O carro parou no estacionamento interno do condomínio e Chao Ya sentiu o coração acelerar por um instante. Mais cedo, o telefone de Yue Shen deu ocupado e ela telefonou para Ka Suo avisando que Yan Da havia “fugido”. Mesmo que o rei tivesse tentado aparentar calma, sua voz denotava preocupação e a cantora não conseguia se sentir tranquila.

— Pare com isso. — Ralhou Pian Feng. — Agora que Ying Kong Shi recuperou a memória por mais que desejemos superprotegê-la precisamos deixá-lo tomar a frente e ficar de prontidão apenas para o caso de dar errado. Acha que é a única com vontade de dar meia volta e ir atrás dela? Se algo acontecer a ela não vou ser culpado por não medir as consequências.

A cantora precisava admitir que ele tinha razão. Com as memórias vinha o poder e Shi era mais forte que todos eles juntos e combinados. Ainda assim, ela temia por Yan Da, a princesa do fogo não era diferente de um mortal comum enquanto suas memórias, e consequentemente poderes, estivessem sendo suprimidos e, diante de qualquer coisa que pudesse acontecer, Shi não poderia se mostrar verdadeiramente diante dela. Era muito complicado e tudo no que Chao Ya conseguia pensar era em obrigar Pian Feng a dar partida no carro e dirigir atrás dela.

— Ela vai ficar bem, não vai? — Perguntou tentando acalmar a si mesma.

— Pelo bem de Ying Kong Shi, é bom que sim. — Asseverou Pian Feng. — Não acredito que Lian Ji vá agir tão depressa, ela não é tola para entrar no caminho do príncipe de forma tão escrachada. Tampouco faz o estilo dela. Somos os guardiões de Yan Da, se algo acontecer, Ka Suo vai nos informar.

Anuiu dizendo a si mesma que ele tinha razão. Shi precisava tomar mais iniciativa, apesar de ele ter feito algum progresso com a princesa o resultado não era muito satisfatório e o tempo estava se esgotando. Ela precisava confiar que o príncipe era capaz de protegê-la, seria uma prova para ela — e para Pian Feng — que ele merecia a confiança deles. Assim, suprimindo a aflição em seus corações, os dois deixaram o carro e subiram rumo ao apartamento. Mesmo que seu pensamento não se afastasse de Yan Da, ele tentou voltar o foco para o outro problema que estava prestes a resolver.

No percurso nenhum dos dois disse mais nada, apesar do silêncio entre eles não ser constrangedor ou desconfortável — algo que não acontecia antes. Pian Feng abriu a porta do apartamento e os dois entraram, Chao Ya se acomodou em uma poltrona, mesmo estando recuperada, ela ainda sentia cansaço facilmente, resquícios da recuperação que Huang Tuo afirmou passarem conforme ela fosse voltando a se exercitar. Todo aquele tempo separados deu aos dois a possibilidade de reavaliar suas atitudes tanto no passado como naquele presente incerto, diante de todas as coisas que ouviu, Pian Feng não podia mais ignorar a necessidade daquela resolução.

— Chao Ya...

— Eu amo você.

Disparou ela e Pian Feng sentiu o corpo inteiro congelar. Emudecido, ele a encarou pelo que pareceu um longo tempo, a cantora não desviou o olhar e vendo que suas palavras tinham causado o efeito desejado — algum efeito, na verdade, já que acreditava estar se iludindo — não esperou que ele fizesse contraposições e despejou de uma vez tudo entalado na sua garganta há tempos.

— Sempre amei. — Continuou. — Quando você foi embora passei séculos me ressentindo por não ter te seguido, imaginando as possibilidades e o futuro que poderíamos ter tido juntos, cheguei mesmo a amaldiçoar minha coroa em um acesso de desespero. Por que? Por que eu tinha que me anular em favor daquele povo? Que espécie de importância tinha com quem eu me casava? Fiquei duzentos anos sem conseguir olhar para minha mãe, trancada no meu quarto me recusando a aceitar aquele destino e me punindo pela minha covardia.

