Bunker dos Homens das Letras.

“Oi, aqui é Dean Winchester. Não posso atender agora. Deixe a sua mensagem após o sinal.”

Kevin tentava falar com Dean, mas o Winchester não atendia o celular. O profeta tentava de todos os jeitos falar com os Winchester, sem resultados. Castiel e Eliza distanciaram-se para não atrapalhá-lo. Haviam perguntas a serem feitas – e Castiel sabia, pelo olhar de Eliza, que não seriam nada fáceis.

— Eu não sei, é sobre... — ela hesitou. — Tudo. O que o anjo disse a respeito do céu e agora, Crowley insinuando que vocês fizeram alguma coisa juntos. O que foi aquilo?

— Isso é.... — Castiel começou com tanta incerteza que Eliza imediatamente o cortou.

— Eu conheço você. E sei que tem algo pesando nos seus ombros além de toda essa bagunça. — ela disse suavemente, porém convicta. — E eu confio em você, Castiel. Só confie em mim também.

— Isso aconteceu. — ele parecia perdido, sem saber por onde de fato começar. — Eu trabalhei com Crowley.

— Com Crowley? Porque?

— Era o mundo pós-apocalipse. Havia uma guerra civil no céu. E eu estava sozinho. Ou eu achava isso. — pausou, sua voz era de justificativa. — Eu achei que podia fazer tudo sozinho. Guiar os anjos até o livre arbítrio. Mas Raphael se pôs no caminho. Ele queria controlar os anjos, reabrir a jaula...

— E ele era um arcanjo. — Eliza concluiu.

— Eu tomei a decisão errada de me aliar ao Crowley e tentar arranjar força. Força para derrotar Raphael.

— E o que aconteceu? — Eliza estreitou o olhar ao ver a incerteza de Castiel em seguir falando. — Castiel?!

— Eu abri o Purgatório. — disse o “ex” anjo.

— Você sabe que no Purgatório existem...

— Leviatãs?! — ele completou. — Sim, eu os libertei.

— Castiel...

— Eu só queria impedir Raphael. Mas as coisas saíram do controle. — ele a interrompeu e parecia nervoso por tocar no assunto, ansioso demais e tenso demais. — Eu sai do controle. E quase destruí o céu e o mundo inteiro.

— Castiel... — Eliza tentou falar, mas ele novamente a interrompeu.

— E eu falhei. Não merecia ter sido salvo todas as vezes que eu fui. Os anjos tem razão sobre mim, eu sou uma fraude.

— Castiel, me escuta! — exclamou. — Eu conheço você. Você não é uma fraude. Tenho certeza que, de um jeito meio torto, você só queria ajudar. E eu digo isso justamente por conhecer você... O único anjo que jamais se importou pelo fato de eu ser apenas uma Discipuli. Mas esperava que confiasse em mim desde o começo. Eu esperava que você me contasse sem precisar desse bombardeio de insinuações.

— Eu não sabia o que você ia pensar sobre mim...

— Eu não tenho que pensar nada sobre ninguém. — Eliza tocou as mãos do amigo, ele sentiu-se diferente imediatamente. — E eu nunca julgaria alguém que eu conheço como conheço a você. Alguém que eu admiro.

Castiel e Eliza se encararam fixamente. O ‘ex’ anjo chegou a suspender a respiração. E estava provando de sensações e sentimentos novos e estranhos. O que quebrou aquele momento foi o chamado de Kevin que havia desistido de tentar falar com Dean.

— Droga! — bufou Kevin. — Será que já os pegaram?!

— Não! — disse Eliza, ela se aproximou do profeta junto a Castiel, a situação parecia sem saída. — Claro que não! Eu acho...

— E o que devemos fazer? — perguntou o profeta.

— Eu não sei... Sabe o nome do shopping? Endereço?

— Greenville shopping em Lakewood, Colorado... — disse Kevin. — Posso pesquisar o endereço exato na internet.

— Faça isso!

Kevin imediatamente começou a procura.

— No que está pensando em fazer? — Castiel indagou.

— Ir até lá, talvez.

— Pessoalmente?

— Não. — Eliza sorriu cínica. — Pelo Google Earth. — ironizou, mas obviamente Castiel não fazia a mínima ideia do que ela falava. — Castiel, eu vou e aviso seus amigos, caso eu os encontrar. Colorado fica cerca de duas horas daqui...

— Eu não sei, não me parece correto deixar você ir sozinha. — Castiel disse preocupado com a ideia. — Eu talvez deva protegê-la.

— Claro, com anjos e policiais atrás de você nós com certeza estaríamos mais seguros juntos. — ela usou o tom sarcástico que costumeiramente Dean usava, Castiel já estava acostumado com ele. — Não se preocupe, Castiel. Eu sou grandinha. Eu sei onde estou pisando.

