Love as Sakura | 爱如樱
56 第51章 Dez passos para o fim
Yan Da sentiu o frio provocar espasmos dolorosos por todo seu corpo tão logo saiu do portal. Estar seminua com certeza não era a melhor forma de estar... onde? Olhando ao redor não reconheceu o lugar, havia uma espessa camada de neve onde seus pés descalços afundavam já ficando dormentes, uma corrente de ar glacial voava na sua direção obrigando-a a encolher-se com os braços em volta do tronco numa tentativa de se aquecer, árvores desfolhadas eram pontos negros salpicados na planície branca de céu cinzento. A princesa do fogo tentou se orientar, mas não havia nada que pudesse ser usado de referência à sua volta e o frio severo começava a deixar seus sentidos em alerta.
Praticamente sem sentir os pés, ela forçou o corpo a se mover imaginando se, na sua pressa de fugir de Shi, tinha aberto um portal para o Polo Sul ou coisa parecida. Seus dentes batiam de forma involuntária, os tremores espalhavam-se pelo seu corpo lenteando seu avanço e, quanto mais caminhava em direção a nada específico, sentia-se mais e mais cansada. Não via construções por perto, o horizonte era uma linha branca desenhada na imensidão cinzenta do céu e apenas uma ou outra árvore sem folhas podia ser avistada dali. Yan Da começou a amaldiçoar sua imprudência enquanto tentava não se entregar ao desespero, se perdesse a razão só serviria para morrer mais rápido e havia muito em jogo para morrer daquela maneira.
Sob sua pele gelada, ela podia sentir o calor do toque de Shi incendiando suas veias e o fato só servia para fazê-la sentir-se pior. Ficou muito perto de cometer uma imprudência deixando-se cair na sedução mentirosa do príncipe do gelo, enfurecia-se consigo mesma por ser tão estúpida de não poder parar de pensar nele, que tipo de doença era aquela que a acometia para, aquém de todos os acontecimentos, continuar amando-o e desejando-o daquela maneira? Era irracional! Tinha de haver uma maneira de curar-se daquilo, ela não podia viver o resto da sua vida sentindo aquela falta doentia dele, desejando-o com cada célula do seu corpo, sem conseguir enxergar mais ninguém além dele mesmo sabendo que, no coração dele, só há Ka Suo. Continuando a observá-lo de costas se afastando dela sem olhar para trás.
Não.
Yan Da merecia mais que isso. Ia parar com aquela estupidez e deixá-lo de uma vez por todas. Aquele amor era como uma ferida na sua alma pulsando sob seu coração e não era daquela maneira que deveria ser, amar não devia doer, era algo que fazia duas pessoas sorrirem juntas, não era isso que a maldita literatura dizia? Todavia, já estava muito claro o fato de não existir mesmo o tal amor, mas apenas um conjunto de reações químicas corporais que corroboravam para aquela ilusão obsessiva na qual ela afundava. Pensar assim, contudo, não diminuía dentro dela a dolorosa veemência do sentimento por Shi. Preocupando-se consigo mesma, ela tentou usar os poderes para aquecer-se, mas parecia não funcionar muito, o frio arrasador se tornava mais intenso a cada passo e a respiração de Yan Da ia se tornando mais fraca, assim como a visão que perdia constantemente o foco e seu corpo parecia cada vez mais pesado. Quanto já havia andado? O ambiente ermo e a dificuldade em usar seus poderes começaram a fazê-la imaginar se não estaria no mundo imortal, mais precisamente na fronteira do norte.
Quatro mil anos atrás, Yan Da não tinha muitos problemas com o frio de Snowblade, apesar de o clima gelado afetar sua força até certo ponto por contrariar sua natureza. Porém, em lugares de energia muito concentrada como as fronteiras e o epicentro da Cidade Ren, ela podia ter dificuldades em usar sua força, qualquer gasto severo da sua energia podia lhe render problemas. Se ela estava com problemas agora, uma boa explicação seria aquela, especialmente julgando a paisagem desoladora que lhe cercava. Precisava pensar. Se tentasse abrir outro portal, dada sua inabilidade, poderia acabar indo parar em um lugar pior e usaria uma demasiada energia da qual poderia precisar, tinha de encontrar um lugar para se aquecer antes de tentar fazer qualquer coisa, mas mover-se começava a ficar difícil e os tremores aumentavam ainda mais, além disso, Yan Da mal conseguia sentir as pernas do joelho para baixo.
O sutiã que vestia, assim como sua calça, estava molhado. Os cabelos grudavam no seu corpo com a chuva fina que começou a cair. Haveria algum dia em que Ying Kong Shi a encontrasse sem causar nenhum dano? Em dado momento, a princesa olhou para trás vendo boa parte do traço deixado pelo arrastar das suas pernas ser apagado pela neve, suas forças cederam e ela caiu. A neve parecia queimar sua pele e Yan Da sabia que precisava levantar, não podia se entregar, de jeito nenhum podia dormir.
