Lose My Mind
13 A short trip, a long day.
Notas iniciais
A tarde estava quente e agradável. Desde manhã eu me encontrava alegre, o que não podia ser diferente; e tampouco eu costumava me sentir de outra maneira. Estar de volta à minha terra natal, acompanhado de Ludwig, era a melhor coisa que poderia me acontecer. “Uma pena que esta viagem só durará alguns poucos dias…”, lamentei com um suspiro.
Ludwig, que era um ano e meio mais velho que eu, cursava seu primeiro ano de faculdade na Itália, no curso de Relações Internacionais, e eu pretendia me juntar a ele quando eu me formasse no colégio, no final do ano. Porém, enquanto isso não acontecia, limitávamo-nos a visitas rápidas à casa um do outro e a encontros esporádicos no final de semana. Cada um tinha sua própria vida, afinal. Não podíamos estar juntos a todo momento, mesmo que esse fosse um desejo em comum.
Ele tinha de se preocupar com a faculdade e tomar conta do pequeno apartamento onde residia sozinho. Enquanto isso, eu tinha de tomar cuidado para que minha notas não caíssem, além de tomar conta de meu avô e de minha mãe.
Por isso, momentos como os do presente, em que conseguíamos um tempo a sós eram sempre especiais. Claro que não estávamos apenas a passeio, mas o motivo de nossa vinda também não era algo ruim ou complicado – ou assim esperávamos – e seria rapidamente resolvido. Sendo assim, aproveitávamos ao máximo nossa viagem, sem nos preocuparmos muito com a conversa iminente que aconteceria tão em breve.
Sorri, enquanto levava minha mão à sua, que balançava perdida e sem rumo. Ao sentir o contato, o loiro logo correspondeu, agarrando a minha com firmeza enquanto corava levemente. Apesar de tudo, nada fora pronunciado. O silêncio era confortável e não havia motivos para quebrá-lo.
– Lud… – Chamei-o, ganhando sua atenção de imediato. – Tem uma praça aqui perto e costumava ter um sorvete muito bom. Podemos ir lá rapidinho?
– Ah… Bem, é que Gil está nos esperando… E eu queria resolver as coisas logo.
– Vai realmente ser rapidinho! A gente compra e toma ele durante o caminho! – Larguei de sua mão e agarrei-me ao seu braço. – Per favore!
O loiro ficou a me encarar, nosso deslocamento interrompido. Ele tinha os lábios entreabertos e me encarava com a face corada e um olhar pensativo. Ele fechou os olhos por um momento, desviando a face, e suspirou.
– Tudo bem – cedeu ele, por fim – mas não podemos demorar.
Sorri largamente, agarrando sua mão uma vez mais e o puxando rua afora, na direção que, pelo que eu bem me lembrava, levava à uma das maiores praças da região. Ele chamava por meu nome, pedindo para que eu não corresse, mas seguindo o meu ritmo mesmo assim. Não que ele tivesse muita escolha, afinal eu podia ser bem insistente quando queria.
Nem dez minutos depois de uma caminhada a passos apressados, enfim avistei a praça que pouco mudara nos últimos cinco anos. A fonte, as lojas, as mesinhas de cimento com tabuleiros desenhados… Tudo permanecia em sua perfeita ordem. Um sorriso se desenhou em minha face enquanto eu observava o cenário, o qual se alargou ainda mais ao que avistei a sorveteria.
– Lud, eu vou lá rapidinho. Espere por mim ali, perto da fonte. – Eu disse, apontando ao lugar referido. — Você quer de morango, certo?
O loiro anuiu a cabeça e eu, sem perder tempo, virei em meus calcanhares. Pus-me a caminhar em direção ao estabelecimento de aparência simples, mas de qualidade excelente, os pensamentos ocupados com sabores variados e uma pertinente indecisão.
Pouco depois eu já voltava, um sorvete de morango numa mão e um de flocos na outra. Encontrei o loiro sentado na beirada da fonte. Ele observava minha aproximação com um sorriso na face.
