Lost Stars
6 Capítulo 5 - Um pequeno milagre
Notas iniciais
Há duas formas de viver a vida. Uma é pensar que nada é um milagre. A outra é pensar que tudo é um milagre.
— Albert Einstein
Todas as pessoas gostam da ideia do fantástico, do não natural. Um milagre é tudo aquilo que confronta a lógica, desmistifica o impossível. Dá as pessoas esperança em momentos conturbados da vida, quando não são capazes de enxergar a luz em meio a escuridão. Mas no fim, todos encaram isso como nada mais do que fruto do imaginário. Histórias antigas que foram contadas e reinventadas tantas e tantas vezes, que perderam a relação com a realidade e agora não passam de uma coleção de mitos e metáforas.
Todos. Exceto Eleonor.
Como poderia?
Ela vira acontecer bem diante dos seus olhos. O milagre não viera como um passe de mágica, o impossível não acontecera diante de seus olhos. Não, nada disso. Era muito mais simbólico do que tudo, mas quais são as chances de encontrar alento para o seu coração quebrado de forma tão inesperada?
Ela sentira em seu íntimo, no momento em que aquele bebê tocou seu dedo com sua mão tão pequena, ele a atingira na alma a marcando-a, um milagre acontecera dentro dela. Algo tornara a se acender, o coração quebrado se viu novamente inteiro e ela se sentiu repleta de esperança, ansiosa pelo futuro.
A nomeou Ariel. O nome simplesmente foi dito em sua mente ao olhar os olhos do bebê, e naquele momento ela soube.
Era seu pequeno milagre.
E tem sido ao longo da sua vida. A risada daquele bebê preencheu Eleonor de vida, lhe deu um propósito e ela se reergueu, reconstruindo sua vida ao redor daquela benção. Ela a adotara e criara como se fosse sua, porque no fim ela era. Poderia não ter saído de seu ventre, mas lhe fora entregue como um presente precioso que ela cuidara e amara.
Eleonor deslizou as pontas dos dedos sobre os galhos entalhados na antiga caixa de madeira, um presente de Will de tantos anos atrás. Ao girar a chave, o clique metálico ecoou no quarto silencioso. Dentro, não havia joias ou fortunas, apenas tesouros de outra natureza: cartas de amor amareladas, os documentos de adoção de Ariel, um anel de noivado modesto e uma margarida seca, preservada no tempo. E, repousando sobre tudo isso, a pena branca. Era impossível resistir. Eleonor a tomou nas mãos, sentindo a textura sedosa contra a pele ao acariciar o próprio rosto. A pluma era impressionante, tão longa que cobria quase todo o seu antebraço. Ao roçar a fibra contra a bochecha, não sentiu apenas maciez, mas um calor residual, como se a pena ainda estivesse conectada a um corpo vivo. Por vinte e um anos, aquele pedaço de 'não-natureza' foi a única prova de que ela não havia enlouquecido naquela praia.
Ela sempre se questionou que tipo de pássaro teria penas assim, ela passara anos pesquisando, a curiosidade a atormentando, mas nunca encontrou uma resposta. No fim aceitou que o pequeno mistério apenas tornava Ariel ainda mais especial. Acariciou o tampo da caixa com seus dedos longos e finos, memórias antigas apareceram em sua mente a fazendo sorrir. Ela guardava tudo o que tinha de mais precioso ali, suas melhores lembranças. Gostava de contemplá-las quando se sentia sozinha ou triste, apenas para se lembrar de que há uma balança na vida tentando manter tudo em perfeito equilíbrio. E que mesmo quando as coisas pareçam ruins, há sempre algo bom vindo num futuro não tão distante.
— Mãe? Estou em casa. — Ao escutar a voz da filha acompanhada do bater da porta da frente, Eleonor imediatamente guardou a pena branca de volta dentro da caixa, trancando-a a chave novamente.
— Olá, filha. — cumprimentou a jovem que adentrava no seu quarto.
— Está olhando as coisas do papai outra vez? — Ariel perguntou contendo a preocupação na voz. Aproximou-se da mãe que estava sentada sobre a cama e a abraçou por trás.
— Só estava me lembrando de todas as coisas boas que tivemos.
— Você ainda sente muito a falta dele? — questionou a garota, já haviam se passado vinte e um anos desde que ele morrera, mas eventualmente sempre havia dias como aquele em que ela via a mãe um pouco mais sensível com a perda do jovem amor.
