Love as Sakura | 爱如樱
13 第11章 Marés do tempo
— Eu sou o príncipe do gelo, Ying Kong Shi.
Todos os soldados e o guardião do norte se ajoelharam diante dele em sinal de respeito. Nenhum deles se atreveu a impedi-lo quando, segurando a mão de Yan Da, ele saiu pelo meio deles. Não havia muito tempo que Shi havia derrubado as paredes da cela e tirado uma fraca Yan Da lá de dentro, disposto a deixá-la ir de volta para o lugar ao qual pertencia. Contudo, com as coisas fora de controle, ele sabia que a única maneira de sair dali era revelando sua identidade — e a traição que cometera contra ela.
— Me solte! — Bradou Yan Da enquanto era puxada pela floresta de bordos da neve. — Eu disse para me soltar!
— Ainda não é seguro. — Disse Shi, simplesmente. — Se ficarmos dentro do território do guardião eles irão matá-la.
— Eu não me importo!
— Mas eu sim. — Ele retrucou dando-lhe um olhar gélido. — Se eu a quisesse morta não me daria ao trabalho de tirá-la de lá.
Yan Da sentia seu coração dissolver-se em ácido. Mesmo sem forças, reuniu os últimos resquícios de energia que lhe restavam e, com toda sua força, libertou-se do aperto de grilhão de Shi. Ele se virou para ela, irritado, enquanto olhava para ter certeza de que não estavam sendo seguidos pelos guardas do norte. Yan Da olhava-o com uma mistura de mágoa e fúria, ele não podia culpa-la, o brilho das lágrimas que ela se recusava a deixar cair tornava seus olhos mais lindos e mais difíceis de encarar.
— Ying Kong Shi, você é mesmo muito cruel. Eu confiei em você e o tempo todo você tem agido nas minhas costas. — As palavras dela eram cortantes como lâminas de gelo. — Não me admira Ka Suo ter protegido você no palácio das estrelas. Fui contra meu irmão por sua causa, tratei você como... como meu único amigo e mesmo assim...
Shi olhava para as folhas brancas nos altos bordos de neve, mas sentia os olhos de Yan Da queimando sua pele. A dor dela reverberava dez vezes mais forte no seu peito, ele queria abraça-la, pedir perdão e prometer que tudo ficaria bem, mas não podia. Cerrando as mãos em punho ao lado do corpo ele se forçou a dizer:
— Nossas tribos estão em guerra, é impossível sermos amigos.
Yan Da mordeu a parte interna da bochecha para impedir as lágrimas de cair. Não choraria na frente dele.
— Hao*. — Sua voz tremulou. — Hao. Na próxima vez que nos encontrarmos estaremos em lados opostos no campo de batalha e eu prometo, queimarei você até os ossos!
Tão logo deu as costas as ele, as lágrimas traiçoeiras verteram como uma cachoeira. Erguendo a cabeça em sua direção, Shi só pôde olhar de longe a dor de Yan Da incapaz de oferecer-lhe consolo. Era o preço por ter escolhido seu irmão e ele estava disposto a pagar por isso.
— Yan Da! Bié qù!* Yan Da!
A consciência veio lentamente, assim como a dor. As luzes fluorescentes incomodaram seus olhos quando Shi os abriu forçando-o a fechá-los novamente. Sua boca estava seca e a cabeça doía tanto que ele quase tocou-a para se certificar que estava inteira.
— Shi.
Ka Suo. Ele reconheceu a voz do irmão e tentou abrir os olhos outra vez, a sombra da cabeça do irmão bloqueou a luz forte e, de um borrão difuso, o rosto de Ka Suo tomou forma. Ao seu lado, Huang Tuo exibia uma incomum expressão de preocupação. Conforme os olhos se adaptavam à claridade — e a mente à realidade — Shi se deu conta que estava em uma enfermaria, apenas pelo quadro bucólico pendurado na parede ele notou que ainda estava na empresa.
— Você nos deu um belo susto. — Sorriu Huang Tuo. — Como se sente?
— Yan Da...
