Lost In Paradise
24 Is This The End?
Notas iniciais
CAPÍTULO VINTE E TRÊS — SERÁ ESTE O FIM?
Os raios de sol brilhavam contra a verde grama daquele campo que, em sua magnitude, mais parecia um jardim de esmeraldas reluzentes. A imensidão azul do céu dispunha-se sobre ambas as cabeças enfadadas, loira e morena, que, escondidas por trás de uma moita consideravelmente alta, voltavam-se eventualmente uma para a outra em expectativa e antecipação ao perigo.
Duas horas arrastaram-se lugubremente, mantendo ambas as mulheres em inconstante estado de nervos. A promessa do futuro confronto parecia comprimir o ambiente, dispondo sobre ele seu peso funesto. Um gosto agridoce fazia-se presente na garganta de Regina, vez ou outra, depravando-a de suas razões, fazendo-a cambalear por seu ápice, quase a cair de pronto às emoções. A mão de Emma entrelaçada na sua era a única coisa que a impedia de perder o último fio de sanidade.
Com um estalido, que mais lembrava o som de um cavalo sendo chicoteado, o ambiente foi preenchido por uma fumaça negra, que rapidamente se dissipou, revelando a figura magnificente da Rainha de Copas, em suas régias vestes. O imenso cajado de madeira, cuja extremidade contorcia-se em formato de coração, descansava solenemente por entre seus longos dedos. Os olhos amendoados exibiam brilho maníaco, e davam a impressão de poder matar com um simples bater de cílios.
Regina apertou a mão de Emma uma última vez, antes de fazer o que vinha rondando-lhe a mente nos últimos minutos. A loira a odiaria por isso, mas precisava certificar-se de sua segurança. Com um estalo de dedos, fez com que decaísse por sobre o corpo macio um pano sedoso, cor azul-marinho; observou enquanto o este cobria o rosto atônito da amada, a expressão de dor e sentimento de traição evidentes em seus olhos esmeralda, e rezava internamente para que aquela não fosse a última vez a vê-lo. Aquela não podia ser a última lembrança que teria de Emma. Queria vê-la sorrir novamente.
"Perdoe-me," sussurrou Regina, enquanto virava-se de costas, deixando Emma para trás, congelada, invisível, inaudível, inexistente para o mundo afora; porém, decididamente protegida.
"Majestade," entoou Regina, dramaticamente, readquirindo seu ar de Rainha Má; este, porém, embora ainda servisse-lhe como uma luva, era, agora, luva usada, velha, puída em alguns pontos; pontos estes que, dependendo do olhar que decaísse sobre tais, revelavam sua então descoberta essência: a essência de luz criada por Emma Swan.
"Regina, querida," disse a Rainha de Copas, erguendo a cabeça em superioridade. "Devo confessar: tinha esperanças de que fosse desistir de tamanha insânia," murmurou, ciente, a seu ver, dos planos da prefeita, do começo até o fim.
"Se bem me conhecesse, Majestade, saberia que não pararei até ter de volta o que me pertence," disse Regina, solenemente, em seu tom aveludado. Uma pontada em seu estômago quase a puxava de volta para sua personalidade submissa; entretanto, naquele momento, a pontada era, meramente, uma leve cutucada que a atormentava, lembrando-lhe de um passado o qual ela almejava enterrar. Faria-o naquele momento.
"Onde está aquela sua companheira de cabelos loiros?" perguntou Cora, aproximando-se dois passos de Regina.
"Longe o suficiente para que jamais possa alcançá-la," comentou, casualmente, avaliando suas compridas unhas.
"É mesmo?" perguntou Cora, com um sorriso de escárnio mal disfarçado em seus lábios enrugados. "Pensei que a Srta. Swan houvesse finalmente percebido que você é indigna de seu amor."
Uma grande pontada de dor atingiu Regina em cheio, fazendo com que ela sentisse, embora não possuísse fisicamente um coração, que este se partia em mil pedaços de modo lento e doloroso.
"Diga-me, querida, o que acontecerá quando retornarem a Storybrooke?" perguntou Cora, aproximando-se ainda mais de Regina, quem, devastada, não fez menção de afastar-se. "Ou você mata a população inteira, salvo Emma, ou eles matam você."
Regina cerrou os dentes, dor e raiva mesclando-se em seu interior de forma contínua.
Não. Eu não permitirei, Regina podia quase ouvir a voz de Emma sussurrar ao pé de seu ouvido promessas as quais não podia cumprir. Sabia que, ao chegar em Storybrooke, teriam de lidar com uma multidão de gente com sede de seu sangue real, mas, até aquele momento, a verdadeira complexidade da situação não lhe atingira ainda.
"E o que acontecerá se, por algum milagre, eles a deixarem viver impune? Que acontecerá quando cansar-se de Emma, quando todos os propósitos que, por enquanto, a prendem a ela, se esvanecerem por entre seus dedos? Que acontecerá quando você cravar seu coração?"
"Isso não vai acontecer," respondeu Regina, embora parte de si ainda não estivesse completamente convencida disso.
