Love as Sakura | 爱如樱

28 第26章 Até o fim do sonho


O carro parou no estacionamento e Ying Kong Shi olhou para uma Yan Da pacificamente adormecida no banco de trás, a expressão serena aqueceu-lhe o coração e ele não foi capaz de acordá-la. Franzindo o cenho, Shi censurou a si mesmo pela sua atitude mais cedo, onde estava com a cabeça quando simplesmente tentara beijá-la?! Apesar de ter tentado parecer natural quando, bruscamente, Yan Da se afastara dele, a verdade é que o coração de Shi encheu-se de medo, confusão e amargor.

Mas o que realmente lhe deixara inquieto fora a expressão de Yan Da quando impôs distância entre eles, era como se ela tivesse... medo. Ele não entendeu a razão disso. Muito provavelmente, depois de tudo que lhe contara seria natural ela não desejar o óbvio ultrapassar de limites de Shi — e ele não imaginava como fora incapaz de conter sua vontade enlouquecedora de beijá-la! —, mas não explicava na sua expressão. Mais parecia que ele tinha acabado de esbofeteá-la. A culpa era dele, no fim, estava errado em não controlar seus impulsos.

Com um suspiro resignado, ele afastou do coração o temor de que Yan Da nunca mais desejasse vê-lo e, o mais silenciosamente possível, saiu do carro colocando-a nos braços. Ela se acomodou colocando a cabeça em seu ombro, a consciência levada pelo sono pesado que ele não queria perturbar. Um sorriso suave se arqueou em seus lábios, ele se perguntou se estaria sonhando com Peng Yan, não ficara claro para Shi que tipo de sentimentos Yan Da nutria pelo melhor amigo que a amava.

Ao se lembrar do relato sobre seu estado quando foi encontrada por Hu Bing, ele não pôde evitar abraça-la com um pouco mais de pressão, de maneira protetiva, sem ser capaz de imaginar os horrores que presenciara naqueles infernais dias de cativeiro. Reprimindo um suspiro de frustração, ele a levou até o elevador imaginando que o dia e a exaustão emocional de reriver tudo aquilo tivessem sido demasiado cansativos para ela e ficou feliz por Yan Da não ter despertado — tanto por ela poder desfrutar de merecido descanso, quanto pela sensação de tê-la em seus braços.

Foi Chao Ya que abriu a porta, Pian Feng veio logo em seguida e, não fosse por Yan Da estar dormindo, Shi desconfiava que ele teria dado um chilique ao vê-lo carregando-a daquela maneira. Precipitando-se sobre ele, o guerreiro pronunciou um "Tire suas mãos dela" sem som enquanto pegava Yan Da de seus braços, Chao Ya revirou os olhos dando uma risada baixa e se oferecendo para ir com Shi buscar as coisas da amiga no carro.

— Se Pian Feng não fosse gay eu apostaria todas as minhas fichas que ele estava interessado nela. — Comentou enquanto os dois desciam pelo elevador.

— Oh, não, nada desse tipo. — Chao Ya riu. — É da natureza dele ser protetor dessa forma. Yan Da não tem um histórico muito bom com homens, acho que Pian Feng acaba acreditando que todos eles só se aproximam com a intenção de machucá-la. Além disso, ele é o único que conta com toda benção de Hu Bing para cuidar dela.

— Bem, qualquer um que os visse juntos não o tomaria por menos que um marido ciumento. — Resmungou.

— Eu poderia dizer que você parece ciumento. — Apontou a cantora enquanto caminhavam pelo estacionamento do prédio. — Acho que isso não vai ajudar muito, mas Pian Feng não é gay.

Shi estacionou. Ao notar que ele não a estava acompanhando mais, Chao Ya deu um sorrisinho diabólico antes de se virar para ver a expressão chocada no rosto do jovem príncipe. Cruzando os braços sobre o peito, ela arqueou a sobrancelha enquanto o olhava, mas acabou se compadecendo dele, apesar de achar divertido ver o estado preocupado dele.

— Ele fingiu ser gay por minha causa, na época da faculdade. — Confidenciou.

— Por sua causa? — Certo alívio suavizou o rosto de Shi.

— Pian Feng já era amigo de Yan Da quando a conheci na faculdade, eu estava começando a carreira ainda, ele achou que se não fingisse ser gay eu não o permitiria se aproximar, mas Yan Da sempre soube que ele não era homossexual.

— Espere, então eles não...

— Claro que não. — Cortou. — Ele a vê como uma irmã mais nova. Nunca houve esse tipo de relação entre eles. Acha que Hu Bing o deixaria morar na mesma casa que ela se acreditasse que havia a mínima chance de acontecer alguma coisa? Antes de Pian Feng pensar nisso teria sua cabeça arrancada. Se você o acha ciumento, mal posso esperar para ver quando conhecer o irmão dela.

Shi fez uma careta lembrando do tom de Pian Feng ao chamar Yan Da de fadinha, o modo como ele se mantinha contra qualquer progresso de Shi em relação a ela, não fazia sentido não haver um sentimento mais forte que amizade, a menos que Pian Feng tivesse algo contra ele em específico. As palavras de Chao Ya lançaram certo receio no coração dele, se Hu Bing era pior que Pian Feng, o que Shi poderia fazer para conquistar sua confiança quando não estava dando certo com o guerreiro? Ainda havia aquela sensação pesada na boca do estômago quando lembrava-se que, no passado, pelo relato de Yan Da, Hu Bing aprovava Peng Yan.

