Love Story
209 A Família Grissom no Mar
Notas iniciais
— Você quer ficar?
Foi a pergunta que Sara fez à filha adotiva quando decidiram voltar ao mar.
Era novidade para Abby toda aquela situação. Mesmo já tendo terminado as aulas de música, ela podia querer fazer outra coisa. Decidir qual curso fazer, em qual faculdade, estudar pra conseguir entrar, ou simplesmente arrumar um emprego. Ficar longe do namorado pra viver no mar com seus pais e seu irmão poderia não ser atrativo para uma jovem de quase dezenove anos.
Mas estava enganada.
— A parte ruim é que ficarei longe do Robert. Mas eu falei com ele, a gente conversou bastante sobre isso até. Decidimos que tentar não faz mal. Vamos saber se a distância vai dar certo com o tempo. Vamos tentar manter contato sempre que der. Eu…- ela hesitou um pouco, mas prosseguiu. — Não estou pronta ainda… pra ficar longe de vocês. E o Ricky precisa de mim. É meu dever de irmã mais velha cuidar dele.
Sara sorriu com isso e a abraçou.
Tinha experimentado relacionamento à distância e sabia o quanto era difícil. Esperava que o amor que eles sentiam um pelo outro fosse forte o bastante pra isso.
De malas prontas, a família Grissom partiu para San Diego em dois carros, o de Sara e o de Jack — o pai de Robert —, pra conseguir levar tudo o que precisavam até o Ishmael (que Nick fez questão de cuidar enquanto estava todo esse tempo parado na marina). Jack e seu filho os acompanharam até lá, não só para ajudar, mas para que o casal de adolescentes pudessem se despedir e passar aquelas quatro horinhas de carro juntos "pela última vez".
Rayle tinha se despedido no aniversário de Warrick há três dias. O resto da galera também, com exceção de Catherine, Greg e Morgan que foram até a casa deles dar um beijo em Ricky antes de partirem.
Já com tudo dentro do Ishmael, eles já estavam prontos pra ir embora.
Enquanto Abby e Robert se despediam, Jack esperava o filho no carro e o casal conversava com Nick que não largou Warrick desde que chegaram.
— Prometam que não vão demorar pra aparecer, mesmo a vida no mar não sendo tão solitária e tranquila quanto a gente imagina.
Gil e Sara sorriram e prometeram aparecer pelo menos duas vezes a cada semestre, dependendo de onde estariam.
Com todas as despedidas já feitas, a família Grissom adentrou o barco e foi embora.
Enquanto Grissom pilotava, Abby estava no fundo do barco acenando para Robert enquanto se distanciava.
Sara foi até ela com Ricky no colo quando já estavam longe. Ele tinha ficado fascinado com o mar e queria olhar o tempo todo o movimento das águas, quase se jogando por cima da grade lateral. Sara estava com os braços doendo pela força de segurá-lo. E afinal, ele já tinha um ano, estava mais pesado do que antes.
Quando Sara chegou perto de Abby, percebeu seu semblante triste.
— Já está com saudade dele, não é?
Abby deu um sorriso tristonho e assentiu.
— Vocês vão conseguir.- deu um beijo na lateral de sua testa e notou um vasinho em sua mão. — Ele que te deu?
— Uhum. Ele sabe que amo margaridas. Veio com a piada horrível de que não vai faltar água para regá-las.
Sara riu.
— É horrível mesmo.- Abby sorriu ao ouvi-la concluir: — Adoro o senso de humor dele. Ele me lembra o Greg às vezes.- Abby franziu o cenho, pois o Greg que conhecia não parecia ser assim. — Ele costumava ser assim.- Sara logo leu sua expressão e explicou. Não achava ruim ele ter mudado um pouco. Há momentos que ser mais maduro é necessário.
Abby assentiu e olhou novamente pra plantinha. Warrick quis pegar e Sara logo o deteve.
— Não, não. É da sua irmã. Vamos lá ver o papai.- Sara então a olhou e colocou uma mecha de seu cabelo atrás da orelha. — Quer conhecer lá em cima?:
Abby sorriu e acompanhou Sara. Depois, claro que ela conheceu todo o resto.
— E aí, princesa?- Gil colocou o braço no ombro dela. — O que achou da vista?