“Por fim, quando me convenci que você nunca mais voltaria, não me restava mais nada além de me resignar com meu destino, o que mais poderia fazer? Perdera a chance de felicidade quando permiti que você fosse e não fui com você. — Um sorriso amargo se formou no rosto dela. — Trezentos anos mais tarde, saí dos meus aposentos pela primeira vez para encarar meu mundo sem cor, foi quando minha mãe anunciou meu casamento com Liao Jian, naquela época ele era pouco mais velho que eu e não o conhecia, queria ter tido forças para me opor, dizer a ela que preferia morrer a me casar com alguém que não amava, mas eu era covarde demais para isso.

“Eu esperei por você durante quinhentos anos, Pian Feng, os quinhentos anos mais dolorosos e longos da minha existência, nesse tempo mal podia suportar a presença de Liao Jian ao meu lado, cada visita dele era uma tortura. Mas no fim, acabei aceitando a amizade dele, se estava realmente condenada a me casar que pelo menos não fosse com alguém que odiava e, afinal, ele não tinha culpa da minha falta de coragem. Essa amizade se consolidou em um carinho imenso, mas nunca passou disso, Pian Feng, carinho. Então você voltou, mas não havia mais nada que eu pudesse fazer para evitar o meu futuro, além disso, minha infantilidade guardava um ressentimento de você por ter ido embora. No dia da contenda, dizer a Liao Jian o seu segredo foi a coisa mais difícil que já tive de fazer, só pensei no meu coração magoado, no meu dever como futura rainha da tribo de música xamânica e na lealdade que jurei a ele quando o aceitei como noivo.

“Você pode me culpar. No seu lugar talvez eu fizesse o mesmo. Naquele momento disse a mim mesma que estava com raiva de você, mas a verdade é que me ressentia comigo mesma. Eu atrapalhei o nosso futuro, deixei ir a minha felicidade, me atei àquele compromisso com alguém que não amava porque não tinha peito para desafiar minha mãe. Então quando você voltou descontei essa frustração em você, escolhi ser covarde outra vez...”

Ela não conseguiu terminar seu monólogo porque Pian Feng cobriu rapidamente a pequena distância que os separava e a calou com um beijo ardente. Por um instante ela ficou desnorteada como se não entendesse o que estava acontecendo, mas então uma fogueira foi acesa no seu corpo e ela abraçou Pian Feng puxando-o para si. De sua parte, o guerreiro sentia o coração explodir. Embora tivesse suas dúvidas quanto a intensidade dos sentimentos de Chao Ya, ouvi-la dizer que sempre o manteve em seu coração mesmo quando estava com Liao Jian mandou para longe qualquer nuvem de dúvida que ainda pudesse restar dentro dele.

Huang Tuo estava certo ao dizer que ele não devia ficar perdendo tempo — ainda mais no meio daquela incerteza em que estavam — ao invés de viver o que sentia. Ele amava Chao Ya e não permitiria mais que o passado entrasse no seu caminho. Agora não havia mais nada em seu caminho além de sua própria teimosia e ele não sabotaria sua felicidade por causa de coisas que não podia mudar. Tomando a cantora nos braços, ele caminhou com ela até o quarto e fechou a porta deixando a racionalidade, as dores do passado, as inseguranças e os receios do lado de fora.

※※※

Yan Da entrou na Avenida Ren Xue ofegante, olhando para trás percebeu que não estava sendo seguida, o que era bom. Parando por um momento ela respirou várias vezes sentindo os pulmões arderem. Era difícil se livrar das garras superprotetoras de Pian Fian, mas eles precisavam conversar e acabar de vez com aquela situação constrangedora. Eles se gostavam, ela não conseguia entender qual a dificuldade de aceitarem isso. Encostando-se na parede de um prédio aleatório, ela contemplou o céu deixando os tímidos raios de sol aquecerem seu rosto, as estações se mesclavam desde o aquecimento global, de modo que aquele outono tinha ares de verão ao mesmo tempo em que as nuvens no horizonte prenunciavam uma tempestade.

Por um minuto, se permitiu o luxo de fechar os olhos e apreciar o calor. Lentamente, a consciência ia se afastando do som de passos apressados de ambos os lados, os carros impacientes no tráfego enlouquecido, os celulares tocando a cada minuto e as vozes sussurradas dos transeuntes, foi mergulhando mais e mais dentro de si ao ponto de quase se perder.