— Yan Da...
A voz melodiosa cantou seu nome assoviando junto ao vento que uivava conforme açoitava o corpo da princesa. Era uma voz bonita e por um instante Yan Da acreditou que a conhecia, forçou os olhos a abrirem, mas não conseguia captar mais que um borrão, o rosto contra o gelo aos poucos se tornando insensível, a silhueta embaçada se aproximava no meio do cenário desolador, as vestes vermelhas esvoaçando tal como os cabelos longos e escuros.
— Yan Da...
— M-ma-mamãe? — O som não foi mais alto que um sussurro.
Ela não conseguia mexer os braços ou as pernas, forçou os dedos, mas pareciam ter endurecido também, Yan Da soltou o ar com força, mas mesmo o ar parecia difícil de sair e seus pulmões ardiam. A silhueta chegou mais e mais perto ainda cantando seu nome e Yan Da não tinha certeza se conseguiu mover os músculos do lado do rosto que ainda não estava enrijecido para sorrir antes da neve que lhe cobria se tornar um sonho.
※※※
Shi irrompeu no escritório de seu apartamento seguido por Chao Ya e Pian Feng. O casal não fazia ideia do plano do príncipe, mas era bom que ele tivesse um plano do contrário, já que iam morrer de toda forma, os dois não se incomodariam em matá-lo ali mesmo caso ele perdesse Yan Da. Ka Suo pôs-se de pé tão logo viu o irmão com uma expressão angustiada, mas o jovem príncipe não respondeu nenhuma das suas perguntas apenas pediu o cubo de Xing Jiu e mandou que ele ligasse para Huang Tuo. O monarca não fez objeções e cumpriu o desejo do irmão enquanto, afastados no fundo do escritório, o casal estava apreensivo e silencioso.
O médico também tinha um cubo, Shi se lembrava daquilo, apesar de não ser habilidoso o bastante para localizar Xing Jiu, talvez houvesse uma maneira de ele encontrar Yan Da, se tivesse a localização exata dela, conseguiria abrir um portal para alcançá-la em qualquer lugar do mundo mortal ou imortal. O príncipe do gelo não gostava de contar vantagem quanto ao seu poder, mas esperava ser poderoso o suficiente para a loucura que estava prestes a fazer.
— Há quanto tempo ela está lá dentro? — Quis saber Ka Suo quando ouviu a explicação vaga de Chao Ya.
— Não sei ao certo, uma hora ou duas.
— Se ela conseguiu atravessar para o mundo imortal esse tempo pode oscilar para mais ou para menos dependendo de onde ela estiver. — A preocupação na voz do monarca não deixava Shi melhor. — Se ao menos Xing Jiu estivesse aqui...
— Posso encontrá-la. — Garantiu o príncipe.
— Como? — Ka Suo perguntou.
— Posso encontrá-la. — Salientou Shi com veemência. — Sou capaz de senti-la, só preciso de uma direção.
Ao dizer isso, foi imediatamente acometido por uma violenta dor que fê-lo dobrar-se. Ka Suo precipitou-se para ajuda-lo enquanto Shi deixava escapar um gemido de agonia, a mão pressionando o próprio peito em cujo os pulmões ardiam em busca de ar. Apesar de não afetá-lo diretamente, o príncipe conseguia sentir o frio congelando cada célula do seu corpo, adormecendo seus músculos e sentidos.
Yan Da estava em perigo.
— Huang Tuo, por que ele ainda não está aqui?! — Esbravejou impaciente enquanto tentava se recuperar.
Precisava dos dois cubos. A magia dos astrólogos era muito específica e, por mais poderoso que fosse, sem as ferramentas necessárias, Shi não era capaz de acessar as estrelas livremente como Xing Jiu. Do lado de fora, a tempestade de raios começava a ficar mais furiosa e, esporadicamente, algum carro ou gerador explodia ao ser atingido. O rugido dos trovões foi adicionado ao som ameaçador da tormenta, e Shi começava a perder o controle das suas emoções. Bem no momento em que um dos raios cortou os céus e iluminou o escritório partindo uma das árvores na rua ao meio, Yue Shen e Huang Tuo saíram de um portal bem no meio do cômodo, o médico nem esperou o príncipe pedir para lhe dar o cubo dos sonhos.
