Love, Lies And Smiles.
20 Capítulo 20
Notas iniciais
O futuro inesperado.
Dois anos atrás.
Era pouco o calor no interior daquele táxi, embora fosse o suficiente para aliviar um pouco o frio que fazia. Ele permanecia atento enquanto o táxi percorria as ruas londrinas a procura de seu destino, frequentemente ele olhava a hora, praticamente de minuto a minuto e volta e meia observava por longos segundos a rua pelo para-brisa traseiro a procura de algo que o motorista não conseguira descobrir. Não foi difícil nem demorada a viagem, logo ele estava saltando do veículo após pagar a corrida. Do lado de fora a neve continuava, embora em um volume menor, já o frio permanecia o mesmo enquanto ele apertava o cachecol em seu pescoço. Observou um pouco o lugar onde estava, uma praça grande e larga com um laguinho praticamente congelado ao centro, mas atrás já no fim da praça começava uma longa calçada que levava até um grande salão, um prédio grande e belo de arquitetura antiga praticamente vencida pela neve, que se acumulava onde podia.
Com certa ansiedade ele tornou a andar, conferiu mais uma vez o relógio que marcava exatas 17:00, seguindo para um canto mais vazio da praça ele passou a mão pelos cabelos que brilhavam graças a neve derretida. Ele não tinha certeza de suas ações, não sabia se era o certo. Seu cérebro parecia ter cedido completamente as vontades em seu peito, o senso lhe fugiu, todas as suas convicções e certezas simplesmente se calaram. Ele precisava, ele queria mais que tudo vê-la. Não bastava as checagens que Shion fornecia, não bastava a palavra da garota de que Hinata estava bem. Ele tinha que ver com seus próprios olhos que o seu bem mais precioso e no momento cada vez mais distante de sua posse estava são e salvo. Longe de suas loucuras e planos audaciosos que embora se concretizados fossem garantir a segurança dela, ao mesmo tempo plantavam nela a mais pura raiva. E era essa raiva o medo dele, sucumbiu ao desejo de comprovar, de deixar que por alguns segundos Hinata pensasse vê-lo, precisava encarar aqueles olhos outra vez, espiar um pouco o que se passava no fundo de sua alma, mesmo que tal contato significasse o provável surgimento de uma cena da qual ele não poderia fugir. E ele sabia naquele momento que se tal cena realmente surgisse, ele não teria como esconder, não conseguiria fugir. Isso significaria trazê-la para tudo isso.
O insistente vibrar de seu celular indicava que seu celular tocava outra vez. Ele recusou mais uma vez a chamada e em seguida retornou uma resposta a Sasuke em forma de mensagem. “Estou bem, já disse. Logo estarei de volta.” Era assim desde que deixaram o Japão, tinham combinado de manter um ao outro atualizado a cada hora quando estivessem separados, essa era a forma de saber que estavam vivos. Somente após um curto período de distração o tempo andou. O relógio marcava 17:38 quando as portas do salão se abriram e uma revoada de gente apressada apareceu. Não demorou até a praça estar recheada de pessoas que discutiam coisas sobre a palestra que acabara a poucos minutos, claramente animados. Ele não tinha interesse em nada do que falavam, seus olhos procuravam nervosos e ansiosos por ela, esquadrinhavam quadra metro apinhado por gente, até acha-la. Ela estava diferente, o cabelo estava curto e repicado, o modo se vestir também mudou, assim como a maioria das garotas naquele lugar, estava mais Inglês, mais Londrino. Só que além disso tudo ela estava estonteantemente bela. Tão bela quanto seus pensamentos fantasiavam...
Ele procurou um novo ângulo próximo as árvores, um local que fosse fácil para um breve contato visual e também de fuga mais fácil. E ele continuou a observá-la nesse tempo, aparentava estar feliz, ria e gesticulava ao lado de garotas ao qual ele não conhecia, provavelmente colegas de turma. Discutia empolgada com um brilho nos olhos um assunto o qual ele não conseguiria ouvir. O momento veio quando ela se aproximou à beira da rua a procura de um táxi livre, o momento veio quando ela olhou para um lado e seus olhos esquadrinharam as árvores com curiosidade quanto a pessoa parcialmente oculta entre elas. E por um momento aquela breve conexão com aqueles olhos tão conhecidos veio, de uma forma tão breve e inesperada que ela ficou desnorteada. Ele se virou brevemente, aqueles poucos segundos foram suficientes para ele. Ajeitando o sobretudo grosso ele adiantou o passo dando as costas a ela.