“Talvez seja um pouco tarde demais para isso, mas houve algo que sempre quis te dizer...”

Não. Yan Da disse a si mesma para afastar a lembrança.

Conhecer você foi a maior bênção que os céus me concederam, cada minuto ao seu lado foi o mais feliz da minha existência...”

Pare! Ela abriu os olhos e foi engolida pela realidade caótica à sua volta.

“Yan Da... eu te amo.”

“Yan Da, eu estou apaixonado por você.”

Ficou difícil respirar, de repente os sons que lhe cercavam naquela bagunça cotidiana começou a oscilar como uma curva de mormaço no calor do deserto, os olhos de Yan Da ficaram irritados com a claridade, as vozes de Shi e Peng Peng guerreavam na sua mente, um suor frio começou a se formar no seu rosto e ela lutava para manter os pulmões funcionando, sua visão falhou e ela começou a andar devagar apoiando-se nas paredes dos prédios para se manter firme sobre as pernas. Sua saliva parecia mais espessa ao descer pela garganta levando-a a tossir algumas vezes, sentiu-se enjoada e a cabeça dava giros.

Tudo bem, Yan Da, é só um ataque de pânico, retome o controle”, disse a si mesma e mesmo em sua mente as palavras saíam em meio a balbúcios quase ininteligíveis. Atordoada, ela mal percebia as lágrimas que percorriam seu rosto enquanto procurava na cortina de vertigem um local isolado para se esconder. Entrou em uma rua aleatória e cambaleou até um beco residencial, o cheiro forte de lixo e urina se espalhava por todo lado aumentando mais sua náusea, Yan Da não conseguia se orientar, mas pelo pouco que sua visão turva conseguia distinguir das silhuetas disformes que eram as casas amontoadas com fachadas decadentes, devia estar à sul onde se concentrava a região mais pobre. Apoiou-se em um poste e tateou a bolsa em busca do celular, abriu a agenda lembrando-se de que seu objetivo ao fugir era não tirar Pian Feng do objetivo. O número de Shi foi o único que apareceu após o de Chao Ya e Ka Suo, abaixo dele restava o último contato que era o do doutor Huang, sem querer, ela acabou tocando no nome de Shi enquanto tentava ligar para o médico, cancelou a chamada e pressionou o nome do curandeiro.

Yan Da, a que devo a honra? — A voz bem humorada soou do outro lado.

— Huang Tuo... me ajude. — Murmurou ela, a mão no peito enquanto lutava para respirar.

— Onde você...

A frase nunca foi completada. O telefone desapareceu da sua mão e alguém a segurou com firmeza, o homem diante dela era um estranho, todos os instintos de alerta e autopreservação tornaram a mente de Yan Da mais clara, o sujeito apertou as mãos em torno dos seus braços até ela gemer de dor.

— Como eu tenho esperado esse momento.

Aquela voz. Yan Da sentiu um arrepio na espinha, já a ouvira antes, seis anos atrás, forçou-se a manter a calma, se desse o que eles queriam sabia que sua situação só iria piorar. O homem surgiu no seu campo de visão segurando o celular dela, agora desligado, um sorriso gélido estampava seu rosto com uma cicatriz no lado esquerdo onde ela o arranhara no passado. Se o sujeito maior não a estivesse segurando, provavelmente ela teria caído.

— O tempo fez bem a você, princesa. — Continuou. — Tenho esperado por muito tempo o momento que você finalmente estaria longe dos guarda-costas.

— Shuo Gang mandou você?

— Shh... — Ele se aproximou e colocou um dedo sobre os lábios dela. — Deixe que eu falo por aqui. Seu irmão trapaceiro me deve, acho que você vai ser uma boa moeda de troca.

