Love as Sakura | 爱如樱

3 第3章 Castelo em ruínas, princesa esquecida


4 Mil Anos Depois

Yan Da apalpou o ar até que seus dedos finalmente acharam o maldito despertador que gritava estridente pelo quarto. Sonolenta, abriu os olhos e sentiu a claridade lhe provocar uma impiedosa dor de cabeça. Não lembrava a que horas fora dormir na noite anterior, mas a julgar pelo latejar nas suas têmporas devia ter sido bem tarde.

Forçando-se a sair da cama, ela caminhou cambaleante até o banheiro esbarrando na porta antes de abri-la e murmurando uma imprecação. Havia tido pesadelos outra vez e estava de péssimo humor por ter dormido pouco e mal. Desde sempre, Yan Da era assombrada com aqueles sonhos ruins, sempre havia alguém com longos cabelos prateados caminhando ao longe, a silhueta vestida de branco mesclava-se com o cenário gelado à sua volta e seguia na direção de uma enorme cerejeira que, desafiando a paisagem glacial, se mantinha florida e majestosa.

Ela não sabia por que, mas sentia que precisava alcançá-lo. Contudo, não importava o quanto tentasse, a figura de costas se afastava cada vez mais sem que ela pudesse chegar até ela. Seu nome estava na ponta da língua, mas Yan Da nunca conseguia se lembrar. Sempre que ele estava próximo de se virar para ela, a garota acordava tomada pela frustração.

Olhando-se no espelho ela soltou um suspiro. Os cabelos negros estavam desalinhados e seus olhos tinham marcas de cansaço. Precisava com urgência de uma máscara de gelo, mas não tinha tempo, se chegasse atrasada com certeza seu pai se tornaria insuportável e o irmão mais velho ficaria no seu pé o tempo inteiro.

Homens!

Fez uma careta e prendeu os longos cabelos com um elástico. Filha única entre quatro irmãos, Yan Da costumava ser a menina dos olhos de Meng Huo Yi que a adorava e sempre lhe dedicava atenção especial desde a morte de sua mãe, Meng Xinyu, quando ela tinha nove anos. Porém, o lado machista do pai prevalecia conforme ela ia crescendo, ele sempre delegava as tarefas mais importantes para seus irmãos mesmo que Yan Da fosse mais habilidosa e inteligente que todos eles. O fato de ela ser mulher era suficiente para Huo Yi vê-la apenas como uma moeda de troca em algum acordo de negócios vantajoso para Huo Enterprises.

Para ele, não importava que fosse Yan Da a consertar os erros exdrúxulos de Shuo Gang que só pensava em assediar as estagiárias, ou mesmo quem praticamente mantinha a empresa em circulação, desde quando ela era mulher, sua inteligência nunca poderia ser elevada sobre a dos irmãos. Três deles haviam se casado e se mudado para o exterior, apenas Shuo Gang continuava ao lado do pai — para infelicidade dela nem um pouco próximo de se casar.

Há tempos Yan Da parara de tentar argumentar contra o machismo do pai ou as provocações sem sentido do irmão. Se limitava a fazer o seu trabalho e viver sua vida longe das vistas deles. Era a principal razão para ela ser avessa a relacionamentos, mesmo sabendo que era um erro generalizar, a ideia de deixar seu coração nas mãos de homens como o pai e o irmão a enojava. Também havia o homem dos seus pesadelos. Sempre que lembrava dele, Yan Da sentia uma aguda dor no seu peito e quase imediatamente seu coração se convertia em uma pedra de gelo.

Amar era um erro. Enfraquecia as pessoas e deturpava sua capacidade de pensar. Ela não cometeria esse erro.

De banho tomado e já dentro de um terninho impecável, ela deixou seu apartamento e correu para alcançar o elevador e impedir que as portas se fechassem engolindo seis minutos do seu curto tempo. Tinha uma reunião logo cedo com o pai, o irmão e os principais acionistas da empresa, o clima andava tempestuoso desde que a Zhang Ying Corporation conseguira doze clientes importantes que antes eram da empresa de seu pai causando um prejuízo de milhões de yuans*.

A Zhang Ying era presidida com Zhang Lin Chao junto com a família de sua esposa, Ying Chen Tong em um típico acordo de casamento firmado entre ambas as famílias muitos anos antes de Yan Da sonhar em nascer. O velho Lin Chao tinha dois filhos que Yan Da não conhecia pessoalmente, o mais velho, Ka Suo, era o braço direito do pai e o mais novo, Ying Kong Shi, trabalhava como gerente geral na empresa. Corria rumores que os dois irmãos não eram muito próximos porque Shi era filho de um caso de Lin Chao, mas ninguém nunca conseguiu provas.

Yan Da não se importava com fofocas. Ela não tinha interesse algum na Zhang Ying Corporation ou em seus donos. Na verdade, sua única ambição era alimentar seu podcast, crescer sua pequena biblioteca e, um dia, ter seu próprio negócio livre das amarras do pai e bem longe de Shuo Gang.