— É maravilhosa!
— Antes de descobrir que estava grávida, bem no começo da nossa jornada juntos pelo mar…- Sara começou a contar. —... eu costumava observar o sol se pondo quase todos os dias.- Grissom sorriu com a lembrança e Abby com a forma doce como ela falava da memória. — Eu quase não tinha tempo de fazer isso quando estava em terra firme e a visão em mar aberto é tão incrível quanto no topo de uma montanha.
— O que me faz lembrar…- Gil observou. —... que passamos mais de um ano em Vegas e esquecemos completamente da nossa árvore.
Sara puxou o ar num suspiro de surpresa e esquecimento.
— Como podemos esquecer disso? Fiquei triste agora, foi algo tão importante na nossa vida.
— De que árvore estão falando?
Sara contou.
— Quando começamos a namorar, Gil me levou pro topo de uma montanha afastada do centro de Las Vegas. No topo dessa montanha havia uma enorme árvore e uma vista linda da cidade. Íamos pra lá algumas vezes pra relaxar e ficarmos sozinhos sem a pressão da realidade ao nosso redor. No nosso primeiro aniversário, ele me levou lá e me fez uma surpresa.- Abby prestava atenção em cada detalhe, pois amava a história de amor deles e se sentia feliz em fazer parte dela. — Ele gravou nossas iniciais dentro de um coração no tronco dessa árvore e declaramos oficialmente que aquele ali ia ser o nosso cantinho.
Abby ficou encantada com o relato e sorriu.
— Isso é romântico.
— Também achei.- Sara sorriu olhando pro marido com carinho. — Viver no mar com ele é tão romântico quanto.
Grissom se aproximou tocando seu rosto e lhe dando um beijo na testa. Não só Sara amava quando ele fazia isso, Abby achava extremamente fofo e cuidadoso quando eles demonstravam carinho assim. Quando Robert fazia isso, ela se sentia imensamente amada.
— Nunca fiquei em mar aberto.- Abby comentou voltando ao assunto. — Dá medo olhar pra água às vezes sem ver o fundo. Vocês costumam ver muito tubarão?
Eles sorriram com a pergunta.
— De vez em quando vemos alguns. Mas eles são inofensivos.
— Inofensivos?- Abby achou loucura o que Sara disse. — Se eu cair na água, eles me comem.
— Mas você não vai cair na água.- Sara riu. — Gil e eu mergulhamos algumas vezes. Vai por mim, eles não fazem nada se você não incomodá-los.
— Evitamos tubarões brancos, mas os outros são tranquilos. Há outros perigos no mar além de tubarões.
— Ajudou muito, amor.- Sara reclamou.
— Acho que à noite eu vou ficar meio…
— Apavorada?- Gil brincou.
— Talvez.- ela riu.
— Você se acostuma. O mar só é perigoso pra quem não tem cuidado.
— Você está segura.- Sara garantiu.
Abby suspirou tentando ficar mais tranquila, enquanto Warrick não tirava o olho da água.
— Que foi, Ricky? Não está vendo um tubarão, está?- Abby dramatizou.
Grissom e Sara riram e fizeram cócegas nos dois.
~ ♥ ~
— Ainda bem que trocamos de barco.- Sara comentou divertidamente. — Imagina o aperto que ia ser agora.
Grissom sorriu.
— É verdade. Fazer negócio com Ruben foi uma excelente decisão. As crianças tem espaço aqui.
Eles estavam arrumando as coisas no lugar para acomodar melhor os filhos na “nova casa”, enquanto Abby tomava conta de Warrick na parte de fora.
— É engraçado dizer "as crianças" como se Abby ainda fosse uma. Às vezes eu esqueço que ela já é adulta.
— O tempo passa muito rápido…
Sara assentiu nostálgica.
— Quatorze anos passaram voando. Queria que ele fosse um pouco mais devagar…
Grissom percebeu a melancolia e sentiu novamente aquela sensação que havia confessado a ela no dia que Ricky andou pela primeira vez. Sabia que ela não tinha sentido o que ele sentiu, mas que era próximo disso, então lhe deu um beijo na testa lhe passando segurança e calma, como ela havia lhe passado.
Sara sorriu.