O amigo de Yan Da continuava como um fantasma perseguindo-o e lembrando-lhe que não importava o quanto tentasse, nunca conseguiria alcançá-lo. Ele reprimiu um suspiro enquanto desativava o alarme do carro e abria o porta-malas.

— Não pareça tão desanimado, Ying Kong Shi. — Encorajou a cantora. — Você conseguiu que Yan Da se abrisse com você, isso por si só já é muito significativo. Ela não costuma permitir aproximação das pessoas assim, prova disso é que somos os únicos amigos que ela tem. Talvez vocês estejam destinados, com um pouco de esforço da sua parte, dará certo.

— Fico assustado quando penso que o destino quase me fez atropelá-la. — Franziu o cenho.

— Há uma razão para você sempre estar por perto quando ela precisa. — Chao Ya sorriu. — Posso ver no seu rosto que sente uma ligação com ela e, se ela permite sua aproximação, talvez sinta isso também. Não desista.

Ele olhou bem para a cantora, havia algo por trás das palavras de Chao Ya, mas ele não conseguia pegar o que era. Entretanto, suas palavras serviram como uma injeção de ânimo em seus planos, inclusive para sobreviver ao jantar que precisaria enfrentar em seguida. Só de pensar na sua família reunida, Shi tinha pesadelos.

Quando Chao Ya assegurou que não haveria qualquer problema em levar as coisas de Yan Da sozinha de volta, eles se separaram. Shi passou rapidamente em seu apartamento e tomou um breve banho colocando um terno preto propositalmente para irritar seu pai.

Seria uma longa noite.

※※※

Irritada, Yue Shen estacionou em frente à casa de Liao Jian e deu a volta no carro esmurrando o porta-malas para que o prisioneiro parasse de se mexer e fazer aquele barulho. O advogado atendeu a porta na terceira batida, vestia uma roupa simples e trazia na mão uma taça de vinho, pela sua expressão, ela percebeu que havia algo errado.

— Você está bêbado?

— Infelizmente ainda não. — Ele fez uma careta e abriu espaço para ela entrar. — O que a traz aqui a essa hora, aconteceu alguma coisa?

— Shuo Gang mandou alguém sequestrar Shi wangzi. — Suspirou enquanto sentava no sofá confortável da sala. — Trouxe um dos homens para interrogar, wàng ordenou que o deixasse com você.

— Sem problemas, tenho um local ideal para isso. — Deu de ombros. — Aceita uma taça?

— Não, obrigada. — Ela o olhou com mais atenção. — Há algo errado? Sua expressão está péssima.

— Problemas do coração. — Liao Jian depositou a taça sobre a mesa de centro.

— Entendo... Chao Ya está jogando duro com você?

Jogar é uma boa definição. — Ele riu sem humor. — Não atende minhas ligações, não responde as mensagens. A última vez que a vi foi na conferência de impressa.

— Não acho correto me meter no assunto de vocês, mas se me permite, vou te aconselhar como amiga de jornada.

Ele anuiu erguendo a mão em um gesto para que ela continuasse.

— Chao Ya não tem saudades de Ren Xue Cheng como você. Ela não quer voltar mesmo que haja uma forma de fazê-lo. A vida que vocês tinham lá foi enterrada com a morte durante a última guerra. Liao Jian, acho que é hora de você começar a pensar na sua vida daqui para frente, uma vida que possa não incluir a Chao Ya. Ela quer liberdade, sonhos, construir uma história nova com o que conseguimos agora, talvez isso vá contra os planos que você tenha no coração para ela.

Bem no fundo, Liao Jian sabia daquilo, mas ouvir de forma tão direta doeu da mesma forma. Por mais que Yue Shen tivesse razão e ele precisasse parar de viver no passado, o sentimento que o ligava à cantora era intenso demais para ser ignorado. E havia Pian Feng, nada conseguia lhe tirar da cabeça que o guerreiro do espírito do vento estava por trás daquela reviravolta. Estava aproveitando a situação para conseguir o que não conseguira no passado. As mãos do advogado fecharam-se em punho e Yue Shen suspirou.

— Pare com isso. — Advertiu-o. — Imagino o que está se passando pela sua cabeça, Pian Feng não tem nada a ver com o comportamento dela.

— Por que sua majestade o colocou ao lado dela? Por que não eu?

— Ele conseguiu chegar à princesa antes de você. Nós dois sabemos, Liao Jian, que na sua mente você ainda a vê como a filha do inimigo, mesmo que a sua própria sobrevivência dependa dela.

— Não sei mais se quero continuar nessa terra estranha.

— Mas nós queremos. — Contrapôs a assassina. — Eu, Huang Tuo, Chao Ya, Pian Feng, o próprio rei. Estamos juntos nessa e sua majestade confia em você.

— Sabe que não vou traí-lo. — Ele passou as mãos pelo rosto. — Só estou frustrado.

— Não posso te dizer o que se passa na mente de Chao Ya, mas aqui vai um conselho de mulher: deixe-a ter o seu espaço. Quando ela estiver pronta vai procura-lo e resolver de uma vez por todas essa questão entre vocês.

Ele queria poder ter a mesma sorte dela e Huang Tuo, mas suas esperanças estavam menores a cada dia. Afastando os pensamentos sobre si mesmo, Liao Jian voltou para a primeira informação dada por Yue Shen sobre o irmão de Yan Da, se continuasse pensando em Chao Ya daquela maneira, ia enlouquecer. Era claro que a guerreira da tribo xamânica estava desconfortável falando sobre o relacionamento dele com a cantora, ela fora uma expectadora de boa parte da história deles na convivência durante a jornada pela lótus.