— Não se preocupe, a senhorita Meng está bem. — Tranquilizou Ka Suo. — Huang Tuo a atendeu, ela está descansando agora.
— Eu ouvi você chama-la pelo primeiro nome? — Alfinetou o médico.
— Não comece. — Ameaçou Shi. — O que aconteceu?
Ka Suo e Huang Tuo trocaram olhares sérios antes do primeiro responder.
— Quando cheguei na sala você parecia não conseguir respirar, a senhorita Meng ministrou RCP até a enfermeira chegar, ela mesma não parecia muito melhor que você. — Explicou. — Chamei Huang Tuo em seguida. Consegue lembrar o que houve?
— Eu estava conversando com Yan...a senhorita Meng — corrigiu-se. — Fizemos um acordo e trocamos um aperto de mão, então...
— Então?
— Eu tive outra espécie de pesadelo. Mas não consigo me lembrar direito o que era...
— Está tudo bem agora, acabou. — Ka Suo deu leves tapinhas na mão dele. — Descanse um pouco mais.
Shi não queria descansar, queria ver Yan Da, certificar-se pessoalmente que ela estava bem e, sobretudo, que ele não tinha sido o único a ver aquilo tudo. Por mais que tentasse buscar sentido no seu pesadelo/visão ele não conseguia encontrar. Contudo, sentia-se exausto e sua cabeça ainda doía horrivelmente, ele voltou a recostar-se no catre e, mesmo com medo, adormeceu.
※ ※ ※
Yan Da entrou em pânico. Abaixando-se ao lado de Shi, ela percebeu que ele apertava o peito como se sentisse muita dor, seu corpo inteiro tremia e ele não conseguia respirar. Tentou puxar na memória todos os recursos que havia aprendido sobre primeiros socorros, mas muito pouco lhe veio à mente por causa do pânico. Tudo bem, Yan Da, foco, mantenha a calma. Disse a si mesma em pensamento enquanto apressava-se em deitar Shi no chão e inclinar um pouco sua cabeça, ele realmente não respirava e ela iniciou o RCP, não sabia por que estava chorando enquanto pressionava as mãos no peito de Shi e verificava sua respiração.
Bem nesse momento, Ka Suo apareceu seguido por uma enfermeira, eles se apressaram a atender Shi e ela pôde sucumbir ao choque caindo sentada com as costas apoiadas no sofá enquanto assistia ele ser reanimado. Tudo era uma confusão, candidatos espremiam-se na porta da sala, as secretárias tentavam conter o pânico enquanto elas mesmas pareciam atordoadas, Ya Da não fazia ideia da razão de seu coração doer tanto daquele jeito ou mesmo do medo incontrolável que sentia de ver Shi morrer bem ali na sua frente. De repente, o barulho em volta parecia muito maior, insuportável, doloroso. Yan Da colocou as mãos sobre as orelhas numa tentativa de abafar o som, apenas para perceber que os gritos vinham de dentro dela.
Mais alto. Mais forte. Crescendo. Shi caído nos braços de Ka Suo, uma espada enfiada no meio do seu corpo, sua expressão de agonia e ela presa do lado de fora, incapaz de ir até ele, assistindo-o morrer e uma parte de si morrendo com ele. Ela chamava o nome dele, mas seus olhos não se voltaram na sua direção, permaneciam em Ka Suo. Como sempre estiveram. A dor subiu lenta por suas veias como um veneno que age devagar para prolongar o sofrimento, Yan Da queria se distanciar da agonia que parecia engoli-la, mas era impossível escapar da própria mente. O que está acontecendo? O que é isso?! Ela ouviu um grito agudo ecoar pela sala, mas não podia dizer de quem era porque seus olhos estavam comprimidos com força enquanto as mãos apertavam os lados da cabeça numa vã tentativa de parar a dor.
Ela não se deu conta que o grito era seu próprio. Alguém a tocou, mas Yan Da não viu quem foi, algo gelado foi posto no centro da sua testa e a dor desapareceu junto com a realidade, finalmente ela caiu na escuridão.
