Losing Control
1 Capítulo 1 - Capítulo único
Notas iniciais
Todos têm algum tipo de habilidade, ou ao menos algo que fazem ligeiramente bem, isto é um fato. Mesmo que outros queiram contestar essa afirmação, é fácil quebrar este argumento apontado para a pessoa algo em que ela é boa, contestar por exemplo.
Ainda assim, todos têm momentos em que as habilidades têm uma queda de eficiência. Aos escritores fogem palavras, aos inteligentes fogem respostas, aos médicos fogem diagnósticos. Assim como em dado dia, faltou a Hinata Shouyo – o protagonista da história que se passará – uma habilidade que já lhe estava ficando familiar: a de controlar a bola.
Sim, é fato que antes de entrar no time da Karasuno, seu controle não era lá essas coisas, em especial a recepção. Mas depois de intensos treinos, passou a melhorar. E cada vez menos cometia erros bobos. E então naquele dia a situação pareceu se reverter e até piorar.
Graças à situação do pobre ruivo, tudo que se ouvia eram gritos raivosos de seu companheiro de time, Kageyama Tobio, saindo da quadra de vôlei da escola. E eram muitos gritos. No entanto, não eram eles que frustravam Hinata e sim o fato de que não estavam equivocados. E nem eram sem motivo.
–Seu idiota! Você cortou tarde demais! A bola passou direto por você e eu ainda a joguei na sua mão! – Gritou Kageyama, isso apenas após o sexto corte errado de Hinata.
E então mais reclamações sobre os saques, que Hinata naquele dia errou não um, nem dois, mas todos os que tentou. E então sobre as recepções, que já não eram o forte de Shouyo antes, naquele dia estavam piores, além de não acertar nenhuma, as vezes que tocava na bola, ela voava na cabeça de um de seus colegas de time.
Em outros como bloqueio – que Hinata acertou a bola apenas uma vez e ela foi diretamente para fora, para bem longe da linha – e mesmo o treino de toque, só Kageyama se dispôs a fazer uma dupla com ele, pois o resto desistiu depois de assistir as várias boladas que Nishinoya – sua primeira dupla – levou diretamente no rosto.
E cada vez que acertava Kageyama sentia como se o moreno fosse matá-lo. Olhava para a bola e pensava: “Dessa vez não vou errar, com certeza.”, mas ele errava. E errava consecutivas vezes após isso.
Toda aquela situação era frustrante demais, seus colegas, com exceções óbvias como Tsukishima e Tadashi, o apoiavam, dizendo coisas como “Não se importe” ou “Tudo bem!”, mas Hinata sabia o que pensavam. Perguntavam-se o que estaria acontecendo com ele.
Até onde ele sabia não tinha problemas em casa, sua irmã estava bem, assim como seus pais. Não tinha seu coração partido e nem estava apaixonado. Provavelmente. Mas não era isso que interferia no jogo dele, ele não conseguia mais ter controle sobre a bola, era como se ela o rejeitasse.
–Chega por hoje! – Gritou Ukai.
–M-Mas por quê?! Ainda está cedo! – Hinata protestou, não poderia sair dali sem protestar sobre o fim precoce do treinamento, ainda que quisesse sair dali para parar de sentir-se culpado por seus erros.
–Está vindo uma tempestade, o diretor pediu para que os liberasse mais cedo e é claro para manter a saúde de meus atletas. Agora arrumem tudo e saiam daqui.
Os garotos obedeceram o treinador imediatamente, Hinata os ajudou a limpar, mas procurava ficar distante dos outros, não queria ouvir sobre sua performance no treino.
–Que merda foi aquela, Hinata?! – Ouviu a voz ríspida de Kageyama vindo de algum lugar atrás dele. Virou-se lentamente, apoiado no esfregão e viu Kageyama parado, com o rosto completamente torcido de desapontamento e raiva, pouco pior que normalmente. Também estava com um esfregão limpando o chão, Hinata notou em sua testa uma marca vermelha. Claro, era obra dele.
