Love Story
4 Manhãs Amaldiçoadas
Notas iniciais
PS:O link da música é:http://www.youtube.com/watch?v=rIVFcsO_ywQ
leiam, e, como eu disse, COMENTEM!!!!
7:02A.M.; QUARTO DA MAGALI.
Acordei quando o sol ainda estava altíssimo no céu límpido. – nasci com a maldição que parece afetar todas as mulheres da família; não consigo dormir até tarde nem mesmo nos dias em que mais preciso.Minha cabeça, apenas para piorar toda a situação, latejava. É, parece que dois copos de cerveja já são o bastante para me deixar de ressaca.
Um vento gélido e invernal veio da janela e espalhou vários papeis que pousavam sem importância em minha escrivaninha. – e isto piorou a situação de zona total em que meu quarto estava. Precisei de muita força de vontade para levantar e ir fechar tudo. Pude sentir um leve frescor de manhã antes que fechasse a janela, e logo em seguida, as cortinas.
Eu quero ficar perto
De tudo o que acho certo
Até o dia em que eu mudar de opinião
Estamos quase entrando de férias e, obviamente, Mônica – que ainda está brava comigo – deve estar dormindo. Assim como meus outros amigos – e noivo – Cascão e Cebola. Pessoalzinho de sorte não afetado por maldições de família.
Sentindo-me mais sozinha do que nunca, fui até o banheiro fazer as coisas banais que sempre faço – escovar os dentes, lavar a cara, arrumar o cabelo e tomar um maldito comprimido pra dor de cabeça. Pois é. Tomo tantos que já nem ao menos preciso mais de água para engolir.
A minha experiência
Meu pacto com a ciência
Meu conhecimento é minha distração
Ao voltar para o quarto – que parecia ter sido uma área de combate há pouco tempo atrás – resolvi que, já que não tenho coisa melhor para fazer, começar a arrumar uma coisinha ou outra não vai doer – bem, não muito.
Apanhei os papeis que voaram com a jorrada de vento mais cedo, me deparando com algumas coisas sem importância que com toda a certeza iriam pro lixo. Os últimos eram os bilhetes que todos os meus amigos escreveram para mim em maio, época de meu aniversário. Os mais bonitos, enfeitados e carinhosos eram – que surpresa – da Mônica e do Joaquim. Não resisti a sorrir afetivamente para os papeis – mesmo que estivesse um pouco brava com o Joaquim por me passar por tudo aquilo ontem, e nem ao menos ligar para dar uma satisfação.
Coisas que eu sei
Eu adivinho sem ninguém ter me contado
Cheirava uma bermuda branca – para ver se estava suja ou limpa – quando, sem nem ao menos bater, minha mãe entrou no quarto, fazendo-me sobressaltar. Ela pareceu bastante surpresa a me ver arrumando o quarto, já que isso não costuma estar na minha lista de prioridades – que, obviamente, tem como primeiros cinco números ‘comer’.
- Bom dia! – disse ela, completamente animada. Limitei-me a dizer um ‘oi’ bem sem sal e morto. – E então? Você chegou tão tarde e acabada ontem a noite que nem falei com direito. Como foi a festa?
Coisas que eu sei
O meu rádio relógio mostra o tempo errado
Aperte o play
- Foi bastante legal – ‘fora à parte da minha melhor amiga está fula comigo até agora’ ainda acrescentei em pensamento. Achei estranho ela perguntar. Minha mãe não gosta de saber especialmente das minhas festas. Por motivos bem claros. – Por que pergunta?
- É que soube que o Joaquim adoeceu e não pode ir. – disse ela, envergonhada. Dei de ombros. – Quem casou com você, Magaloca?
Eu gosto do meu quarto
Do meu desarrumado
Ninguém sabe mexer na minha confusão
Magaloca. Uma vez passei vergonha graças a esse nomezinho que meus pais me chamam desde que, sei lá, tenho uns oito meses. Eu sinceramente odeio ser tratada como bebê, mesmo sendo filha única. Mas eu respeito à dificuldade deles em ver que a única filha está crescendo e já tem dezesseis anos feitos. Respirei fundo.