Arrumaram o segundo quartinho para Abby e tentaram deixar o mais próximo do de Vegas/Paris pra ela se sentir confortável e não tão deslocada. Ricky ficaria no quarto com eles, pois ele ainda era pequeno.
Com tudo pronto, eles sorriram satisfeitos.
~ ♥ ~
Na cabine do andar de cima, Sara acertava a rota do Ishmael enquanto Grissom olhava seus e-mails no notebook e Abby brincava com Ricky no chão.
— Problemas à vista, honey.
— O que houve?- ela o olhou de relance enquanto ainda prestava atenção no mar.
— Ruben me mandou um e-mail com um artigo há alguns dias e eu não vi. “Estudo mostra que a acidificação dos oceanos está causando grande impacto na vida marinha”
— Ahh, eu cheguei a ver isso.- ela estabilizou o barco e parou ao lado dele. — Cientistas dizem que as emissões de dióxido de carbono estão matando os recifes de corais e as florestas de algas, já que as ondas de calor e a acidificação dos oceanos prejudicam os ecossistemas marinhos.
Grissom assentiu e continuou lendo.
— “Em uma nova pesquisa, cientistas afirmam que cortes nas emissões globais de CO² são essenciais para limitar mais danos aos recifes de coral e às florestas de algas.”
— É bom ficarmos atentos, talvez possamos ajudar a salvar alguns recifes de corais no pacifico sul.
— Achei que só salvassem os animais do oceano, mas é o oceano inteiro.- Abby sorriu orgulhosa.
— Se bobear, até as rochas.- Sara brincou e Abby riu. — Falando em recifes, sabiam que esse ano de 2018 foi escolhido como o Ano Internacional dos Recifes de Corais?
— É mesmo?- nem Gil sabia. — Está bem antenada.
— Sempre.- Sara piscou e recebeu um beijo curto do marido.
~ ♥ ~
Alguns dias se passaram, e lá estava Sara apreciando a linda vista que o barco proporcionava. O pôr-do-sol tocando a água, os pássaros voando em grupinho, planando e rodopiando como uma apresentação sincronizada e feita só pra ela.
Quase todo o fim da tarde ela estava ali assistindo aquele espetáculo dois anos atrás, e lá estava ela voltando a fazer isso. Era relaxante ver, enquanto o som das ondas lhe invadia os ouvidos.
Suspirou e ajeitou a postura, já que estava debruçada na grade do barco. Seus filhos tiravam um cochilo depois de terem gasto suas energias durante o dia.
Não demorou muito para sentir dois braços fortes enlaçarem sua cintura por trás. Sara fechou os olhos e sorriu acariciando esses mesmos braços.
Grissom estava observando ela de longe. Cada um tinha sua própria vista para apreciar. Ela, a da natureza, e ele, a dela debruçada com os cabelos ao vento e o rosto sereno.
— Admirando a vista de novo?!- ele disse a olhando com a cabeça por cima de seu ombro.
A viu sorrir e dizer que sim.
— Não canso de fazer isso.- ela completou tombando um pouco a cabeça pro lado.
Grissom sentiu seu coração se encher de amor pela milésima vez. Não conseguia tirar os olhos dela.
— Nem eu.
Sara achou que ele estava falando da mesma vista que ela até perceber e sentir seu olhar sobre si. Sorriu do seu jeitinho fofo com direito a biquinho, virou a cabeça para olhá-lo e se deparar com aquele mesmo olhar de anos atrás, o azul ainda mais intenso e o amor ainda mais forte.
Sorriram um pro outro da forma mais fofa possível e Sara virou-se pra ele, esquecendo-se do pôr-do-sol.
— Vai perder o fim do espetáculo.- ele falou olhando de relance pro mar ao lado enquanto ela se perdia no de seus olhos.
— Eu prefiro esse.
Grissom a sentiu acariciar sua barba enquanto falava e a viu se aproximar ainda com a mão em seu rosto. Retribuiu o beijo que ela lhe deu com suavidade e sem pressa, desfrutando cada segundo daquela boca. Seu lar, seu amor.
“Eu gosto do seu sorriso, eu gosto da sua energia
Eu gosto do seu estilo, mas não é por isso que eu te amo
Eu gosto de como você mantém a calma quando eu sou complicada
Mas não é por isso que eu te amo
Você é tão lindo, mas não é por isso que eu te amo
E eu não tenho certeza se você sabe
Que a razão que eu te amo é você. Só você.