–Eu não sei, tá certo? Não sei o que aconteceu comigo hoje.
–Bem, se forem problemas pessoais seus, não me interessa, mas não os traga para dentro da quadra!
–Não são problemas pessoais. Eu não podia estar melhor, na verdade. Minhas notas estão boas, minha família está bem e nunca me diverti tanto com vôlei em minha vida... E ainda assim...
Kageyama deu de ombros e foi continuar a limpeza em outro lugar. Hinata acabou sua parte o mais rápido que pôde, porque não podia mais aguentar seus amigos olhando para ele. E sabia que olhavam, talvez não conscientemente, mas aquilo fazia com que ele se sentisse mal.
O que mais o magoou ali, provavelmente foi ouvir por cima Nishinoya dizer:
–...cabeça está doendo. Levei tantas boladas hoje...
E depois Tanaka respondeu:
–Ah, sim. Sua cara está vermelha. O que será que deu nele hoje?
Hinata pedalou para qualquer lugar, o mais rápido que pôde. Nunca havia cometido tantos erros num treino só. Aliás, nunca havia cometido menos acertos antes, e isso era o que mais frustrava, não bastava o número de erros ser alto, o de acertos era bem próximo de zero.
Ele sentiu que estava perdendo a mente, ou pior, perdendo uma das coisas que mais amava que era jogar. Era apenas um dia, mas para ele foi longo e doloroso e no final de tudo, sentia que não haveria mais como recuperar sua capacidade de jogar.
Em algum momento, parou. Algo havia o levado para lá, por algum motivo, ainda era o lugar certo para ir. Uma quadra de vôlei aberta para o público. O lugar estava vazio por causa do tempo, Hinata pensou em ir embora depois de olhar para cima, vendo o céu com nuvens tão escuras, mas descartou a ideia. Colocou a bicicleta deitada no chão e correu até a quadra. Era necessário descer uma escada para chegar até ela, e uma vez embaixo, havia uma grade ao redor do campo que era de areia.
Hinata abriu o portão e entrou, lá dentro havia uma bola de vôlei, por algum motivo. O ruivo nem ao menos se perguntou qual, mas estava lá, uma velha e surrada bola, mas ainda assim uma bola de vôlei.
Andou até ela e a segurou, permaneceu olhando para ela até formar palavras.
–Por quê? Por que não quer me obedecer mais? – Perguntou como se realmente esperasse resposta, que obviamente não veio. Posicionou os dedos e a bola, colocando-a logo a frente dos olhos enquanto olhava para cima, a fim de dar um toque.
Ele tentou, mas a bola saiu rodando demais e exatamente para o lado contrário que ele mandara.
–Dois toques, falta. – Murmurou para si mesmo e foi pegar a bola. Jogou-a para cima do mesmo jeito, dessa vez não foi tão ruim, apesar de ainda girar bastante, ela foi quase reta, mas na hora de dar o segundo toque, ele errou e a bola caiu diretamente em seu rosto. – Espacei demais meus dedos.
E então ele correu atrás da bola novamente para tentar mais uma vez, e depois de uma série de erros, mudou de treinamento. Mas continuou errando em tudo que tentava.
E passou mais de meia hora tentando, até que a chuva caiu, depois das primeiras gotas que sentiu, caíram muitas mais e muito rápido, logo ele estava debaixo de uma tempestade fortíssima, e se viu encarando a bola.
Por algum motivo sentia que estava chorando.
–Isso é... Frustrante demais.
Deitou-se no chão e fechou os olhos sentindo a chuva gelada cair em seu rosto. Não sabia por que estava colocando sua saúde em risco daquele jeito, mas por causa disso entendeu que não tinha um, mas sim dois problemas.
O primeiro era óbvio, ele estava perdendo o controle da bola. Mas o segundo ele foi perceber apenas porque se deitou na chuva e se deu tempo para refletir.
