Losing my Humanity
29 Cap. 28 ─ I feel good
Notas iniciais
Depois de adormecer apenas quando os primeiros raios de sol entravam pela cortina, acordo com Stiles fazendo cócegas no meu pé. Antes de percebê-lo, chuto forte o primeiro corpo que encontro pela frente, o arremessando para o outro lado do quarto. Quando ele se bate contra a parede e cai sentado, com os olhos esbugalhados de susto, os braços levantados como se alguém fosse o pegar no colo , e a respiração falhando, corro em sua direção e o ajudo a levantar, o pondo deitado na cama.
Após alguns minutos o ajudando a controlar a respiração, e fazendo massagem em suas costelas, me dou conta que a culpa daquilo ter acontecido foi toda dele.
─ Mas que diabos Stiles?! ─ começo a quase gritar, sentindo os nervos à flor da pele ─ Por que diabos foi fazer isso? Sabe que odeio cocegas!
─ Essa devia ser a graça da coisa ─ ele tosse
─ Na próxima vou chutar de proposito ─ começo a arrumar a cama, o fazendo ficar de pé ─ Muito mais forte!
─ Mensagem recebida ─ ele responde, massageando o peito.
─ Onde está Scott?
─ Lá embaixo, tomando café da manhã. Pediu que te chamasse, porque acha que tem uma ideia.
─ Tudo bem, apenas me dê alguns minutos pra acordar ─ me permito sentir um pouco de esperança.
Troco-me, lavo o rosto rapidamente e tento fazer meu cabelo parecer menos desgrenhado. Ainda tenho o estomago dando voltas e mais voltas, rugindo como um leão furioso, mas ao menos não preciso passar por isso sozinha. E se Stiles estiver certo e Scott tiver uma ideia, então há esperança. Desde que não conte a eles sobre as pessoas que matei, ficará tudo bem.
Desço a escada, e ouço pequenos sons vindo da cozinha─ um tilintar de colheres e garfos, um chocar de xicara com pires, uma pagina de jornal que é virada, cereal matinal sendo mastigado. E os cheiros que invadem minhas narinas são quentes e confortantes, apesar de nada atraentes. Entro no cômodo com um fraco “bom dia”, os garotos respondem e sento à mesa .
─ Então Julie, com fome? Fique à vontade, e... ─ Scott começa, mas para e faz uma careta ao perceber o que disse ─ Desculpe, foi sem querer mesmo.
─ Tudo bem ─ asseguro.
Ficamos em silencio até os rapazes terminarem sua refeição. Enquanto lavamos a louça e limpamos cozinha, pergunto:
─ Stiles disse que tiveram uma ideia...
─ Ah, sim ─ Scott gagueja ─ Tivemos, ou pelo menos é uma ideia de onde procurar para termos uma ideia de verdade.
─ E...? ─ insisto
─ Precisamos procurar Dr. Deaton. Ele talvez tenha alguma sugestão de como você pode controlar suas vontades, e até onde podemos achar uma fonte de comida que... Você sabe, não envolva matar ninguém.
─ Não sei─ admito ─ Isso significa contar meu segredo a mais pessoas.
─ Acho que podemos confiar nele ─ Stiles dá de ombros ─ Ele já nos ajudou em várias ocasiões, e tem mais conhecimento que nós três juntos.
─ Tudo bem ─ me rendo por fim ─ Não e exatamente o tipo de ideia que eu esperava, e nem sei como Dr. Deaton pode ser útil no meu caso, mas vocês tem razão, não custa tentar.
***
O caminho até o consultório foi uma tortura. Durante todo o percurso pude ouvir e ver pessoas correndo, caminhando com seus cães, lavando suas varandas, passando sem rumo. Sentir seus cheiros foi tão tentador que comecei a me arranhar por baixo do vestido. Felizmente os meninos não pareceram notar nada.
Ainda na recepção, o cheiro do Dr. Deaton me era tentador. Como era uma manhã de sábado, o consultório se encontrava vazio, e eu não tinha decidido ainda se isso era uma coisa boa ou ruim.
Ele aparece do outro lado do balcão, e me agarro fortemente contra a poltrona onde estou sentada. Scott explica minha situação bem mais resumidamente que eu conseguiria, e o doutor nos chama para a parte privada da clínica.
Levanto-me, e vou caminhando devagar, procurando algo para ocupar as mãos e quem sabe a própria mente. Ao me por sentada numa maca, Dr. Deaton me examina superficialmente, e pergunta:
─ O quanto de fome está sentindo Julie?