Um mistério ficou suspenso ao redor de Eliza. Talvez ela também escondesse algo – foi o que passou pela cabeça de Castiel. Ele cedeu. Mas ficou mais “seguro” dando a Eliza sua espada angelical. Era útil. E ela aceitou por via das dúvidas. Com o endereço já em mãos, sua nova preocupação era como ir até lá. Chelsea tinha um carro, mas naquela hora da manhã deveria estar trabalhando. E ela trabalhava do outro lado da cidade. De fato, não era uma alternativa. Eliza não podia perder tempo. Antes de sair Eliza deu uma olhada ao seu redor. Com a confusão de Abbadon ela havia esquecido completamente de Brian.

— Brian! — chamou, assobiou algumas vezes, mas o cão não apareceu.

— Fica tranquila, não tem como ele ter saído do bunker. — Kevin apressou-se em dizer para tranquilizá-la. — Ele deve ter se metido em alguma das salas.

— Tomara que não estrague nada. Do jeito que o seu amiguinho é chato, ele vai ter um ataque se o Brian fizer bagunça. — referiu-se a Dean.

— Relaxa. Vamos achá-lo....

Eliza assentiu tentando relaxar, saindo logo depois do bunker – cuja porta mais parecia uma tampa de esgoto. O sol já estava alto embora ainda fosse bem cedo. O céu estava cheio de nuvens, mas parecia ficar firme por enquanto. Nada de chuva. Agora ela podia ver os detalhes que antes não via e como magica, surgiu-lhe a resposta diante de seus olhos. Entre as arvores onde antes Dean estacionara o Impala – ela poderia jurar isso, apesar de ter sido de noite – havia uma moto. Uma linda moto. Parecia uma ajuda divina por mais irônico que fosse naquele momento. Estava “pronta para o uso”. Até as chaves estavam ali. Deveria ser dos Winchester,ela concluiu. Ao maior estilo “rock n’ roll”. Ela fazia bem o estilo de Dean. Ela em seguida pensou que ele não se importaria se ela a pegasse emprestada dada a situação. E ela pegaria de todos os jeitos. Já estava ficando ansiosa para isso.

Subiu na moto.

O som era incrível. Até parecia que a própria moto estava contente em ser usada. Agora era pegar a estrada em direção ao Colorado.

[...]

Lakewood, Colorado.

Hospital Geral de Lakewood.

Dean e Sam mostraram suas identidades falsas no hall de entrada e a recepcionista os guiou até o corredor do segundo andar – onde as vítimas estavam sendo atendidas e o policial responsável, agente Sawyer, aguardava com os relatos. Eles subiram até o local e segundo Joseph Sawyer, eles não iriam conseguir nenhuma informação realmente útil com aquelas pessoas.

— Estão em estado de choque. — alertou Sawyer. — É perda de tempo, já temos todos os relatos.

Era um homem seco, rude. Dean estava ficando impaciente com a insistência dele para que não falassem com as vítimas. Tudo bem que estavam frágeis e que não estavam lá muito lógicas, mas os Winchester eram especialistas em ver sentido nas coisas que os outros dizem ser sem sentido.

— Mesmo assim gostaríamos de ver e falar com elas, se for possível.

— Se insistem. — ele deu de ombros. — Estou indo para a delegacia, já acabei aqui. E se quiserem cópias do meu material podem ir até a delegacia da cidade. — foi dizendo de nariz empinado, era extremamente arrogante.

— Faremos isso. — Dean abriu-lhe um sorriso amarelo.

O doutor Frank contou aos “agentes” que os pacientes tinham lesões tão graves, feitas por uma força extremamente bruta. E era quase inacreditável que oito guardas haviam atacado e matado trinta pessoas – entre adultos; homens e mulheres, além de crianças e adolescentes.

Uma das sobreviventes, Amanda Burns – e aparentemente a mais disposta em falar – foi a primeira com quem Sam e Dean conversaram. Ela era recepcionista do shopping. Seu rosto estava cheio de panos e esparadrapos. Ela disse que sentia dor, estava tonta, mas de todos era a mais lucida.

— Eu conhecia todos eles. Trabalhávamos juntos há três anos! — se referiu aos guardas do shopping. — Eu não entendo. Eles me bateram, colocaram fogo em algumas coisas e nos atacaram.

— Você sabe de algum motivo para isso acontecer? — perguntou Sam. — Esse ataque?

— E que motivo uma pessoa teria para atacar e matar trinta pessoas?

Sam e Dean se entreolharam.

— Alguma coisa estranha antes disso? — Dean indagou. — Nos falaram sobre... Algum tipo de fumaça...