Shi colocou-o ao lado do de Ka Suo sobre a mesa, os demais se afastaram para o fundo da sala, o príncipe do gelo respirou fundo e fechou os olhos mantendo a imagem de Yan Da fixa na sua mente, as mãos abriram-se na direção dos cubos e ele investiu uma grande quantidade de poder sobre eles, de uma das mãos fluía o poder ancestral do gelo, da outra uma luz alaranjada pertencente ao fogo. Uma fina camada de suor cobriu o rosto de Shi conforme ele tentava forçar as ferramentas a obedecê-lo e após alguns minutos as estrelas dos dois mundos foram projetadas por todo o cômodo para espanto de Ka Suo e dos outros. Em um dos mapas, uma estrela aparecia incandescente, Shi fincou o cajado das estrelas no chão diante dos cubos para que as constelações não desaparecessem.
— Shi — Ka Suo estava estupefato —, como...
— Eu não aprendi só magia do fogo quando tentava livrar você. — Ofegou. — Aprendi tudo que me podia ser útil no processo. Ela está no norte.
— Norte? — Chao Ya perguntou com um tom esganiçado. — Que norte?
— O norte de Liao Jian. — Respondeu. — Huang Tuo, você vem comigo. Ge, você fica aqui e continua mantendo o fluxo das estrelas vivo, isso pode ajudar Xing Jiu.
— Como?
— Se você não descobrir sozinho, explico quando voltar.
Sem esperar mais, ele abriu um portal e o médico, seguido por Pian Feng, o acompanharam. Não havia risco de erros, Shi se mostrara não só poderoso, mas era muito competente com portais, se ele podia sentir Yan Da daquele modo nenhum deles duvidava que ele conseguiria chegar até ela.
Sempre.
※※※
Xing Jiu sentiu a energia do cajado das estrelas e abriu os olhos. Estava preso naquele sonho há muito tempo sem conseguir qualquer conexão com o mundo exterior e tampouco com o próprio corpo. Quando recobrara a “consciência” estava em Snowblade, mas o antigo castelo era apenas uma exuberante construção vazia que ecoava sua voz sempre que ele falava a busca inútil por alguém.
Pondo-se de pé, o astrólogo tentou canalizar a energia, não sabia quem conseguira convergir os dois mapas, mas se ele se concentrasse, conseguia visualizá-los dali e mais, podia encontrar o plano dos sonhos e se guiar para passear por eles, dessa forma podia entrar no sonho de Ka Suo ou de qualquer um dos outros. A centelha da esperança aqueceu o coração de Xing Jiu conforme ele mantinha cada célula cerebral trabalhando naquilo, não foi muito difícil notar que nenhum dos amigos dormia além de Liao Jian e Lan Shang. Ele usou uma projeção do cubo dos sonhos e entrou no sonho do advogado.
Olhando em volta, Xing Jiu podia dizer que estava mais para pesadelo. Mulheres e crianças empunhavam machados rústicos e espadas, homens corriam de um lado para outro enquanto as cabanas de madeira e palha dentro da fortaleza de troncos altos e pontiagudos estava em chamas. A fumaça escura subia cobrindo os céus de fuligem e tornando o ar asfixiante. Um grito gutural muito semelhante a um rugido veio de dentro dos muros de tronco, o astrólogo hesitou apenas um segundo se perguntando se queria mesmo entrar ali, apesar de já fazer uma ideia do que ia encontrar. Ele imaginava que, caso fosse Pian Feng no lugar de Liao Jian, o pesadelo seria muito semelhante: o dia que a tribo do fogo devastou a tribo do espírito do vento. O advogado, naquele momento, revivia o dia que marcara sua vida para sempre: a morte de seu pai.
Xing Jiu recordava-se daquele dia, foi uma rebelião orquestrada por um dos guardiões corruptos do Norte: Hei Feng. No intuito de roubar a posição de Liao Que, o então chefe da fronteira e forte homem de confiança de Lin Chao, Hei Feng reuniu um grupo de homens que simpatizava com seus ideais nada pacíficos sobre o papel da guarda do Norte na guerra e, em um acordo com Huo Yi, incitou uma rebelião dentro da fortaleza do Norte. Aquela fronteira era o principal território de Ren Xue Cheng uma vez que era maior em extensão e a mais próxima da cidade. Dominá-la e virar-se contra Snowblade daria a Huo Yi uma excelente vantagem. Ele enviou o filho, Shuo Gang, para ajudar o infiel guardião em seu plano e não foram necessários muitos guardas da tribo do fogo para ajudar no processo.
Embora Liao Que fosse um homem corpulento, inteligente e forte, era igualmente honesto e bondoso, nunca imaginaria ou desconfiaria que seu braço direito na guarda do Norte poderia traí-lo daquela maneira e foi essa fraqueza que Liao Que atacou. Naquela noite turbulenta, sob o prenúncio de uma guerra nascente e diante do seu filho, Hei Feng assassinou Liao Que enquanto usava as correntes de fogo para subjugar Liao Jian. Em seguida, declarou-se chefe do território que ficara sob a guarda do fogo e prendeu o verdadeiro sucessor na caverna da campainha. Por dez anos, Liao Jian não viu mais a luz do dia, confinado no pesadelo cíclico da morte do pai. Até ser encontrado e ajudado por Ying Kong Shi quando ainda era subordinado disfarçado de Yan Da, além de ajudar a tribo do gelo a reaver seu território, o príncipe conseguira livrar a princesa do fogo de ser vendida pelo irmão e o pai em um casamento forçado.