Yue Shen sempre fora silenciosa e distantes, Liao Jian a observava ao lado de Huang Tuo sem entender por que ela despertava tanto fascínio no curandeiro. E mais, sua força, inteligência e agilidade motal podia ser intimidante se ela quisesse. Contudo, mesmo com seu jeito introspecto, ela conseguiu se aproximar de Chao Ya e foi uma importante confidente durante os dias incertos em que seguiam Ka Suo pelos arredores da montanha Huan Xue. De alguma forma estranha, Liao Jian gostava dela.

— Sobre o que você falou de Shuo Gang, por que ele colocaria alguém atrás do príncipe?

A ex-assassina revirou os olhos com a mudança brusca de assunto. Os homens às vezes a irritavam, ela não podia se ver com ninguém além de Huang Tuo, pelo menos ele era um irritante fofo e não fazia rodeios com o que queria.

— Lembra do massacre que Huo Yi fez na tribo do espírito do vento? — Indagou e ele assentiu. — Bem, ao que parece o alvo era um jovem e talentoso guerreiro chamado Peng Yan. Ele havia sido enviado para a tribo do fogo como um espião, mas se apegou à princesa e suas ações como agente duplo foram deixadas de lado quando ele tomou o partido dela.

Disso eu não sabia. — Ele bebericou o vinho. — Cheguei a conhecer Peng Yan, ele participou dos torneios da guarda do norte como representante da sua tribo, era um exímio lutador, mesmo eu fiquei impressionado com suas habilidades.

— Quando estava cercando o perímetro do príncipe, ouvi um pouco da história da princesa a respeito dele. Ao que parece, o jovem Peng Yan conseguiu reviver, como todos nós, para uma segunda chance nesse mundo, mas novamente sua vida foi abreviada e ao que parece pelo príncipe Shuo Gang.

— Sempre achei estranho o modo como Peng Yan desapareceu doze mil anos antes... será que Shuo Gang tem algo a ver com isso também?

— Não duvido. Ele nunca teve escrúspulos. — Yue Shen se recostou, pensativa. — E se de fato alguém descobriu que ele foi enviado como agente duplo explicaria porque Huo Yi dizimou a tribo inteira.

— Mas isso não explica por que ele está atrás de Shi wànzi.

— Particularmente não acredito que seja pelo fato de ele ser um irmão ciumento. — Ironizou ela e Liao Jian esboçou um sorriso amargo. — Ele parece ter algo forte contra Yan Da, algum tipo de ódio que o faz desejar destruí-la, mas não consegui entreouvir a história inteira para entender, estava ocupada tentando manter os dois vivos.

— Yan Da gongzhu sempre foi a mais forte de todos no reino do fogo, talvez ela não fosse a mais poderosa, mas era a única entre eles que tinha coração e um senso de justiça adequado. — Observou o advogado. — Apesar de ser um tirano, de alguma forma Huo Yi a favorecia acima de todos os irmãos, estava claro para quem visse de fora que ela seria nomeada para sucedê-lo, acredito que ser vencido por uma mulher possa ter afetado o ego de Shuo Gang.

— É uma possibilidade. — Concordou. — De todo modo, guarde o coleguinha ali fora, farei uma visita de cortesia ao príncipe Shuo Gang, está na hora dele saber que Shi wàngzi não é acessível como Peng Yan. Apesar de não termos conseguido salvar o irmão de tribo de Pian Feng, ele não pode brincar como quer. Mesmo este mundo tem regras.

— Sua majestade permitiu que você visite Shuo Gang? — Liao Jian estava chocado.

— Isso vai ser extremamente divertido.

Um sorriso sombrio surgiu no rosto bonito da guerreira.

※※※

Pian Feng ajustou a temperatura do ar-condicionado e cobriu Yan Da com uma manta. Tirando os cabelos dela do rosto com delicadeza, ele suspirou sentindo um aperto no peito. Temia que o coração dela pudesse ser ferido de novo, mesmo que Ying Kong Shi demonstrasse real vontade de se aproximar dela — e o que Pian Feng desconfiava era que, quando ele recuperasse as memórias, sua devoção por Ka Suo retornasse com toda força —, o guerreiro não tinha confiança no jovem príncipe do gelo.

Era fato que a permanência de todos eles naquele mundo dependia do casal, mas de maneira alguma ele queria permanecer vivo sob a infelicidade de Yan Da. Pian Feng queria o merecido final feliz da princesa do fogo, sabia que graças a Yan Da a guerra terminou, e era justamente por saber tudo pelo qual ela passara que ele desejava sua felicidade. Não se importava se morresse, mas garantiria que Yan Da não precisasse sofrer aquele mesmo amor unilateral que a fizera partir com tanta dor.

Por mais que ela não lembrasse daquilo, ele era capaz de ver os efeitos colaterais deixados na sua alma desde o momento em que a encontrara com a tarefa de protegê-la.

Anos atrás

Pian Feng estava prestes a ir embora. Sentia-se sufocado pelo amontoado de corpos, o gelo seco e a música alta demais. Sabia que era seu dever, como veterano de administração, supervisionar os calouros, embora achasse o dever tedioso, principalmente quando os demais veteranos estavam mais empenhados em tirar vantagem dos novatos do que realmente cuidar deles. Tomando sua provável sexta dose de uísque, ele olhou em volta procurando pela princesa do fogo, a única razão de ainda estar ali fora a garantia de Ka Suo que Yan Da estaria lá.