"Que coisa mais complicada... eles parecem se afastar mais que se aproximar."
Yan Da não reconheceu aquela voz. A frase foi seguida de um suspiro.
"É assim desde a primeira vez. Você pode criar um mundo inteiramente novo para alguém, mas não pode forçar os sentimentos dessa pessoa."
Era Ka Suo. Onde ela estava? O que havia acontecido? Do que ele estava falando?
"Se as coisas continuarem assim, receio que a mágoa do passado vá sobrepujar o que pode nascer agora." A outra voz disse com um tom preocupado.
"Precisamos evitar que isso aconteça. Use suas armas." O tom de Ka Suo era imperativo.
Ela adormeceu antes de ouvir a resposta.
A noção do tempo estava bagunçada quando Yan Da acordou outra vez. O teto branco foi o primeiro a entrar em foco seguido da... Meu Deus, não! Havia um tripé ao seu lado com uma bolsa de soro que gotejava lentamente, a mangueira fina descia da base e, se ela olhasse para baixo, veria que estava protegida por um esparadrapo que segurava uma agulha na ponta e essa agulha estaria enterrada dentro da sua veia. Respire fundo, apenas respire. Ordenou a si mesma, o medo a impedia de sequer mover os dedos da mão, sentia sua respiração sair de ritmo e as batidas do coração falharem.
— Meng xiaojie, nǐ xǐngle*. — Era uma enfermeira. — Como se sente?
— Por favor... — implorou Yan Da. — Por favor, tire a agulha. Por favor!
— Meng xiaojie, há um medicamento no soro, o doutor Huang receitou, vai ajudá-la a se acalmar.
— Por favor! — Lágrimas saltavam dos olhos de Yan Da.
A essa altura ela já não conseguia respirar direito, podia sentir o aço frio da agulha sob sua pele e a dor da dilaceração da camada epitelial, o pânico começou a se alastrar novamente, mas era um pânico diferente, urgente e aterrador. Ela lutou para bloquear as lembranças que forçavam espaço na sua mente.
— Meng xiaojie, mantenha a calma, por favor. — Pediu a enfermeira. — Doutor Huang!
— Tire isso de mim, por favor, tire! — Gritou Yan Da, histérica.
Huang Tuo entrou correndo na enfermaria feminina, apressou-se em segurar os ombros de Yan Da com delicadeza e empurrá-la de volta para o catre.
— Meng xiaojie, está tudo bem. Nada vai acontecer à senhorita aqui, eu prometo.
— Tire isso de mim, tire, por favor, tire! — Implorou ela, as lágrimas caindo incessantes.
Uma sombra de preocupação nublou o rosto sempre brilhante e sorridente de Huang Tuo.
— Shh... está tudo bem, eu vou tirar a agulha, mas a senhorita precisa se acalmar primeiro, certo? — Ele mantinha a voz baixa e calma. — Pode fazer isso?
Ela anuiu, ainda trêmula. Huang Tuo fez sinal para a enfermeira e olhou novamente para Yan Da mantendo as mãos nos ombros dela para que permanecesse deitada.
— Vamos respirar agora, tudo bem? Eu vou contar e a senhorita começa a inspirar e expirar profundamente, mantenha os olhos em mim. Um.
Yan Da puxou o ar com força e deixou-o sair lentamente.
— Dois.
Ela fez de novo, os nervos ainda oscilando e as lágrimas continuavam caindo. Conforme Huang Tuo ia contando e ela repetia o processo, sentiu sua respiração e os batimentos cardíacos voltarem ao normal, sequer percebeu que, enquanto fazia o exercício proposto pelo médico, a enfermeira tirava a agulha da sua mão. Ao vê-la calma, Huang Tuo puxou um banquinho e sentou ao lado da cama colocando um pequeno adesivo sobre o buraquinho da agulha, Yan Da foi dominada por alívio e também certo constrangimento por ter agido de forma tão extrema.
— Meng xiaojie, não é a primeira vez que a senhorita mostra medo de agulhas. — Observou o médico. — As suas reações são similares a de alguém com aicmofobia, mas algumas delas são bem específicas, como um trauma.