— Ah, sim! — ela confirmou, mas não parecia entender o motivo da pergunta. — Uma das minhas colegas havia feito uma ligação para a companhia de ar condicionado. Uma fumaça negra surgiu, achamos que era algum problema no sistema. Isso minutos antes do ataque. Mas o que isso tem a ver?

— Nada. Só queremos checar todas as informações. — disse Dean. — Precisamos de toda a informação possível.

Miranda Johnson, uma cliente, disse algo bem parecido. O estado dela não era diferente do de Amanda. Queimaduras, lesões, o corpo todo coberto por esparadrapos. Segundo Frank, seria difícil falar com o terceiro, Gilbert Olson. O homem estava sedado. A quarta e última a ser ouvida era Martha Peterson. Se tratava da gerente do shopping e estava bem pior que os outros. Ela havia ficado cega. Sua voz soava fraca por causa de todos os analgésicos. Ela relatou coisas bem parecidas com as que Amanda Burns e Miranda Johnson haviam dito sobre a força desumana que movia os guardas. E mais além disso, ela tinha uma informação importante.

— Lembra de alguma coisa a mais? Algo que tenha chamado a sua atenção? — Dean perguntou. — Algo que pareceu ter visto?!

— Eu acho que... Acho que ao olhar para um espelho que ficava no começo da área de cama, mesa e banho do shopping... — pausou, sua voz estava bastante fraca. — Acho que vi o rosto de um dos guardas, Frederick Jones. E os olhos dele não eram humanos.

— Como assim?

— Eu lembro bem desse detalhe. Foi a última coisa que eu vi antes de tudo ficar escuro para mim. — deu a entender que foi atacada logo depois. — Eu não acho, tenho certeza disso. Os olhos do Fred estavam totalmente negros. Eu não posso ter alucinado.

Sam e Dean se encararam e o doutor Frank observou os dois.

— Sabem o que isso pode significar, agentes?

— Não. — Sam mentiu, eles sabiam bem o que isso significava. — Mas vamos voltar a investigar.

Possessão.

Olhos negros era sinal claro de possessão demoníaca – e isso os Winchester já estavam cansados de saber. Mas não tinham muitas opções agora. O jeito era começar a buscar informações, sinais que aconteceram antes dos ataques. John havia feito isso enquanto caçava Azazel. Mas Azazel tinha um padrão, nada garantia que Abbadon iria ter um. E o motivo do ataque – se havia sido obra de Abbadon – não estava claro. Sam começou uma pesquisa meio avulsa sobre os guardas e as coisas que antecederam o ataque. Já Dean resolveu estacionar em frente a uma lanchonete – e claro, havia reclamado mais de mil vezes que estava cheio de fome.

— Aqui está seu lanche natureba. — entregou o pacote a Sam ao entrar no Impala, mas o caçula pareceu não dar muita importância. — Cara, você não comeu quase nada!

— Não estou com fome, Dean. — ele respondeu com os olhos grudados no computador.

— Mas você precisa comer alguma coisa! — Dean estava preocupado, Dean não comia desde que acordou no Impala após a possessão e comeu um pedaço de sanduiche de pão integral, Sam não era assim. — Ou vai querer que eu arranje aqueles desenhos de colorir que o papai te dava quando você não queria comer?!

Sam encarou o irmão que sorria exageradamente.

— Ok, Dean. Deixa ai que agora eu como. — disse sem muita vontade.

— Ok, mal humorado! — Dean queria ter certeza que Sam ainda teria hábitos humanos, o que não estava tão claro agora. — E você, descobriu algo?

— Nada até agora.

— Deveríamos ligar para o bunker só para ter certeza que as coisas estão bem. — Dean procurou seu celular no bolso do casaco, quando o encontrou se deu conta que estava sem bateria. — Cara, meu celular está mortinho!

Sam franziu a testa e buscou o seu em seu bolso.

— Usa o.... — ele nem terminou a frase, o telefone começou a chamar, o caçula atendeu prontamente. — Alô.

— Agente?

— Sim... ah...

— Aqui é o delegado Wilson. — disse o homem. — Temos uma coisa que talvez possa interessar a vocês.

Assim que finalizaram a ligação, o Impala seguiu em direção ao shopping Greenville.

No final da manhã a rua já não estava tão cheia quanto antes. Os corpos já haviam sido retirados do lugar e as pessoas já não estavam aglomeradas atrás de uma boa fofoca.