O guerreiro se surpreendera quando o rei da tribo do gelo o incumbira da responsabilidade de cuidar da princesa, especialmente porque, quando a encontrasse, Chao Ya teria o mesmo encargo. Ainda que tenha decidido não questionar as ordens de seu soberano, ele ficara intrigado quanto ao motivo de ter sido escolhido para ficar junto da cantora quando Ka Suo sabia da relação dela com Liao Jian.

Mas não era segredo para ninguém que Liao Jian odiava a tribo do fogo.

Movendo o olhar pela multidão de alunos e frequentadores comuns, tentou visualizar Yan Da no meio deles, em sua mente, a princesa do fogo ainda tinha o mesmo porte de quatro mil anos atrás, ele não conseguia imaginá-la ali com suas vestes de guerra e o inseparável chicote. Parte de Pian Feng estava curioso sobre como ela pareceria agora. Desistindo da espera, ele deslizou o copo sobre o balcão e decidiu caminhar pelo meio das mesas como se conferisse seus calouros.

Era sempre problemático esse tipo de evento, os alunos ficavam bêbados — influenciados pelos próprios veteranos — e arrumavam confusão com os demais frequentadores, o que em geral acaba em briga com os veteranos já bêbados. Pian Feng passara por aquilo quando calouro e por mais vezes como veterano. Todos os cursos eram assim. Ele ia abrindo espaço no meio dos corpos que se moviam em uma dança estranha ao som daquele barulho ensurdecedor, o odor de suor e álcool era nauseante.

Aquele mundo tinha costumes estranhos. Mesmo tendo coisas muito boas como algumas músicas que Ka Suo costumava escutar, também havia barulhos como aquele e Pian Feng não conseguia entender como os habitantes podiam suportar uma frequência tão dolorosa, seus ouvidos de pássaro estavam prestes a explodir. Foi quando uma pequena agitação se formou numa das mesas do canto e chamou sua atenção, ele suspirou balançando a cabeça, até que começaram cedo aquela noite.

Por ser um dos poucos veteranos sóbrios, ele logo se dirigiu ao local, na mesa havia uma jovem de longos cabelos escuros que estavam soltos — e desgrenhados — emoldurando um rosto de boneca, o batom vermelho levemente borrado, riscas secas de lágrimas marcando a face pálida, ela parecia estar muito bêbada ao ponto de não conseguir diferenciar dez yuans de dez jiaos*. Ela usava o uniforme do curso, por isso ele sabia que era uma das calouras, o que levou tempo para se dar conta enquanto caminhava na direção dela era que aquela era Yan Da, a princesa do fogo! Pian Feng quase não acreditou quando seus olhos pousaram naquela jovem irritada que mal se equilibrava sobre o banco alto da mesa enquanto tentava dispensar dois homenzarrões que passavam a mão nela.

— Vamos, eu vou te ajudar a chegar ao banheiro. — Dizia um deles em voz melosa, um sorriso animalesco torcendo seu rosto enquanto deslizava os dedos pelo rosto de Yan Da.

— Me deixa em paz! — Ela gritou outra vez sobre o barulho infernal. — Você é surdo? Eu não quero você, eu quero o Peng Peng.

— Vou te levar até o Peng Peng! — O outro disse subindo a mão pelo pedaço de perna exposta pela saia.

Pian Feng sentiu o sangue ferver nas veias, os homens daquele mundo eram nojentos. Ele lutou para chegar até ela, as pessoas pareciam se aglomerar de propósito para impedir seu caminho, Yan Da havia se levantado, o copo de bebida vacilando em sua mão, as lágrimas enchiam seus olhos outra vez, ela parecia furiosa e atordoada, prestes a cair, um dos sujeitos a agarrou mesmo sob os protestos dela, o outro ria e ninguém parecia disposto a fazer nada.

Quando finalmente a alcançou, ele empurrou um dos homens e arrancou os braços do outro de cima dela, segurando-a para mantê-la firme, Yan Da ainda protestou pensando que ele estava junto daqueles idiotas, mas parou de lutar tão logo ouviu as palavras dele.

— Acho que vocês estão tendo um problema com o advérbio de negação por aqui. — Cuspiu sobre a cacofonia de sons. — Ela disse para irem embora.

— Ou o quê? — O homem empurrado se aproximou enfrentando-o. — A gente estava se entendendo até você aparecer.

— Não era o que parecia. — Ele deu um sorriso frio. — Mas se você está assim tão disposto a descobrir o que acontece, terei prazer em mostrar. Afinal, ela é minha caloura e por si só isso justifica eu quebrar os seus braços e todos os seus dentes.

Os três homens pareciam ter a mesma idade, mas os outros dois não eram da universidade e, caso fossem, certamente não eram do curso de administração. Yan Da, encostada em Pian Feng, começou a chorar outra vez chamando por Peng Peng, os dois caras se olharam enquanto o guerreiro mantinha os braços protetores em volta da pequena jovem mulher, os olhos ainda gélidos e fixos em ambos como se desafiando-os a dar mais um passo. Um deles fez menção de sair, mas o outro parecia propenso à confusão e avançou sobre o guerreiro do vento na tentativa de puxar Yan Da.