— Eu...
— Tudo bem se não quiser me contar. — Apressou-se em dizer. — Mas acredito que seria muito benéfico se a senhorita visse um profissional que pudesse lhe auxiliar com isso. Eu posso lhe indicar alguns colegas da minha confiança.
— Obrigada. — Foi tudo que ela conseguiu dizer.
Huang Tuo anuiu e pediu que ela descansasse, receitou um calmante via oral para que ela dormisse e deixou a enfermaria feminina rumo à masculina onde estavam Shi e Ka Suo. O jovem príncipe dormia com o medicamento que ele prescrevera e o rei do império da neve estava ao seu lado, sempre vigilante.
— Wáng, há algo que gostaria de lhe perguntar.
— Diga.
— A jovem princesa... que destino foi dado a ela?
— Não sei. — Ka Suo suspirou. — Não pude controlar isso. Ao que parece, os laços continuaram os mesmos, as mudanças estão interferindo de modo lento no curso.
— Mas a roda do destino foi destruída, as coisas não deviam estar sendo diferentes?
— Cada um deve ter o peso do próprio pecado para carregar. É um fardo que não me cabe retirar. Eu só peço aos céus que sejam clementes e permitam a Shi poder ser livre.
Ele acariciou os cabelos do irmão com carinho. Huang Tuo sentiu-se incomodado com aquilo. Talvez a destruição da roda do destino só desvinculasse seu destino e o do jovem príncipe, mas todos eles ainda deveriam enfrentar e vencer as batalhas de outrora, os assuntos que ficaram inacabados. Dessa vez o próprio Huang Tuo suspirou, eles continuariam se ferindo até o fim? Parecia realmente um ciclo sem fim.
Pensativo, o médico deixou a enfermaria e saiu até o terraço da ZhangYing onde contemplou a selva de pedra de arranha-céus. O único horizonte natural à vista era o céu anil acima dele, um contraste colorido com a paisagem cinzenta mais abaixo. Huang Tuo tinha vontade de conhecer a Rússia, seus prédios cheios de cores e vida, seu inverno gelado que lhe causava uma estranha saudade. Fechou os olhos e se permitiu viajar de volta para casa.
O cheiro de ervas amargas e doces pairava no ar, ao redor da mesa de madeira, com centenas de livros abertos em diferentes páginas, os estudiosos discutiam métodos de cura e renovação da energia espiritual e, rondando a mesa, Huang Tuo ria de algumas de suas ideias absurdas e aplaudia as que tinham algum fundo de lógica, refutava teorias e sugeria novos métodos de tratamento. Sentiu saudade do seu inescrupuloso irmão mais novo que vivia fugindo das aulas de preparo e cura, do pai despreocupado que sorria por tudo e qualquer coisa, mesmo nos momentos mais críticos. Sentiu saudade do jardim largo que se perdia a vista, com enormes árvores frondosas, algumas frutíferas outras medicinais. E, sobretudo, sentiu saudade do inverno.
A tribo xamânica fazia fronteira — e considerava-se componente — com a cidade Ren da Neve, de modo que era frequente que o inverno se propagasse quase eternamente, ainda que de forma mais amena. Era uma espécie de inverno benéfico que ajudava as ervas a crescer mais rápido e se tornarem mais eficazes. Um sorriso brincou nos lábios de Huang Tuo quando se visualizou na estufa de cultivo avaliando e colhendo as ervas que se destinariam a tônicos, chás e unguentos.
Sua saudade era ainda maior por saber que nada daquilo fora real.
— Que espécie de sorte estranha nós tivemos, não concorda? — Perguntou ele à presença que sentira atrás de si.
— Há quanto tempo sabe que estou aqui? — Indagou a figura.
— Fiquei afiado com o tempo. — Sorriu. — Mas não se preocupe, você continua tão silenciosa quanto antes. O que faz aqui?
— Shuo Gang está rondando o perímetro, pensei que sua majestade deveria saber.