–Eu preciso de alguma coisa. – Falou. Colocando a mão sobre o peito. – Só não sei de que.
Enquanto isso na cidade...
Kageyama estava comprando comida para si, já que seus pais haviam viajado, quando a chuva começou.
–Ainda bem que me lembrei de trazer o guarda-chuva. – Comentou baixo enquanto pagava o macarrão instantâneo que comprara. Mesmo com a chuva muito forte, decidiu sair da loja naquele momento, porque queriam fechar para proteger os produtos do vento.
Abriu o guarda-chuva e saiu correndo dali, procurando se proteger ao máximo da chuva. A temperatura caíra drasticamente também, mas ele havia se agasalhado bem antes de sair de casa.
E Kageyama corria pela cidade para sua casa. Assim o que vai acontecer nesse momento parecerá muita coincidência, mas a vida é cheia de coisas assim, não? Então por que não poderia acontecer agora.
Enquanto corria, Kageyama passou pela quadra de vôlei de areia da cidade e por algum motivo olhou naquela direção e o que viu fez com que parasse. Deitado no meio daquela areia molhada e quase barrosa estava Hinata. O reconheceu pelo cabelo ruivo e a expressão frustrada que não lhe saía do rosto já tinha uma semana. Ele não percebera antes, sempre dizendo que estava bem.
Seus erros não haviam começado naquele dia, já vinham acontecendo há algum tempo, mas naquele treino atingiram seu auge, assim finalmente ele percebeu. Afinal até o dia anterior um acerto compensava um erro, mas naquele dia quase não houve acertos, como foi antes mencionado.
Kageyama vendo a cena patética não sabia se ria ou se ficava irritado, e como era de seu feitio, ficou bem irritado. Desceu as escadas com pressa e entrou no campo. Sentia os músculos de sua face se contraírem de raiva. Chutou com um pouco mais de força que pretendia as costelas do ruivo, que abriu os olhos assustado.
–Que diabos você pensa que está fazendo?! – Gritou o moreno, procurando se posicionar de uma maneira que bloqueasse a chuva que caía diretamente sobre o garoto.
–Pensando, não é óbvio? – Respondeu gritando também, pondo-se sentado.
–Você acha que só porque você foi péssimo no treino de hoje, tem o direito de acabar com sua saúde? – Nesse momento, não sabiam se estavam gritando de raiva ou apenas para compensar o barulho da chuva.
–E por que não? De qualquer jeito minha vida não é da sua conta.
–Sim, pode até não ser, mas sua saúde é. Se você não puder jogar num jogo, acha que nada muda para mim.
–Então basicamente eu sou apenas uma ferramenta, uma estratégia de jogo?
–Não foi isso o que eu falei.
–Foi o que deu a entender.
Kageyama sentiu vontade de socá-lo, e quase o fez, mas respirou fundo. Na verdade, sabia que nunca se perdoaria se tocasse Hinata, isso por que...
–E quem é você para me interpretar, Hinata?
–Eu estou passando um inferno no momento, então poderia pelo o amor, me deixar em paz?!
–Posso, mas não aqui. Não nesse frio. Vamos embora, idiota.
...Ele o amava. Sim, uma informação tão importante sendo dita tão de repente. Mas foi assim que ele descobriu, não naquele momento, mas antes. Em algum momento, ele olhou para o ruivo e ele o viu brilhar. Não literalmente, é claro. E então Kageyama Tobio sentiu medo. A situação que o baixinho estava passando não machucava apenas a ele, mas ao moreno também. Não gostava de ver o garoto sofrendo. Na verdade, ele queria que a vida do ruivo fosse “da conta dele”, mas sabia que isso era pouco provável, então procurava se manter o mesmo. Mas poucos o faziam perder a compostura como Hinata.