– Obrigado – ele agradeceu, recebendo o sorvete que eu oferecia.
Sentei ao seu lado, deliciando-me com o doce que derretia por conta do calor. Ouvi o loiro pronunciar para que eu comesse mais devagar, que já estávamos atrasados mesmo e que não me desejava sujo.
Obviamente o ignorei, terminando com o doce gelado em pouco tempo. Ludwig encarava-me com o olhar neutro enquanto terminava com a própria casquinha, que se encontrava pouco menor que a metade. Fiquei a fitá-lo, um sorriso contente no rosto. Em resposta, o jovem alemão apenas virou a cara envergonhada, bagunçando a seguir meus fios castanhos com certa força, mas que era sua forma embaraçada de demonstrar carinho. Ri um pouco, eu me sentindo mais feliz do que nunca.
Quando Ludwig acabou também o seu sorvete, apanhei todo o lixo — que incluía guardanapos e colherzinhas de plástico — e me apressei em me livrar dele, jogando-o numa lata próxima.
Quando voltei, estendi minha mão em sua direção, a qual ele logo apanhou. Meu sorriso já o havia contagiado. Ficamos parados por um tempo, naquela troca de olhares silenciosa, mas Ludwig sabia que não podia ficar de namoricos para sempre, por isso não demorou até que um breve “Vamos então.” ressoasse em sua voz grave.
Em resposta, anuí a cabeça, ciente de que realmente já havíamos perdido tempo demais, e de que Gilbert certamente jogaria reclamações sobre nossas cabeças assim que o encontrássemos.
Porém, mais que isso, algo me afligia. Não havia como o dia correr assim tão bem. Alcançarmos a casa do irmão de meu namorado sem que algo inesperado acontecesse no meio do caminho era impossível. Nunca que minha vida haveria de ser assim tão tranquila; não com a má sorte que me acompanhava já há alguns anos. Momentos importantes, ou felizes demais, sempre atraiam má sorte...
E essa má sorte havia acabado de cruzar olhares comigo.
Ludwig me chamou o nome repetidas vezes, quando me viu paralisar de repente. A evidente mudança em minhas expressões parecia tê-lo surpreendido e preocupado, e sua voz era quem me fazia pensar dessa maneira. Ele me chamava, mas eu estava ocupado demais para o dar atenção.
Estranhando meu comportamento, o loiro mirou o ponto onde meus olhos jaziam capturados, compreendendo de imediato o porquê de meu silêncio e de meu aparente e súbito nervosismo.
Juntando toda a minha força de vontade e determinação, ergui o braço e acenei timidamente, um sorriso pendurado nos lábios. Todavia, isso não mudou o decorrer dos fatos, cujo desenrolar em meio que já previa.
Do outro lado da rua, meu irmão mais velho se virou e põs-se a correr, deixando para trás sua companhia que, se a distância não me enganava, eu acreditava ser Antonio, nosso amigo de infância. O dito não demorou em correr atrás do outro, que eu tinha certeza de que havia entrado em uma das suas crises.
Minha mão, que havia até então se mantido estendida no ar, tombou feito uma pedra. Em meu rosto não mais havia um largo e inocente sorriso, mas o peso da culpa; uma culpa que eu sabia ser e não ser minha, ao mesmo tempo. Eu não era o culpado pelas crises de Lovi — nunca fui, afinal nada fiz para provocá-las. Eu sequer entendia direito porque elas existiam.
Sobressaltei-me, ao sentir grandes braços me circundarem. Ludwig me abraçou apertado, trazendo-me ao seu peito sem prévio aviso, fazendo com que eu tivesse agora a cabeça enterrada no tecido de sua camisa. Eu não sabia dizer exatamente quando fui parar ali, no aconchego dos braços da pessoa que eu mais amava no mundo, mas o alivio que eu agora sentia era bem mais importante que dúvidas cujas respostas em nada mudariam minha vida.
– Feli, tudo bem. Não se preocupe. – Ele murmurou ao pé de meu ouvido.