Ela conteve a vontade de rir apesar da situação. Se eles achavam que Shuo Gang dariam algum dinheiro por ela provava que eram tão estúpidos quanto o irmão. Aquele homem devia estar preso, ele sequestrara Peng Peng e ela, torturara seu melhor amigo e tentara abusar dela uma vez, foi quando Yan Da revidou e causou-lhe aquela cicatriz. Contudo, Shuo Gang conseguiu livrar todos os seus comparsas naquele crime, era o motivo daquele acerto de contas ridículo. Virando o rosto para se livrar da mão dele, Yan Da cuspiu na cara do sujeito o que só aumentou a fúria deste e a força com que o outro a segurava. A resposta foi um tapa tão forte no seu rosto que ela cuspiu sangue — e o fez novamente no rosto do indivíduo. Enlouquecido, ele desferiu um soco no seu estômago deixando-a sem ar, a visão desaparecendo. Algo frio encostou na sua cabeça.

— Vamos ver quão corajosa você vai continuar sendo quando eu acabar com você, vou te ouvir me implorando para morrer e isso vai ser música para os meus ouvidos. — Ameaçou.

— Quero ver... você tentar. — Sussurrou Yan Da sem fôlego. — Dessa vez eu arranco seu olho, desgraçado nojento!

O cano da arma foi pressionada contra a sua têmpora com tanta força que Yan Da chegou a pensar que ela perfuraria o crânio antes mesmo de atirar. Ela fechou os olhos e sorriu. No início não entendeu bem o motivo, mas sorriu e pensou em Peng Peng, em Ying Kong Shi, Pian Feng, Chao Ya e Huang Tuo, seu coração não vacilou diante da morte, ao invés disso ela a abraçou calorosamente como se a esperasse há tempos.

— Yan Da!

A voz veio de algum lugar do beco, ela reconheceu como sendo a voz de Ying Kong Shi — seria capaz de reconhecê-la mesmo em meio a uma multidão —, Yan Da sentiu seu coração pular uma batida, o que ele estava fazendo ali? Seu olhar se ergueu para ver o rosto furioso de Shi olhando para o sujeito que ainda mantinha a arma pressionada contra a cabeça dela. Não sabia se havia outros comparsas escondidos por ali, as imagens do corpo inerte e ensanguentado de Peng Yan lhe veio à mente, sobrepondo-se à imagem de Shi diante dela, o terror dominou Yan Da tornando-a irracional, puxando os braços ela tentou se libertar de todas as formas para tirar Shi dali.

Para impedi-lo de morrer.

Tudo aconteceu rápido demais, ela não sabia como, mas subitamente os braços que lhe prendiam se afrouxaram, ela golpeou o sujeito com a arma e correu na direção de Ying Kong Shi, ele a segurou com firmeza apoiando sua cabeça com a mão e pressionando-a gentilmente contra ele bem no momento que o tiro explodiu

※※※

Shi abraçou Yan Da com força sentindo-a respirar, imergindo no calor que emanava do seu corpo, aspirando cada sinal de vida que ela exalava. Após o alívio, veio a fúria. Ele ergueu o rosto e viu Yue Shen diante dos dois, o tiro disparado segundos atrás ricocheteou graças ao escudo de proteção nela, ele manteve Yan Da em seus braços mais alguns minutos antes de finalmente soltá-la e olhá-la nos olhos segurando seu rosto entre as mãos.

— Está ferida? — Quis saber e ela negou.

— Você precisa sair daqui. — Alertou em desespero. — Por favor, Ying Kong Shi, eles...

— Shh... — Shi acariciou o rosto dela enxugando suas lágrimas com os dedos. — Está tudo bem agora, você está segura.

— Não é comigo que estou preocupada! — Ela segurou o casado dele entre as mãos apertando com força. — Eles vão machucar você, eles vão...

— Yan Da, eu prometo, nada vai acontecer comigo. — Garantiu ele em um tom firme e carinhoso. — Eles vão se arrepender de ter machucado você. Yue Shen.

Não precisou dizer a ordem, ela sabia que devia levar Yan Da para longe. Yue Shen se aproximou, gentilmente colocando o braço em volta dos ombros de Yan Da que ainda parecia atordoada. A princesa pensou em protestar, preocupada com Shi, mas Yue Shen lhe garantiu diversas vezes que o príncipe ficaria muito bem. Elas deram apenas alguns passos quando mais homens apareceram, saindo de becos adjacentes. Pelas janelas decrépitas das casas, os moradores olhavam, alguns assustados e outros já tão acostumados com a violência diária que sequer davam-se ao luxo de se chocar.