Só alguns poucos carros de polícia ainda permaneciam ali. O motivo da ligação era para avisar que algumas imagens das câmeras de vigilância haviam sido recuperadas. Sam e Dean entraram no shopping. O chão ainda estava ensanguentado, haviam objetos em todo o espaço. Os sinais da confusão ainda eram bem visíveis. Os Winchester seguiram até a sala de segurança onde estava o delegado, Wilson. E ele deixou bem claro que o conteúdo dos vídeos não era muito útil. No início das cenas puderam ver os guardas e as pessoas. O começo dos ataques. E eles realmente pareciam estar fora de si. Cenas de agressão se seguiram. E em algum momento um rosto ficou evidente. Dean e Sam se entreolharam Aquele rosto feminino era conhecido. Abbadon.

— Precisamos falar com Kevin. — dizia Dean ao sair do shopping ao lado do irmão. — Que ele procure em todo o bunker qualquer informação a respeito de Abbadon. Como matar um cavaleiro do inferno ou qualquer coisa assim?!

Sam buscou seu telefone no bolso enquanto dava a volta no Impala. Os Winchester não haviam nem entrado no carro quando uma moto parou bem diante ao carro. E com uma figura conhecida. A morena tirou o capacete e os encarou. Dean franziu o cenho.

Que diabos!

— Eliza? — Sam estranhou.

— Sim, esse é o meu nome. — ela sorriu. — Eu preciso falar com vocês!

— O que você faz aqui? — Dean perguntou azedo.

— Eu disse que preciso falar com vocês! — ela encarou o Winchester zangada.

— Sobre o que?

— Sobre Abbadon.

— Abbadon? — Dean estreitou o olhar. — O que sabe sobre Abbadon?

— Ela ligou. Acho que conseguiu seu antigo número por um amigo de vocês. Um tal de Irv.

— Irv? Irv Franklin? O amigo do Bobby? — Sam perguntou ao irmão. — Não era com ele que o Bobby trabalhou no caso dos gêmeos metamorfos? Como ele poderia saber seu número, Dean?

— Eu liguei falando dos anjos. — respondeu o mais velho. — Liguei para os caçadores que conhecemos, todos precisam estar em alerta.

— Kevin estava tentando desesperadamente falar com vocês, mas o celular dava sinal de desligado e ele não tem outro número de contato. — Eliza explicou.

Dean encarou o irmão, maneando a cabeça.

— E o que Abbadon quer? E porque Irv daria o nosso número? — Sam indagou.

— Ela disse que tem alguns caçadores presos e passou as coordenadas. Kevin verificou e se trata de uma cidade abandona no Colorado. Eugene. E Abbadon deixou claro que se vocês e Crowley não forem até lá, ela vai matar não só os que estão presos. Ela vai abrir a temporada de caça aos caçadores!

— Maravilha! — Dean disse com sarcasmo, depois se voltou ao irmão. — Liga para o Kevin e diz para ele revirar aquele bunker atrás de um jeito de matar a vadia!

Sam assentiu, afastando-se para fazer a ligação.

— Então...? — Eliza estreitou o olhar. — Vocês vão até lá? Isso é uma armadilha.

— É, nós sabemos. — Dean se limitou a dizer. — Obrigado por avisar, nós agradecemos por isso. Agora é melhor que volte para o bunker. Lá estarão mais seguros.

— Quando se tornou uma mãe super protetora?

— Mesmo aqui você está em risco. — Dean disse sério. — E não vamos deixar ninguém em risco desnecessariamente.

— E se eu quiser me arriscar? — ela o encarou. — E se o Castiel achar que existe algo pelo que realmente vale a pena se arriscar? Ou mesmo o Kevin?!

— Do que você está falando?

— Que não fez um dia desde que te conheço e me parece que você quer dizer o que o mundo inteiro tem que fazer. — ela gesticulava com as mãos. — Ou quer colocar todo o mundo embaixo das suas asas!

— Nem faz um dia que eu te conheço e já sei que você fala muita besteira. — ele disse seco. — De longe se vê que é uma menina inconsequente que não sabe lidar com nada como diz que sabe. Isso não é brincadeira. Temos um caso sério aqui. Então você volta para o bunker e ajuda o Kevin com a pesquisa, ok?

— ... Eu já falei com o Kevin, ele fará todo o possível para achar alguma coisa. — Sam se aproximou dos dois antes que Eliza respondesse. — É melhor irmos, Dean.

Dean assentiu.

— Esperem! — Eliza pediu antes que os dois entrassem no Impala. — Essa moto é de vocês?

— Não! — ambos responderam ao mesmo.

— Então... Eu acho que roubei uma moto. — ela franziu a testa.

— Bom para você! — Dean disse abrindo um sorriso forçado.

Os dois subiram no Impala e o carro partiu. Eliza observou-o sumir no horizonte. Estava irritada com as palavras de Dean. Ele estava extremamente enganado com ela. Ela não era nenhuma menina e não se importava em correr riscos.

[...]