– Eu estou bem – eu disse, ainda mergulhado nos tecidos, que tornavam minha voz um pouco abafada. Agarrei-me a sua blusa, devolvendo o afeto. — Você está aqui comigo afinal.
Ele se afastou levemente, gesto que me surpreendeu, e me encarou com orbes de um azul preocupado e afetuoso.
– Então pare de chorar, por favor.
Meu coração acelerou um pouco, enquanto eu, confuso, levava as mãos aos olhos chorosos.
Mas quando?... Como? E-Eu não me lembro de ter…
Porém, lutar contra as lágrimas apenas fez a dor em meu peito aumentar. Ainda assim, eu não podia chorar; eu já preocupava Ludwig o suficiente. Além de que, havíamos nos tornando o foco de atenção de uma boa parte das pessoas do parque, o que não era agradável.
Depois de esfregar os olhos úmidos até me certificar de que mais nenhuma lágrima os fugiria, forcei um sorriso no rosto e agarrei o loiro pela mão, puxando-o.
– Eu estou bem, – menti – agora vamos logo. Gil nos aguarda.
– Feli… – Ele soava preocupado, entretanto mais nenhuma palavra saiu de seus lábios.
O loiro obedientemente me seguiu, o silêncio nos acompanhando. As coisas não estavam bastante agradáveis e eu me perguntava se devia soltar de sua mão, pois as minhas estavam um pouco suadas. Todavia, quando ameacei cessar o contato, o aperto sobre a minha apenas se tornou mais forte e firme. O trajeto de pouco mais de vinte minutos acabou por ser feito todo de mãos dadas.
Quando chegamos à casa familiar, mas que eu não havia visitado tantas vezes assim, o loiro enfim permitiu que eu o soltasse. Ao me ver livre, juntei minhas mãos, esfregando-as até que o suor frio se dissipasse. Enquanto isso, Lud já havia apertado a campainha e, a esta altura, eu já inclusive ouvia uma voz alegre se aproximar.
– Bem vindos! – A voz nos recebeu, abrindo a porta com força desnecessária.
Ver a figura albina e sorridente à nossa frente me fez perceber que agora não era a melhor hora para eu ficar me preocupando com questões cujas soluções eu não conhecia. Por isso, forcei um sorriso nos lábios, o mais honesto que pude, e cumprimentei o anfitrião:
– Há quanto tempo, Gil – eu disse, observando o albino que abraçava seu irmão caçula centímetros mais alto como uma mãe que vê o filho voltar seguro depois da guerra. Gilbert logo largou Ludwig, que pareceu um pouco aliviado, e põs-se a me abraçar então.
– Feliciano! Você está tão crescido que eu mal te reconheci!
– Haha, você acha? – Perguntei, um tanto sem jeito.
Ludwig encarava o irmão, que ainda me abraçava, e eu podia ver bem certa raiva em seu olhar. Ciúmes, talvez. A cena me fez sorrir um pouco mais honestamente. Entretanto, quem nos interrompeu foi um quarto indivíduo, que surgira sabe-se lá de onde, e cuja figura eu pouco recordava.
O jovem moreno bateu na cabeça de Gilbert com um rolo de jornais, mandando-o se comportar. Por algum motivo, este o obedeceu – e rapidamente, ainda por cima. Surpreendi-me ao ver que existia alguém que conseguia controlar o albino com tanta facilidade.
Gilbert, que agora afagava seus cabelos brancos com um bico na face, virou-se ao desconhecido.
– Isso era realmente necessário, Rod? E você não disse que ia esperar lá dentro?
– Acontece que vocês estavam fazendo barulho na porta e não entravam. Vim ver o que estava acontecendo.
– Você deve ser Roderich Edelstein. – Ludwig os interrompeu, entrando numa conversa que até então parecia ser impenetrável. A interação entre os mais velhos não deixava vaga para terceiros, mas ele criou seu lugar. — Tenho breves lembranças suas do colégio. E claro que eu sei tudo que preciso, afinal o Gil sempre fala de você.
– É… É mesmo?... – O moreno apertou a mão do loiro, um tanto encabulado.