─ Estou me segurando muito pra não voar em seu pescoço ─ me forço a responder sinceramente.
─ Bem, então precisamos de uma medida imediata ─ ele diz em meio a um suspiro, enquanto se vira e começa a revirar suas prateleiras.
Stiles se aproxima e põe uma mão em meus ombros, seu olhar é encorajador e me diz mais que qualquer palavra a ser dita.
─ Temo que, assim como a licantropia , não exista uma cura para seu estado ─ o doutor começa, com um punhado de ervas e comprimidos em sua mesa, misturando doses cuidadosas em um tubo de ensaio ─ Mas podemos amortecer seus sentidos, te ajudando a lidar de forma menos agressiva com a fome, pelo menos até encontrarem uma fonte segura de alimento. É tudo que posso fazer por hora, sinto muito.
Ele se aproxima, estendendo o líquido verde escuro com cheiro forte de remédio e capim. Dou uma breve olhada no frasco e encaro Dr. Deaton.
─ Está sugerindo que eu fique drogada?
─ Eu diria que o termo mais adequado seja “calma” ─ ele responde ─ Mas antes devemos calcular a dosagem. Claro que devem ser necessários mais que alguns testes, mas devemos encontrar um meio termo que seja agradável e suportável. O que me leva... Como são suas habilidades curativas Julie?
─ Rápidas, geralmente ─ digo, enquanto o observo pegar um instrumento metálico cortante de sua mesa ─ Mas nos últimos dois dias já não posso afirmar nada.
─ Me permite? ─ ele pega meu braço direito e aponta o instrumento para minha pele.
─ Por que não? ─ sinalizo positivamente com a cabeça.
O corte é superficial e não sangra muito. Alguns segundos passados e já não sinto dor alguma, passados dois minutos e o corte se fora.
─ E então? ─ tento, inutilmente, ler as expressões do doutor.
─ Vamos adotar uma dosagem alta, pelo menos hoje. ─ ele estende o liquido novamente para mim, e despejo tudo garganta abaixo, sentindo o gosto horrível de analgésicos e calmantes, junto com ervas desconhecidas ─ Vou lhe dar todos os ingredientes e prescrever a quantidade necessária de cada um. Deve seguir à risca Julie, alguns deles são um tanto perigosos. Ah, e, por favor, seja discreta, alguns deles não são ortodoxos.
─ Quer dizer que são ilegais? ─ Stiles pergunta, tomando o frasco em suas mãos e analisando os resquícios deixados por mim.
─ Quero dizer raros ─ Dr. Deaton responde, pegando o tubo da mão de Stiles e o lavando cuidadosamente.
─ Tudo bem ─ Scott finalmente se pronuncia após bastante tempo ─ E agora, o que fazemos?
─ Fiquem por perto e a observem. Se por algum acaso a dose for muito forte, voltem aqui e ajustaremos a receita ─ ele entrega um papel e uma sacola a Scott.
Começo a olhar ao redor e reparo em detalhes que até então passavam despercebidos por mim. As paredes do consultório são de tijolos vermelhos, e tem uma aparência antiga. A maca onde estou sentada é dura, nada apropriada pra pessoas. Sem contar que o ambiente é muito mal iluminado pra uma clínica veterinária.
─ Como está se sentindo Julie? ─ Stiles pergunta.
Paro pra pensar um momento. Desde que tomei a mistura suspeita, uma sensação morna dominou meu corpo, e me sinto bem relaxada. Não a ponto de estar com sono, mas é como se meus músculos resolvessem tirar uma folga da tensão.
A fome ainda está presente, mas meu estomago parece preenchido por uma grande bola de vapor quente que amortece as dores. Meus dedos parecem incrivelmente macios e sinto uma necessidade enorme de tirar os sapatos. O mundo sempre foi brilhante assim?
─ Julie! ─ Stiles estala os dedos ruidosamente à minha frente, fazendo com que meu olhar se desvie de meus dedos e se concentre em seus olhos escuros ─ Como se sente?
─ Ah, não dá pra reclamar ─ respondo, o puxando pra mais perto ─ Afinal existem pessoas ao redor do mundo com problemas maiores. Andam assistindo noticiário ultimamente? Já viram como existem pessoas doentes? Alguém devia fazer alguma coisa pra ajuda-las...
─ É minha amiga ─ ele se desvencilha de minha mãos ─ Você está completamente drogada.
─ Não faz mal ─ rio, sentindo meu couro cabeludo formigar ─ Não faz mal nenhum. Não me sinto bem assim há muito tempo, obrigada doutor.