Dois homens bloquearam a passagem de Yue Shen.

— Onde acha que vai, gracinha?

Ele fez menção de segurar o braço dela, mas Yue Shen o interceptou antes que a tocasse e quebrou o pulso dele sem dificuldade. Yan Da tremeu, os gritos de Peng Yan ecoando pelo galpão vieram-lhe a mente, ela prendeu a respiração por um instante e fechou os olhos tentando se libertar das memórias que lhe aprisionavam.

— Nao se atreva a colocar sua não nojenta em mim. — Ameaçou.

Vendo que Yan Da estava prestes a ter outro ataque é pânico diante da violência, a guerreira tirou o sobretudo que vestia e, com cuidado, cobriu a cabeça dela pedindo que esperasse quietinha alguns minutos; bem a tempo de bloquear um pedaço de madeira que veio em sua direção. Ela o tirou do sujeito e bateu nele com a arma, ainda acertando o comparsa ao lado quando este intencionou pegar Yan Da. Deixou mais três inconscientes antes de tirar o agasalho da cabeça da princesa e tentar acalmá-la enquanto a afastava a briga prestes a começar com Shi e os demais.

— Nao se preocupe, Meng xiaojie, vai ficar tudo bem, eu prometo. — Ela abriu a porta de um veículo e sentou Yan Da no banco de trás. — Olhe pra mim, xiaojie, concentre-se apenas em mim, tudo bem? Nada ruim vai acontecer, nem a você, nem a Ying Kong Shi. Vamos respirar juntas? Eu ajudo você.

Enquanto isso, Shi encarava a plateia de dez homens que ainda olhavam desconcertados para ele diante do tiro que devia tê-lo derrubado e foi inexplicavelmente bloqueado por Yue Shen. A raiva que inflamava os olhos do príncipe era de uma força tal que fazia alguns daqueles sujeitos se tornarem apreensivos.

— E quem é você? — O indivíduo com a arma perguntou.

— Quem eu sou? Quem você é para ter a ousadia de encostar essas suas mãos imundas em Yan Da?! — Rebateu ele, a voz gélida.

— O irmão dela me deve, há muito tempo, estou apenas pegando o que me pertence. — Contrapôs o sujeito. — Acabe com ele.

Um dos homens sorriu e, segurando uma barra de ferro, caminhou até Shi, principe deu alguns passos ao encontro dele, desviou do golpe segurando o braço do homem e girando-o por sobre o ombro com tamanha força que ele aterrisou no chão ficando imediatamente inconsciente. Como eram mortais, Shi estava relutante em usar seus poderes para feri-los, apesar das consequências serem menores do que interferir em suas vidas e decisões ainda assim eram catastróficas.

Os outros nove vieram sobre ele ao mesmo tempo, com a graça de um felino, o príncipe desviava facil e agilmente dos golpes derrubando um a um com precisão e violência, o último deles — o grandalhão que estava segurando Yan Da — veio sobre ele com uma chave de encanador tentando golpeá-lo, Shi desviou do golpe que passou bem próximo do seu rosto, imobilizou o braço do agressor e golpeou-o no rosto com o cotovelo deixando-o desorientado, empurrou-o no chão e quando este se levantou, ainda mais furioso, segurou-o pelo punho, tirou a chave dele e o acertou com ela fazendo-o cair numa poça de sangue. A essa altura, o chefe deles já tinha uma ideia que havia mexido com o homem errado e, apontando a arma para ele, atirou três vezes, Shi não teve dificuldade em congelar e destruir os três projéteis no ar enquanto se aproximava do homem.

— Não me importo com que tipo de negócios você tem com Shuo Gang, mas você deve aprender que não se mete inocentes no meio das suas dívidas podres, especialmente quando essa pessoa é a minha mulher. — O tom de ameaça na voz dele fez o suejeito recuar. — Vou ajudá-lo a não esquecer mais disso.