Eugene, Colorado.

Aquela era uma cidade completamente abandonada. Evacuada depois de uma enorme contaminação por vazamento industrial. A cidade continuava fantasma – e segundo Sam ainda existiam vestígios dessa contaminação. Dean não gostou de saber disso. Preferiu nem pensar no que isso poderia resultar. O foco era encontrar os caçadores. E por sorte isso aconteceu bem rápido. Irv – e uma garota que nunca haviam visto antes, mas pelo que descobriram se chamava Tracy – estavam amarrados em uma casa abandonada e depois dos costumeiros testes com água benta para ver se estava tudo “normal”, foram desamarrados.

Eles tinham que acelerar. Demônios os cercavam pouco a pouco. Dean teve uma ideia que acabou lhes dando algum tempo. Deixou seu celular rodando uma gravação e junto aos caçadores, deram a volta na casa. Os demônios ficaram furiosos ao perceberem a armação. Do lado de fora, os quatro decidiram se dividir – tinham água benta, balas com armadilhas do diabo, espadas angelicais... Com tudo aquilo eles tinham alguma chance. Agora só precisavam encontrar Abbadon.

E rezar para que desse certo.

— Irv, nós vamos para a esquerda. — avisou Dean. — Tracy e Sam vão para a direita.

— Ok, vamos em frente! — assentiu Sam, tocando levemente o ombro da jovem.

— Não toque em mim! — ela empurrou-o irritada.

— Hey! Qual é o problema? — Dean indagou.

— Minha família está morta por causa dele!

— O que? — Sam espantou-se.

— Eu assisti meus país serem mortos por uma festinha que um demônio resolveu fazer e toda vez ele repetia que estava comemorando a abertura da jaula de Lucífer!

— ... Ok! — Dean resolveu terminar o assunto por ali, pode notar o quanto aquilo atingiu Sam. — Temos que ir... A dama vem comigo.

Irv assentiu seguindo ao lado de Sam.

— Vamos filho!

De uma forma ou de outra aquilo atingira o caçula como um soco no estomago. E Dean tratou de dizer para Tracy que, apesar de tudo, as intenções de Sam eram boas. Que é humano errar ao tentar acertar. Enquanto isso, Sam e Irv faziam a volta.

— Tudo bem? — perguntou o caçador mais velho ao ver o quanto Sam ficou inquieto e distante, o Winchester balançou a cabeça positivamente. — Bom... Me dá as armas, eu distraio ele para que vocês e a Tracy saiam daqui.

— O que? Isso é suicídio!

— Eu mereço isso. — confessou. — É tudo minha culpa. Eu estava deprimido, conheci uma mulher e me deixei envolver.... E esse é o resultado!

— Que mulher?

— Abbadon.

Irv sentia a culpa em seus ombros. Era culpa dele. Ele havia entregado os números de Dean, de outros caçadores. Ele havia metido Tracy nessa confusão. Claro que Sam não o abandonaria mesmo ele pedindo. O que aconteceu a seguir foi muito rápido. Um tiro vindo de um franco-atirador acertou Irv. Em segundos Sam viu Irv tombar no chão e os tiros começaram. Por sorte o Winchester conseguiu vislumbrar a direção dos tiros. Sam tentou se esquivar correndo em direção a casa onde estavam minutos antes, porém, ao entrar, deu de cara com cinco demônios.

— Boo!

Dean ouviu os tiros e percebeu o perigo. Mas antes que pudesse agir, Abbadon surgiu. E ela estava no mesmo corpo de antes – o que não fazia muito sentido, demônios não possuem apego emocional a nada, muito menos a um corpo. Tracy atirou em Abbadon com as balas especiais. Nada aconteceu. Abbadon levantou a blusa revelando o colete a prova de balas.

— Eu amo o futuro! — disse sorrindo cinicamente.

Dean rapidamente tirou de dentro da sua jaqueta um frasco com água benta jogando-a no rosto do demônio. Abbadon urrou. Dean voltou-se para Tracy.

— O carro está há três quarteirões. — jogou as chaves do Impala. — Vá e traga tudo o que puder.

— Mas...

— Vá!

Tracy obedeceu, embora incerta em deixar Dean com o demônio. Abbadon se recompôs e encarou o Winchester de forma sugestiva.

— Enfim sós. — ela sorriu. — E o Crowley?

— Não pode vir, mas se quiser mandar recado... — Dean ironizou enquanto pegava a espada angelical que trazia em sua jaqueta.

Abbadon o atacou imediatamente. Com agilidade, Abbadon segurou os braços de Dean por trás, fazendo-o derrubar a espada. Forçando-o a se abaixar, ela deslocou seu ombro e encarou-o com sarcasmo.