Tento me levantar, mas acabo cambaleando para a esquerda, meu corpo ainda leve demais, e os garotos me seguram antes que atinja o chão.
─ Ah, obrigada rapazes! ─ abraço Scott, e enterro me rosto em seu pescoço ─ É bom contar com os amigos, e... Ei Scott, se lembra de quando perdemos uma aposta e tivemos que nos beijar? Foi muito estranho... É estranho que eu ainda pense nisso de vez em quando? Quero dizer, você é meu melhor amigo, não devíamos estar fadados a um romance bobo de cinema? Porque não me sinto assim em relação a você. Não que tenha nada de errado em você, seus músculos são bem atraentes...
─ Ok, ok Julie, vai com o Stiles por um minuto ─ Scott tem uma expressão engraçada no rosto, como se tentasse não rir de alguma coisa ─ Talvez devêssemos reajustar a dose imediatamente. Stiles, nos espera na recepção?
─ Certo ─ Stiles responde, me puxando para o outro cômodo ─ Vamos lá Bob Marley, vamos nos sentar lá fora.
─ Bob Marley não morreu? ─ pergunto confusa.
Sentamos nas poltronas da entrada, enquanto ouço Dr. Deaton e Scott discutindo sobre coisas totalmente desinteressantes.
─ Eu posso ouvir sabia? ─ sussurro para Stiles, que sorri de um jeito engraçado.
─ Eu também posso ouvir ─ ele caçoa
─ Não bobalhão! ─ viro seu rosto, de modo que possa olhar bem para seus olhos ─ Eu posso ouvir tão bem quanto Scott. Eu sou invencível!
Stiles ri, e não consigo distinguir se ele acreditou em mim ou não.
─ Você sabia que tem covinhas?! ─ Stiles apenas balança a cabeça em concordância ─ São bonitinhas. E pra quê tantos sinais? Ei, já ouviu a lenda que diz que cada sinal em você foi um tiro que tomou em vidas passadas?
Scott e Dr. Deaton aparecem e Stiles se levanta.
─ Tudo certo agora, eu acredito ─ o doutor anuncia.
─ Muito obrigada doutor ─começo a caminhar em sua direção com os braços abertos para um abraço, mas ele recua alguns passos e me contento em abraçar Scott, que está no caminho ─ Durão hã? Tudo bem então, sem abraços pra você. Mas a proposito, como você pode saber tanto sobre tanta coisa? Quero dizer, existe uma faculdade sobrenatural ou algo assim? O senhor tem diploma de esquisitice?
Os meninos me carregam pra fora antes que o doutor possa responder minhas perguntas, parando apenas ao chegarmos ao jipe de Stiles.
─ Não podemos leva-la pra casa assim ─ Scott me põe sentada no capô do carro, enquanto se segura pelos ombros desnecessariamente.
─ Por que não? ─ Pergunto, encarando o céu azul sobre nossas cabeças ─ Me sinto maravilhosa! Quero minha mãe, e minha cama. Me leve pra casa!
─ Podemos leva-la para a Lydia ─ Stiles sugere ─ Ela tem roupas lá, pode tomar um banho e descansar.
─ Bléh, você só quer ficar perto da ruiva─ baixo o olhar, e reparo uma trilha de formigas. Os meninos me impedem de segui-las ─ Apenas me levem pra casa.
─ Não dá Julie, seus pais viajaram, só voltam amanhã ─ Scott diz.
─ Oh, e não me avisaram? ─ me encolho ─ Não sou tão má companhia assim sou?
─ Foi uma emergência ─ Stiles responde ─ Acabou o bacon, eles tiveram de buscar mais.
─ Ah sim, bacon é importante pro papai ─ reconheço─ Então vou pra casa de Lydia. Mas antes, me levem pra ver Carter?
Os garotos se entreolham com expressões culpadas no rosto. Scott abre a boca, mas já sei o que vai dizer.
─ É claro que eu sei que ele está morto, seus bobões! ─ interrompo ─ Mas vocês deveriam conhecê-lo.
─ Julie... ─ Stiles tenta protestar, mas começo a puxa-los na direção do cemitério da cidade, reparando em como as arvores de Beacon Hills são verdes.

Oh, Eu me sinto bem, eu sabia que me sentiria
Eu me sinto bem, sabia que me sentiria
Tão bem, tão bem, por ter você
Oh, Eu me sinto bem, como açucar e tempero
Eu me sinto bem, como açucar e tempeiro
Tão bem, tão bem, por que eu tenho você
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