O próximo tiro que ele tentou dar contra Shi fez a arma explodir na sua mão que ficou deteriorada. O homem gritou de agonia caindo no chão e tentando se arrastar para longe de Shi que abaixou-se diante dele e golpeou-o com tanta força no rosto que ele cuspiu quatro dentes.

— Por favor, não me mate, por favor! — Implorou o sujeito?

— Matar você? — Shi sorriu. — Isso seria muito cômodo. Primeiro, você vai me dizer tudo que eu quero saber, depois vou fazê-lo provar do seu próprio veneno, aí então você vai desejar a morte. E vou garantir que deseje isso por muito tempo.

Ele estapeou-o e o sujeito cuspiu mais sangue, então Shi deu-lhe um soco no estômago fazendo-o perder o ar até, por fim, desmaiar. Ele segurou o homem pelo colarinho e saiu arrastando até próximo do carro, em um ângulo longe dos olhos de Yan Da. Yue Shen veio ao seu encontro.

— Vamos levar este. — Anunciou. — Como ela está?

— Mais calma, mas ainda um pouco assustada. Acho que estava no meio de um ataque de pânico quando a capturaram. — Explicou Yue Shen. — O que vai fazer com os outros?

— Não acredito que eles se atrevam a tocá-la novamente. Deixe-os aí, parecem só lacaios inúteis seguindo ordens por dinheiro. Este deve ter algo substancial para dizer, leve-o até Liao Jian e faça-o falar.

— Com prazer. — Sorriu ela, satisfeita.

— Me conte tudo em detalhes, estou apenas querendo um bom motivo para visitar Shuo Gang. Tenho muitas contas a acertar com ele. Talvez esse sujeito diga algo útil para incriminá-lo.

Shì. — Anuiu. — Cuide dela.

Shi sorriu para Yue Shen e se despediu, agradecendo pela ajuda oportuna. Mesmo tendo espancado todos aqueles homens — e provavelmente matado um —, ele ainda não se sentia satisfeito, não quando pensava que Yan Da havia sido ferida, tocada por eles, a simples ideia acendia uma fogueira dentro de Shi capaz de dizimar um país inteiro. Yue Shen carregou o sujeito para o próprio carro enquanto Shi se aproximava do seu veículo — trazido por um motorista de aluguel —, onde Yan Da estava sentada no banco de trás, a porta ainda aberta, olhando para as próprias mãos. Ao ver o príncipe se aproximar, inesperadamente ela levantou, correu até ele — surpreendendo-o — e o abraçou apertado.

Por um átimo de segundo, Shi ficou estático, pego pelo choque da reação dela. Não era a primeira vez que Yan Da tomava aquele tipo de atitude. Cuidadosamente, ele a abraçou segurando sua cabeça e afagando-lhe os sedosos cabelos escuros. Ela respirava com dificuldade, apertando-o como se estivesse tentando se fazer acreditar que ele estava vivo, todo seu corpo tremia enquanto Shi a mantinha acolhida em seus braços sentindo uma felicidade doce e quente.

— Está tudo bem, estou aqui. — Sussurrou beijando-lhe o topo da cabeça. — Você está segura agora.

— Por que você só faz esse tipo de maluquice? — Reclamou com a voz trêmula abafada pelo rosto escondido no peito dele enquanto batia nele levemente com as mãos em punho. — O que eu faria se eles matassem você? Como eu poderia viver carregando essa culpa?

Shi a apertou um pouco mais em seus braços e sorriu, a mão sem deixar a cabeça dela, mantendo-a contra seu corpo como se quisesse envolve-la em sua totalidade, protegendo-a de tudo no mundo. As palavras da princesa só aumentaram a esperança e os sentimentos dele, reafirmando ainda mais sua convicção de que apostaria tudo por ela.

“Ying Kong Shi... eu te salvei de novo. Rápido me agradeça.”

O sangue brotava daquela horrenda ferida aberta no seu corpo, ele era incapaz de imaginar o tamanho da dor que ela sentia, a respiração difícil, ele se sentia tão impotente por não poder salvá-la, por não ter sido capaz de impedir aquilo, sequer conseguia olhá-la, porque vê-la daquela maneira evidenciava sua falha, seu egoísmo, sua obstinação cega. A mão dela tocou seu rosto.