Sim, o motivo pelo qual te amo, é tudo isso pelo que passamos
E é por isso que eu te amo” ― Avril Lavigne
~ ♥ ~
Felizes estavam, principalmente Sara, ao terem a oportunidade de passar em Puerto Ayora na província de Galápagos — no caso de Sara, retornar pra lá — para reencontrar seus amigos da Costa Rica. Estavam todos juntos lá para um evento de ativistas com a iniciativa de fazer um mutirão pra recolher os plásticos do mar que, infelizmente, ainda era um problema na maioria dos lugares do mundo. Roger, Alyssa, Felipe, Joan, Kim, Franklin, Dener e Robert — que Sara só naquele momento percebeu que tinha o mesmo nome do namorado da filha — estavam lá para ajudar e dar palestras sobre o assunto. Inclusive, Dylan também estava, o tal biólogo marinho que Sara mencionou lembrar um pouco Grissom quando estavam separados.
Sara amou rever os amigos e os mesmos ficaram impactados que em nove anos Sara havia se casado com Grissom e tido dois filhos, um bebê e uma adolescente. A morena explicou tudo numa conversa longa que ela e o marido tiveram com eles depois de os mesmos babarem nas crianças.
Abby gostou deles e Warrick pegou birra de Roger por algum motivo.
Ficaram lá por dois dias e Abby gostou muito de ver como Gil e Sara trabalhavam e com o que eles lutavam. Foi uma ótima experiência pra todos eles, inclusive, Gil e Abby viram até uma iguana-marinha pela primeira vez. Sara lhes deu uma pequena aula sobre elas quando Abby confessou, já acomodados no Ishamel que estava ancorado na marina, que não sabia que existiam lagartos do mar.
— É o único lagarto do mundo com hábitos marinhos e é uma das muitas extraordinárias espécies que se podem encontrar no arquipélago de Galápagos. Vive em zonas rochosas da beira-mar e se alimenta de algas. Galápagos forma um arquipélago na costa da América do Sul. Este arquipélago são ilhas vulcânicas, e nunca foram ligadas a uma massa de terra, por isso acredita-se que as iguanas atravessaram sobre a água da América do Sul para essas ilhas há cerca de dez a quinze milhões de anos.
— Caramba! Que legal!- Abby exclamou e Grissom sorriu orgulhoso, não só do interesse que Abby demonstrou ter sobre a vida marinha, como da inteligencia e sabedoria de sua esposa. — Elas não vivem sempre no mar, né?
— Não, só passam até uma hora debaixo d’água. Um fenômeno curioso são as chamadas iguanas híbridas, nascidas do cruzamento de uma iguana-marinha macho com uma iguana-terrestre fêmea. As iguanas híbridas podem viver tanto na terra quanto no mar. Essa espécie foi um dos animais estudados por Darwin durante sua estada em Galápagos.
— Charles Darwin, né?- Abby recordou-se do nome, pois por seu papel científico, Darwin é considerado uma das maiores personalidades da história. — Ele era o que, um biólogo?
— E naturalista, e geólogo.- respondeu Grissom.
— Sabemos bastante a respeito, já que somos do meio cientifico e marinho.- Sara sorriu e se levantou olhando pro filho.
Warrick simplesmente esqueceu de sua existência quando Franklin deu um chocalho de peixe pra ele. O mais velho havia dito que a esposa havia feito dois dele para o neto, um azul claro e um azul escuro, e ele quis dar o claro para Warrick. O casal agradeceu o presente e Ricky simplesmente não largava o chocalho novo de peixinho.
— Bom, acho que vou atrás de Joan e Ally.
Quando percebeu que a mãe ia sair, Warrick largou o chocalho.
— “Mamama…”- choramingou.
— Oh meu deus, mamãe não vai não.- o pegou no colo sorrindo.
— Quando papai sai, ninguém chora assim.
Sara e Abby deram risada.
— Olha o papai com ciúme, meu amor.
Warrick, assim que Sara o levou pra perto de Gil, se inclinou pra tocar a barba dele. Adorava fazer aquilo.
— Ele gosta da sua barba.
