Losing my Humanity
38 Cap.37─ You like me
Notas iniciais

A dor de cabeça passou, e aos poucos me sinto recobrar a consciência. Sei que deveria abrir os olhos e voltar à rotina, talvez voltando pro colégio e assistindo as ultimas aulas , mas a ideia de nunca mais ver Carter nem em alucinação machuca muito. Parece que acido corre em minhas veias, e apesar de meus ouvidos terem parado de zunir não me sinto muito mais saudável do que uma hora atrás.
Sinto o macio de roupas de cama acariciando minha pele, e por um momento esqueço eu não estou em meu quarto. Ouço o discreto som de respiração vindo provavelmente do outro lado do cômodo e acabo por me obrigar a abrir os olhos. Minha visão demora a se focar, mas por fim avisto Peter bebericando distraidamente numa xicara listrada em tons de verde, sentado numa poltrona encostada contra a parede oposta a mim.
─ Já estava na hora. ─ ele suspira, num tom entediado. A afirmação aborrecida me faz procurar por uma janela, que localizo a minha esquerda exibindo as lindas cores de um anoitecer pálido em Beacon Hills.
Tento levantar num salto da enorme cama de casal onde fui deitada, mas ao arriscar o movimento meu pescoço parece receber o peso de dois elefantes dançarinos, minhas pernas bambeiam e minhas mãos não servem como apoio, me fazendo cair com tudo de volta ao colchão.
Me pego gemendo de frustração, minha garganta repuxando-se num nó. Não vou chorar. Não aqui, nem agora.
─ Quem é Carter? ─ Peter pergunta sem se preocupar em me dar algum tipo de ajuda.
─ Onde ouviu esse nome? ─ rebato automaticamente enquanto me ajeito entre os lençóis, recostando a cabeça na cabeceira acolchoada.
─ Depois de incontáveis minutos ouvindo você sussurrar esse nome, achei que seria digno de nota. ─ ele engole mais um pouco do líquido que identifico sendo café.
─ Ele... ─ começo, mas percebo no meio da sentença que não é minha obrigação dizer nada a ele. Mas também percebo que invadi sua casa e desmaiei em cima dele, então contar uma simples verdade não iria tirar pedaço ─ Foi o rapaz da cela. O que morreu.
─ Bem, eu já esperava que dissesse isso. ─ele suspira decepcionado.
─ E por que perguntou?
─ Tinha esperança que fosse algo um pouco mais original.
Penso em dar algum tipo de explicação adicional, talvez contar minhas visões, mas frio começa a percorrer sob minha pele, fazendo meus dentes se chocarem assustadoramente. E quando passo os dedos pela testa tentando espantar dos olhos mechas de cabelo, percebo suor escorrendo.
─ M-mas que diabos? ─ guincho.
─ Você está passando pelo que minha família chamava de “Conflito”. ─ ele põe a xicara numa mesinha de madeira ao seu lado.
─ O que isso quer dizer?─ concentro minhas forças para conseguir pronunciar as palavras.
─ Seu corpo e sua mente estão brigando por causa da sua nova condição, ─ ele gesticula com as mãos enquanto esclarece ─ um, aceita prontamente a transformação, gostando da força e saúde adquiridas. O outro luta para se adaptar aos novos instintos, aos novos desejos, e a como o seu antigo “eu” convive com tudo isso. Provavelmente por isso você desmaiou.
─ Faz sentido. ─ me concentro em fazer minhas mãos parar de tremerem ─ Como faço parar?
─ Acho que só depende de você, ou talvez seja apenas uma questão de tempo. ─ ele me analisa como se fosse um médico ─ Já aconteceu antes?
Busco em minha mente algum evento parecido. Venho vivendo numa grande novela dramática sem graça, o que torna selecionar apenas um evento ruim um tanto trabalhoso, mas acabo por relacionar minha crise atual com o dia do meu primeiro encontro com Parrish, quando acabei na casa de Scott chorando e me debatendo como uma verdadeira louca.
─Uma vez.
─ Então a coisa está feia. ─ ele se delicia ao ver minha expressão de desespero contido ─ Tem que decidir quem você quer ser, ou essas crises não vou passar nunca.