Os olhos de Shi marejaram com a lembrança, a dor insuportável e o peso da culpa oprimiam seu peito, outrora, Yan Da o havia acusado de nunca ter uma vez sequer lhe agradecido por ter salvado sua vida, e ela tinha feito por ele sacrifícios que mesmo mil vidas não seriam capazes de pagar. Ele fechou os olhos por um instante, o braço em volta do corpo dela apertando-a ainda mais contra si, esperava que não a estivesse machucando, pois não havia espaço nem para uma agulha entre eles.

— Obrigado, Yan Da. — Disse, a voz embargada. — Obrigado por sempre se preocupar comigo, mesmo quando não mereço isso. Nunca mereci.

Yan Da se afastou um pouco para olhá-lo, os olhos cheios de confusão ainda um pouco úmidos, Shi se deu conta que nunca havia olhado de verdade em contemplação os belos olhos dela, eram profundos, atrevidos, ardentes e cheios de uma ternura genuína. Os olhos dela eram capazes de fazer alguém se apaixonar sem sequer conhecê-la, começava a se questionar se quatro mil anos atrás ele era cego. Sua mão acariciou suavemente o rosto dela sem nunca deixar de olhar profundamente em seus olhos.

— O que quer dizer? — Perguntou ela.

— Que você sempre teve razão a meu respeito. — Um fraco sorriso surgiu no rosto dele. — Eu sou um idiota desde o berço. Me perdoe.

Ela lhe ofereceu um sorriso tão doce que o coração de Shi quase parou.

— Você realmente gosta de se desculpar, não é? Pelo quê está me pedindo perdão agora, por salvar a minha vida? — Ergueu a sobrancelha.

— Não. — Meneou a cabeça. — Estou pedindo perdão por coisas que você não entenderia, mas, sobretudo, por não pedir sua permissão.

— Minha permissão? — Ela franziu o cenho. — Não ent...

Antes que terminasse de falar, os lábios de Shi pressionaram os seus. Inicialmente, o toque foi suave e tranquilo, como se lhe dessem espaço para se afastar e impedi-lo, Yan Da ficou estática por um momento, era seu primeiro beijo acontecendo de maneira quase irreal no calor de um momento de pura tensão. Ela não tinha certeza do que a fez envolver o pescoço de Shi com os braços e permitir que ele lhe beijasse com cada vez mais avidez. Os braços dele a puxavam contra si como se desejasse que os dois se fundissem num único organismo, ele lhe beijava com ternura, uma calma impaciente e devota, guiando-a passo a passo naquela conversa sem palavras. A princesa sentia um calor subindo pelo seu corpo desde o baixo ventre até a cabeça, envolvendo-a numa chama incandescente espalhando loucura por todas as suas terminações nervosas, enquanto Shi, extasiado pelo momento e a reação dela, tinha a sensação de que a essência do fogo em sua alma se ligava com a de Yan Da reconhecendo-a como uma parte dele mesmo.

Em quatro mil anos de existência, era extraordinário descobrir aquele tipo de amor. Um amor maior do que ele sentia por Ka Suo, maior do que jamais havia imaginado sentir em toda a sua vida. Luzes explodiam em sua mente quando os lábios se separaram em busca de ar, ainda de olhos fechados, as testas se juntaram e tímidos sorrisos foram os comentários silentes daquele momento de confirmação de sentimentos que transcenderam o tempo, o espaço e a morte.

※※※

— De verdade? — Pian Feng perguntou enquanto abraçava Chao Ya ao seu lado. — Obrigado por avisar, Yue Shen. Até mais.

Desligou deixando o celular de lado.

— Yan Da está bem? — A cantora quis saber.

— Sim. Shi chegou bem na hora. — Suspirou aliviado. — Segundo Yue Shen, provavelmente vão se entender.

— Ela disse o que aconteceu?

— Não. Ao que parece, Ka Suo quer que o irmão cuide disso. — Ele acariciou o braço dela. — Sou incapaz de imaginar como ele vai lidar com isso, tal como no passado, Shi continua imprevisível.