– Naru –
Ela parou antes de completar o nome. Não poderia ser ele, não havia como ser ele. Como poderia do nada ele reaparecer após um ano apenas para observá-la por de trás de árvores? Era apenas uma ilusão, uma peça sem graça que seu coração acabou de pregar-lhe. Peça essa capaz de levar lágrimas instantâneas a seus olhos fazendo seu coração vacilar e sua mente esquecer de toda a recente alegria. Estava viajando outra vez por aqueles meses que ela tenta tanto esquecer.
Ele continuou, sabia que ela não viria. Sabia que ela pensaria ter visto coisas, passou outra vez a mão pelos cabelos, agora de fios tão negros como os de Sasuke. Ele sabia que apenas esse simples detalhe seria suficiente para mantê-la longe de perseguir um possível fantasma. Uma imagem que ela pensaria ser apenas uma ilusão. Aqueles poucos segundos foram suficientes para trazer toda a sua lucidez de volta, para mostra-lo o quão estúpida e egoísta fora essa ação. Estava tudo lá, os dias de manhãs solitárias, tardes e noites atarefadas e as vezes um pouco agitadas para logo após uma madruga de pouco sono imersa em lágrimas e tristeza. Ele tentava segurar em os próprios sentimentos enquanto virava a próxima rua, queria se afastar o máximo possível antes de entrar em um táxi. Fora idiota demais, quase pôs tudo a perder. Que direito tinha ele de voltar? Que direito tinha ele de apenas desejar mesmo que por um breve momento a companhia dela quando foi ele mesmo que a renunciou deixando para ela apenas uma mentira? Ele a destruiu aos poucos, dia a dia enquanto os contatos diminuíam, enquanto ele apagava todos os traços da própria existência. Ele tirou tudo dela enquanto se agarrava cegamente ao pensamento de que estava a protegendo quando ele sabia que ela preferiria qualquer que fosse o perigo desde que pudesse estar com ele.
Mas isso foi a um ano, a doze meses atrás, ele não podia mais voltar. Podia ver que a universidade e as novas amizades a mantinham de pé, Hinata não era uma pessoa de fingir sorrisos, se o seu estado atual fosse tão ruim ela provavelmente nem mesmo estaria naquela palestra. Ela estava diferente, visual novo, parecia outra pessoa se comparada aquela estudante de ensino médio meiga e tímida que ele conhecera. Ela estava feliz, ela se acostumaria a essa vida. Ele precisava acreditar nisso, ele dependia disso.
Dia atual.
O sol invadiu a janela de forma tímida, os fracos raios avermelhados que escapavam pelas grossas nuvens quase não conseguiam transmitir calor algum. Mas foram suficientes para tirá-lo daquele sonho. Era outra vez sua memória pregando-lhe uma peça, trazendo uma memória na forma do mais nítido sonho. Apenas para puni-lo. Para deixar seus erros frescos em sua mente. Ele levantou sonolento, ainda vestia praticamente a mesma roupa do dia anterior com a exceção do terno que estava sobre uma poltrona no canto do quarto e os sapatos jogados ao lado da cama. Olhando ao redor um tanto que perdido viu uma mala grande aos pés da cama. A abriu curioso e sentiu uma grata surpresa ao ver que eram roupas suas, provavelmente retiradas de sua casa por Konohamaru. Pegando a mesma ele seguiu para o banheiro da suíte, lavou o rosto, escovou os dentes e trocou de roupa, colocou a calça e o casaco mais quentes que encontrou e seguiu para fora do cômodo com receio de quem veria e ao chegar na cozinha se sentiu timidamente grato por ser Konohamaru a estar acordado.
– Ora, não foi apenas eu a levantar cedo.
Naruto não respondeu, apenas passou a mão na cabeça do garoto enquanto seguia em direção a cafeteira. Somente após encher a caneca com café ele dirigiu a palavra para Konohamaru.
