Losing my Humanity
11 Cap. 10 — Aswers
Notas iniciais

O meu próximo destino era do outro lado do centro da cidade, e com minha infinita sabedoria, eu saí de casa sem dinheiro pra nada. Então , fui caminhando, aproveitando o clima monótono dos últimos dias.Eu observava as casas e lojas enfeitadas com laranja e roxo, as abóboras nas varandas e vitrines, tudo sujo propositalmente com teias de aranhas.
Senti falta da época que eu, Stiles e Scott saíamos com um de nossos pais pra pegar doces com os vizinhos. Lembro que Stiles quase sempre era um personagem de Star Wars , ou um policial, como seu pai.Scott gostava de se fantasiar de atleta, fosse lacross, basquete ou futebol americano.Eu era sempre uma médica, ou professora, ou bailarina, minhas três opções favoritas de profissão.Logo eu descobri que não tinha a menor habilidade pro balé ,então minhas opções foram reduzidas.
Meu estômago rosna alto, me fazendo lembrar meu objetivo, então eu começo a andar um pouco mais rápido. Observando as sombras que meu corpo faz na calçada, penso em como venho sentindo raiva de mim mesma ultimamente.Eu já havia aceitado que a única forma de ter escapado do meu cativeiro foi tendo matado meu sequestrador,mas isso não necessariamente melhorava meus sentimentos de autorrejeição. E Carter. Eu só tomei uma atitude quando já era tarde demais para ele. Eu fui fraca, e ainda sou.
E a minha fome, ela é doentia. Por causa dela, eu passei a gostar do cheiro de sangue.Ás vezes, me pegava imaginando o gosto carne humana na boca.Me pegava observando os pescoços alheios e imaginando o estrago causado por uma boa mordida.E o gosto, como deveria ser bom, revigorante.Esses pensamentos não me incomodavam,apenas me causavam repulsa depois de notar que eu estava me tornando uma psicopata em potencial.
Eu precisava de uma resposta, e sabia que a medicina não era a opção mais viável. Eu precisava conversar com alguém que conhecesse o sobrenatural.Mas não queria perguntar nada pra meus amigos, temendo que eles descobrissem o que eu estava me tornando e se afastassem de mim.
Nesse momento, lembro-me do que Parrish me disse sobre a emergência no colégio, e ligo pra Scott. Ele não atende,então ligo pra Stiles, que responde depois de três toques.
— Hey Julie — ele diz, com uma voz distante, como se estivesse concentrado em outra coisa.
— Hey — eu respondo — Stiles, o que está acontecendo?Soube que o colégio está interditado? Isso tem alguma coisa a ver com a gente?
— Bem, não exatamente— ele responde, eu percebo imediatamente que eles estão com problemas.
— Então você pode me dizer exatamente o que está acontecendo?
— Na verdade Julie, estamos meio ocupados, mas não se preocupe, não é nada que não possamos lidar. Ficaremos bem.
E ele desliga. Posso sentir meu coração acelerando e minha cabeça começa a latejar. Quero voltar pra escola imediatamente, mas Stiles tem certa razão.Nós já lidamos com muita coisa.Acho que eles conseguem se virar sem mim.Eu devia focar em resolver meus problemas, pra não causar nenhuma dor desnecessária pra eles.
Por que talvez eu só estivesse sofrendo stress pós-traumático. A internet não falava nada sobre desejos assassinos canibais, mas ela não era exatamente uma fonte segura de diagnóstico.
Tentando manter pensamentos positivos, eu vejo o aviso na porta: “Aberto”. Tomo uma respiração profunda, e entro. Toco o pequeno sino na recepção e Dr. Deaton aparece, com seu costumeiro jaleco e luvas de silicone.
— Julie! — ele diz com uma expressão pouco surpresa. Na verdade, eu nunca vi o Dr. Deaton realmente surpreso com qualquer coisa que já dissemos a ele — Em que posso te ajudar ?
— Hãn ... — eu digo, revisando minhas desculpas pré-gravadas — Eu tenho uma pesquisa, pra um trabalho de sociologia, e gostaria de sua ajuda pra isso. Pra minha pesquisa .— eu sorrio nervosamente, colocando as mãos nos bolsos da calça.