Xing Jiu suspirou enquanto entrava na fortaleza e contemplava o horror que só uma guerra era capaz de trazer. Mães choravam filhos e maridos mortos enquanto, ainda empunhando suas armas, lutavam para proteger os que ainda remanesciam. O pequeno séquito do fogo junto aos rebeldes dizimava tudo que se erguia contra eles, o astrólogo chegou a se questionar se haveria algo ali sobre o qual “reinar” no fim de toda aquela barbárie. Ele contemplou Liao Jian no meio da batalha, cego pela amargura e a sede de justiça, num canto afastado, seu eu do passado era carregado para longe sob o choque da morte da pessoa que mais amava e admirava.
O astrólogo fechou os olhos, concentrou sua energia e, erguendo dois dedos, dissipou o pesadelo, deixando-os novamente na planície gelada e deserta. Ainda enfurecido pela batalha anterior que travava no seu inconsciente, levou um minuto inteiro para que Liao Jian fosse capaz de acordar e se libertar do pesadelo. Tão logo a consciência retornou, o advogado se recompôs e apertou a mão do amigo, feliz por revê-lo.
— Como conseguiu entrar aqui? — Indagou, a voz ainda um pouco rouca pelos gritos de antes.
— Não tenho certeza, mas a energia do bastão das estrelas está ativa. — Explicou. — Enquanto durar, sou capaz de acessar os sonhos em qualquer lugar dentro dessa dimensão. Julgando pelo estado disto, você não está dormindo após um dia cansativo, não é?
Liao Jian meneou a cabeça, irritado.
— Lembro de ter ido para casa quando descobri que Lian Ji atacou Lan Shang e levou você da minha casa. — Contou o advogado. — Bebi um pouco de mais pela frustração, senti uma dor muito grande e apaguei. Não tenho ideia do que aconteceu.
— Lian Ji aconteceu. — Retrucou Xing Jiu com uma mescla de raiva e sarcasmo. — Ela deve ter descoberto algum plano de Ka Suo de me contatar e o impediu de fazer isso aproveitando para se vingar de Lan Shang no processo. Vamos, precisamos encontrá-la.
— Alguma chance de sairmos daqui?
— Poucas por enquanto — admitiu —, mas há algumas coisas que podemos fazer para ajudar Ka Suo e os outros a nos acordarem. Se, como você disse, Lian Ji está com meu corpo é uma garantia que Ka Suo não vai matá-la ainda. Primeiro encontramos Lan Shang, depois eu tento me comunicar com Xun Hao. Na melhor das hipóteses ele vai ter uma solução, na pior, bem... não vamos pensar nisso agora.
Liao Jian franziu o cenho.
— Alguma ideia de onde ela está?
Xing Jiu acessou novamente as estrelas abertas por Ying Kong Shi e dessa vez fez uma careta. Quando abriu os olhos e fitou o advogado sua expressão era uma espécie de terror.
— Vamos fazer uma pequena parada no caminho.
※※※
Quando abriu os olhos, Yan Da estava em uma sala elegante. Uma janela circular abria-se para uma paisagem bucólica de tirar o fôlego, montanhas altas erguiam-se ao longe salpicadas de árvores, um braço de rio corria manso e o som da água era calmante. A brisa suave soprava gélida até sua cama, era um modelo antigo que ela só havia visto no museu imperial, um travesseiro de seda estava sob sua cabeça assim como o macio e quente lençol que a cobria. Cortinas diáfanas cercavam a cama e havia um suporte para espada bem ao alcance de sua mão. Ao contrário do que se lembrava antes, agora estava vestida com um hanfu vermelho.
Erguendo o tronco com dificuldade, a princesa do fogo olhou em volta, havia uma mesa com vários pergaminhos de bambu a alguns passos da cama, em outra sala, dividida por um arco de madeira escura, uma mesa de chá estava posta, duas almofadas vermelhas, madeira escura e porcelana branca com detalhes em preto. A lamparina sobre ela emitia uma fraca luz amarela, atrás, o painel de bambu e papel de arroz oferecia a claridade pálida do dia, e dois suportes com velas acesas se encontravam de ambos os lados da tela de porta.
Aturdida, a princesa do fogo levantou sentindo uma forte dor na cabeça e em todo o corpo, seus músculos estavam rijos de modo que ela não conseguiu equilibrar-se e caiu de novo na cama. O som de passos seguiu-se ao baque surdo do seu corpo no fino colchão sobre a madeira. Uma mulher jovem com longos cabelos escuros e levemente azulados surgiu diante dela trajando um hanfu branco com detalhes em rosa. Os olhos eram incisivos e os lábios cheios traziam um sorriso tão gélido quanto a planície glacial na qual ela estava momentos antes.