— Não é assim que um cavalheiro age com uma dama. — ela o segurou com força. — Eu gosto da obediência dos Winchester, por virem quando eu chamo... Isso, e o fato de serem estupidamente suicidas! Eu gosto disso...

A proximidade dela era insinuante, sensual.

— Vamos brigar ou nos beijar? Eu ainda não entendi qual é a sua.

Ela sorriu.

— Sabe... Eu gosto desse corpo desde a primeira vez que o vi. — Abbadon afastou-se para olhar o corpo do Winchester melhor. — Você é o receptáculo perfeito, Dean. Faz as garotas pensarem coisas obscenas... — ela levou a mão abrindo a camisa que Dean tentou inutilmente impedir, mostrando a tatuagem que impede a possessão. — Talvez eu possa apagar essa sua tatuagem e soprar um pouco de fumaça para dentro de você.

— Já está um show de horrores lá dentro, acredite. — ele ironizou.

— Não há nada ruim que não possa piorar. — Abbadon retrucou se tornando séria. — Já sentiu o sangue de uma criança pingando no seu queixo? Ou uma garotinha gritando enquanto você estripa ela? Eu prometo, te deixo assistir tudo. E... — ela parou.

Um som começou a se aproximar. O som de uma moto. Dean encarou assombrado algo que surgiu atrás de Abbadon, o que fez o demônio virar-se. Uma garota desceu da moto com uma espada angelical em mãos. Abbadon bufou. Era uma atitude estupida, para o Winchester, Eliza tentar atacar Abbadon. Mas a sua coragem era admirável. Sem soltar a gola de Dean, Abbadon moveu a outra mão e com o mesmo movimento prendeu Eliza por uma força invisível. Ela moveu os lábios, mas o som também não saia.

Abbadon apenas sorriu.

— Quem sabe podemos começar com a sua amiguinha. — Abbadon parecia irritada. — Eu uso seu corpo e nos divertiremos muito, meu amor.

Uma luz muito forte surgiu de dentro da casa pelas frestas e janelas abertas. Forçando a Dean, Eliza e até mesmo Abbadon viraram o rosto.

— Você trouxe anjos?

— Não achou que eu viria sem um trunfo, achou? — Dean mentiu da melhor forma.

Nem ele sabia o que havia acontecido. Em um segundo a luz desapareceu. E Abbadon também. Dean e Eliza estavam livres. Eliza gesticulou e tossiu um pouco, como se antes estivesse se afogando. Ele apertou o passo em direção a casa temendo pelo irmão. Ela o seguiu. Ao entrarem, encontraram “Sam” ajoelhado ao lado de um demônio, em suas mãos a faca da Ruby. Eliza encarou a cena espantada.

Como ele havia vencido cinco demônios?

— O que...?

— Eles iam matá-lo! — a resposta foi imediata.

— Ezekiel? — Dean olhou em volta, Eliza franziu a testa. — O que diabos você fez?

— Eu estava protegendo seu irmão. — ele virou-se para os dois. — Achei que era isso o que você queria...!

— Espera... O que é isso?! — Eliza se aproximou dos dois.

Dean lembrou-se da presença da garota. Era tudo que ele não precisava. Eliza não era uma conhecida em quem ele normalmente confiaria. Talvez não confiasse em ninguém o suficiente para contar sobre isso. Talvez não contaria nem para Bobby se ele estivesse vivo. Era a vida de Sam. Mas não haviam alternativas naquela situação. Eliza estava ali e havia visto tudo.

— Ezekiel, ele me ajudou com o Sam. Me ajudou quando o Sam estava à beira da morte por causa dos testes... Eu acho que Castiel deve ter contado?!

— Sim, eu sei. — ela disse. — Mas ele não me disse que o Sam estava possuído.

— Não, ele não sabe. — explicou. — Ninguém sabe. Nem Sam.

— Mas... Como ele disse sim?

— Nós demos um jeito. Ezekiel está curando o Sam por dentro, mas enquanto isso ele não pode saber de nada.

— Se Sam quiser me expulsar, ele pode. — Ezekiel completou. — Eu estou fraco. Mas se ele me expulsar, ele morre.

— Então, eu preciso... — Dean procurou as palavras certas, aquilo parecia tão difícil. — Preciso que não diga nada a ninguém! Nem Sam, nem Castiel... Por favor!

— Se você acha melhor assim. — ela assentiu. — Mas e o Sam?

— Ele está bem, foi nocauteado. — Ezekiel explicou. — Não vai lembrar de nada.

— E o que diremos a ele?

— Foi por isso que... Usei a faca. — Ezekiel entregou a faca a Dean.

— Esperto. — Eliza disse maneando a cabeça.