— A princesa está aqui, ele deve saber disso. — Suspirou. — Que complicação.
— Acha que eles vão conseguir?
Huang Tuo fez uma careta e contemplou o céu.
— A princesa não teve uma sorte muito melhor aqui... as feridas são muito profundas, não tenho certeza se ela vai conseguir vencer isso. — Ele se virou para olhar a pessoa ao seu lado. — E você? Vai conseguir um dia me perdoar?
— Ambos já pagamos nossos pecados.
— Yue Shen...
— Você a salvou. — Interrompeu. — Não há nada pelo qual precise me ressentir de você.
— Se não se ressente, por que não me aceita?
Yue Shen se manteve impassível como sempre, ele não esperava outra reação. Olhando para frente, ela segurou com força o cabo da sua espada.
— Isso que você sente... me assusta. — Confessou. — Ainda não estou pronta.
— Está me dando esperanças? Uau, você é cruel. — Ele sorriu para disfarçar os olhos lacrimosos.
Como ele e os demais, Yue Shen ainda não conseguira assimilar de um todo que a vida que acreditou ser sua não passava de uma ilusão. Ka Suo os havia salvo quando não havia mais nada, contudo, era difícil digerir as verdades do que havia acontecido e, sobretudo, saberem que sua segunda chance dependia do jovem príncipe do gelo e da princesa do fogo. Enquanto não soubesse que aquilo realmente se tornaria real, Yue Shen não se atrevia a arriscar entregar-se aos sentimentos intensos que reprimia dentro de si, perdera Huang Tuo uma vez, não suportaria apegar-se e repetir aquela dor.
— Quando isso acabar, eu te darei uma resposta. — Disse ela colocando uma mão tímida no braço dele. — É uma promessa.
E antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, ela deu as costas e desapareceu, rápida como os flocos de neve que tocavam a terra no lugar que ele chamara de lar.
※ ※ ※
Shi acordou sentindo-se um pouco melhor. Havia perdido a noção do tempo e imaginava que o dia de trabalho ficara perdido. Ka Suo ainda estava ao seu lado, analisando alguns documentos.
— Nǐ xǐngle. — Ele sorriu. — Como está?
— Estou bem. — Era uma meia verdade. — Ge, sinto muito.
— Por que está se desculpando? Nada disso é culpa sua, Shi. — Ele segurou a mão do irmão e apertou-a levemente. — E se está preocupado com as entrevistas, pedi a alguém que cuidasse disso, concentre seus esforços em se recuperar.
Shi anuiu, mas ainda havia algo incomodando-o, não era apenas o que havia acontecido, mas o fato de Yan Da estar diretamente ligada àquilo tudo, ele queria entender a mecânica daqueles sonhos/visões, mas havia um alerta na sua mente que indicava que Yan Da estava correndo perigo. A inquietação de horas atrás voltou a crescer no seu peito, percebendo isso, Ka Suo franziu o cenho.
— O que há de errado?
— Ge, onde ela está? Preciso vê-la.
Ka Suo sorriu.
— Ainda está dormindo. Huang Tuo precisou sedá-la. Mas não se preocupe, ela está segura, pode ir vê-la na enfermaria feminina.
Ka Suo pediu a uma enfermeira que retirasse o soro da mão do irmão e Shi apressou-se em levantar e ir ao encontro de Yan Da. A enfermaria feminina da empresa ficava no corredor paralelo, passando por algumas enfermeiras, médicas e funcionários, Shi retribuía os cumprimentos com acenos breves de cabeça, o coração martelando apressado no peito. Tão logo atravessou a porta aberta, uma médica o cumprimentou sorridente.
— Ying xiansheng, posso ajudá-lo?
— Mèng xiǎojiě nǎ'r?*
— Por bem pouco o senhor não a encontra aqui, ela acordou tem alguns minutos e saiu. Pedi-lhe que esperasse um pouco, mas ela parecia ter pressa. — Explicou. — Se for agora acho que a encontra no saguão.