— Finalmente acordou. — A voz melódica e aveludada soou. — Tome um pouco de chá, vai ajudá-la a esquentar.
— Lian Ji. — O nome soou como uma acusação.
— Ora, então sabe quem eu sou. — Anuiu a mulher. — Oh, esqueci que você tem uma queda pela minha cria. Não a censuro, eu fiz um bom trabalho.
Cria? Pensou, não é de admirar que Ying Kong Shi não tenha coração.
— O que está fazendo aqui? — Inquiriu. — Que lugar é esse?
— A segunda pergunta não é importante. — Sentou-se na cama ao lado dela. — Quanto a primeira, estou aqui para lhe oferecer um acordo. Libertá-la desse ciclo interminável de punição.
— Isso soa hilário vindo de alguém com a corda no pescoço. — Rebateu. — Aquele abismo do tempo está prestes a engolir tudo e você não vai escapar disso facilmente.
— O espírito de Li Luo não vai durar muito. Quando ela for eliminada, o espaço no universo que pertencia a ela será meu e pronto, troca feita. — Sorriu. — Não é comigo que você devia se preocupar, eu sou a dona da lótus oculta e estou com a lágrima ancestral, unindo o poder das duas posso impedir o abismo do tempo de engolir o mundo, mas ninguém além de mim pode salvar você de desaparecer vitimada pelo sacrifício de Ka Suo.
— Admito que foi inteligente da sua parte usar aquele fantoche de Shen Hairong para me fazer “refletir”. — Yan Da tentou cruzar os braços, mas eles continuavam rijos e gelados. — No turbilhão de emoções não percebi o feitiço sutil nas suas palavras. Você queria minha atenção, conseguiu, mas o que vai ganhar se eu fizer um acordo com você?
— Claro que sei o quanto se importa com o garoto pássaro e a fada musicista, posso prometer que não vou tocar neles. Quem eu quero de verdade é Ka Suo. Aquele fedelho intrometido extinguiu o resto da minha paciência.
De novo Ka Suo! Yan Da se encolheu, frustrada. Tudo parecia sempre girar em torno dele. Ying Kong Shi o queria livre, Lian Ji o queria morto. Independente do caminho que tomasse, tudo convergia na figura apática do trono do gelo. Ela conseguiria um dia se livrar da sombra daquele homem? Soltou uma lufada de ar e reprimiu o revirar de olhos quando quase deu uma bela resposta a Lian Ji sobre o fato de ela não ter paciência coisa nenhuma. Pensando de forma clara, Yan Da percebeu que aquilo realmente podia agilizar as coisas, jogar do lado dela podia ajudá-la a conseguir mais rápido o que realmente queria e se livrar de uma vez do carma que era Ying Kong Shi.
— Tudo bem — deu de ombros lembrando de acrescentar — deixe Chao Ya, Pian Feng, Huang Tuo e Yue Shen fora disso, não me importo com o que faça à Ka Suo ou qualquer outro.
— Tem certeza?
— Está esperando que volte atrás na minha palavra? — Desafiou-a. — Vou facilitar as coisas para você, Ka Suo ainda confia em mim, está tentando me agradar para que eu perdoe Ying Kong Shi e livre-o do sacrifício, não estou disposta. Vou agir como agente dupla para você, descobrir os planos e dizer como deve agir. Não temos tempo sobrando, o abismo do tempo está quase todo aberto.
— Não se preocupe, logo você estará rodeada por todos aqueles de que precisa. — Lian Ji sorriu. — Eu lhe darei dois dias e retornarei ao seus sonhos.
— Tenho uma ideia melhor.
※※※
Huang Tuo, Pian Feng e Ying Kong Shi saíram exatamente no território do norte, mas não avistaram Yan Da imediatamente. O príncipe do gelo estava afundando em desespero por sentir que sua princesa estava em grave perigo e, sem demora, pediu que Pian Feng se separasse, mas manteve Huang Tuo consigo na esperança de encontrá-la mais rápido que o guerreiro do vento e oferecer-lhe imediata assistência. O curandeiro não fez objeções e os dois grupos se separaram para a busca. A planície glacial era muito vasta e ainda havia pelo menos doze quilômetros até a antiga base da guarda do norte.