"Será que não?" perguntou Cora, com um sorriso que era para ser compreensivo, mas que, em sua essência, mais era insinuador. "Querida, você, melhor do que ninguém, se conhece. Sabe de tudo que já fez, de todo o caminho que já trilhou. Sabe de todas as coisas as quais conquistou. Céus, você era a Prefeita de uma cidadela onde as pessoas não lembravam de você! Podia fazer o que desse na telha! Podia manipular todo o jogo e, ao invés disso, o que você escolheu? Escolheu jogar tudo isso fora por causa do amor?" perguntou, escárnio e desgosto tingindo-lhe a voz. "O amor é sedutor, Regina, tanto eu como você sabemos disso. Mas também sabemos que o poder é a verdadeira força."
"Não, não é," disse Regina; embora sua voz soasse fraca e fina, a confiança e a crença em suas palavras eram evidentes. "E sugiro que retorne o que é meu."
"Ou o quê?" perguntou Cora. "Vai me matar? Vai virar contra sua própria mãe por causa de um amor jovial?"
"Não," disse Regina. "Pelo menos uma vez na vida, vou fazer o que é certo."
"O certo seria juntar-se a mim," disse Cora. "Aceite meu acolhimento, Regina; leve-me com você até Storybrooke. Lá, tomaremos conta de todos que tentarem machucá-la. Lá, juntas, poderemos derrotar o Senhor das Trevas, de uma vez por todas. Ele pagará por tudo que fez com você."
A raiva começou a crescer no peito de Regina. "Definitivamente, Cora, você está me subestimando," disse, entredentes. "Pensa que cairei novamente em seu truque? Pensa que pode me manipular outra vez?" perguntou, cruzando os braços.
A expressão de Cora tornou-se lívida. "Bem," ela disse, suspirando. "Então você não me deixa outra escolha," ela disse, sacudindo a cabeça negativamente. "Não vou permitir que cometa este erro, Regina. Não vou permitir que se submeta ao amor."
Cora estendeu uma de suas mãos e retirou a parte de cima de seu cajado. Com um estalido de dedos, esta perdeu o formato de coração e logo transformou-se numa caixa de madeira. Imediatamente, o som pulsante invadiu o ambiente, fazendo com que todos os pêlos na nuca de Regina se arrepiassem. Sua boca tornou-se repentinamente muito seca ao perceber que caíra em uma armadilha.
Como pudera ser tão burra?, perguntava-se, sem cessar, enquanto observava Cora, com hábil agilidade segurar o coração vivo de Regina em suas mãos.
"Esta é sua última chance, Regina," disse Cora, enquanto apertava lentamente o órgão em suas mãos.
Uma dor aguda espalhou-se pelo peito de Regina, quem levou a mão direita ao lugar ardente, a fim de tentar controlar os espasmos. "Chance de quê? De me submeter a você? Jamais," exclamou, enquanto lutava para permanecer de pé. Se Cora ia matá-la, não seria em sua posição submissa. Ainda podia — e devia — lutar. Emma jamais a perdoaria se não lutasse.
Com um rápido meneio de suas mãos, Regina lançou Cora no ar; esta voou pelo menos um metro para longe daquela. O coração, no entanto, continuava firme em suas garras. Erguendo-se em fúria, Cora avançou contra Regina; a cada rápido passo que dava, seus dedos pressionavam com mais e mais força o coração. Este pulsou freneticamente, quase como se protestasse e tentasse livrar-se do aperto mortal; porém, muito não durou para que a tensão aplicada fosse intensa o suficiente para transformá-lo em pó.
A dor que tornara-se excruciante ia, então, diminuindo gradualmente. Regina caíra ao chão, submetendo-se à inconsciência por nada mais que alguns segundos. Seus olhos se abriram para sua nova realidade, para seu pesadelo interminável, para a eternidade de sofrimento que a espreitava, pronta para enlaçá-la em seus braços ardentes. Naquele momento, seu destino havia sido, outra vez, roubado de suas mãos e tortuosamente distorcido em outra direção.
Cora, então, com um estalido de seus dedos, fez com que o manto que se sobrepunha a Emma escorregasse ao chão, revelando sua imagem, ainda congelada, chocada, com a boca entreaberta num grito silencioso.
Regina ergueu-se do chão a tempo de ver Cora avançar contra Emma. Ela não, foi o único pensamento que cruzou-lhe o intelecto quando ela lançou uma corrente de fumaça azul contra Cora, que a nocauteou.
Correndo até a forma inconsciente da Rainha, Regina rapidamente concentrou suas forças; no momento seguinte, uma imensa bola de fumaça azul-marinho começou a se formar em suas mãos, atingindo dimensões inimagináveis. Quando encontrava-se grande o suficiente, lançou-a contra Cora, que foi engolfada e engolida, e a fumaça, então, se dissipou, sem deixar sinal algum de vida para trás.
Pronto, pensou. Aquele era o fim de sua história. Respirando fundo, Regina conseguiu manter à distância por um segundo mais todos os sentimentos que a espreitavam com a promessa de dilacerar-lhe a alma. Levantando o olhar em direção a Emma, sussurrou-lhe uma última vez um pedido de desculpas e, erguendo as mãos no ar, conjurou outra bola — desta vez, branca —, que engolfou e engoliu a forma ainda congelada de Emma, dissipando-se logo em seguida, e deixando Regina completamente sozinha.
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