Chris solidarizou-se com o filho, foi para o quarto dele e bateu na porta. Sem resposta. Suspirou e entrou mesmo assim para encontrar o jovem sentado no chão abraçando as pernas. Sentou-se ao lado dele e falou cuidadosamente:
— É do Alex que você gosta, não é?
Caleb levantou a cabeça, sua expressão como se estivesse para chorar, olhou para o pai:
— É. Isso mesmo. – Falou com a voz engrolada.
Chris sorriu levemente.
— Eu desconfiei. Minhas suspeitas ficaram mais fortes quando vi a foto de vocês no cinema. Pareciam tão... felizes. – O maior disse e olhou para seu filhote. – Sabe... Quando eu tinha sua idade, eu também “gostava” dele. – Dizia enquanto fez as aspas com dois dedos de cada mão e Caleb ficou com uma expressão de surpresa, o sorriso de Chris aumentou.
— É verdade. A sua mãe era minha melhor amiga. Quero dizer, ela era uma das minhas melhores amigas pois as outras pessoas eram Alex e Nishi. Aí aconteceu entre eu e sua mãe e tivemos esse garotão aqui. – Falou carinhosamente e passou a mão, grande, nos cabelos do rapaz, o gel aos poucos ia perdendo seu efeito. – E está tudo bem, Caleb. Nós não controlamos nosso próprio coração. Se gosta dele, vá em frente... Só que Alex... É meio complicado.
— Complicado...?
— Sim. – Continuou Chris e olhou para o teto. – Ele tem muito medo de machucar a Amy, a mãe dele. Tinha medo de que as pessoas também mudassem comigo, já que eu era um dos líderes esportistas principais da escola... Entre outras coisas. Eu imagino que... Também além dessas coisas, com você, ele deve ter medo pela questão da idade também. Você... Bem... É crescido, sabe como são as coisas.
— Eu não ligo dele ser mais velho. Eu só gosto dele... E é isso. – Caleb falou , determinado.
Chris balançou a cabeça positivamente, devagar.
— É claro que não liga. Dá pra ver que o que você tem nele não é só uma atração física, eu entendo. Tu quer levar ele pro altar, é? – E Chris deu uma risadinha amigável.
— Se possível... Mas eu acho que eu estraguei tudo... Ou melhor, meu estômago estragou tudo. – Caleb contou tudo o que aconteceu no cinema e Chris ouviu-o atentamente.
— Nossa, o que não faz um hambúrguer gorduroso com muito bacon? Até eu to ficando com fome agora. – Brincou Chris.
Caleb, depois de contar tudo o que aconteceu, pareceu que aos poucos ia querendo se fechar novamente e Chris tocou em seu ombro, apertou-o carinhosamente.
— Não desista, garoto. Esse... jogo... não é fácil. E se ele chegou a se aproximar de você lá, alguma coisa ele sente também. Só não desista. – E sorriu de lado, Caleb olhou pra ele e sorriu de volta, com os olhos lacrimosos.
— Eu não vou desistir. – Caleb repetiu. Chris se levantou, estendeu a mão para o jovem que pegou na mão do pai e este o levantou para ficar de pé.
— Isso aí. Agora lave o rosto, os cabelos, troque de roupa e vá dormir para poder descansar bem. – Chris disse, encorajando-o e Caleb assentiu. Chris saiu do quarto e pouco tempo depois já ouviu o tal barulho:
ROC ROC ROC ROC.


Segunda-feira, escola de manhã.
Caleb chegou para suas aulas do período da manhã e ouviu uma voz familiar quando aproximou-se da entrada da escola.
— Caleb. – Chamou alguém, era Owen, que se aproximou do rapaz. Owen agora parecia muito melhor vestido e seus cabelos longos bem penteados e amarrados num rabo de cavalo, a faceta sombria dele se foi.
— Fala, mano. – Caleb cumprimentou e parou quando Owen se aproximou.
— Eu queria te agradecer. Os caras me chamaram para fazer parte do grupo de futebol deles depois que você me indicou. – Começou Owen, que sorriu agradecido. – Muito obrigado.
Aquele Owen bully de antes parecia ter desaparecido completamente, Caleb retribuiu o sorriso.
— De nada, grandão. Só vai e tamo junto. – Disse Caleb, encorajando o rapaz e deu-lhe palmadinhas de leve nas costas e foi para junto do grupo dos atletas que apareceram repentinamente indo para a escola também depois que eles o chamaram.
— O que foi isso? – Mariko, Beau e Jimin aproximaram-se, curiosos, estavam espiando tudo por trás de uma árvore. Mariko então perguntou. – Ficaram amigos do nada? De Owen?
— Ninguém realmente é mau, amiga. Ele só precisava de uma ajuda. – Caleb então olhou para Beau que carregava aquele gato de antes e ele parecia dormir nos braços do garoto. – Beau, que que ta fazendo com esse gato, guri?
— Eu vou levar ele pra casa. – Beau respondeu e acariciou ao gato que se espreguiçou as patas dianteiras preguiçosamente.
— Mas a gente tá indo pra escola agora, né? Dá tempo? – Caleb olhou ao relógio e constatou que dava tempo de correr para casa e deixar o gato lá. – Tá, dá tempo de ir até sua casa, mas e sua avó? Ela vai deixar?
Beau então olhou para cima, pensativo e do nada:
— Sim, vai! – respondeu alegremente.
— Me empresta a bolinha de cristal, amor? – Brincou Mariko. Jimin sempre ocupado em seu smartphone, fez um sinal de OK com a mão livre.
E não é que tudo realmente deu certo? Ao chegar na casa de Beau, que não era nada longe, a vovó Elizabeth aceitou o gatinho de rua com muito amor e já foi até preparando um cantinho para ele, resolveram apelidar o gato de Bob.
— Tchau, Bob! – Despediu-se Beau do gatinho que amassava a cobertinha no canto da sala que deram para ele se deitar e depois da senhora. – Tchau, vó!
E rumaram para escola, que se prosseguiu sem mais delongas e surpresas.