Dean franziu a testa. Parecia agoniado agora enquanto encarava os corpos dos homens no chão, sem vida. Ele sabia que era meio que sua culpa. Dean havia convencido Sam a parar o último teste, a não trancar os portões do inferno. Cada morte agora lhe pesaria sobre os ombros. Eliza, claro, estava longe de conhecer o seu dilema mental. Já Ezekiel sabia muito bem da aflição de Dean.

— Eu não sei se... Isso foi o melhor. Eu ainda estou me acostumando com isso. — Dean confessou.

— Eu também. — respondeu. — Mas você estava protegendo seu irmão, Dean. E tudo que ele sabe, eu sei. Eu estou na cabeça dele. Tudo o que fez, você fez por amor.

Eliza arqueou a sobrancelhas.

— É... Olha Zeke. — pausou. — Vou te chamar de Zeke. — Ezekiel inclinou um pouco a cabeça. — Eu não sou muito bom com isso de amor e.... Amor! Mas se tudo isso der errado vai ser minha culpa e....

— Não vai acontecer nada.

Dean parou, por um momento riu de si mesmo.

— Isso é louco. Você é o Sam, mas não é o Sam. E é com o Sam com quem eu falava sobre essas coisas. Mas... Eu confio em você, Zeke. — encarou Ezekiel sério. — E eu só espero que seja um dos mocinhos.

— Eu sou. — Ezekiel respondeu. — Mas eu acho que é isso que um vilão diria. Essa é a coisa certa, Dean Winchester. Você está fazendo a coisa certa.

A conversa não se estendeu muito mais. Ezekiel voltou ao mesmo lugar onde Sam havia sido nocauteado. Novamente voltou a dormir, deixando Sam – embora desacordado – voltar ao controle. Eliza ficou em silencio por algum tempo. E Dean quebrou o silencio.

— Não deveria ter vindo.

— Eu sei o que eu faço. — ela retrucou. — Dean, eu sei o que eu fiz. Não sou caçadora, mas eu tenho experiência.

— O que? Já matou demônios?

— Muitas vezes a mando de Miguel. — ela confirmou. — Ser uma Discipuli não é apenas sombra e água fresca. Eu não fazia ideia que ia dar de cara com Abbadon, se soubesse teria chegado de uma forma sorrateira.

— Falando no mundo acima das nuvens, você... Encontrava muitos anjos por lá? — ele na verdade queria saber sobre Ezekiel, se ela sabia alguma coisa dele, mas não podia perguntar abertamente. — Quero dizer...

— Eu sei e.... Não. — respondeu. — Os anjos não se misturavam diretamente conosco. Quer dizer, não todos.

Sam abriu os olhos voltando a si.

— Sammy! — chamou Dean se aproximando do irmão e Sam o encarou, assustado.

— O que aconteceu?

— Você levou uma pancada e eu te salvei... Como sempre.

— Você matou cinco demônios sozinho?

— Não completamente sozinho. — ele se esquivou, deixando Sam ver Eliza.

— Ele está sendo modesto. — Eliza disse entrando no jogo. — Seu irmão matou quase todos, eu só deu uma força.

— Eu sou incrível. — Dean tentou sorrir de uma forma sincera, mas estava angustiado.

— Eliza? — Sam estava pasmo. — O que...?

— Eu nem pergunto mais. — Dean interrompeu.

O som do Impala estacionando ali em frente os chamou a atenção. Tracy havia achado alguns caçadores no caminho, presos nas casas e pedindo por ajuda. Ela os libertou. E Dean gostou de sua atitude. Sam se sentia inseguro em estar na presença da caçadora que ainda o olhava de uma forma meio torta.

— Agora precisamos ir! — Dean apressou-se, entrando no carro.

— E você, quem é? — Tracy perguntou para Eliza.

— Uma menina super poderosa. — respondeu impaciente, olhava para todos lados. — E a minha moto?

Dean e Sam a encararam sem entender.

— Que?

— A moto, eu estacionei aqui... E ela sumiu.

Eles até deram uma olhada rápida ao redor dali, mas a moto havia sumido. Eliza e Tracy sentaram-se no banco detrás, mas só Eliza seguiu com eles até o bunker. Chegaram lá ao anoitecer. As buscas de Kevin por um jeito de matar Abbadon não deram resultados, claro. O garoto estava atolado em meio de livros e antigas anotações. Castiel também ajudou, mas ele era mais devagar – pesquisa, com certeza, não era o seu forte. Já Eliza ficou feliz por ser recebida por Brian, abanando o rabinho e pedindo carinho.

Não sabiam onde ele havia se escondido, mas aparentemente não havia causado uma confusão ou feito bagunça. Graças a Deus.