Comprou um café na cafeteria próxima à empresa e entrou apressada vendo os minutos esvaírem-se entre o mau humor do pai e um dia cheio. Por sorte, estava sete minutos adiantada e nada deu errado em seu curso até a sala de reuniões chegando antes do pai e do irmão. Shuo Gang lançara-lhe um olhar atravessado ao entrar na sala atrás de um irritado Huo Yi. Yan Da se perguntava como as pessoas suportavam seu pai quando ela mesma só conseguia ficar perto dele o necessário.

Vai ser um dia comprido. Suspirou, resignando-se e esperando que a maquiagem mantivesse suas olheiras longe dos afiados olhos de Shuo Gang. Huo Yi tomou seu lugar na poltrona à ponta da mesa, entrelaçando os dedos enquanto seu olhar passeava por todos os componentes que circundavam o móvel de mogno e demorando-se nela por um tempo. Shuo Gang deu início a uma monótona palestra ensaiada sobre os levantes mensais da empresa, as áreas afetadas pela concorrente e apontou estratégias para combater o avanço da Zhang Ying — propostas essas que ele não elaborou, claro.

— Yan Da. — A voz de Huo Yi soou dura quando todos começaram a deixar a sala de reunião uma hora e meia depois. — Fique mais um pouco.

Sob o tom imperativo, Yan Da tornou a sentar-se em sua cadeira e reprimiu a vontade de morder o lábio. Devia ter olhado sua sorte àquela manhã antes de sair de casa.

— Shuo Gang teve uma ideia ontem à noite para que consigamos superar a Zhang Ying. — Informou ele.

Um verdadeiro milagre se a ideia for mesmo dele, considerando que ele não tem qualquer ideia que não envolva penetrar mulheres. Pensou ela com ironia enquanto direcionava o olhar para o irmão, que lhe sorria de forma diabólica.

— A Zhang Ying tem se espalhado como um câncer no mercado — continuou Huo Yi —, roubando nossos clientes e expandindo-se para além da China. Isso não é bom para nós.

Yan Da mordeu a língua antes de retrucar que havia mostrado várias estratégias de mercado exterior e setores nos quais o pai deveria investir, mas ele nunca lhe dera ouvidos por achar que todas as ideias que vinham dela estavam fadadas ao fracasso. Bem, sua concorrente provava que não.

— A que conclusão o senhor chegou, então? — Quis saber ela.

— Você vai se candidatar à Zhang Ying como nossa espiã. — Informou. — Quero tudo que conseguir de lá, transações, fraudes, até mesmo fofocas da família, negociações com clientes, tudo. E isso não é negociável.

Yan Da sentiu um frio na espinha. Não apenas porque seu irmão mais velho era inútil na gestão dos setores da empresa, mas porque a ideia de se infiltrar na concorrente de sua família estava fora de cogitação e das suas habilidades. Ela sempre fora uma pessoa muito franca e mentia mal, como poderia lidar com o estresse daquela posição?

— Pai, como acha que essa ideia hollywoodiana vai nos ajudar? — Argumentou. — É ridículo, a menos que mude meu sobrenome ou consiga uma identidade falsa, o que, saliento, é crime de falsidade ideológica, eles nunca vão me aceitar na empresa deles. O que eu, uma Meng, vou estar fazendo lá, seria óbvio!

Como todas as ideias ridículas de Shuo Gang! Acrescentou em pensamento.

— Você tem duas opções, irmãzinha, ou se infiltra como funcionária ou como nora do velhote, a escolha é sua. — Shuo Gang continuava sorrindo. — Afinal de contas, o que uma mulher como você poderia fazer além de seduzir homens?

— Hum, creio que essa seja sua habilidade, gege*. — Ironizou ela, ácida.

— Isso não é discutível, Yan Da. — Cortou Huo Yi. — Não importa o que você vai fazer, apenas me traga resultados, não vou desperdiçar mais energia com você quando até hoje nunca me serviu para nada.

Aquilo doeu. Yan Da se pôs de pé pronta para gritar verdades na cara do pai, o sorriso vitorioso de Shuo Gang só aumentava mais sua fúria, contudo, ela apenas mordeu a parte interna da bochecha, pegou suas coisas e deu as costas aos dois batendo a porta ao sair. Como ele ousava dizer isso quando era ela que mantinha aquele lugar funcionando?! Ele descobriria o valor dela por mal, então. Yan Da passou nos recursos humanos e deixou ali o crachá verbalizando sua demissão.

Quando saiu do prédio da Huo Enterprises as lágrimas de raiva nublaram sua visão por um instante. Foi quando, ao longe, ela viu a silhueta dos seus pesadelos. Apesar de não ter os longos cabelos prateados, ela tinha certeza que era ele, por algum impulso idiota, Yan Da atravessou a rua bem no momento que um carro veio na sua direção e tudo escureceu.

*Yuan (元) é a moeda chinesa.

*哥哥 [gēge] — significa irmão mais velho. É também comumente usado por mulheres para se referir a homens mais velhos e para flertar. Um termo formal usado por homens é 兄长 [xiōng zhāng]