- Bom, foi o Cebola. – esclareci, voltando a arrumar meu quarto. Ela passou a me ajudar também. Ela esbugalhou os olhos com a notícia.
É o meu ponto de vista
Não aceito turistas
Meu mundo tá fechado pra visitação
- Nossa! E a Mônica, como reagiu a isso tudo? – perguntou ela. Maldito dia em que contei todas essas coisas pra mamãe. Eu era muito ingênua. Até achava Magaloca o melhor apelido do mundo.
- Ah, ela me odeia. Fora isso, ela reagiu super bem! – abri um sorriso imenso e sarcástico. – Obrigada por perguntar.
Coisas que eu sei
O medo mora perto das idéias loucas
- Oh. Você vai tentar falar com ela? – perguntou, preocupada. Mamãe sempre adorou essa amizade duradoura e ‘saudável’ que tenho com a Mônica; afirmei com a cabeça em resposta. Ela, mais aliviada, tentou mudar de assunto. – Olha, amorzinho, o que você acha de ir na padaria comprar pra mim um pouco de açúcar? Deixe que termino de arruma o seu quarto.
Não virei meu rosto para ela – talvez ela visse minha expressão assassina. O ruim é que, aparentemente, acordei de mau-humor com apelidos. Contei até dez e recuperei o controle.
Coisas que eu sei
Se eu for eu vou assim não vou trocar de roupa
É minha Lei
- É para fazer um bolo. Ah, e mais um dúzia de pães. – disse ela. Procurou as notas no bolso e me entregou. – E um docinho qualquer para você, Magaloca. – e piscou. Senti o diminutivo forçado, não gostei. Mas precisei perdoar. Ela estava me entregando um bolo, um doce a minha escolha e o Joaquim em uma única manhã. Era o meu dia de sorte!
Vesti a bermuda branca que cheirava mais cedo – chegando à conclusão que estava límpida – e minha bata predileta amarela. Eu sei que já usei de mais, e todos estão cansados de me ver com ela, mas eu a adoro. É linda e confortável.Então, pegando o dinheiro com a mamãe e calçando os chinelos, desci pelas escadas, dizendo adeus para os meus pais – incrível como ele acorda cedo até em dia de sábado. Eu e a mamãe somos vitimas de maldição, mas ele não tem nada que o empeça de dormir.
Eu corto os meus dobrados
Acerto os meus pecados
Ninguém pergunta mais depois que eu já paguei
Ao passar pela porta, a tranquei com a minha chave e guardei no bolso. O caminho até a padaria é curto, e gostaria que fosse um pouco mais longe. Gosto de sentir o vento no rosto – mesmo que bagunce toda a minha franja – e cheiro fresco e gélido de manhã de inverno. E também adoro andar, mesmo que a rua esteja toda molhada pela chuva que ocorreu hoje.
E, depois, também amo ir à padaria. Porque o meu amor – a quem eu vou dar uma bronca por ontem – sempre me dar os doces mais gostos e os pães mais frescos. Além dos sacos de açúcar mais novos e cristalinos.
Eu vejo filme em pausas
Eu imagino casas
Depois eu já nem lembro do que eu desenhei
Chegando lá, Joaquim não estava atrás do balcão, e sim varrendo calmamente o chão da Padaria Portuguesa. Ele pareceu muito bem de saúde, e me recebeu com um selinho bem caloroso nos lábios. Após abrir os olhos com um sorriso imenso – me esqueci completamente que estava com raiva dele. Que coisa, não é? – reparei em uma coisa bem desagradável.
Irene, a loira de farmácia que vive infernizando a vida da Mônica e do Cê – e péssima em inglês, acrescento – estava sentada na mesma mais perto do balcão. A minha mesa preferida. A que eu sempre sento pra namorar o Joaquim. Ela me olhou superiormente e me mandou um sorrisinho cínico. Raiva.