Ariel sempre desejara que a mãe se apaixonasse novamente, sabia o quanto ela precisava de mais alguém em sua vida. Durante tanto tempo Eleonor dedicara-se apenas a filha, ela não anulara completamente a vida, mas Ariel sabia que nenhum daqueles relacionamentos evoluía porque a mãe sempre se preocupava mais com a filha do que consigo mesma.
— Seu pai sempre vai estar presente na minha vida. Ele me deu você. — Ariel sorriu enquanto a mãe tocava com a ponta dos dedos seu nariz.
Tudo o que tinha do pai, William, era uma foto antiga sobre a lareira em que ele usava seu uniforme de policial. Ele parecia ter sido um bom homem, mas ela nunca o conhecera ou tivera contato com o lado da família paterna, e sempre que olhava para foto não podia deixar de sentir um estranho distanciamento.
Ela achava que era natural, não tinha nenhuma memória dele, ele nunca fizera parte da sua vida. Não era de se esperar que nutrisse o amor por uma foto.
Eleonor era uma mulher forte e decidida, criara Ariel sozinha e passara por cada adversidade sem deixar que isso a desanimasse. Mas a mãe era alguém sensível demais, e por vezes, carente.
Ela concentrava todo o seu amor e cuidado com a filha, a superprotegendo desnecessariamente. Com vinte e um anos, Ariel era a única jovem da sua idade que jamais deixara a cidade de Paradiso. Nem mesmo em uma excursão escolar, nem quando ficou mais velha e Eleonor já não mais conseguia impedi-la de viver a própria vida. Tentou escapar em algumas aventuras com sua amiga Lilah, mas algo sempre acontecia, um pequeno acidente, um desencontro, um resfriado subido. Parecia que o destino conspirava contra ela e suas tentativas de deixar a cidade natal.
Ariel sentiu-se mal quando se mudou para o apartamento perto da faculdade, mas era necessário. Não poderia ser para sempre a garotinha da mamãe. Por mais que a amasse já era tempo de trilhar o próprio caminho, de fazer suas escolhas. Ela sentia alguma coisa lá fora chamando por ela, como se houvesse algo a ser encontrado. E não poderia ser feito enquanto ela se mantivesse presa aqui.
Estranhamente essa sensação de sair em busca do desconhecido havia desaparecido dela recentemente, deixando um estranho silêncio onde antes havia inquietação, embora a Ariel ainda não tivesse notado isso ainda.
— Sabe mãe, você é jovem ainda pode se apaixonar novamente. — falou num tom consternador, porém Eleonor riu abertamente jogando o cabelo para trás, como quem diz que aquilo era algo engraçado de ouvir.
— Você também, querida. Quando vou conhecer um novo namorado seu? — Eleonor devolveu com um sorriso cúmplice fazendo a filha ficar desconcertada com o assunto por apenas um momento.
Seus namoros não costumavam durar por muito tempo, Eleonor sempre dizia que a filha era exigente demais, e Ariel não podia deixar de pensar que a mãe estava certa. Ela sempre terminava fácil os relacionamentos, ela tentava, tentava as vezes até demais, porém algo sempre parecia errado por mais perfeito que o namorado em questão fosse, ela nunca soube precisar o que era, mas a frase “não é você, sou eu” sempre se aplicava perfeitamente a ela.
A garota fitou o rosto cheio de expectativa da mãe que esperava por uma resposta. Ela não gostava de ser colocada sobre o holofote, mas quando era colocada, de certa forma sempre conseguia sair dele com desenvoltura.
— Devíamos fazer uma aposta para ver quem consegue um namorado primeiro. — Sugeriu com falsa animação, tentando fazer a mãe cair na armadilha. — Quem sabe até mesmo alguns encontros duplos?
— Certo, mensagem recebida. Vamos mudar de assunto. — Eleonor riu, percebendo a esquiva. — Então, o que tem em mente para o final de semana? Alguma "balada literária"?
— Me desculpe! — O grito veio da cozinha, cortando o clima ameno.
Eleonor fechou os olhos e suspirou, meneando a cabeça.
— Dalilah está aqui.
— Os pais dela viajaram, eu não queria deixá-la no apartamento o final de semana inteiro sem mim. — Ariel explicou rapidamente, em tom de desculpa. — E temos um trabalho da faculdade para entregar.
— Isso é bom. — Ariel estranhou. A mãe gostava de Lilah, mas sempre temeu o quanto a garota tinha o dom de meter a filha em problemas — Eu tenho plantão nesse final de semana, eu não queria que ficasse sozinha.