– Que eu saiba você geralmente dorme igual uma pedra...
– Noite difícil, Hanabi também quase não dormiu, dormimos umas duas horas, perdemos o sono, ela conseguiu cochilar agora.
– É difícil não é?
– Aceitar que finalmente acabou? É... Parece que a qualquer momento eu vou acordar e perceber que é apenas um sonho. Depois de tudo eu achei que não teria um fim. Perdi as contas de quantas noites passei em claro imaginando todas as possíveis formas de Madara fugir e voltar ainda mais forte.
– É... Cansei de discutir isso com Sasuke... E por falar nele, onde está?
– Bom, pelo tempo que tem a última ligação dele, deve estar chegando em New York amanhã. Jiraya e Sakura virão com ele... Naruto.
– Hum?
– Como foi?
Não ouve uma resposta imediata, talvez pelo fato de Naruto ter tomado um longo gole de café ou pelo fato de logo em seguida ver um pé feminino mal escondido no corredor que ele logo reconheceu sendo de Hinata, ele apontou a varanda com a cabeça para Konohamaru fazendo-o seguir, queria que ela soubesse que já a notara, queria que ela decidisse se escutaria ou não o que ele diria a Konohamaru. Uma vez na varanda o frio mostrou-se muito mais severo, embora felizmente não houvesse vento a temperatura estava baixo o suficiente para tornar sua respiração perceptível em pequenas nuvens de vapor.
– Eu sempre soube que terminaria assim. No fundo esse pensamento sempre esteve na minha cabeça, eu sabia que se conseguisse destruir tudo, se conseguisse tirar tudo dele... Eu sabia que ele viria atrás de qualquer pequena vingança, ou então da maior forma de me ferir, e eu sabia que ele focaria Hinata uma hora ou outra. Eu queria mantê-la fora disso, longe dele. Ás vezes eu duvido que Madara se quer era humano... Eu quero saber de Hinata se ela o viu, se ela lembra, mas não sei como perguntar. Você sabe como é, ficar frente a frente com ele é ver toda a loucura e crueldade que toda a humanidade pode ter reunidas em uma única pessoa. Aquele olhar, aquele brilho sádico nos olhos... Depois de deixar Hinata nas mãos da Shion eu fui atrás dele, sabia que ele iria me esperar. Hinata estar viva era um sinal disso. Ele poderia tê-la matado, mas ele sabe que dessa forma eu perderia o medo de encará-lo, afinal ele tiraria de mim a única coisa que me mantêm preso a essa vida. Ele queria ver o medo em mim, queria ver como eu venceria isso para ficar frente a frente com ele...
Aos poucos, dando breves pausar para beber o café ele contou para Konohamaru o que se passou naquele quarto mofado, descreveu com detalhes a conversa com Madara, tudo que encerrou aquele dia. Eles não perceberam quanto tempo ficaram na varanda conversando já que o sol voltou a se esconder por trás das nuvens. Ambos só voltaram para o interior da casa quando o frio começou a impedi-los de sentir as pontas dos dedos e o nariz, olhando no relógio preso a parede da cozinha já era quase oito da manhã, Konohamaru seguiu para seu quarto a fim de ver se Hanabi ainda dormia e acabou por deixar Naruto a sós com Hinata que estava sentada e debruçada sobre o balcão da cozinha enquanto encarava a caneca de café. Ela mal percebeu Naruto, estava presa em pensamentos, ele colocou a própria caneca na pia, pegou a de Hinata para jogar o café frio fora, colocou mais café quente e colocou a caneca no mesmo lugar chamando enfim a atenção dela que disse um surpreso “Obrigado” ao ver que seu café fumegava outra vez. Ele voltou sua atenção para a pia ficando de costas para ela.
– Naruto...
– Hum.
– Era você não era? – ele a olhou brevemente sem entender – Dois anos atrás. Após uma palestra que tive em Londres. Era você não?
Fez se silêncio por breves minutos até que ele virou-se, sentou na cadeira frente a ela e encarou o teto pensativo.