Coisas que eu sei
não guardo mais agendas no meu celular
- Uma dúzia de pães e um quilo de açúcar, por favor. – pedi, ignorando a vegetal pálida e magrela ali do lado. Observei os doces suculentos na vitrine. – Ah, e um rocambole de chocolate com muita, mais muita calda de caramelo.
Ouvi uma risadinha nasalada e irritante vinda da esquelética que estava sentada na minha mesa e comendo um pão integral com queijo branco e alface. Além, pela cor, um café desnatado. É. De comida, eu entendo.
Coisas que eu sei
Eu compro aparelhos que eu não sei usar
Eu já comprei
- E ela ainda se diz de dieta. – ainda riu-se. Ah, essa oxigenada está pedindo para levar. – Fofa, comendo isso tudo ai você vai virar uma baleia.
Olhei para meu namorado que pegava o rocambole. Vi sua boca se contorcendo em algo que parecia um riso. Ele estava tentando segurar um riso. O meu namorado estava quase rindo de mim. Instantaneamente, me lembrei de tudo o que ele fez no dia anterior com o negócio todo da peça.
Ás vezes dá preguiça
Na areia movediça
Quanto mais eu mexo mais afundo em mim
- Bom, queridinha, tenho o corpo que você nunca teve comendo tudo isso aqui. – disse a ela, assim que Quinzo pôs o rocambole em minhas mãos. – E se eu fosse você se ligava. A raiz da aparecendo, é melhor pintar o cabelo de novo, sua... – pensei no pior xingamento para Irene. A coisa que mais iria irritá-la. – Sua gorda.
Os dois presentes ali ficaram boquiabertos. Nunca fiz o tipo de garota esquentada que sai fuzilando todos com um coelhinho de pelúcia. Esse sempre foi o tipo de garota que a Mônica é, e não o meu. Eu sou a meiga que leva todos os desaforos pra casa. Mas hoje, aparentemente, não é meu dia.
Eu moro num cenário
Do lado imaginário
Eu entro e saio sempre quando tô afim
- Ah, e Joaquim – disse a ele, tentando segurar as lagrimas. – imagino agora o motivo da sua “gripe misteriosa” e não poder ir dançar não é?
Meu namorado – ou seria ex? Eu terminei com ele? – ficou embasbacado. Ele começou a dizer alguma coisa, mas eu já estava correndo em direção a porta e a atravessei num jorro de adrenalina.
Coisas que eu sei
As noites ficam claras no raiar do dia
Coisas que eu sei
São coisas que antes eu somente não sabia
Continuei correndo e chorando com todas aquelas sacolas nos braços, e cheguei à conclusão que estava parecendo uma estúpida. Passava pelo campinho neste momento, e lembrei-me de todos os momentos legais de brincadeira que tive com meus amigos. Comecei a sentir uma profunda nostalgia, e fui caminhando lentamente até um banco de cimento que dava para ver toda a vista do bairro – parecia o lugar perfeito para comer meu rocambole.
Minhas lagrimas já estavam secas, e dei a primeira dentada no doce – o que me fez lembrar que Joaquim sempre me dava as melhores coisas, o que quase provocou outra seção de histeria. Mas me segurei. Aquele canalha – quem me garante? Ele e aquela Irene Loira de Farmácia estavam próximos de mais – não, aquilo não merece uma lagrima minha.
Coisas que eu sei
As noites ficam claras no raiar do dia
Coisas que eu sei
São coisas que antes eu somente não sabia
Senti uma mão forte e quente pousar no meu ombro. Sobressaltei de susto, o que fez um pouco da calda de caramelo escorrer e pingar em minha coxa. Apostei no cretino do Joaquim.
Agora eu sei
E essa sorte toda se devia apenas ao grau delicioso que tinha a minha vida.
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