–Certo. – Hinata respondeu baixando o tom de voz. Entrou debaixo do guarda-chuva de Kageyama e andou ao lado dele até sua bicicleta. Ainda estava com o uniforme da escola, mas percebeu que Kageyama usava outras roupas, um casaco grosso preto e um cachecol branco. E também usava luvas.
–Hinata, vamos de bicicleta os dois. Assim podemos os dois usar o guarda-chuva.
O ruivo deu de ombros, concordando.
–Certo.
–Mas você vai atrás. Senão eu vou me sujar inteiro com a areia nojenta que ficou nas suas costas.
–Kageyama, seu-
–É isso ou pneumonia. Pode escolher.
Hinata bufou, mas aceitou a ideia, sentando-se na parte traseira de sua bicicleta e segurando o guarda-chuva de modo que os dois pudessem usar.
Kageyama pedalava em silêncio, a chuva diminuíra um pouco, mas atrapalhava bastante o moreno na hora de pedalar, por isso ele não conversava. E também porque não sabia o que falar. Por ele, se declararia ali, naquele momento e veria a resposta, mas achava injusto com Hinata fazer algo assim, então se manteve calado.
No fim apenas tinha medo de que Hinata sentisse nojo dele, não apenas por estar apaixonado por um homem e também por esse homem ser ele.
E cada vez que pensava nisso, se confundia. Não fazia sentido ele ter se apaixonado por outro garoto, era bonito, sentia-se bem para falar com garotas e se daria muito bem com elas. E mesmo assim, quando sonhava com alguém o beijando, fazendo carinho em seu rosto era sempre o dono dos cabelos ruivos. E nunca odiava os sonhos. Sempre que os tinha acordava relaxado e feliz, até com um sorriso no rosto.
E era tudo tão inocente para ele, por que então seria errado? “É tão ruim assim eu ter me apaixonado por ele?” Uma das perguntas que não saía de sua cabeça era essa. Sim, era confuso, é claro que era, até porque o primeiro amor de uma pessoa sempre é confuso. Mesmo que para garotos costume ser menos sentimental. Kageyama não costumava ligar para essas coisas, até perceber que se sentia bem demais perto de Hinata.
Claro, apaixonar-se por alguém do mesmo sexo não é apenas confuso, é frustrante. Kageyama não contara para os pais, e por que contaria? Hinata nem era apaixonado por ele mesmo, seria apenas uma decepção. Ele sempre se imaginava contando.
“Oi, mãe, oi, pai. Então, eu sou gay. E não consigo me declarar para o menino que eu gosto.” Há algo que possa soar mais idiota que isso? Kageyama achava que não. Não basta ser uma decepção, tem que ser uma decepção dupla.
Enfim, Kageyama atravessou a distância entre o parque e sua casa em dez minutos e parou em frente ao portão. Era uma casa tipicamente japonesa moderna, de dois andares.
–Hinata, entre você também.
–Mas minha casa só fica mais uns dez minutos daqui.
–Você já tomou chuva o suficiente.
Hinata concordou com a cabeça e desceu da bicicleta, seguindo Kageyama até o portão.
–Pode deixar sua bicicleta aqui no jardim.
O ruivo fez como o outro pedira, deitando a bicicleta com cuidado. Kageyama rapidamente abriu a porta de sua casa e entrou. Hinata o seguiu logo depois fechando a porta.
A casa do moreno estava aconchegante, o que fez com que Hinata sentisse menos frio.
O moreno retirou seu casaco e cachecol que estavam molhados e os pendurou num cabide ao lado da entrada. Por baixo ainda estava com uma blusa branca de manga comprida, que não molhara. Seus jeans estavam molhados também, o que fez que ele lançasse xingamentos aos céus. Tirou seus sapatos antes de entrar em sua casa, deixando-os logo a frente do degrau que tinha em sua entrada.
–Pode tirar seu casaco agora, tente bater um pouco da areia antes de entrar. – Falou para Hinata.
–Mas vai sujar aqui, melhor eu fazer isso lá fora. – Disse apontando para o chão.