– Eu e Sasuke tínhamos acabado de conhecer Shion se não me engano, ainda não confiávamos totalmente nela... Quero dizer mal tínhamos entrado na Akatsuki e do nada me vem ela, foi muito bom para ser verdade... Mas ela acabou se mostrando de confiança, me garantindo inclusive que você estava segura já que eu não conseguia ficar de olho em você para ter certeza. Eu estava hesitante depois de termos finalmente entrado em uma boa posição na organização, pensava que era apenas uma questão de tempo para Madara pegar você e eu quase surtei com isso...
Ele parou, pegou mais café para ele enquanto ela bebia o dela e o observava atenta, os olhos impassíveis. Ele voltou a sentar e começou a encara-la uma vez ou outra, alternando o olhar dela com o teto da cozinha, e logo ele narrou aquela lembrança, exatamente como ela foi mostrada no sonho que teve mais cedo. Ele não tornou a cruzar o olhar com ela enquanto falava, mas podia sentir que o olhar dela penetraria sua pele se ela o olhasse com um pouco mais de intensidade.
– Por que você parou? Por que não falou comigo Naruto? Por que não contou tudo?
As perguntas voltaram e ele hesitou por um momento em responde-las outra vez. Não queria tornar a repetir as mesmas respostas toda vez que ela insistisse pela verdade.
– Hinata, sabe por que Madara não foi atrás de você antes? – ela negou com a cabeça – Por que ele achava que você não era relevante na minha vida, por que foi assim que eu quis. Era para ser assim! Você entrou na minha vida rapidamente e ficou por pouco tempo, apagar completamente minha presença e praticamente esquecer a sua foi o que te manteve a salvo. Você era a única pessoa a minha volta que não tinha sido claramente afetada pelo passado da minha família, naquela época eu pensava assim já que não sabia a verdade sobre sua mãe. Eu e Sasuke crescemos cheios de problemas que só foram amenizados graças a Jiraya, Sakura levou anos para conseguir conviver conosco... Ino, Gaara... Todo mundo a minha volta perdeu algo, sofreu algo. Eu pensei que te salvar de Hiashi era o suficiente, pensei que jogar você em uma nova vida, em um lugar onde você poderia esquecer tudo e ser alguém diferente, te manteria a salvo, presa a uma vida feliz, uma boa faculdade, um bom emprego. Eu sempre disse para mim mesmo que com o tempo você estaria feliz, você iria me esquecer, me apagar da sua mente e constituir uma família! Eu não quis te contar, eu nunca quis. Mesmo que isso significasse manter você no escuro em caso de perigo. É puro egoísmo eu sei, mas amar também é ser egoísta. Você quer tanto o bem da pessoa que se torna egoísta.
– Você sabia o que significava para mim!
– Sim! – disse ele em um tom mais forte – Eu sabia, eu sempre soube, todos os dias, todas as horas! Mas você não fazia parte disso Hinata! Madara nem mesmo cogitava sua família como relevante, eu não tinha o direito de te arrastar para tudo isso! Você consegue entender isso? Você pode imaginar quantas vezes eu me peguei quase embarcando para a Inglaterra para ir até você e te dizer a verdade? Você tem ideia de quantas vezes eu cogitei estragar tudo para poder apenas olhar você como fiz a dois anos atrás? A minha intenção nunca foi machucar você! Eu só queria você fora! Fora do perigo da verdade, eu queria que você me esquecesse, que arrumasse um namorado não problemático como eu, que noivasse, cassasse e fosse feliz!
– E por que você nunca cogitou que eu poderia fazer isso com você quando tudo terminasse?
– Por que eu não achei que sairia vivo! – ele quase gritou – Você entende agora? Você provavelmente viu, provavelmente foi ele em pessoa quem machucou você! Você escutou o que eu conversei com Konohamaru na varanda não? – ela concordou com a cabeça – Eu sempre imaginei uma cena como aquela, mas em nenhuma delas foi eu a sair com vida. Eu nunca imaginei que ele simplesmente terminaria daquela forma. Para mim Madara era um monstro que nunca me daria o prazer de morrer, essa é a verdade, eu NUNCA vi um futuro para mim depois que entrasse na Akatsuki e desse início aos meus planos. Era por isso que eu estava determinado a manter você longe.
Fale com o autor