Ainda mantendo-a colada ao corpo, ele apenas bloqueou o homem com um braço, colocou a princesa do fogo — trôpega e chorosa — atrás de si quando o companheiro do encrenqueiro veio ajudar, de pronto, Pian Feng segurou o soco de um no ar antes que chegasse perto do seu rosto, torceu o braço dele para trás enquanto usava o cotovelo para golpear o outro que cambaleou para trás, ele puxou o braço do sujeito com mais força ouvindo um estalo, o homem deu um grito, o guerreiro virou o sujeito de frente para si e deferiu um soco cheio que quebrou seu nariz sem dificuldade.

— Se há algo que eu odeio são lixos como vocês que se aproveitam de uma mulher quase inconsciente mesmo quando ela diz não. — Cuspiu. Os seguranças do local se aproximaram. — Que eu não veja vocês dois perto de nenhuma das minhas calouras ou a cadeia vai parecer atraente perto do que vou fazer!

Os dois sujeitos foram levados pelos seguranças enquanto berravam ameaças vazias. Pian Feng voltou-se para Ya Da, ela ainda chorava enquanto buscava mais bebida sobre a mesa — que mal conseguia alcançar, pois caíra sentada no chão. Ele a ajudou a levantar querendo saber quem era Peng Peng e como a forte princesa do fogo decaíra àquele estado. Com algum esforço, ele ajudou-a a ficar de pé e pediu a uma das veteranas que não estava bêbada a ajudar Yan Da no banheiro, ela parecia prestes a vomitar.

Enquanto a jovem princesa era ajudada, ele telefonou para Ka Suo avisando que a havia encontrado e cumpriria seu dever a partir daquele momento. Voltando à mesa, procurou pela bolsa dela, o celular estava sujo de bebida sobre a mesa, pegou tudo e voltou para a entrada do banheiro, a veterana não demorou a sair com uma Yan Da quase desacordada, ele a tomou nos braços e agradeceu à colega de curso, levando a jovem princesa embora.

— Quando você vai parar de me preocupar desse jeito, hein? — Murmurou para ela com um sorriso paternal no rosto.

Certificando-se de que ela estava o mais confortável possível, ele deixou o quarto silenciosamente encontrando com Chao Ya, ela tinha acabado de voltar ao apartamento trazendo as coisas da amiga. Ele se precipitou para ajudá-la, os dois não haviam voltado ao assunto de dias atrás, mas a cantora tentava manter o clima entre eles o mais normal possível e o foco das conversas era sempre sua protegida.

— Ela ainda está dormindo? — Quis saber.

— Sim. Deve estar exausta! — Reclamou o guerreiro. — Nesse estado, em plena fase final de recuperação, eu não a devia ter deixado viajar.

— Pian Feng, Yan Da não é uma criança. — A cantora deu uma risadinha. — Se o pai dela se preocupasse como você ela teria sido uma criança feliz.

— Bem, alguém precisa dar o carinho que ela merece. — Ele fez uma careta para Chao Ya. — Eu só não quero que ela passe por tudo aquilo de novo.

— Meio impossível não se apegar a ela quando a conhecemos bem, não é? — Ela sorriu. — Talvez se tivéssemos tido essa chance no passado ela não houvesse tido aquele fim.

— Naquele pandemônio onde amigos e inimigos pareciam uma coisa só, como teríamos chance? — Suspirou largando o corpo sobre o sofá. — Realmente respeito er dianxia, mas se precisar jogar em um lado desse destino, jogo do dela. As coisas que Yan Da passou antes e mesmo agora... ela não merece ter o coração partido outra vez.

— Entendo seu ponto. Mas nossa lealdade tem de ser com Ka Suo wàng. — Avisou ela.

— E sou leal a ele, tenho certeza que tanto quanto todos nós wàng sabe o quanto sou grato a essa nova chance, mas imagino que ele também saiba que não estou disposto a aceitar qualquer ordem que machuque de alguma forma a princesa. Mesmo que seja em benefício de er dianxia.

— Acha que ele ainda vai escolher o lado dela quando lembrar de tudo?

— Pelo bem dele espero que sim. — Pian Feng cruzou os braços já se sentindo irritado só com a ideia de Ying Kong Shi magoar Yan Da outra vez. — Ele já a fez sofrer até a morte uma vez, agora sou eu mesmo que vou arrancar a cabeça dele se a magoar de novo.

Chao Ya deu uma sonora gargalhada, mas logo se conteve ao lembrar que a princesa dormia. Tinha consciência do lado que servia, mas estava com Pian Feng naquela batalha, em uma situação crítica, ela também escolheria Yan Da. Torcia pela felicidade da princesa e sabia que sua própria existência naquele mundo dependia de Shi e Yan Da, mas nunca permitiria que o jovem príncipe a ferisse outra vez. Dando um sorriso malicioso para o companheiro ela selou o acordo implícito.

— Eu ajudo. Seguro o tronco enquanto você puxa.

※※※

Ying Kong Shi soltou um longo suspiro quando estacionou diante da mansão dos pais. Apesar de ser seu desejo adiar o máximo possível a reunião de família, sabia que quanto antes entrasse mais cedo poderia ir embora. Pegou o embrulho no banco do passageiro e se preparou mentalmente para sorrir apesar do desconforto com o que encontraria atrás das pesadas portas da mansão que ele conheceu um dia como casa.