— Ah, sim. Entre, deixe-me apenas terminar com este rapaz aqui— ele aponta para um gatinho de pelos âmbar, com um curativo nas costas.
Ele troca os curativos com cuidado e o gatinho se contorce um pouco. Depois de sedá-lo e colocá-lo de volta à gaiola, ele se livra de suas luvas, e pendura seu jaleco num gancho próximo, parafusado na parede.
— Então, sobre o que se trata sua pesquisa?
— Bem — eu começo, tomando uma boa quantidade de ar — Eu estou planejando fazer uma apresentação de como algumas lendas se baseiam em doenças reais.
— Interessante — ele diz, arqueando as sobrancelhas — Como posso ser útil?
— Eu não conheço ninguém que saiba mais dos dois lados— eu digo sinceramente — E venho pesquisando na internet, e em livros, algumas doenças mais conhecidas, como o vampirismo e a síndrome de Cotard. Mas vi na internet uma doença, que não consigo pronunciar o nome, em que os sintomas envolvem fome e sede por carne humana.É um tipo de canibalismo estranho,em que as pessoas tem devaneios os tempo inteiro, e comida normal não as satisfaz. Isso se parece com uma lenda que já ouvi quando pequena, mas não consigo ligar uma coisa à outra. Pensei que senhor teria mais sorte...
— De fato, existe uma lenda que se encaixa na sua descrição. Os wendigos.Mas quanto à doença,não se parece com nada que eu já tenha visto,ou estudado — ele diz, inclinando levemente a cabeça, um sinal de desconfiança.
— Wendigos? — eu pergunto, tentando permanecer segura e objetiva.
— Sim. Eles são parte da mitologia do povo indígena Ojíbuas. Segundo essas lendas, o Wendigo é formado a partir de um humano qualquer, que passou muita fome durante um inverno rigoroso, e para se alimentar, comeu seus próprios companheiros. Após perpetuar atos canibais por muito tempo, acaba se tornando este monstro e ganha muitos atributos para caçar e se alimentar. O Wendigo também tem a capacidade de hibernar por anos, e para suportar os invernos, estoca suas vítimas em cavernas subterrâneas onde as devora lentamente.
— É uma lenda bem horrível — eu respondo um pouco surpresa, de como minha história se encaixa em certas partes da lenda — Dr. Deaton, acredita que eles podem ser reais, como banshees e lobisomens?
— Pessoalmente, eu nuca encontrei nenhum. — ele diz, se virando, e caminhando pela sala — Mas acredito que um de nós tem mais experiência no assunto do que o outro.
Eu começo a respirar mais rápido que planejo. Minhas mãos estão tremendo muito,mesmo dentro dos bolsos.Agora o meu sequestro tem uma explicação.Sobrenatural, e doentia,mas ainda sim um explicação.Isso explica por que encontrei Carter aos pedaços, e por que aquela coisa tinha tantos dentes.Explica a cara dele de satisfação quando mordeu minha perna.Explica por que foi tão difícil matá-lo.E mais importante, explica a minha fome estranha.
— Muito obrigada pela ajuda, Dr. Deaton — eu digo,tentando parecer casual — Me ajudou muito, meu projeto vai ser um sucesso.
— Sempre que precisar — ele responde, vestindo o jaleco novamente —Julie, eu apenas tenho uma pergunta.
— Claro — eu respondo, me encostando na parede mais próxima, com medo de desabar no chão.
— Não deveria estar na escola? — ele pergunta, olhando pra mim com uma expressão curiosa, com a boca entreaberta e as sobrancelhas juntas.
— Na verdade sim — eu respondo,tentando não parecer aliviada demais — Mas essa pesquisa já é pra semana que vem, preciso começar logo. Além de que, minha perna está incomodando um pouco hoje.
— Certo — ele responde — Mande lembrança a seus pais.
— Pode deixar — eu respondo, deixando a clínica o mais rápido que posso, sem parecer suspeita.
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