Love And Ice Cream

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Magnus POV

Aquele era meu primeiro verão depois de ter começado o colegial. Eu tinha dezesseis anos, e em vez de passar as noites curtindo em alguma festa ou qualquer coisa do tipo, eu tinha arranjado um emprego numa sorveteria, assumindo o último turno, que ia até a meia-noite. (Não se engane. Se eu estivesse livre, não estaria em festa nenhuma. Era mais provável eu estar no meu quarto lendo o último livro do Stephen King ou maratonando Stranger Things pela milésima vez. Pois é, eu sou desses).

Então pode-se dizer que meu tempo estava sendo muito melhor empregado ali, onde eu ganhava cinco dólares por hora para passar a maior parte das seis horas do meu turno jogando conversa fora com meu colega de trabalho. Will Solace era um cara legal, tranquilo. O pai dele também era médico, e assim como eu, ele pretendia tentar seguir a profissão. Muitas vezes, nossas conversas acabavam indo parar nesse assunto, porque nós éramos dois nerds.

Você já deve ter percebido que não tínhamos muito o que fazer nesse trabalho. É de se imaginar que no verão as sorveterias tenham horário estendido por um motivo, que as pessoas, querendo se refrescar, lotassem lugares como aquele até a hora de fechar. Que nada. Nosso turno era bem morto. Para o tédio não fazer o mesmo com a gente, inventávamos brincadeiras idiotas, tipo, servir o sorvete de um jeito criativo e dar um nome à nossa invenção.

Uma noite peguei sorvete de melancia, de baunilha e umas amêndoas e formei um rosto de palhaço meio bizarro. Eu batizei a obra de arte de It, A Coisa. Na outra noite, Will estava se sentindo meio preguiçoso, então só pegou sorvete de Oreo, arrumou num copo como se fosse uma montanha, e pôs duas cerejas pretas lado a lado no topo, derramando depois um pouco de calda de morango. Ele chamou aquilo de Phantom.

Foi nessa noite que chegaram pela primeira vez os dois fregueses inusitados. Um deles vestido dos pés à cabeça como um típico garoto emo gótico (sei lá se essa é a definição correta, mas ele estava todo de preto). Tinha até a pele pálida perfeita para completar o visual, só faltava a franja de lado cobrindo um dos olhos. Em vez disso, seu cabelo escuro era bagunçado como se ele tivesse acabado de sair da cama. Ele viu o Phantom de Will no balcão e perguntou:

— Isso é sorvete de Oreo?

— Eh... Sim – disse Will. – O nome dele é Phantom. – Ele virou o sorvete para o “fantasma” encarar o garoto, que ergueu os olhos para o meu colega. Eu tive a impressão de que ele gostou do que viu. Estava até com um traço de sorriso no rosto ao dizer:

— Legal. Vou querer um.

Então tá, né?

O outro freguês era uma garota de cabelo curto tingido de verde. Aliás todo o visual dela continha as cores rosa e verde com uma tendência ao xadrez. Percebi que um dos seus olhos era castanho escuro enquanto o outro era cor de mel. Isso pode ter me feito encará-la meio hipnotizado por um ou dois segundos e deve ter sido o que me fez estender-lhe o sorvete que tinha pedido com um sorriso idiota e um mais idiota ainda:

— Aqui está, madame.

Ela me olhou com o cenho franzido, mas sorriu ao agradecer, e isso fez meu estômago esquentar como manteiga na frigideira. Ela e o garoto emo se sentaram num canto afastado da sorveteria deserta. No balcão, Will, de vez em quando, lançava olhares naquela direção, e uma ou duas vezes seus olhos encontraram os do garoto emo, o que os dois procuravam logo disfarçar. Eu ouvi claramente o suspiro que ele deu quando os dois saíram meia hora depois.

Tudo ficaria por isso mesmo, se alguns dias depois eles não voltassem. Para minha surpresa, a pessoa que acompanhava o garoto emo era idêntica à garota em verde e rosa do outro dia, mas... agora era um garoto! Eu fiquei sem palavras ao encará-lo, ainda mais ao me dar conta de que não era outra pessoa coisa nenhuma! Por isso ele tinha me olhado de um jeito estranho quando o chamava de ‘madame’! Como eu podia ter me confundido?

Ao lhe entregar seu pedido, falei, muito envergonhado:

— Sinto muito, muito mesmo por tê-lo tratado como menina o outro dia... Eu... Não sei o que deu em mim para me confundir assim!

Ele sorriu, parecendo solidário com a minha vergonha.

— Não se desculpe. Você não se confundiu. Eu era mesmo uma menina naquele dia.

— Quê? Como assim?

— Ah... eu estou com um pouco de preguiça para explicar tudo agora, mas sugiro que você procure na internet sobre transgênero e gênero fluido. Qualquer dúvida pode me perguntar depois. – Ele não soava grosso, nem parecia estar tirando uma com a minha cara, nem nada. Antes de se afastar com seu amigo, virou-se para perguntar: — Você tinha mesmo me enxergado como garota naquele dia?