Desde que se mudara, ele evitava voltar para lá, havia sempre muita cobrança por parte especialmente de Chen Tong para que ele se casasse. Era como se a mãe temesse que ele fosse incapaz de gerar um filho depois dos trinta anos. Shi nunca cogitara se casar antes e odiava ainda mais a ideia diante da cobrança dobrada sobre Ka Suo que, por herdar a presidência da ZhangYing e ser o filho mais velho, precisava o quanto antes se casar e ter filhos. Pelo menos segundo a lei dos seus pais.

Era frustrante e exaustivo. Shi tentou afastar os pensamentos enquanto atravessava o pequeno caminho de pedras que levava às pesadas portas sob o ostensivo pórtico com pilares em estilo grego. Um dos infinitos empregados da casa abriu a porta e o cumprimentou com um largo sorriso, era Wang Chen, o velho mordomo que servia seus pais desde o casamento. Shi tinha um respeito redobrado pelo velho senhor que o vira crescer e tornara boa parte da adolescência naquela casa cheia de cobranças suportável.

Da ren!* Que bom revê-lo.

— Como está, lao* Chen? — O jovem sorriu dando um aperto suave no ombro do velho mordomo. — É bom vê-lo com saúde.

O velho senhor pegou o casaco de Shi e este seguiu para a sala de estar de onde já se ouvia uma conversa abafada e risadas. Respirando fundo e implorando a Buda que lhe desse paciência, ele abriu as portas e fixou o olhar na avó que estava sentada ao lado de Ka Suo no sofá grande. A velha mulher abriu um largo sorriso, os olhinhos diminutos enchendo-se de água quando, com a ajuda do neto mais velho, se pôs de pé para receber seu eterno "menininho".

— Mas me deixe dar uma boa olhada em você! — Pediu enquanto suas frágeis mãos seguravam o rosto do neto. — Como você está bonito, receio que vá acabar perdendo para ele, Ka Suo!

O jovem herdeiro riu da provocação. Chen Tong se aproximou do filho, cautelosa, enquanto pegava o presente que este havia trazido para juntá-lo aos demais, a avó estava maravilhada em ver o neto mais novo, ambos não se encontravam a pelo menos cinco anos. Shi a abraçou sem fazer cerimônias, apertando-a com cuidado e respeito aos seus velhos ossos.

— Que bom vê-la bem, vovó. — Disse baixinho. — Feliz aniversário!

— Ah, sim, agora está mesmo muito feliz, meu pequeno menino. — A voz da velha senhora tremulou e Shi passou os dedos pelas lágrimas cristalinas sempre com um sorriso terno.

Voltando a atenção para os demais na sala, Shi cumprimentou os pais em seguida:

Fùqīn, mǔqīn.*

— Caçulinha! — Ying Qi Luo, uma de suas irmãs mais velhas, abriu um largo sorriso e veio abraçá-lo. — Está pelo menos uma cabeça mais alto.

— Você que cresceu demais, jie! — Provocou-a, apertando o abraço e depositando um beijo no seu rosto. — Onde estão meus sobrinhos?

— Deixei-os com a cozinheira, devem estar se entupindo de biscoitos a essa altura. Precisa vê-los, não param de dizer que querem subir nas suas costas.

— Que os céus me ajudem! — Deu uma risada.

Com desgosto, ele percebeu que Lan Shang estava presente, claro, como uma forte candidata a esposa de Ka Suo, Chen Tong não perderia a oportunidade de convidá-la. Além disso, apenas Ying Qi Luo viera com os dois filhos. A reunião seria realmente familiar não fosse a presença de Lan Shang, ele se perguntava como a mãe podia insistir em tentar firmar aquele compromisso quando estava óbvio que Ka Suo não demonstrava qualquer interesse nela.

— Lan xiaojie, espero que sua avó goze de boa saúde.

— Certamente, Ying xiansheng. Ela não pôde vir prestigiar esse momento, então enviou-me em seu lugar.

— Claro.

Era mentira. Todos ali sabiam disso. Sem mais demoras, pois estava fora de hora, todos se dirigiram à mesa de jantar e a refeição foi servida. De início, as conversas giraram em torno de recordações da avó sobre a infância dos netos, alguns fatos constrangedores sobre a infância e adolescência do pai, enveredaram-se então para assuntos de negócios, Ling Chao elogiou a competência dos filhos em lidar com a empresa e mais uma vez manifestou o desejo de deixar a liderança do patrimônio familiar para Ka Suo tão logo este se casasse.

— Não o pressione assim, Ling Chao! — Brigou a avó vendo o desconforto de Shi. — As coisas não são mais como no seu tempo.

— Mas já é tempo de ele se casar, ter sua própria família. — Apontou Chen Tong.

— Ele sabe o tempo que é melhor para isso. Não se pode apressar o amor. — Ralhou a velha senhora. — Ka Suo é um homem, deixem que ele tome pelo menos essa decisão sozinho. Vocês já decidiram por ele em boa parte da vida.

— Shi, como foi sua reunião com Meng xiaojie hoje cedo? — Ka Suo se apressou em mudar de assunto antes que o irmão se alterasse.

— Oh, a reunião, correu tudo bem. — O jovem olhou o irmão, forçado um sorriso, tentando soar natural. — Ela poderá retornar ao trabalho presencial na semana que vem.

— Meng? — Ling Chao pareceu surpreso. — Que Meng?

— Minha nova assistente pessoal, pai. — Anunciou o mais velho. — Shi e eu concordamos que o trabalho transcorreria melhor se eu tivesse um auxílio. Encontramos uma candidata competente à altura do cargo.

— Nós a conhecemos? — Chen Tong quis saber.