Shi murmurou um agradecimento enquanto saía correndo porta à fora, sua mente estava tão focada em encontrar Yan Da — e prevendo todas as possibilidades de ela poder estar instável — que permanecia em branco para qualquer outro assunto. Virou um corredor e, estando o elevador ocupado, correu para as escadas ignorando as pontadas na cabeça e o olhar confuso dos funcionários que o viram em tal estado.
Quando alcançou o saguão, Yan Da estava atravessando as portas giratórias da empresa, ele tomou fôlego e correu na tentativa de alcançá-la, mas havia um sem número de pessoas impedindo o tráfego, a maioria eram candidatos às vagas que haviam sido entrevistados e outros que esperavam sua vez. Mas havia também alguns homens de negócios conversando entre si que o pararam em algum momento para cumprimentos sociais que sempre demandavam certo tempo.
A inquietação e também uma espécie gélida de medo tornava Shi impaciente, mas ainda se esforçou para ser educado enquanto dispensava conversas e pedia licença para as pessoas que o impediam de alcançar as portas, ele não sabia por que, mas precisava pedir perdão a Yan Da, não conseguiria ter um pouco de paz consigo mesmo enquanto não fizesse aquilo. Podia ser influência do pesadelo/visão ou algo que ele não entendia, tudo que tinha por certo é que precisava encontrá-la.
Finalmente alcançou as portas giratórias, mas não havia sinal dela do lado de fora, ele atravessou para o ar quente do lado de fora — e o choque térmico fez sua cabeça latejar ainda mais — começando a procura-la por todos os lados, por fim, viu Shuo Gang discutindo com ela na entrada do estacionamento executivo, Shi correu até eles e chegou bem a tempo de impedir o irmão de Yan Da de bater nela.
— Meng xiansheng, eu o aconselho a manter a calma. — Sua voz soou dura, mas ele ainda resfolegava. — Isso não são modos de tratar uma mulher seja ela da sua família ou não.
— Isso não lhe diz respeito, Ying Kong Shi, eu tenho direito de disciplinar minha irmã como bem entender! — Bradou ele.
— Está enganado — contrapôs —, a senhorita Meng é uma funcionária da minha empresa na qual, se não percebeu, o senhor está. Por isso é meu direito lhe pedir gentilmente que se retire e deixe-a em paz.
— Ou o quê? — Shuo Gang deu um passo na direção de Shi.
— Está mesmo disposto a arriscar para ver? — Um sorriso frio arqueou-se no rosto dele.
— Isso ainda não acabou! — Disse ele a Yan Da antes de ir embora.
Shi balançou a cabeça enquanto o observava entrar em seu extravagante carro vermelho e desaparecer. Voltando-se para Yan Da, ele percebeu que ela tremia — se de medo ou de raiva não sabia — e seus olhos estavam cheios de lágrimas que não caíam.
— A senhorita está bem?
Ela não respondeu.
— Sinto muito ter me metido no seu assunto familiar, mas não podia permitir esse tipo de comportamento.
— Obrigada. — Murmurou Yan Da e fez menção de sair quando Shi a impediu, inconscientemente segurando-a com delicadeza pelo braço.
— Por favor, espere.
— Que mais há? — Virou-se para ele com um olhar duro.
— Eu... bem... — Enquanto a olhava, Shi parecia ter perdido as palavras, sua vontade era abraça-la bem ali e tirar aquela dor dela. — Queria pedir que me perdoe.
— Pelo quê exatamente? — Ali estava a postura defensiva outra vez.
— Não sei... apenas senti que precisava dizer isso. — Admitiu. — Sobre o que aconteceu mais cedo.
— Não sei do que está falando. — Rebateu Yan Da. — Eu não vi nada além do senhor tendo uma crise de pânico.
— Meng xiaojie...
— Preciso ir.