— Bem, a única certeza que eu tenho é que se alguém machucou Yan Da ele não vai ser gentil. — Afirmou ela. — Mesmo no passado, apesar de ele nunca demonstrar, sempre tive a impressão que ele a protegia nas sombras. Nunca hesitou em lutar ou ferir qualquer um que fosse, mesmo Ka Suo, mas nunca tocou em Yan Da, mesmo quando estava irracional.

Pian Feng pensou um pouco sobre aquela colocação e, avaliando as memórias que recebera, percebeu que Chao Ya estava certa, de alguma forma, o príncipe sempre havia cuidado de Yan Da, muitas vezes do jeito errado, mas era um fato. Contudo, o guerreiro do vento ainda não estava disposto a confiar nele.

— Ainda assim, não vou afrouxar a corda para ele. — Resmungou e a cantora deu uma risada.

— Claro que não, seu pai coruja. Eu sei muito bem disso.

Pai coruja? Você que é uma mãezona metida a casamenteira. — Contrapôs. — Se dependesse de você, ela já estaria casada com aquele Ying e, que Deus me ajude, cheia de filhos!

— Oh, eu espero que sim! E logo! — Sorriu animada. — Estou louca por sobrinhos.

— Só por cima do meu cadáver! — Protestou. — Ele que não se atreva. Se quer crianças se preocupe em ter seus próprios filhos.

Então ele se deu conta do que acabara de dizer e ficou vermelho. A musicista ergueu o tronco, apoiando-se no cotovelo, e o olhou com um sorriso travesso.

— Está falando sério?

— Bem... é que... eu... você sabe...

Chao Ya deu uma sonora gargalhada e içou o corpo sobre o de Pian Feng.

— Vou precisar de uma ajudinha sua. — Beijou-lhe o nariz. — Sabe, na fabricação de crianças.

Sem esperar resposta, ela o beijou.

※※※

O carro parou no estacionamento do condomínio e nem Shi, nem Yan Da fez menção de sair. Calados, eles contemplavam a companhia um do outro sem barreiras ou constrangimentos, a princesa tinha noção que um de seus muros de proteção havia ruído após aquele beijo, e mesmo que no fundo sua mente ainda soasse alertas na presença de Shi, ela não queria mais ouvir.

— Você está mesmo bem? — Quis saber ele.

— Estou bem, não se preocupe. — Assegurou.

— Gostaria que Huang Tuo examinasse você, só por precaução. — Pediu. — Ele está vindo ver Ka Suo, não demoraria mais que alguns minutos.

— Está bem, se isso te deixa mais tranquilo. — Anuiu.

Ela não queria que ele soubesse dos possíveis hematomas que ela teria fora aqueles pequenos machucados no rosto, mas ouvindo a aflição na voz dele, seu coração suavizou e decidiu ceder.

— Yan Da... — Começou ele, cauteloso. — Aquilo tem a ver com a morte de Peng Yan?

Yan Da não respondeu imediatamente e por um momento ele achou que ela não lhe contaria. Contudo, ela acabou dando alguns detalhes que não havia lhe dito antes a respeito do cativeiro. As mãos de Shi fecharam em punho e ele precisou de todo seu autocontrole para não explodir ali mesmo. Quando reencontrasse aquele sujeito fez uma nota mental para ser ainda menos gentil. Os dois subiram até o apartamento, a mão dele envolvendo a dela, Ka Suo, como esperado, estava no escritório e não os viu chegar, ele a levou silenciosamente até seu quarto e pediu que se sentasse em uma cadeira.

— Há algo que gostaria de dar a você.

Ela não disse nada, apenas ficou observando com alguma curiosidade enquanto ele abria uma gaveta e tirava de lá uma caixa antiga, depositando-a nas mãos dela com cuidado.

— Abra quando estiver em casa. — Sorriu.

Yan Da anuiu e agradeceu o presente, o rosto enrubescendo. Shi achou a cena tão adorável que não conseguiu tomar outra atitude além de beijar-lhe suavemente a testa.

— Eu prometo a você, Yan Da, ninguém nunca mais vai machucar você. Quando tudo estiver escuro, se você me permitir, eu serei a sua luz.

E o silêncio da princesa foi a sua confirmação.