–Lá fora está chovendo. Além do mais, minha mãe não volta até quarta-feira, então não precisa se preocupar, ninguém vai falar nada disso. – Kageyama contou. Ainda era sexta-feira.
Hinata acenou com a cabeça, pendurando seu casaco sujo num cabide e depois batendo a areia molhada de sua calça, fazendo com que ela caísse no chão da entrada da casa do moreno.
–Vamos, suba comigo. Vou te mostrar onde é o banheiro.
–Banheiro? Para quê?
–Para você tomar banho, idiota. – Kageyama respondeu frio, mas por dentro sentia uma vontade estranha de ser gentil. Não havia ninguém ouvindo e era o jeito que ele gostaria de se comportar perto do ruivo, mas se o próprio Hinata não deveria saber de seus sentimentos, então mudar de atitude naquele momento o entregaria.
–E eu vou tomar banho por quê?
–Bem, porque você está pingando essa água fria e isso pode te deixar doente.
–Certo, certo. Entendi.
Kageyama guiou Hinata até seu quarto. Era um quarto simples e bem organizado. Os lençóis de sua cama eram brancos e alinhados, em sua escrivaninha estava tudo organizado, assim como em seu armário. Dentro de seu quarto havia uma porta que levava a um banheiro. Ele empurrou Hinata para dentro.
–Pronto, pare de pingar no meu chão de madeira. – Kageyama fez um sinal com a mão, mandando o ruivo esperar um momento e saiu, foi até seu guarda-roupa e pegou uma toalha perfeitamente dobrada, então foi até o garoto para entregar a toalha a ele. – Aqui. Se precisar de outra pode gritar. Eu não me importo se quiser tomar banho na banheira, — Apontou para a grande banheira que ficava no canto do banheiro. –mas tome uma ducha antes para não sujá-la.
Hinata acenou com a cabeça.
–E cuidado para não se trancar. Aliás, nem precisa trancar a porta, eu não vou abri-la, não se preocupe.
Kageyama fechou a porta e voltou ao seu guarda-roupa para pegar outra calça. Escolheu uma jeans preta, porque não queria vestir uma calça de moletom na frente de Hinata, queria parecer o mais bonito possível. Separou umas roupas que não o serviam mais para Hinata. Pegou um livro e sentou-se em sua cama para lê-lo.
O ruivo demorou um bom tempo a sair do banheiro, fazendo com que Kageyama concluísse que ele tivesse entrado na banheira. O que na verdade o deixou bem feliz, porque assim Hinata estaria mais relaxado.
A porta se abriu, timidamente, para revelar um Hinata seminu. Na verdade, nu, com apenas uma toalha o cobrindo. E por um segundo Kageyama não disse nada. Conseguia apenas ouvir o barulho do vento forte batendo contra a janela e das gotas de chuva caindo fora dali. Olhou para o garoto, e sentiu vontade de cobrir os olhos, envergonhado, mas não o fez, considerando que seria algo estranho a se fazer, e também porque seria a única chance de ver Hinata daquele jeito.
Mesmo quando tomavam banho no mesmo vestiário... Aquilo era diferente, estavam sozinhos, Kageyama estava deitado em sua própria cama e aquilo o fazia se sentir tão íntimo do ruivo.
–Ahn... Kageyama, você tem alguma coisa que eu pudesse vestir? – Pediu, tirando Kageyama de seus pensamentos, que não eram impuros, por incrível que pareça. Ele tinha vergonha de ter pensamentos impuros sobre Hinata.
–S-Sim... Separei algo. – Falou jogando as roupas que ele havia pegado. – E isso aqui... – Continuou jogando uma boxer para Hinata. – É nova, nunca usei. Então pode ficar.
O ruivo corou e voltou ao banheiro, para sair poucos minutos depois, vestido e com a toalha nos ombros.
–Hinata, quer ligar para seus pais? Dizer que está bem?