— Por que não me disse? Eu poderia ficar no apartamento com Lilah!
— De jeito nenhum. Você precisa de uma cozinha de verdade, não daquela comida de plástico que vocês comem na faculdade. E precisa de uma banheira para relaxar. — Ela sorriu, tocando o rosto da filha. — Apenas tente não...
— Desculpa de novo! — Lilah gritou novamente após um novo barulho de vidro se estilhaçando ao chão.
Eleonor já estava de pé.
— Ela está tentando destruir a casa?
— Eu não acho que seja exatamente Lilah, mãe... — Ariel começou, mas foi interrompida por uma bola de pelos negros que entrou derrapando pela porta e saltou direto para cima da cama impecável de Eleonor.
— Oh, Deus! O que é isso?
— É um gato. — respondeu Lilah, surgindo esbaforida na porta.
— Isso é óbvio, eu não sou cega — Eleonor cruzou os braços, a paciência por um fio.
— Me desculpe, senhora Eleonor! Este é o Voldy — apresentou o bichano como se fosse da realeza. — Sabe, de Voldemort? Harry Potter? O Lorde das Trevas, Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado... — Lilah tagarelou, tentando fazer um carinho no gato, que respondeu com um rosnado baixo.
Ariel riu baixinho. A aversão era mútua, mas Lilah encarava aquilo como um desafio pessoal de honra: ela faria aquele gato amá-la.
— Escolha de nome adorável. — Eleonor pontuou, a ironia pingando em cada sílaba enquanto encarava o animal. — Já que estou vendo que teremos um hóspede a mais. Eu apenas espero que deixem o gato longe do meu quarto e limpem a sujeira dele.
— Sim, senhora! — Lilah apressou-se em garantir pegando um bichano relutante nos braços. — Fique quieto, Voldy.
Ariel notou a mãe respirar fundo, buscando calma, e decidiu intervir.
— Que tal começarmos o trabalho de uma vez?
— Você não é nenhum pouco divertida. — Lilah reclamou saindo do quarto com Voldy em seu colo.
Ariel lançou um olhar de "sinto muito" para a mãe e seguiu a amiga para o refúgio seguro de seu próprio quarto.
✶✶✶
Pouco depois das três da tarde Eleonor apareceu no quarto da filha, encontrando-a junto da amiga com a cabeça enfurnada dentro de livros e um bichano muito entediado deitado numa almofada. Ela se despediu das duas garotas dizendo que voltaria no dia seguinte pela manhã, explicou que havia comida pronta na geladeira e encheu as garotas de avisos e recomendações, sobretudo quanto ao gato de Lilah.
Duas horas depois Ariel ainda se encontrava deitada de costas ao chão com os pés apoiados na cama com um livro nas mãos, lendo-o com concentração enquanto tentava decidir sobre o que escreveria em seu trabalho de história da religião. O lado vaidoso dela procurava por algo diferente e interessante, estava decidida a impressionar o professor Rafael e desfazer aquela primeira impressão.
Rafael.
Repetiu o nome apenas em sua mente, gostando da sonoridade familiar que ele parecia ter e de como o coração dela dava um pulo apenas em pensar no nome. Repreendeu-se mentalmente ao se ver novamente pensando nele, já era estranho o suficiente sonhar com o professor, ao menos ela não podia controlar seus sonhos, mas pensamentos sim, e era melhor parar com isso ou logo parecia uma daquelas alunas loucas obcecadas com um professor bonito.
Voltou a se concentrar na leitura, mas não conseguiu. As palavras se embaralhavam na frente de seus olhos, a cabeça doía e nenhuma nova informação parecia ser capaz de entrar. Desviou o olhar para Lilah que estava sentada numa poltrona no canto do quarto onde folheava um livro. A garota parecia ter o mesmo problema de concentração que Ariel, já que apenas passava as páginas com brusquidão, sem sequer se dar ao trabalho de ler parecendo apenas frustrada com tudo o que havia ali. O trabalho estava se mostrando muito mais complicado. Ainda era sábado e ele deveria ser entregue na terça feira ao professor Rafael, mas nenhuma das duas garotas tinha conseguido fazer algum progresso.
— Eu odeio história da religião! — Lilah reclamou emburrada jogando o livro que tinha nas mãos contra a parede. Ficou de pé andando de um lado para o outro discursando sobre a sua frustração — E que tipo de trabalho ridículo é esse? "Escolha um mito e tente provar a veracidade"? Se chamam de mito, é justamente porque não há provas! O que eu devo fazer? Provar que Noé bateu o cajado e magicamente o Mar Vermelho se abriu?