Eliza voltou para casa com Brian no começo da noite. Dean bem insistiu em levá-la, mas ela disse que já havia falado com uma amiga. E era verdade. O irmão de Chelsea era o melhor tatuador da cidade – e o garoto mais estranho que havia dado em cima de Eliza, diga-se de passagem – e Chelsea a levaria para fazer uma tatuagem. Chelsea achou a decisão relâmpago de Eliza muito estranha. Eliza já tinha uma tatuagem pequena – Sam e Dean também, era o símbolo anti-possessão demoníaca – no punho. Agora faria uma que a protegesse dos anjos, fazendo-a sair do radar angelical. Chelsea a encontrou em certo ponto da estrada.

E queria uma boa explicação do que ela fazia ali.

Mais tarde, no bunker, a pesquisa continuava. Os arquivos pareciam infinitos. Mais eles liam, mais faltava papeis a serem lidos. E claro, isso falando só dos textos sobre os tipos de demônios. Kevin havia tirado um cochilo merecido e Sam seguiu a pesquisa. Castiel não estava acostumado com aquele tipo de interassão tão “humana”.

Dean foi até Sam depois de deixar Castiel na frente de algum programa de TV.

— E o Cas?

— Bem. Se enchendo de burritos. — Sam dá um meio sorriso com a resposta de Dean, mas o mais velho percebe Sam um pouco tenso. — O que foi?

— Tracy. O que ela disse. Ela não está errada.

— Isso já era, Sammy. — Dean tratou de dizer. — Você ajudou mais gente do que... Ao contrário. O que temos que fazer é pensar no agora.

— Agora? Anjos caídos, Abbadon, Cas sem a graça e Crowley no nosso porão?

— Porcaria... — Dean resmungou. — Estamos vivendo em um sitcom. — Sam riu. — E você, todos os motores funcionando?

— Honestamente? Pela primeira vez em muito tempo eu me sinto realmente bem. Pela primeira vez em... Sempre. Eu acho.

— Isso é.... Bom.

Dean sorriu, embora seu sorriso vacile quando ele desvia o olhar de Sam. E é por essa razão que ele não percebeu o que aconteceu a seguir. Uma luz azul surge de repente nos olhos de Sam. E desaparece. A expressão de Sam muda, parece mais preocupada.

— Dean, precisamos conversar.

Dean encarou o irmão estranhando, mas logo caiu a ficha.

— Zeke?

— Castiel não pode ficar. — disse sério.

— O que?

— Não é seguro, Dean.

— Ele não sabe sobre você. Ele não percebeu nada.

— Nem mesmo um anjo pode me perceber a menos que eu esteja no controle de Sam. Mas esse não é o ponto. Os anjos estão atrás do Castiel. Eles o farejam.

— O bunker é seguro. — Dean tratou de dizer, parecia tão ilógico. — E o Cas, ele pode fazer uma tatuagem.

— Eles o farejariam de qualquer jeito. O bunker não aguentaria um ataque. E Dean, eu não posso correr esse risco. — Ezekiel continuou. — Se ele ficar, eu terei que ir.

— E se você for, o Sam...?

— Eu sei, sinto muito.

Dean bufou, maneando a cabeça. Aquilo era meio desesperador. E Castiel era um bom amigo, parte da família. Ele definitivamente não podia deixá-lo na mão. Mas Sam... Sam era a sua prioridade.

— Eu vou ver o que dá para fazer...

— Sinto muito por te colocar nessa situação.

— Aposto que sim. — disse de uma forma um pouco seca. — E eu preciso perguntar, a Eliza... Porque não limpou a sua memória? Agora ela sabe de tudo e honestamente não sei se ela é confiável.

— Eu não posso mexer na memória dela. — Ezekiel explicou. — Eliza era uma Discipuli e foi condenada a ter todas as memórias. Mesmo as mais tristes e dolorosas como sua morte e a dor da queda. Miguel a condenou, eu não posso fazer nada a respeito disso.

— Miguel a condenou? Porque?

— Eu não sei. — disse, e pareceu bem sincero.

Os problemas surgiam um atrás do outro. Mais tarde Sam já havia ido dormir um pouco e Dean procurou Castiel pelo bunker. O ‘ex’ anjo havia pegado no sono em frente da TV e era muito estranho vê-lo daquele jeito. Dean havia juntado algum dinheiro, a ideia era dá-lo a Castiel.

— Cas! — Dean chamou-o. — Cas! Acorda!

Castiel abriu os olhos.

Ainda sonolento encarou o amigo.

— Dean...

— Nós precisamos conversar.

— Claro. — o ‘ex’ anjo se espreguiçou. — Eu adoro as nossas conversas...

— Você... Você não pode ficar.

E pela primeira vez Castiel estava realmente sozinho.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.