–Ah, sim. Acho que é uma boa ideia.
Kageyama pegou o telefone que tinha em sua escrivaninha e o entregou para Hinata, que discou alguns números e esperou.
–Alô? Mãe, é o Shouyo. Sim... Está tudo bem... Estou na casa de um amigo... Eu sei que ainda está chovendo... Sei que não dá para voltar para casa agora. Que horas são?... Mas já?!
–Hinata... – Kageyama chamou baixo, fazendo com que o ruivo olhasse para ele. É claro o que ele faria, mesmo que Hinata recusasse ninguém o culparia por tentar. – Você pode dormir aqui.
Hinata formou a palavra "Obrigado" com os lábios para mostrar sua gratidão sem incomodar sua mãe que ainda o ouvia.
–Mãe... Eu posso dormir fora hoje? Não... Não vou ser um incômodo... Não, mãe... Ele me convidou... Kageyama, fala para minha mãe como não vai ser um incômodo eu dormir aqui. – Hinata estendeu o telefone para o moreno, que aceitou receoso.
–Alô?
“Oi, aqui é a mãe do Shouyo. Prazer em conhecê-lo.” A mulher se apresentou.
–Prazer em conhecê-la, eu sou Kageyama. Kageyama Tobio. Sou do clube de vôlei da Karasuno.
“Ah, entendo. Então, Shouyo estava me dizendo que você o convidou para dormir aí.”.
–Sim, é verdade.
“Certeza que não é um incômodo para você?”.
–De maneira alguma. Não precisa se preocupar.
“Certeza, querido? Se quiser, pode mandar Shouyo para casa”.
–De maneira alguma. Está tudo bem, acredite.
“Certo, então. Passe para o Shouyo um minuto.” Kageyama esticou o braço, oferecendo o telefone para Hinata.
–Mãe... Sim... Eu disse que ele que tinha convidado! Não, mãe... Não estou me aproveitando da boa vontade de ninguém... Mãe... Mãe... Boa noite, mãe! Não, mãe... Não... Não... Ah! Certo, então... Beijo mãe, te amo muito... Eu sei que você ama mais, vou desligar, tchau.
Então o ruivo desligou o telefone rapidamente e procurou a base para colocá-lo de volta. Kageyama se levantou para ajeitar o telefone, já que Hinata não conseguira fazer isso direito. O ruivo caminhou até a cama do outro e se jogou.
–Ei! Quem disse para você se jogar na minha cama? – Kageyama reclamou, olhando para o garoto, mas na verdade ele sabia que não tinha nada a reclamar.
–Estou cansado. Já são sete da noite. Vou dormir.
–Eu vou preparar macarrão instantâneo para mim. Quer um pouco?
–Sim! – Hinata respondeu animado.
Kageyama foi até sua cozinha para preparar o macarrão e enquanto isso, Hinata ficou observando o quarto do moreno. Viu uma bola de vôlei no canto e a pegou. Deitou-se novamente e tentou tocar a bola, mas ela continuava a cair em seu rosto, ou a não obedecê-lo, como antes.
O moreno voltou com dois pratos de macarrão, um com mais comida que o outro – Afinal ele dividira sua porção com Hinata e o que tinha mais comida iria para o ruivo.
–O que você está fazendo? – Perguntou ao ver Hinata levar uma bolada na cara.
–Nada, só... Tentando.
–Aqui. Coma. – Kageyama deu o prato com maior quantidade para Hinata e depois entregou os hashi para ele. Os dois agradeceram antes de começar a comer. Pegou, em sua cabeceira o controle da televisão que tinha em seu quarto e a ligou. Estava passando um jogo de vôlei e o moreno pôde perceber como Hinata olhava para os jogadores com tristeza. – Qual o problema?
Hinata disse algo incompreensível por estar com comida na boca.
–Hinata, engula primeiro, que falta de educação!
O ruivo engoliu a comida e apontou para a tela.