Ariel mordeu o lábio, segurando o impulso de dizer que fora Moisés, e não Noé. Lilah continuou, alheia ao próprio erro teológico:
— Ou talvez que os Illuminati realmente existiram e ainda estão entre nós?
— Esse último parece ser um bom tema! — Ariel falou tentando animar a amiga.
— Sim, mas Dan Brown já fez todo o serviço! Aliás, o desgraçado usou as melhores ideias — Lilah deixou-se cair a cama, irritada demais para continuar com as horas de pesquisas que pareciam levar a lugar algum. — Já sei do que precisamos! — Exclamou sentando-se na cama de uma só vez, seus olhos ganhando um brilho perigoso.
— Oh, não. Eu conheço essa sua cara e isso vai acabar comigo encrencada! — Ariel fechou o livro que lia, puxou suas pernas para baixo e sentou-se mais ereta encarando a amiga que agora sorria, como quem diz que Ariel estava certa.
— Eu apenas me lembrei de que acabamos de começar um novo semestre letivo... Sabe o que temos aos sábados? Especificamente no primeiro sábado? — Perguntou, seus olhos brilhando em excitação, um sorriso insinuante pendendo nos lábios.
— Oh, não. — Ariel se deu conta do que era.
— Oh, sim! — Lilah pulou da cama animada — Primeira fogueira na praia! Eu nem sei como pude me esquecer disso! Provavelmente é você, com seu jeito certinho que me obriga a fazer trabalhos aos sábados à noite! Mas não podemos perder! Vai haver muitos calouros bonitinhos e trotes divertidos!
— Preciso te lembrar da última vez?
— Ah, qual é? Aquilo foi um acidente de percurso! — Dalilah deu de ombros, minimizando o desastre.
— Um acidente? Lilah, nós tivemos que dormir na praia porque o seu carro foi roubado!
— Sim, mas foi apenas um trote! Ele apareceu dois dias depois na porta da minha casa, salpicado por tinta rosa. E se eu que sou a dona dele não me importei, não há motivos para você tomar minhas dores. Por favor, por favor, por favor! — Lilah pediu fazendo beicinho para Ariel.
— Tudo bem. Mas você me deve uma. E das grandes. — cedeu num suspiro apenas porque sabia que Lilah não desistiria e seria bom usar isso contra a amiga no futuro — Eu só vou arrumar a bagunça no meu quarto antes. — Ariel disse se levantando e recolhendo os livros espalhados pelo chão.
— Ah, deixa isso aí! Vai se arrumar! — Lilah protestou, impaciente. — Precisamos de álcool para clarear nossas ideias. Eu tenho certeza que depois de nos divertirmos hoje à noite, amanhã teremos a epifania que falta para esse trabalho maldito.
— Ou uma ressaca fenomenal. — refutou.
— Você sabia que é cientificamente comprovado que o álcool estimula áreas ainda desconhecidas do nosso cérebro? — Ariel gargalhou.
— Com certeza! A área que faz as pessoas cometerem idiotices e não se lembrarem de nada no dia seguinte. — revirou os olhos e se abaixou para recolher o livro que Lilah jogara tão violentamente contra a parede.
— Sem mais estudos! — reclamou Lilah dando passos até Ariel — Vem, vamos escolher o que vestir!
Ariel mal teve tempo de marcar a página, Lilah arrancou o volume de suas mãos e o arremessou sobre a cama. O livro caiu sobre o edredom com um baque surdo, as folhas farfalharam com o impacto até pararem abertas, insistentes.
Voldy, que até aquele momento permanecera imóvel em seu tédio felino, agiu. Num único salto silencioso, o gato pousou na cama e deitou-se pesadamente sobre as páginas expostas, ancorando a garras em uma das páginas, os olhos amarelados fixos em Ariel. Sob a pata negra do animal, uma gravura em xilogravura de uma caixa dourada com querubins parecia vibrar.
Um arrepio frio subiu pela nuca de Ariel. Não foi apenas surpresa, mas uma sensação invasiva, como se uma mão invisível tivesse tocado seu ombro. O coração falhou uma batida, alerta. Mesmo com o corpo negro de Voldy cobrindo parte do texto, o título do capítulo parecia brilhar, impossível de ser ignorado.
Os mistérios da Arca da Aliança.
Fale com o autor