Por favor, Yan Da... por favor! Implorava ele internamente. Fechou os olhos e concentrou-se com toda a energia que tinha, evocou dentro de si a força do fogo, essência dela no seu ser. Sentiu-o inflamar-se em suas veias e direcioná-lo sob a supervisão curiosa e tensa do curandeiro. Shi correu na direção leste da planície gelada tendo o médico em seu encalço, Yan Da estava caída no meio da neve, o corpo parcialmente coberto pelo gelo e açoitado pelo vento cortante. Huang Tuo guinchou aterrorizado enquanto se abaixava ao lado dela e, já tirando o guarda-pó que usava, tirou-a da neve e envolveu-a com ele. Shi Puxou-a contra seu corpo usando seu calor para aquecê-la.
— Yan Da! — Shi chamou, acariciando o rosto gelado dela. — Yan Da, consegue me ouvir?
— Hipotermia severa — anunciou o curandeiro enquanto tomava o pulso da princesa e em seguida abria um dos seus olhos para ver, como temia, a pupila dilatada. — Pulsação muito fraca, respiração comprometida. Precisamos movê-la para o hospital agora!
Ele gritou por Pian Feng e o príncipe abriu o portal direto no hospital sem se importar muito com o local específico. Por sorte, saíram no estacionamento vazio nesse momento. Huang Tuo guiou-os para a emergência um maqueiro veio receber Yan Da e dois enfermeiros levaram Shi e Pian Feng para a sala de espera. O curandeiro imediatamente começou um RCP quando o coração da princesa vacilou, ele usou poder espiritual, enfermeiras ligaram Yan Da à aparelhos, o médico ordenou cobertores aquecidos e fluido intravenoso aquecido para ajudar a aumentar a temperatura dos órgãos e melhorar a circulação. Uma das enfermeiras tirou o jeans e o sutiã molhados de Yan Da, o coração monitorado ainda batia em ritmo muito lento o que preocupava o médico.
Na sala de espera, Shi se sentia miserável. Não podia deixar de se culpar pelo que acontecera à Yan Da, afinal, ele provocara aquele comportamento nela. Andando de um lado para outro à espera de notícias, ele passou as mãos pelo rosto, furioso consigo mesmo. O ritmo caótico e frenético do hospital aliado aos sons aterrorizantes da tempestade de raios do lado de fora começava a deixá-lo perturbado. Huang Tuo apareceu quase meia hora depois.
— Se tivéssemos demorado mais um minuto seria tarde demais. — Disse. — Ela não está fora de perigo ainda, estou monitorando a frequência cardíaca, coloquei-a no oxigênio ainda há dificuldade respiratória, o corpo dela está aquecendo agora, Pian Feng, volte para o apartamento e diga a Chao Ya para trazer algumas roupas amanhã. Shi wangzi, você volta e auxilia Ka Suo com Xing Jiu, vou mantê-la na emergência e monitorá-la pessoalmente, aviso se houver qualquer complicação no quadro.
Shi não queria ir embora, mas tampouco discutiria com Huang Tuo, especialmente quando ele usava aquele tom sério e profissional. Podia confiar nele, sabia que Yan Da estava em boas mãos. Junto com Pian Feng, ainda contrariado, ele voltou ao estacionamento e abriu um portal para leva-los direto ao apartamento a fim de evitar a perigosa tempestade. O guerreiro do vento não agradeceu, parecia querer matá-lo e o príncipe não podia culpá-lo por isso. A tensão do momento parecia palpável, nenhum deles tinha como saber quanto tempo restava ou quanto o espírito de Li Luo ainda conseguiria suportar antes de se extinguir. Por mais que o jovem príncipe não quisesse admitir, parecia que não conseguiriam vencer aquela batalha predestinada.
Quando chegaram ao condomínio, ele foi para seu apartamento e Pian Feng seguiu para a casa de Yan Da onde transmitiria a mensagem de Huang Tuo para Chao Ya. O guerreiro não disse uma única palavra para ele, em outras circunstâncias Shi teria ficado preocupado. Ao entrar no escritório, Ka Suo continuava mandando energia para o cajado das estrelas. O príncipe analisou com uma atenção mais calma as estrelas das duas constelações na esperança de localizar o astrólogo, as estrelas de Liao Jian e Lan Shang não brilhavam, mas estavam visíveis, contudo, não havia qualquer sinal de Xing Jiu. Ele sabia que, localizando o astrólogo seria capaz de encontrar Lian Ji e imaginava que ela estaria se beneficiando da estrela morta para encobrir seu rastro. Sua maior chance — e por si só isso já seria um feito extraordinário — seria tentar entrar em contato com Xing Jiu.
— Ge.
Ka Suo interrompeu o fluxo de energia e se virou para o irmão mais novo. Ele perguntou sobre Yan Da e Shi lhe disse o que havia acontecido, o abatimento no rosto do príncipe demonstrava o cansaço e a frustração que sentia, o monarca queria abraça-lo e prometer que tudo ficaria bem, mas não conseguia encontrar esperança no meio daquele caos, mais uma vez Ka Suo se via sozinho e amedrontado, prestes a cumprir a exigência cruel de Yan Da e sacrificar o irmão mais uma vez em troca da permanência daquele mundo.
