— Minha princesinha, você precisa crescer saudável e forte para um dia trazer honra à tribo do fogo. — Sua voz melodiosa era baixa e seus movimentos elegantes. — Talvez mamãe não consiga ver você se tornar a mulher maravilhosa que está destinada a ser, mas quero que sempre se lembre que a amo mais que a minha própria vida.

Ela depositou um beijo na cabeça da menina que encostou a cabeça em seu peito fechando os olhinhos e segurando com mãos diminutas o vestido da mãe. A rainha ninou a pequena princesa que não entendia o significado das suas palavras, mas sempre lhe ouvia sem interrupções.

A visão trouxe lágrimas aos olhos de Yan Da. Ela não se lembrava daquelas palavras da mãe, mas agora sabia que desde o começo, Xin Yu sabia que não viveria muito tempo e temia pela vida da filha. Como se fosse feita de areia, a visão se dissolveu à sua volta e a princesa do fogo se viu puxada por uma força intensa. Quando abriu os olhos, viu Ying Kong Shi. Os olhos do príncipe do gelo arregalaram como se a vissem pela primeira vez e nesse momento ela entendeu que Lian Ji mentira para ela, não deixaria que ela perdesse nem um minuto do show.

Estava nevando. Ela não sabia quando havia começado, mas toda a ponte Luo Ying estava coberta de gelo e os belos fractais pairavam pelo ar em uma dança silenciosa.

— Yan Da! — Ele a chamou.

— O que você vai fazer agora? — Ouviu sua voz dizer. — Qual morte você escolhe assistir, Ying Kong Shi?

Yan Da sentiu uma onda de terror dominar cada célula do seu corpo. Estava consciente, mas não dominava seu corpo, ouvia sua voz pronunciar palavras e seus membros se moverem, mas não dava a eles qualquer comando. Era uma prisioneira dentro de si mesma. Não conseguia controlar o próprio corpo. Lian Ji usou-o para atacar Ka Suo, Huang Tuo protegeu o golpe, mas ficou ferido no lugar do monarca. Não! Gritava ela, mas a voz não lhe obedecia, o corpo não respondia suas ordens. Huang Tuo caiu no chão e a princesa do fogo começou a se desesperar, se não fizesse o que precisava depressa, Chao Ya, Pian Feng, Yue Shen e Huang Tuo poderiam sofrer.

Lian Ji virou-se na direção de Ka Suo e atacou-o outra vez, mas Chao Ya bloqueou o golpe e, também sendo atingida, ficou seriamente ferida a alguns metros de Huang Tuo. Concentre-se, Yan Da, disse a si mesma, você precisa de foco agora mais do que nunca. Mas a visão da sua jiejie no chão, inerte, a alguns metros do curandeiro estava drenando as forças do seu espírito.

— Yan Da! — A voz de Shi sobrepôs-se ao caos. — Eu sei que você pode me ouvir em algum lugar aí dentro. Também sei que eu não mereço que você escute ou atenda nenhuma das minhas palavras... se você me odiasse e me visse como seu inimigo, não poderia e nem iria culpa-la. Mas eu também sei que a Yan Da que eu conheço é a mulher mais forte dos quatro reinos, ela nunca se deixaria manipular por um monstro como Lian Ji, mesmo que a artimanha usada para isso fosse a mágoa profunda que eu causei ao seu coração.

Por um segundo, a princesa do fogo conseguiu controlar seu corpo e fazer a mão parar antes de atacar outra vez. Sentia Lian Ji lutando contra ela para controla-la de novo. Seus olhos se voltaram para Shi, o coração acelerando outra vez, ela o odiava, mas não podia permitir que ele se machucasse.

— Foi sempre você que me protegeu... — continuou — eu costumava dizer a mim mesmo que era pelos sentimentos que não entendia, mas a verdade é que você sempre foi mais forte que eu. Mais forte que qualquer um. Ainda é.

Agora! Yan Da fechou os olhos e usou toda a sua energia para fincar o prego do destino no coração de Lian Ji, a semideusa, percebendo o que acontecera, gritou e curvando seu corpo, a princesa do fogo conseguiu expulsá-la de si, a sensação era excruciante, como se seu corpo estivesse se partindo, em algum momento do caos, Yan Da ergueu o olhar brevemente para Ka Suo que, com o olhar cheio de dor, lançou sua espada na direção da princesa enquanto esta se afastava de Lian Ji. A lâmina atravessou o abdome de Yan Da derrubando-a no chão coberto pela neve. O sangue encheu sua boca e a dor a entorpeceu por um segundo nublando seus pensamentos.

— NÃO!

Era a voz de Shi, mas ela não conseguia vê-lo. Um grito soou ao longe, mas tudo que os olhos da princesa contemplavam era o céu azul acinzentado que se estendia como um manto sobre o mundo, pintado com os flocos de neve que caíam como lágrimas por entre as barreiras do firmamento. Tão lindo... ela sorriu enquanto observava, as batidas do seu coração enfraquecendo mais a cada segundo. Lentamente, as nuvens brancas iam surgindo e o sol espargia raios tímidos sobre a terra, o abismo do tempo estava desaparecendo.

Lágrimas quentes escorriam pelas têmporas de Yan Da quando Shi se aproximou e segurou seu corpo, ela fitou seu rosto, a boca encheu de sangue que escapava de forma involuntária, Pian Feng, Huang Tuo, Chao Ya e Yue Shen a rodearam, estavam bem, ela conseguiu.

— Yan Da... Yan Da... — ele repetia seu nome como uma oração.

Ele era um idiota. Insensível e cruel. Mas as lágrimas em seu rosto eram verdadeiras. O desespero em sua voz era real. Não havia qualquer arrependimento no coração da princesa, ela os salvara, eles poderiam ter um futuro sem medo de que o sonho frágil se desintegrasse a qualquer momento. Ela estendeu uma mão para Pian Feng que a segurou, tentou falar algo, mas não conseguiu, tinha dito a eles tudo que desejava, prolongar aquilo só lhes causaria tristeza e ela queria que eles vivessem felizes. Sem sombras no seu caminho.

Um gemido baixo de dor escapou dos lábios dela, a dor se tornava mais intensa e o sono mais forte, o calor do corpo de Shi contrastava com o gelo sob ela. Os olhos de Yan Da cerraram e ela desejou que ao acordar em outra vida não houvesse mais nenhum preço a ser pago pela sua felicidade.

Adeus...

Notas finais
[1] *義城 — essa é uma referência minha à Mo Dao Zushi, refere-se à Cidade Yi no terceiro arco da história. [2] *城 significa cidade. [3] *Zou ba [走吧] — vamos