— Receio que não. — Shi meneou a cabeça. — Meng...

— Yan Li. — Completou Ka Suo pegando carona na mentira do irmão. — Ela sofreu um acidente recente, então não pôde assumir o cargo presencialmente, mas tem me ajudado bastante em home office.

Contar sobre Yan Da seria arrumar uma confusão desnecessária no jantar de aniversário da avó. Antes de mais nada, Ling Chao nunca aceitaria a filha do seu concorrente na sua própria empresa, mesmo para os irmãos estava claro que o objetivo dela ali era muito mais que expandir o currículo, contudo, decidiram lhe oferecer o benefício da dúvida, especialmente agora que Shi conhecia um pouco mais sobre a família dela queria descobrir até onde — e, sobretudo por que — Yan Da ainda continuava ao lado deles. Tinha de haver algo mais que a piedade filial.

— Foi até bom você tocar nesse assunto, Ka Suo, há um problema com uma das lojas do shopping, preciso que vá resolver isso para mim. — Pediu o pai.

Shi viu o rosto do irmão empalidecer, tudo que envovlvia o shopping era evitado por Ka Suo, ainda assim, o mais velho assentiu tentando aparentar naturalidade. O jovem príncipe do gelo era incapaz de entender o motivo do irmão evitar a mulher que amava daquela maneira, como se tivesse medo dela. Falando de si mesmo, ele não via a hora de ver Yan Da outra vez, chegava a ser irracional a forma como Ka Suo dizia amar Li Luo e nunca sequer se encontrara com ela.

— Ka Suo, faz muito tempo que Lan Shang não visita nosso shopping, por que não a leva com você? — Sugeriu Chen Tong.

Não é por falta de tempo, tenho certeza. Pensou Shi, irritado. O irmão, contudo, deixou a promessa em aberto dizendo que veria a possibilidade, afinal não ia lá a passeio. Shi não gostava da passividade dele, sob seu ponto de vista havia um abismo entre ser diplomático e inerte. Como a refeição já havia avançado e a maioria deles quase havia terminado de comer, vovó não precisou ser atenta a cerimônias — tampouco, dada sua idade, alguém a criticaria — e chamou o neto mais jovem para acompanhá-la por um momento.

Shi sentiu Lan Shang acompanhando-o com o olhar, a expressão de rivalidade e mágoa explodindo nos seus olhos. Pelo menos lhe restava o consolo de que a noite não havia sido totalmente um fracasso apesar das pequenas tensões. A avó o guiou pelo saguão rumo às escadas espiraladas que levavam ao segundo andar, fazia muito tempo que Shi não voltava para casa, mas podia visualisar a si mesmo correndo por aquelas escadas, abrindo e fechando as inúmeras portas, enlouquecendo empregadas, brincando com um Ka Suo que não precisava ainda levar o mundo sobre os ombros. Os passos de vovó eram até ligeiros para alguém na sua idade, ele não fez perguntas enquanto a seguia por mais um lance duplo de escadas para o terceiro andar da mansão, ali era onde ficavam os quartos dos pais, o antigo quarto dos avós antes de se mudarem com o nascimento de Ka Suo e outros quartos que nem ele e nem o irmão tinham permissão de entrar.

Foi exatamente em um desses últimos que vovó parou, ficava bem no fim do corredor, suas irmãs quando crianças costumavam chamar aquele espaço de "ala oeste" em uma alusão ao desenho A Bela e a Fera, uma vez que era um corredor proibido para eles e cheio de portas trancadas. Em uma vez de travessuras, Shi e Ka Suo conseguiram abrir uma das portas, mas tudo que encontraram foi uma enorme bagunça de caixas, móveis cobertos por lençóis brancos e alguns manequins desmembrados — e estes eram a coisa mais assustadora que havia no local, para a decepção de suas teorias de terror.

O quarto aberto por vovó estava intacto. Era um cômodo de solteiro, havia uma cama no centro, nas paredes vários cartazes de buracos negros, diversas constelações, no teto pôsteres de filmes antigos como Star Wars espalhavam-se por todo lugar. Uma mesa de estudos ficava próxima à janela, era tão antiga quanto os objetos sobre ela, livros desatualizados, porta-lápis com canetas que provavelmente nem funcionavam mais, um abajur de mesa e alguns cadernos amarelados. No canto, havia uma porta mais estreita que poderia ser um banheiro privatido e fechando a decoração, um armário de três portas. Shi não entendia por que alguém trancaria um quarto tão simples.

— Era o quarto do seu pai. — Revelou a avó. — Ele queria ser astrônomo na adolescência. Sempre foi fascinado pelo universo, mas olhe só para ele agora, refém dos negócios que meu marido construiu.

Shi olhou em volta sem acreditar, aquele era o quarto do seu pai? Ele não conseguia enxergar um só traço do homem austero e inflexível que o criara. A avó se aproximou da mesa e abriu uma das gavetas fazendo uma pequena nuvem de poeira subir.

— Vovó quer se desculpar pelo comportamento do seu pai. — Disse enquanto procurava por algo. — Se ele criou você e Ka Suo dessa maneira é um reflexo do modo como eu e seu avô o criamos. Ele apenas repete o que aprendeu, mas esteja certo, Shi, seu pai ama você e seu irmão.