─ Mais ultimatos. ─ meu tom é desdenhoso ─ Por que todos continuam agindo como se eu tivesse opções, como se eu tivesse escolhido ser assim?
─ Porque na verdade você tem. ─ ele balança a cabeça afirmativamente ─ Não ter a opção que deseja não significa ficar sem opção alguma.
─Quer saber?! Não importa, acho que está resolvido no fim das contas. ─gesticulo, pensando em encerrar a conversa, mas a curiosidade me toma antes que eu o faça ─ Você já passou por isso?
─ Não. ─ ele responde triunfante ─ Ao contrário desses jovens de hoje eu sempre soube quem eu sou, e o que quero.
─ E o que seria? ─tento não me intimidar com seu tom sombrio.
─ Ah minha cara, já não ficou evidente? ─ ele se diverte com minha postura defensiva ─ Poder. É a única coisa que realmente importa.
─ Então não se importa realmente com Malia. ─ digo após um minuto inteiro encarando a parede de tijolos atrás dele ─ Não é?
─ Ela é uma questão a parte. ─ele se remexe desconfortável na poltrona.
─ Como sabe se ela é realmente sua? ─ pondero.
─ Lydia Martins. ─ ele se limita a dizer ─Não acredito numa só palavra que ela diga em sã consciência, mas confio em seus poderes de banshee.
A menção do nome me causa arrepios. Ultimamente, não raro encontro Lydia com o olhar vidrado em meu rosto, como se tivesse alguém sempre sussurrando em seus ouvidos sobre as coisas que eu fiz. Ela sempre fica apreensiva quando estamos sozinhas, com medo do que posso fazer.
─ É, ela tem lá seus talentos. ─ respondo, tentando soar fria.
A conversa se encerra por alguns minutos, enquanto Peter leva sua xícara de volta a cozinha. Quando ele retorna, fica recostado na soleira da porta com os braços cruzados, me analisando com um pouco de impaciência.
─ Vai levantar logo, ou vou ter que te carregar até em casa?─ ele pergunta.
─ Me carregaria até em casa? ─ finjo uma expressão esperançosa, e observo o rosto de Peter se contorcer em tédio.
─ Precisa ter algumas aulas sobre sarcasmo.
─ Para Peter!─ levanto devagar da cama, começando a juntar meus pertences e a coloca-los em ordem na mochila ─ Você gosta de mim...
─ Acabou de me lembrar do motivo pelo qual nunca ajudo as pessoas. ─ ele revira os olhos e balança a cabeça negativamente.
─ Qual é?! ─ o ignoro ─ Você me convidou pra cá tem poucos dias! Depois me deixou invadir seu apartamento, lavar roupa na sua máquina, e quando desmaiei me deitou na sua própria cama!
─ Te deixar jogada no chão bloqueando a passagem pareceu inconveniente. ─ele responde.
─ Não, você gosta de mim! Ou... ─ já com tudo pronto pra ir embora me aproximo da porta, mas ele ainda bloqueia a passagem. Não me intimido ─ Você precisa de mim. Quer minha ajuda, e toda essa gentileza, e a conversa de se importar com Malia é só um jeito de me ganhar.
─ Pra quê precisara de você?─ ele reage como se eu merecesse morar num sanatório.
─ O que quer acima de tudo?─ pergunto retoricamente ─ Poder. Quer me ter ao seu lado, assim seria mais fácil chegar até Scott e vence-lo, se tornando alfa novamente.
─ Eu sou o alfa. ─ ouço seus dentes rangerem─ A cor dos meus olhos não muda nada!
─ Devo dizer que gosto dos seus olhos como estão. ─ ele cede passagem ─ E mais, sinto lhe informar, mas nessa partida de cartas entre você e o Scott, eu sou só o coringa. E o coringa sempre fica de fora.
Antes que eu chegue à porta de saída do andar, ele vocifera:
─ Depende do jogo. Não se ache tão imune, todos têm que tomar partido uma hora ou outra.
─ Adeus Peter. ─ respondo sem me virar, desejando apenas chegar logo em casa.
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