— S-sim... Eu tinha certeza de que você era uma garota – Era difícil de explicar. Nada mudara em sua aparência, mas ele me parecia diferente.

— As pessoas sempre me perguntam se no momento eu sou ele ou ela... Você é o primeiro que parece saber...

— Ah... – Por algum motivo, eu senti meu rosto esquentar ao ouvir aquilo.

A partir daí virou uma espécie de rotina a presença daqueles fregueses algumas noites, três ou quatro por semana. Era difícil ter mais alguém além deles por ali quando chegavam, mas sempre se sentavam naquele canto afastado. Acabamos descobrindo que se chamavam Alex Fierro e Nico di Angelo.

Descobri que eu era mesmo capaz de saber quando Alex estava se sentindo um garoto ou uma garota. Assim que eles passavam pela porta e eu o via, conseguia saber. Isso me assustava e fascinava ao mesmo tempo.

Will parecia sempre ansioso pela chegada de Nico, como se os cinco minutos que levava para atendê-lo, durante o qual eles trocavam algumas palavras sem muita importância, fossem muito preciosos.

— Não fique triste. Tenho certeza que ele vem amanhã – eu o provoquei certa noite, quando tinha chegado a hora de fechar e eles não tinham vindo.

— Não faço ideia do que você está falando – Will continuou a contar o dinheiro no caixa sem me dar atenção, mas eu vi suas bochechas corando.

Talvez alguns de vocês se espantassem ao perceber que um cara que você conhece está com uma queda por outro cara (embora eu ache que se for o caso, você precisa rever seus conceitos), eu me espantei mesmo foi em saber que aquele era o tipo dele. Will Todo Sorriso Ensolarado Mesmo Na Calada Da Noite Solace! Quem teria imaginado?... Mas com o tempo, passei a achar fofo.

Naquela noite, eles vieram, e Will se dirigiu a ele com seu melhor sorriso:

— Então, você vai querer...

— Para começar, o seu número – Alex o cortou.

— Alex! – exclamou Nico de olhos arregalados para o amigo.

Alex revirou os olhos.

— Por favor, Nico! O verão já está quase acabando e eu estou cansado dessa enrolação... Nenhum de nós gosta tanto assim de sorvete e você está até resfriado!

— Cale a boca, Alex! Mas que droga! — Parecia que tinha caído calda de morango nas bochechas de Nico, o que de certa forma estragava o efeito de sua carranca.

— Cara, você tirou as palavras da minha boca! – eu disse para Alex. — Eu venho tentando dizer isso para o Will há dias...

— Já chega vocês dois – anunciou Will. Seu rosto também estava em chamas, mas ele decidiu tomar as rédeas da situação. Tirou o avental e a toca ridícula que éramos obrigados a usar e saiu de trás do balcão. Chegando perto de Nico, falou num tom mais suave: — Eu... tenho um tempinho de intervalo. O que você acha de irmos até o café aí do lado? Acho que... eh... chocolate quente com menta pode ajudar seu resfriado.

Sem exatamente encará-lo, e ainda meio emburrado, Nico respondeu:

— Acho... Acho que pode ser.

Quando os dois tinham saído, comentei com Alex, sorrindo e sacudindo a cabeça:

— Dá para acreditar nesse dois?

Ele se apoiou no balcão e perguntou com seu sorriso torto:

— E você não vai me dizer nada?

Eu engoli em seco.

— Eh... quê?

Alex suspirou cansado, como se não aguentasse mais lidar com tanta gente lerda.

— Eu tenho um cupom de desconto para casal naquele cinema do fim da rua... O que você acha?

— C-casal?

— É para assistir alguma comédia romântica idiota... – ele deu de ombros. — Eu acho divertido fazer comentários indiscretos em voz alta nos momentos em que todo mundo tá emocionado... E claro, adoro pipoca caramelada.

Eu só consegui formular a pergunta mais idiota possível:

— Você quer ir ao cinema comigo?

— Tudo bem se você não estiver interessado...

Aquilo me despertou.

— Não! Eu estou interessado! Eu estou bem interessado! Comédia romântica, pipoca caramelada... Maravilha! Quer dizer...

Alex riu do meu papel de bobo.

— Certo, então... Tem alguma noite em que você não está servindo sorvete?

— Eu posso tirar uma folga... amanhã mesmo! Quer dizer, se... estiver bom para você.

— Ótimo. Encontro você lá às dez.

Ele deu uma piscadela antes de ir embora.

A perspectiva de ir a qualquer lugar sozinho com Alex Fierro fazia meu estômago encolher e depois começar a fazer piruetas junto com meu coração... E eu mal podia esperar.

Notas finais
Obrigada pela leitura ^^ Por favor, comente o que achou!! ;*
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!