— Que nada. Acho que vou tirar, deve pinicar a mãozinha dele.
— Ele está acostumado a te ver assim. Se você tirar, ele nem vai te reconhecer.
Grissom semicerrou os olhos tentando não sorrir.
— Devia ser crime o que você faz.
— O que?- ela riu.
— Chantagem emocional com nosso filho só pra eu não tirar a barba.
Sara sorriu com os olhinhos brilhando.
— Eu amo como é lindo ouvir você dizer isso.
— O que?- indagou ele, curioso.
— "Nosso filho".
Grissom sorriu e lhe deu um beijo. Warrick não ligou, só se agarrou a mãe, e Abby sorriu boba com os pais adotivos. Eles eram a personificação do casal perfeito.
~ ♥ ~
Mais alguns dias se passaram e eles já tinham voltado ao mar. Estavam à caminho do Peru para rever Ruben e se juntar a ele numa nova aventura.
Gil, Sara e Ricky estavam deitados juntos na cama brincando e rindo, quando Abby entrou.
— Sara! Gil! Olha o que eu achei na internet!- o casal olhou pra filha prestando atenção no que ela tinha pra falar. Abby estava empolgada em conhecer mais do trabalho deles no mar e começou a pesquisar bastante nos últimos dias na internet, e quando não tinham sinal, ela lia os livros e arquivos do e-mail de Sara. — Achei um artigo sobre três brasileiras que montaram uma organização apenas de mulheres pra defender o mar juntas.
— Olha só, que interessante!
— “Grupo mobiliza mulheres para atuar no enfrentamento da poluição, aquecimento das águas e superexploração de recursos marinhos”.— ela leu o título. — Eu adorei a ideia. “Três brasileiras reuniram cerca de 30 mulheres envolvidas com o oceano para conversar sobre a criação da liga. Todas já haviam vivenciado casos de machismo no trabalho, principalmente em razão de a área oceanográfica ser bastante masculina”. Isso realmente acontece? Até no mar?
— Até no mar.- Sara confirmou com pesar.
— Não muda nunca.- lamentou a menina.
— Mas vai mudar.- disse Gil, apoiador e otimista.
Meses se seguiram e tiveram aventuras e viagens uma melhor que a outra. Warrick e Abby se acostumaram bem com a rotina de viver no mar e não sentiram nenhum tipo de enjoo ou estranheza. Gil e Sara só tinham que ficar de olho em Warrick quando ele saía andando por aí, do jeito que ele tinha mania em trepar nas coisas, tinha risco dele cair do barco se ninguém olhasse.
Ricky seguia aprendendo palavras novas e a arte de repetir o que seus pais faziam e falavam estava a todo vapor. Uma vez, sem querer, Sara deixou escapar um “que inferno!” perto dele e ele repetiu. Acharam engraçado no momento, mas depois Sara ensinou que ele não podia falar aquilo, que papai do céu não gostava. Mesmo não sendo religiosos, Abby era um pouquinho, então ela falava pra ele que quando ele fazia birra ou algo do gênero, papai do céu não gostava. Aí Sara pegou esse hábito.
Sempre que paravam em terra firme ou chegavam perto da civilização onde conseguiam um bom sinal de internet, eles ligavam e faziam chamada de vídeo com os amigos. Era a parte favorita das crianças, pois Abby podia falar com o namorado e Ricky podia ver seus padrinhos.
Inclusive, depois de quase um ano de noivado, Greg e Morgan mandaram o convite de casamento por e-mail. Seria em uma chácara, um pouco afastada de Las Vegas, e seria realizado no dia 31 de Agosto de 2019 às 16h00min. Uma graça o convite. Rayle ia fazer o pré-wedding deles uma semana antes do casamento. Estava tudo planejadinho e estavam todos ansiosos.
Abby estava sim adorando a vida no mar, porém, entretanto, todavia, a saudade de Robert era gigante. Uma noite, Sara ouviu ela chorando no quarto e foi até lá.
— Hey…- Abby não disfarçou as lágrimas, pois não precisava tentar esconder nada de Sara. — Quer conversar?
Abby se sentou fungando e secando o nariz.
— Acho que não.
Sara respeitou isso e só foi até ela para abraçá-la. A aninhou em seu colo e acariciou seus cabelos loiros.