— Não há mais tempo. — Murmurou o príncipe. — Precisamos de Xing Jiu, eu não consigo ler ou manipular as estrelas como ele.
— Sem o corpo não podemos acordá-lo. — Lembrou o monarca, derrotado.
— Enquanto o cajado das estrelas estiver conectado aos cubos dos sonhos ele terá energia e espaço para se mover entre os sonhos. — Explicou Shi. — Mas você precisa de um cubo para entrar no sonho dele e converter a energia daquele que está em posse de Lian Ji. Vá para a tribo dos astrólogos e veja o que consegue de lá com Xun Hao, vou continuar aqui mantendo o cajado com energia suficiente até ele acordar.
— Mas Shi...
— O espírito de Li Luo não vai suportar por muito mais, ge, precisamos nos apressar ou esse mundo será engolido e todas essas pessoas inocentes vão pagar pelas minhas falhas.
— Nada disso é culpa sua, Shi. — Ele apertou o ombro do irmão. — Vamos conseguir sair dessa, nós temos algo que Lian Ji não tem, podemos derrotá-la. Acho que é hora de você saber.
O rosto do príncipe ergueu para o irmão com uma expressão séria.
— O que nós temos?
※※※
Liao Jian corria atrás de Xing Jiu passando de portal em portal sem entender o que o astrólogo estava procurando, mas cada vez que saíam em um lugar diferente, Xing Jiu apenas suspirava exasperado e se concentrava novamente antes de abrir outro portal. Ele não deu qualquer explicação tampouco o advogado se atreveu a perguntar, temendo tirar o foco do amigo. Finalmente, após o que pareceu um longo tempo, o astrólogo abriu um portal que os levou a uma rua deserta, as casas em estilo antigo ladeavam uma avenida comprida até os muros que a cercavam muito ao longe onde os portões exibiam uma placa impossível de ler do lugar onde eles estavam.
Observando melhor, Liao Jian percebeu que aquela era uma avenida comercial, restaurantes, barracas de rua, lojas de tecido, tudo estava deserto e o vento soprando ali dentro era quente e cheio de fuligem. As montanhas ao fundo, com rochas negras, exalavam um ar intimidador e, dali, pareciam emanar uma luz amarelada de suas fissuras, olhando em volta para pedaços de madeira, tecido e até mesmo mercadorias espalhadas no chão, era como se as pessoas ali tivessem saído às pressas. Xing Jiu parecia indiferente à paisagem que o cercava e continuava concentrado como se procurasse alguma coisa.
— Isso é... — O advogado começou sentindo os pelos do seu corpo eriçarem.
— Sim. — Xing Jiu completou. — Estamos na tribo do fogo.
— O que estamos fazendo aqui?
— Procurando Yan Da. — O tom dele era sombrio. — Ela deve estar em algum lugar por aqui, este sonho é dela.
— Eu não chamaria bem de sonho. — Ironizou.
— O espírito de Yan Da está em risco. — Xing Jiu olhou para ele com uma expressão séria. — Precisamos encontrá-la.
Fazendo uma careta, o advogado não comentou aquilo. Ele sabia a importância da princesa do fogo em tudo aquilo, mas não conseguia se afeiçoar a Yan Da, mesmo sendo, como os demais, uma testemunha de todo o passado dela. Para Liao Jian, qualquer membro da tribo do fogo sempre seria um inimigo. Reprimindo um suspiro de frustração, ele seguiu o amigo pelas ruelas e, antes que alcançassem os portões de entrada da cidade, de repente o cenário em volta deles mudou para uma floresta.
— O que está acontecendo? — Quis saber o advogado em alerta.
— Sonhos são reflexos do nosso inconsciente, se nossos medos ou desejos mudam, os sonhos oscilam. — Explicou. — Esse lugar deve ter algum significado para ela.
Antes que o advogado pudesse fazer novas perguntas, o som de passos sobre galhos e folhas secas se fez audível. Liao Jian continuava com todos os seus instintos alertas pronto para atacar a qualquer momento. Um grupo de pessoas se aproximava, pelos passos ele calculava que eram entre doze e vinte, um deles andava relutante, pois os passos se destacavam em um ritmo diferente dos demais, ele ia descrevendo isso de forma sussurrada para Xing Jiu que franzia o cenho. Outros passos, vindos de outra direção, se aproximavam, esses corriam. O olhar de Liao Jian se virou nessa outra direção, ele podia rastrear ambos, a diferença entre eles era de minutos, dependendo de onde o grupo maior parasse, a pessoa correndo chegaria não muito depois.