–Será que eu nunca mais poderei fazer uma jogada assim? Será que eu nunca mais irei retomar o controle da bola?
Kageyama acabou de comer para responder, o que gerou um silêncio estranho, já que ficou quieto de repente. Assim que acabou levantou para colocar o prato na escrivaninha, viu que Hinata também acabara, então pegou o prato dele também.
Sentou-se ao lado do ruivo e respirou fundo.
–Hinata, você é um idiota? – Perguntou simplesmente.
–O que?! Não! Por que está me perguntando isso, Kageyama?!
–Porque você fica pensando que perdeu o controle da bola quando na verdade você só está se pressionando demais para jogar. Preciso acertar essa. Não é possível que eu erre uma bola fácil dessas. Ela tem que ir diretamente para cima assim como eu penso. Jogar não é assim. Você tem que querer acertar, mas pensar nisso não ajuda.
Hinata refletiu sobre o que Kageyama falara.
–Então... Você não acha que eu estou perdendo o controle?
–Não. Acho que está se pressionando demais.
–M-Mas... Ainda assim... Eu não sei se vou conseguir voltar a jogar.
Kageyama balançou a cabeça como se não acreditasse no que ouvia e saiu de seu quarto para buscar um futon. Era cedo, mas não tinha mais paciência para conversar. Apagou as luzes, acendeu um abajur e se deitou.
–Hinata, não estou mais com paciência para isso. Vou dormir. Pode assistir televisão se quiser, só não esqueça de desligar.
–Mas... Você vai dormir aí? Quer dizer, eu sou a visita.
–Sim, por isso mesmo. Prometi a sua mãe que estaria tudo bem. Só durma de uma vez.
Hinata confirmou, mas assim que percebeu que Kageyama estava dormindo desligou o aparelho e olhou para o teto. “Eu tenho dois problemas: Estou perdendo o controle da bola e me falta alguma coisa, só não sei o que” Pensou, frustrado. Na realidade, aquele fora o dia mais frustrante de sua vida. Fechou os olhos para tentar dormir, mas não se passaram dez minutos e um clarão invadiu o quarto, e não muito depois – o que assustou Hinata – veio um barulho ensurdecedor. E o abajur apagou.
–O que?! O que aconteceu?! – Kageyama acordou assustado.
–Raio. E acho que acabou a energia.
Kageyama se levantou, e procurou um interruptor, testou para ver se acendia, mas não obteve resultados. Com cuidado foi até sua escrivaninha e procurou na gaveta uma lanterna, ao achá-la, a acendeu e iluminou o quarto. Viu Hinata sentado na cama.
–Tudo bem? – Perguntou Kageyama, indo até o ruivo e sentando-se ao seu lado.
–Tudo. Estava pensando sobre aquilo que te falei...
–Idiota! Pare de pensar nisso! Recomponha-se! Aceite que hoje foi um dia ruim, mas que amanhã você vai se esforçar mais para não acontecer de novo!
–Mas e se eu realmente estiver perdendo o contro-
Hinata não conseguiu terminar a frase. Kageyama em algum momento deixou cair a lanterna no colchão para segurar o rosto do ruivo e beijá-lo. O pior modo possível de demonstrar o que sentia, Kageyama pensou, mas agora era tarde para ter remorsos.
Ele se separou de Hinata e procurou pegar a lanterna de volta. Não sabia se queria ou não olhar para o baixinho. Tinha medo de sua reação.
–Desculpe, Hinata. Foi só um... Não sei...
–K-Kageyama... – O moreno olhou de esguelha para o outro, vendo que ele estava completamente corado. – Por que você... Por que você...?
–Eu sei que talvez não seja a melhor hora, mas agora que eu já acabei com tudo... Eu gosto de você.
–Kageyama, eu...
–Não conto com uma resposta, Hinata. Mas gostaria que você não me odiasse. Apesar de saber que é difícil fazer isso.