— Vai ficar tudo bem, logo vai poder vê-lo.
Abby chorou um pouquinho em silêncio no colo da mãe e revelou uma coisa. Queria compartilhar isso com alguém.
— Ele disse que escreveu cartas pra mim, mesmo sabendo que não tinha como enviar. Senti uma vontade tão grande de abraçar ele na hora.
Sara sorriu.
— Ele é um amor. Fico feliz que tenha encontrado alguém assim.
Nesse momento, Gil bateu na porta e colocou só a cabeça pra dentro.
— Hey, minhas jóias… Vocês precisam ver isso.
Sara e Abby se entreolharam e em seguida o seguiram.
A linda noite enluarada era apenas um detalhe a mais sobre as águas comparada àquele show de luzes.
Águas vivas estavam na superfície iluminando a água com um brilho quase cintilante. À noite era quase impossível não vê-las.
— Que lindo…- Abby admirou embasbacada.
— Um espetáculo aos olhos, não acha?- Grissom falou.
Ficaram observando — abraçados, pois estava frio — até elas sumirem. Nada melhor do que contemplar uma beleza daquela em silêncio. Abby sentiu um conforto no coração ao apreciar aquela vista com Gil e Sara ali com ela, sem dizerem nada, apenas lhe fazendo companhia e lhe dando apoio, tentando fazer com que ela se sentisse melhor.
— Eu amo vocês…- ela externou, inesperadamente.
Grissom e Sara sorriram e deram um beijo na lateral da testa dela, um de cada lado, e aquele momento foi eternizado.
~ ♥ ~
O aniversário de dois anos de Warrick chegou num domingo de inverno no pacífico sul. Seus pais fizeram um bolinho simples pra ele no barco mesmo e ele adorou se lambuzar inteiro com o chantili.
Ricky já se fazia entender melhor, já sabia falar e se comunicar bem. Dizia ‘obrigado’ e ‘por favor’ quase sempre, e continuava super esperto. Seus pais o ensinavam em casa, os números, as cores, as letras, sempre o incentivavam a aprender. Ricky "se gabava" por já saber qual animal do mar era qual depois que recebeu um livrinho de presente onde continha não só os animais do mar, como os da terra e do ar também. Abby que havia dado o livrinho pra ele, e ele falava pra todo mundo “minha imã qui deu pla mim”.
— Foi a Abby que deu?- Sara perguntou só pra ouvi-lo repetir.
— “Xim, ela me deu ichu”.
— E como é que fala pra ela?
— “Bligadu, Abby, de nada”.
Sara riu com o fato dele agradecer e responder ao mesmo tempo. Morria de amores com aquele menino. Outro dia ele cismou que sabia fazer mágica.
Em uma de suas paradas por terra, Gil e Sara os levavam até um show de mágica que estava tendo, pra distraí-los um pouquinho. Warrick disse que sabia fazer a mesma coisa que o mágico fez.
Quando voltaram pro barco, Sara cortou alguns pedacinhos de maçã pra ele e colocou num potinho com algumas uvas sem semente pra ele comer. Ele pegou o potinho, colocou seu paninho por cima e disse que ia fazer mágica.
Sara logo pegou o celular pra filmar.
— Vai fazer sumir, filho?
— "Xim!"- ele deu um sorriso lindo com os dentinhos pequenos já todos na boca.
— Então vamos lá, quero ver.- ela incentivou já com a gravação ativada.
Ricky chacoalhou a mãozinha por cima do paninho e imitou — ou tentou imitar — as palavras mágicas que aprendeu.
— " Sinsabin sinsabin".- ele então pegou o potinho tampado com o pano e "escondeu" no colo. — "Tarãã!"
Sara quis rir, mas se conteve. Puxou o ar fingindo surpresa.
— Nossa! Sumiu mesmo!- ele sorriu. — Faz aparecer, amor.
— "Hmm, naum"- ele fez carinha de travesso. — " Pufavô".
Sara fez o que ele pediu e sorriu.
— Por favor, faz aparecer.
Ricky colocou o potinho de volta na cama e disse as mesmas palavras mágicas tirando o pano de cima, mostrando novamente as frutas como se elas realmente tivessem sumido e voltado.
— "Tarãã!".