O advogado não estava gostando daquilo. Nas memórias que recebera de Yan Da não se lembrava de ela estar naquele lugar com um grupo grande de pessoas, a menos que fosse quando Shi fugira do ataque à tribo do gelo e ela o encontrara a alguns quilômetros adiante no lago Tian Yun. Ele percebeu quando o astrólogo encolheu os ombros como se reconhecesse aquele cenário conforme o grupo maior chegava mais perto, pensou em perguntar o que ele sabia, mas não teve tempo. A figura de Shuo Gang surgiu ao longe trazendo um pequeno séquito que arrastava uma figura.
Peng Yan.
— Peng Peng! — Era a voz de Yan Da.
Surgindo do meio das árvores trajando não muito mais que uma calça jeans e um sutiã preto, Yan Da parecia não ter ideia da sua semi-nudez enquanto avançava na direção do grupo com o rosto transtornado pelo desespero. Xing Jiu também se virou na direção dela preparado para intercepta-la.
— Gongzhu, espere. — Disse ele, parando diante dela.
— Não, eu preciso salvá-lo, preciso parar Shuo Gang! — Chorou Yan Da tentando se desvencilhar do astrólogo.
— Isso não é real. — Xing Jiu a segurou pelos braços com delicadeza. — Não está acontecendo de verdade, Yan Da.
Liao Jian voltou o olhar para o grupo, de repente, como por mágica, o rosto de Peng Yan se transformou no de Ying Kong Shi. A expressão de Shuo Gang era sombria e diabólica quando ergueu a espada.
— NÃO! — Gritou Yan Da.
O príncipe do fogo desceu a espada que cantou no ar e a cabeça do príncipe do gelo caiu por terra, o tronco esguichando sangue sobre ele e os demais que estavam próximos. O rosto de Yan Da era uma máscara de horror e mesmo Liao Jian estava chocado com aquele pesadelo. Inabalável, mas com um tremor quase imperceptível na voz, Xing Jiu tentava ganhar a atenção dela. Quando conseguiu se libertar do choque da visão e enquanto o grupo mais atrás continuava a barbárie de desmembrar o príncipe do gelo — ou Peng Yan, ele já não sabia mais —, o guardião do norte ajudou o amigo segurando a princesa e impedindo que ela se aproximasse dos assassinos.
— Yan Da, me ouça, isso não é real, olhe para mim. — A voz dele era um pouco mais enérgica nesse momento e finalmente conseguiu a atenção da princesa. — Isso, está tudo bem, não está acontecendo nada disso. Ying Kong Shi está bem, Peng Yan está em paz.
O cenário oscilou outra vez, Liao Jian sentiu um frio na espinha conforme as árvores em volta deles se torciam e, conforme a princesa recobrava a calma, se distorcia em uma planície glacial que ele reconheceu como seu território no norte. Yan Da estremeceu, parecendo só então se dar conta do que vestia — ou do que não vestia, pensou o advogado — e abraçou o próprio corpo, atordoada. Xing Jiu pareceu aliviado.
— Já passamos por isso uma vez, se lembra? — Sorriu.
— Mas eu estava vestida na ocasião. — Ela fez uma careta.
— Tente encontrar a porta. — Ele fez um gesto de anuência sem nunca baixar o olhar do rosto dela. — Precisa sair daqui o quanto antes.
— O que está acontecendo?
— Seu espírito está se afastando mais e mais do seu corpo, você sofreu uma hipotermia severa por ficar muito tempo aqui. Este é o último cenário do qual se lembra, pois é onde foi encontrada. — Explicou o astrólogo. — Se permitir continuar vagando mais fundo no seu inconsciente pode causar a morte do seu corpo físico.
A expressão dela ficou sombria e o advogado percebeu que ela parecia se lembrar de estar ali há não muito tempo. Olhando em volta como se procurasse alguma coisa, seu olhar se deteve em um ponto específico da planície quase deserta. Ela voltou-se mais uma vez para Xing Jiu.
— Está ali. — Apontou, mas Liao Jian não conseguia ver nada. — Vamos.
O astrólogo esboçou um sorriso triste.
— Dessa vez sua alteza precisa ir sozinha. Por enquanto, nós não podemos sair daqui.
Yan Da pareceu hesitante.
— Está tudo bem. — Garantiu Xing Jiu. — Apenas vá para a porta, depressa.
— Vou ajudar a acordá-los. — Prometeu.
O astrólogo assentiu agradecido e Liao Jian franziu o cenho sem entender o que ela queria dizer. Yan Da avançou na direção leste da planície e os dois observaram-na segurar alguma coisa e puxar, mas não conseguiam ver a porta. Ela atravessou e desapareceu diante deles. O astrólogo deu um suspiro frustrado e aliviado, então virou-se para Liao Jian e sorriu.
— Vamos, precisamos encontrar Lan Shang, estamos sem tempo.
Sem contestar, o advogado esperou o amigo abrir um novo portal e, cheio de incertezas, o seguiu para dentro de outro pesadelo.
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