Ele não soube o que dizer, ao contrário de Ka Suo, nunca aceitou as imposições do pai em sua vida, os posicionamentos em boa parte contrários de ambos eram sempre motivo de discussões infinitas. Claro que Shi não duvidava do amor dos pais, em todos os momentos que precisou eles estavam ao seu lado lhe dando apoio, mas não podia aceitar ser o que eles queriam ao invés de ser ele mesmo e odiava eles fazerem isso com Ka Suo. Vovó virou-se para ele com uma pequena caixa antiga de madeira nas mãos.

— Venha. — Chamou o neto na direção da cama onde se sentou. — Seu pai mandou fechar esse quarto há muitos anos, por isso achei que isso estaria seguro aqui.

— O que é?

— Se o seu avô estivesse vivo, diria que isso por direito pertence ao seu irmão. — Ela deu uma risadinha. — Claro que amo Ka Suo, mas ele já tem relíquias suficientes à sua espera pela frente. Quero que esta fique com você.

Shi pegou a caixinha que a senhora lhe ofereceu e, com cuidado, a abriu. Dentro dela, no acolchoado de veludo azul marinho, havia uma pedra semelhante a um diamante em forma de lágrima. Tinha mais ou menos sete centímetros e cintilava sob a luz diáfana do quarto, sob ela duas alianças de prata brilhavam, uma dela cercada de pequeninas safiras.

— Seu avô me deu essa joia de presente quando me pediu em casamento. Eu a guardei por todos esses anos comigo, tenho dele todas as recordações mais preciosas, mas esta joia tem um significado especial para mim, pois foi um presente que levou vinte anos para ser conseguido, sob muito esforço e lágrimas. Não a dei ao seu pai quando ele se casou, mas quero dá-la a você, é uma joia que traz o amor.

— Vovó... — Shi estava emudecido pela surpresa.

— Eu sei que Ka Suo tem alguém em seu coração, uma pessoa que ele não se atreve a dizer a ninguém. Não me preocupo com ele, mas me preocupo com você, quero que meu menininho possa ter o que eu tive, um casamento longo e feliz. Não estou te pressionando a se casar, antes que pense isso, mas essa joia é capaz de trazer o amor, então fique com ela. Quando encontrar a mulher por quem vale a pena desistir da vida, dê isto a ela depois de a apresentar para mim, esta velha achará este o destino mais digno para esse presente tão especial.

Emocionado, ele abraçou a avó com carinho. Mesmo tratando todos os netos e bisnetos por igual, ela nunca escondeu sua preferência por ele, Shi sentia em todas as vezes que ela cuidara dele, o aconselhara, o defendera e o acolhera. Aquela era a maior prova da sua preferência e ele não sabia como corresponder a tal gesto, mas tinha em mente quem era a dona daqueça peça tão valiosa.

— Obrigado, vovó. — Murmurou com a voz embargada. — Prometo que a senhora será a primeira a conhecê-la.

A velha senhora afagou as costas do neto com carinho maternal, afastando-o alguns centímetros, tomou o rosto dele nas mãos com gentileza, a pele fina tinha um toque aveludado em seu rosto.

— Você nasceu para grandes coisas, meu menino, vejo no brilho dos seus olhos. Há uma força incomensurável dentro de você, Shi, quando conseguir alcançá-la e vencer as provações que a ela acompanham, terá o mais brilhante dos destinos.

Ele não entendeu as palavras dela, mas as acolheu como fazia com todos os seus conselhos. Vovó o beijou na testa com carinho e sorriu-lhe cheia de amor.

※※※

— Ka Suo.

Parado no corredor olhando pela janela, Ka Suo ouviu a voz chamando seu nome, mas não precisou se virar para ver a princesa sereia atrás dele. Havia uma presença circundando a casa, ele podia sentir.

— Sua avó está procurando por você há semanas. — Disse ele, simplesmente. — Ela me ligou atrás de notícias do seu paradeiro.

— A titia me disse. — Contou ela, referindo-se à mãe dele. — Não posso voltar para casa agora.

— Lan Shang, eu não sei o que você pretende, mas está jogando do lado errado do campo. — Alfinetou. — Nada do que faça vai me fazer mudar de opinião.

— Talvez você não...

— Acha que não sei? — Ele virou de frente para ela, um sorriso gélido no rosto. — Acredita mesmo que não sei todos os seus passos? Você é uma tola e está cometendo a maior estupidez de todas, acha que ela vai dar o que você quer? Aprenda de uma vez por todas com a sabedoria da vovó: amor não pode ser forçado.

— Ka Suo...

— Esta é minha última advertência para você — ele deu um passo ameaçador na direção dela — não entre no caminho de Shi, se você fizer qualquer coisa para impedir o destino dele, eu não vou hesitar em destruí-la.

Antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, ele atravessou o corredor e saiu rumo ao jardim. O prenúncio da escuridão cobria a mansão como uma nuvem agourenta, as árvores e cercas vivas não passavam de silhuetas tenebrosas no breu, as lamparinas pareciam ter parado de funcionar, mas ele podia sentir a onda de poder emanando da caligem de sombras, Ka Suo materializou sua espada de gelo e, de olhos atentos, mergulhou nas trevas.

*Yuan [元] e Jiao [角]— são unidades monetárias chinesas.

*Da ren [大人] — Ao pé da letra isso seria "grande pessoa", na verdade isso é uma forma de tratamento, até meio servil, usada de uma pessoa trabalhadora, por assim dizer, com seu superior. Pode ser traduzido como "mestre", "senhor" essas coisas.

Lao [老] — significa velho.

*Fùqīn, mǔqīn [父亲, 母亲] — São maneiras formais para pai e mãe respectivamente.