— Uaau!- ela então parou de gravar. — Você é muito bom!
Ele sorriu pegando uma uva pra comer e Sara quis apertar de tanta fofura. Lhe deu vários beijinhos enquanto ele ria.
— Lindo da mamãe! Vou mostrar pra dinda sua mágica.
— "Dinda va ví?"
— Não, ela não vai vir, mas a gente vai ver ela logo, logo.- e lhe deu mais um beijo.
~ ♥ ~
Dois meses depois do aniversário de Warrick, eles partiram de volta pra Las Vegas. Era fim do verão de agosto e eles iam cinco dias antes do casamento, pois a despedida de solteira de Morgan/Chá de Cozinha seria dois dias antes do casamento. Decidiram fazer de última hora e Sara quis estar presente.
Rayle, Rebecca e Amy também foram convidadas, então, quando a família Grissom chegou em casa, as três estavam lá para recebê-los. Chegaram bem no dia do “evento”, pela manhã, pois o caminho foi longo, como sempre.
— "Puquê naum póchu í?"- o pequeno perguntou com a voz chorosa quando viu que as cinco iam sair.
— Porque é uma festa só pra mulheres, meu amor.
— E podem ter brincadeiras que podem ser meio constrangedoras pra gente se homens estiverem junto.- Rayle completou.
— Que tipo de brincadeiras?- dessa fez foi Grissom quem ficou curioso.
— Tipo tirar a roupa, Gil.- Sara respondeu. — Você gostaria que outros homens me vissem como só você vê?
— Minha nossa, claro que não.- Sara sorriu com a resposta do marido. — Filho, é melhor você ficar aqui com o papai mesmo. Seus tios vão vir pra cá também, a gente vai brincar bastante, tabom?
— Tá...- ele respondeu desanimado.
— A mamãe vai trazer bolo pra você tá, meu príncipe? Prometo.- o pequeno sorriu e pulou no colo da mãe. — Agora dá um beijo na mamãe que a gente já vai.
Ricky fez o que a mãe pediu com vontade e abraçou seu pescoço.
— Ah, eu também quero!- Abby exclamou fazendo aquela miniatura de Sara descer do colo da mesma apressadamente pra ir lhe dar um beijo.
— Eu levo vocês lá.
— Não, eu levo o carro, não precisa.
— Sara, eu tenho certeza que você vai beber lá, eu levo e busco vocês sem problemas.
— Credo, Grissom! Do jeito que falou até parece que eu vou encher a cara e não vou ser capaz de voltar pra casa sozinha! Está maluco?!
Grissom e as meninas deram risada por conta do que a morena disse.
— Eu vou levar vocês, teimosa!
Sara suspirou com os olhos quase revirados e eles partiram pra casa de Morgan.
Eles ainda não estavam morando juntos, iam deixar pra ver isso depois do casamento e da lua de mel, que Catherine deu de presente. Ela era madrinha de Morgan ao lado de Russell e, Sara e Grissom eram os de Greg.
Iam se reunir na "festinha" Morgan, a mãe dela, Sara, Abby, Rayle, Rebecca, Amy, Catherine, Lindsay, Helena, Maria, Lilly, Mandy e Donna.
Se divertiram muito e resolveram não encher a cara pra não influenciar as crianças, mas foi um pouquinho inevitável. Honraram Finlay virando uns dois xotes de tequila e poucas latinhas de cerveja. As crianças e adolescentes souberam que as adultas estavam levemente embriagadas quando tiveram a ideia de colocar um véu em Morgan, pintar um de seus dentes de preto pra fingir que ela era banguela e sair na rua gritando "A Morgan vai casar! A Morgan vai casar! A Morgan vai casar!"
Resultado: Alguns moradores saíram pra ver a baderna, um senhor chamou Morgan pra dar os parabéns e brincou "sua banguelisse é de mentira, mas a minha é de verdade" e tirou a dentadura.
As quatorze mulheres e meninas riram a noite inteira e às cinco da família Grissom tiveram que contar isso para o anfitrião assim que ele foi buscá-las.
— E vocês achando que tinham condições de voltar pra casa sozinhas.- ele riu. — Não vão fazer isso no casamento, né?
— Não nos subestime.- disse Rayle, que estava passando mal porque não era de beber, e bebeu.
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