Capítulo 4 –

Rui estava deitado no colchão, balançando os pés. Kiyoshi fumava na janela observando as luzes da cidade. Tudo era iluminado à luz de velas.

Yumi adentrou o recinto como um foguete.

- Benzinho! – disse Kiyoshi espantado e Rui acordou de seu torpor. Deixamos pizza para você. E dessa vez, é de hoje.

- Obrigada, mas eu já comi. – Yumi jogou no colchão um bolo de dinheiro.

- O que é isso? – perguntou Rui, segurando um maço de notas de cem dólares. – É mais do que jamais conseguimos em... incontáveis noites de trabalho! O que... o que diabos você fez, Yumi?

- Eu na hora nem vi que eram em dólares, só quando fui pagar meu lanche. Eu juro que gritei quando peguei uma nota de cem. A caixa do McDonalds quase pediu para que eu me retirasse.

- Benzinho... Como conseguiu todo esse dinheiro?

- Eu também consegui um cigarro. – disse Yumi, segurando-o com afeição. – Acho que vou guardá-lo para me lembrar dessa noite. Se eu contar o que aconteceu, vocês não acreditariam.

- Estamos esperando – disse Kiyoshi, solene, encarando-a com aqueles olhos azuis.

- Eu estava tocando na praça há horas e só havia conseguido algumas moedas. De repente, um estranho aleatório aparece e joga um bolo de dinheiro pra mim. E juro, ele não era nada mau. Era até mais bonito que você, Kyo. As luzes fluorescentes não estavam muito boas, então não deu pra ver o rosto dele direito, mas ele era lindo, incrivelmente lindo. Acho que era meu Anjo da Guarda. Nunca imaginei que meu Anjo fumasse.

- Eu disse que cigarros são do bem. – disse Kyo, dando uma tragada e soltando uma fumaça.

- O importante é que agora podemos pagar o aluguel, a luz, a água! E pelo jeito vocês conseguiram algo também?

- Sim. – disse Kyo. – Nosso emprego de volta. No Kinky’s. Não precisa dizer que me ama. Nossos fãs, sim, temos fãs, estavam perguntando por nós. E eu fiz isso por você, Yumi. Charlie pagou metade do fim do mês adiantado. Eu expliquei que nossa situação era de penúria. E parece que ele gosta de você...

- Parece que ele gosta é de você, Kyo. – disse Rui.

- Isso não tem importância. Agora temos dinheiro, benzinho. Podemos pensar em gravar nosso próprio álbum.

Yumi ficou pensativa.

- Talvez... Sabe que meu Anjo pediu que eu cantasse uma de minhas composições? Eu não ia, juro que não ia. Mas ele insistiu. Ele disse que se gostasse pagaria. E aí está esse bolo de notas cem dólares que eu nem tive coragem de contar...

- Seja lá quem ele for, não era um anjo, era Deus. –disse Kyo e Rui gargalhou.

- Eu juro, Kyo. Ele era loiro e tinha aqueles olhos dourados...

- Hm. – disse Kyo, num tom neutro. – Não me diga que vai se apaixonar pelo seu cafetão?

Yumi riu.

- Eu duvido muito que um dia vá me apaixonar, Kyo... Se nem você conseguiu roubar meu coração. – ela disse, dando-lhe um beijinho na bochecha.

***

No quarto de Yumi havia prateleiras lotadas de livros. Eram tantos livros que alguns estavam até dentro de caixas pelo chão. O notebook rosa ficava em cima de uma escrivaninha branca. A cama era simples, de madeira.

Yumi se deitou na cama e apagou a vela. Amanhã poderia ligar seu notebook e escrever mais algumas músicas. A partir de agora, só cantaria as composições da banda. E se Kyo fosse realmente a favor, ela seria a vocalista.