–Eu nunca... Odiaria você, Kageyama.
Kageyama olhou para Hinata, mas ele estava com a cabeça baixa e com o rosto vermelho. O moreno puxou o rosto do outro para cima, fazendo com que ele o olhasse. E então sorriu.
–Desculpe-me. Não era minha intenção fazer você ficar assim. Nunca foi.
–Kageyama... Eu acho que é você.
É claro que seria fácil dizer que Kageyama não entendeu essa frase que Hinata disse para ele tão inocentemente, e realmente ele não entendeu, mas seria mentira se dissesse que ele não criou esperanças sobre seu significado. E por isso teve medo de perguntar o que queria dizer.
–Como... Assim?
–Acho que é você. O que me falta. Acho que é você. Eu nunca me senti assim antes. Meu coração acelerou e eu estou nervoso... Será...?
Hinata puxou Kageyama para si e o beijou rapidamente, porém repetidas vezes. O que deixou o moreno confuso e esperançoso, e por estar esperançoso, ficou envergonhado e assustado. Por estar assustado, ficou com um pouco de raiva, tudo isso misturado com a vontade de congelar o momento para sempre formava Kageyama naquele momento.
Mas o ruivinho se distanciou dele. E o medo surgiu muito forte dentro de toda a mistura.
–Hinata...
–Kageyama, é você. É você! – Ele falava como se tivesse feito uma grande descoberta. – Eu não vou dizer hoje que também gosto de você, porque nunca tinha pensado no assunto, mas tenho certeza de que você é minha pessoa especial.
–Hinata... – Kageyama tentou se conter, mas não pôde parar de sorrir depois do que Hinata disse para ele.
Então nenhum dos dois queria falar alguma coisa, para evitar estragar o momento, mas não queriam ficar muito longe um do outro, porque poderia cortar tudo, como se um metro de distância fosse acabar com aquela relação especial, mesmo que nem quilômetros realmente fossem fazer isso.
Assim passaram aquela noite na mesma cama, apenas dormiram um ao lado do outro. E naquela semana todos os erros de Hinata sumiram, ele não errava mais, não por um milagre e sim porque não estava mais pensando em jogar bem. Estava pensando em realizar tudo o que era esperado dele para que Kageyama passasse para ele.
Resolver um de seus problemas resolveu os dois. Achou o que precisava e ainda retomou o controle da bola.
Uma semana depois...
Depois de outro treino bem sucedido de Hinata, ele se encontrava comprando um suco na máquina da escola. Aquele dia seria especial. Comprara dois sucos e assim que o último caiu, segurava os dois, um já com o canudo colocado. E esperava certo alguém sair do ginásio.
Ele pensara por um dia no que Kageyama havia dito e depois ficava planejando o melhor jeito de contar para o moreno. Viu o outro deixando a quadra.
–Kageyama! – Chamou. Foi rapidamente atendido, o moreno foi até ele. – Aqui, comprei para você. – Ofereceu o suco que foi aceito com um agradecimento.
–Obrigado, Shouyo. – Em algum momento, Hinata pedira para Kageyama chamá-lo pelo primeiro nome. Kageyama pediu o mesmo, mas Hinata não o fizera o que provavelmente frustrou o moreno. – Bom treino.
Mas a verdade é que Hinata estava guardando isso.
–Kageyama, aquilo que você me disse semana passada... Sobre... Gostar de mim... É verdade?
–Sim. Por que eu mentiria sobre algo assim, idiota? – O moreno resmungou, voltando a beber o suco.
Hinata riu da reação dele.
–Bem colocado.
–Por que pergunta?
–Porque eu pensei sobre isso... E eu gosto de você também, Tobio. – Falou com um sorriso. O rosto de Kageyama adquiriu um tom avermelhado, mas seus lábios formaram um sorriso discreto.
–Vamos embora, Shouyo. Acho que vai chover.
–Você bem que gostaria.
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