Sem que ele pudesse detê-la, Yan Da saiu apressada até seu carro estacionado em uma vaga ao lado do estacionamento executivo, ela se fechou no veículo e, trêmula, deu a partida para longe dele. Enquanto dirigia, lágrimas caíam pelo seu rosto, ela não sabia por que estava com tanto medo, não entendia aquelas imagens que povoavam a sua mente desde criança, a sensação de buscar alguém que não conhecia e ser respondida no instante que seus olhos encontraram os de Shi pela primeira vez. Havia algo entre essas duas coisas que todos os seus instintos mais primitivos de proteção lhe alertavam para ficar longe.
A verdade poderia destruí-la. Era essa a sensação que tinha.
"É impossível sermos amigos."
"Queria pedir que me perdoe."
Yan Da meneou a cabeça, a visão nublada pelas lágrimas, a voz de Shi ecoava nas paredes da sua mente repetidas vezes, as frases sobrepondo-se até virar uma cacofonia incompreensível. O tempo e o espaço, de repente, não eram mais confiáveis e a única coisa que ela queria era fugir daquele sentimento, manter-se longe daquelas memórias que não lhe pertenciam, da dor que parecia engoli-la em um buraco negro. Freou bruscamente quando o sinal ficou vermelho e respirou fundo várias vezes tentando parar as lágrimas, por que estava chorando, afinal?
Tentando não enlouquecer, ela pensou em sua casa, nos amigos que estavam à sua espera, no banho que tomaria e nas horas que dormiria para esquecer que aquele dia aconteceu. Concentrada nesses pensamentos, ela não percebeu o veículo escuro que a seguia de perto e, assim que virou a esquina que levava ao seu condomínio, o primeiro impacto aconteceu.
Só pode ser brincadeira! Pensou frustrada. Aquele dia não poderia ficar pior, poderia? Quando o segundo impacto veio, Yan Da percebeu que não era brincadeira, o carro de trás tentava tirá-la da pista e no terceiro impacto ela perdeu o controle do veículo que, sob a força do choque, virou, derrapou e bateu contra a parede de uma das casas. O carro estranho passou direto seguindo seu caminho.
O que está acontecendo? Por que essas coisas estão me atingindo assim? Seu corpo inteiro doía, com as mãos trêmulas ela tentou tatear o fecho do cinto de segurança, mas não conseguia se mexer, algo quente descia pelo seu rosto e havia um cheiro forte de combustível e fumaça por todo lado. Uma lágrima caiu pelo rosto de Yan Da enquanto ela sorria ao ter um vislumbre do rosto de Peng Peng.
— Yan Da! Meu Deus, Yan Da!
Aquela voz... tão longe. Yan Da sentiu a saliva descer como ácido pela sua garganta. Tossiu e alguma coisa escorreu pelo queixo, descendo pelo pescoço, ouviu o som da porta sendo forçada, alguém chamava seu nome, mas ela não conseguia mais ver o rosto da pessoa, seria Peng Peng? Ele finalmente havia voltado pra ela? Algo tocou seu corpo e ela gemeu de dor, sua mente flutuava entre a realidade e a inconsciência, o fedor de combustível e fumaça foi substituído pelo de um perfume amadeirado com toques herbais, ela já sentira aquele perfume antes...
Um som alto eclodiu e uma onda de calor voou na sua direção.
Ah, ela estava tão cansada.
A voz agora era um sussurro longínquo demais para ser compreensível.
Os olhos dela foram pesando e, lentamente ela foi se entregando à tão desejava escuridão. Sentiu seus lábios formarem um único nome enquanto caía no vazio.
Ying Kong Shi.
Notas:
*Hao [好] — bom, boa, bem, mas em casos como esse assume o sentido de "Okay", "muito bem", "certo".
*Bié qù [别去] — não vá.
*nǐ xǐngle [你醒了] — você está acordado (a); você acordou.
nǎ'r [哪儿] — onde, aonde. Essa frase é, na verdade, uma abreviação coloquial de在哪里?[zài nǎlǐ] "onde está?". A frase seria "Meng xiaojie zai nali?", mas no uso do dia a dia pode-se omitir o 在 (estar) e comprimir o 哪里 (onde, aonde) por哪儿 [nǎ er] cujo /e/ do segundo ideograma é elipsado na fala.
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