A senhora Sally, depois de finalizar suas aulas, decidiu dar um tempinho na sala dos professores para tomar um chá bem quentinho e bem docinho para depois ir para seu carro e seguir ao supermercado.
Ela entrou no estabelecimento e abriu sua bolsa procurando sua lista de compras:
— Hmm... Vamos ver... O café eu... Eu acho que vou pegar na Coffee Shop do Alex. Sim, eu mereço esse mimo. – Ela riu baixinho enquanto fechava sua bolsa de couro sintético. Pegou um dos carrinhos e seguiu para o interior do mercado, que não estava lá muito cheio já que na segunda não havia tanta pressão para as compras então a mulher poderia fazê-las sossegada, ela comumente vinha mais para próximo do sábado.
— Um vidro com azeitonas, sim. Hmmm, que delícia. – Falou consigo mesma enquanto pegou um pote de azeitonas em conserva e adicionou em seu carrinho, ao se levantar, deparou-se com um rosto familiar:
— Caleb! – Exclamou a sra Sally e Caleb, que estava poucos metros em sua frente se assustou de leve, ele estava carregando caixas para o estoque que ficava atrás de uma porta dupla. Colocou a caixa no chão e foi até a mulher.
— Professora Sally, boa tarde. – Ele respondeu educadamente.
— Você trabalha aqui? – Ela apontou para a camisa que ele usava, das cores de marca do supermercado e ele assentiu com a cabeça.
— Ah, sim... Achei melhor começar a trabalhar, juntar minha graninha. Aí vim trabalhar aqui depois da aula. – Esclareceu e coçou a nuca, sorrindo de canto.
— Entendi, mas precisa dormir melhor, não é? Já te vi caindo de sono várias vezes na aula. Tente não sair muito tarde daqui e ter uma noite decente. – Ela aconselhou.
— Sim, é verdade. Eu vou ficar de olho nisso. – Sorriu sem graça e ela deu tapinhas de leve no topo da cabeça dele, mesmo ele sendo maior.
— Você é um bom rapaz. – Elogiou e seguiu adiante, para depois voltar para falar com ele. – A farmácia do mercado? Eu vi que mudaram ela de lugar.
— Ah sim, eu levo a senhora até lá, vamos lá. – E guiou sua professora até o novo canto onde estava a farmácia.
— Eu vou até a Coffee Shop do Alex depois, para comprar café, você quer que eu te leve no meu carro depois? Sei que você sempre vai lá. Gosta muito do Alex, não é? – Ela perguntou.
Caleb assentiu com a cabeça e a professora Sally abriu um grande sorriso.
— Eu gosto muito sim. – E ficou quieto por uns instantes até prosseguir: — Mas meu turno ainda tá um pouco longe de acabar, mas eu vou lá sim. Muito obrigado por oferecer.


— Anne? – Chris bateu na porta do quarto da mulher, de leve.
— Hm? Pode entrar. – Respondeu a voz dela do outro lado da porta.
Chris abriu a porta e se deparou com a esposa finalizando uma chamada de seu smartphone então ele se sentou ao lado dela na cama, olhando para frente.
— Caleb tá afim do Alex. – Ele disse sem demora. Anne sorriu:
— Eu imaginei. Mas não vejo problema. Caleb está crescendo bem rápido e amadurecendo mais cedo do que eu pensava que aconteceria, Alex é uma ótima pessoa e, cá entre nós, eu nunca vi ele com ninguém, eu achava que ele era assexual.
— É. Eu disse pro garoto que tá tudo bem. – Chris disse, pegou na mão de Anne e ficou acariciando a costa com seus dedos, carinhosamente. – Quem era ao telefone? – Chris perguntou e olhou para ela.
Anne sorriu, levou a mão de Chris até seu ventre e olhou diretamente para seus olhos, que brilhavam.
— Nossa família vai aumentar. – Ela respondeu, Chris abriu o maior dos sorrisos, com muita alegria, então debruçou-se sobre ela para lhe beijar demoradamente os lábios e deixaram ambos se deitar sobre a cama.

Naquele final de tarde, Alex estava em sua Coffee Shop e pensava em enviar uma mensagem para Caleb. Tinha muito medo sequer de pensar que poderia ter machucado ele de alguma forma, mas não conseguia formar nenhuma frase, nada, em sua cabeça. Tinha medo do que poderia vir a acontecer, tinha medo de consequências e não era absolutamente nada que queria trazer nem para sua vida e nem para a vida de Caleb.
A porta da Coffee Shop se abriu, os sinos de boas vindas tocaram. Era Jeon.