– Mas é claro que sim, Rod! Eu tinha que deixar o Lud a par de seus incríveis feitos!
– Por quê? – O jovem, ainda corado, perguntou, apesar de eu sentir certo receio em sua voz.
– Eu tinha que deixar claro ao Lud que o meu namorado é alguém tão incrível quanto eu!
Gilbert dizia aquilo como se fosse óbvio, e algo nada fora do cotidiano. Por algum motivo, a revelação não me surpreendeu. Eu meio que já imaginava que era esse o caso, pela interação dos dois.
E eu não conhecia esse tal de Roderich, mas eu já o admirava por conseguir aturar tão tranquilamente uma pessoa com Gilbert. Afinal, mesmo depois das palavras constrangedoras do outro, tudo que ele fazia agora era balançar a cabeça, suas bochechas um pouco avermelhadas.
– Vamos entrar de uma vez?... – O moreno pediu — Senão o chá e biscoitos que fiquei desde manhã fazendo irão esfriar.
Joguei meus olhos castanhos-mel ao lado, onde os irmãos se entretinham numa conversa aparte, sem sequer darem atenção ao outro jovem. Sem perder mais tempo, Roderich suspirou e agarrou o albino pelo braço, arrastando-o para dentro. Gilbert, confuso, exigia explicações do porquê da pressa, já que biscoitos sequer tinham pernas para fugir.
– E mesmo se tivessem, estas estariam tão carbonizadas quanto o resto! – Gilbert completou, ganhando mais uma paulada na cabeça.
Roderich o largou e nos deu as costas, sua face retorcida estava totalmente tomada por um vívido carmesim.
Ele se afastou, caminhando casa adentro, batendo os pés com certa força durante o processo. Gilbert abriu um largo sorriso e correu atrás do outro, deixando eu e Ludwig na porta, ambos sem reação. Por fim, rimos da situação e os seguimos para dentro. Esta sem dúvidas seria uma tarde interessante.
Depois de percorrer o corredor diante da porta, o que encontramos foi uma sala de estar razoavelmente ampla. Um sofá e uma poltrona compunham a sua decoração, junto de mais alguns móveis. Era tudo simples e aconchegante.
Eu e Lud nos sentamos no sofá, junto de Gilbert. Rod, por sua vez, havia sumido antes de darmo-nos conta.
– Então, irmãozinho, — Gilbert passou o braço atrás das costas do irmão que já era bem mais alto e robusto que si, puxando-o para si de maneira atrapalhada. O albino tinha um largo e nostálgico sorriso nos lábios — como é enfim voltar?
– Agradável, eu acho – Ludwig respondeu, simplesmente.
A resposta não pareceu agradar muito o outro, que fez uma cara entediada.
– E você, Feli?
– Ah, bem… – Sobressaltei-me ao me ver questionado, as lembranças do ocorrido na praça vindo-me contra a vontade. – Divertido. Nós até já fomos na praça e tomamos sorvete.
O albino tinha os olhos rubros presos em mim e os lábios entreabertos. Ele parecia incomodado com algo.
– Ei, aconteceu alguma coisa? – Ele perguntou, causando-me um arrepio. — Você está pálido, Feli. Está se sentindo mal?
Mirei minhas mãos, cujos dedos entrelaçavam-se de maneira ansiosa em meu colo.
– Estou bem. Não aconteceu nada de especial.
– Na verdade, nós cruzamos com o Lovino e com o Antonio no caminho para cá – Ludwig falou, fazendo-me erguer a cabeça no mesmo instante, exasperado.
– Lud!
– O Lovino? Ah, é verdade. Ele está morando na casa do Tonio. Mas aconteceu alguma coisa com ele? Vocês brigaram ou algo assim?
– Nós não brigamos… – Murmurei.
– Eles nem se falaram. Lovino fugiu assim que viu o irmão – esclareceu Ludwig, de maneira monótona. — Não que tenha sido a primeira vez que isso…
– Lud, chega! – Eu o interrompi, sentindo-me arranhar as palmas das minhas mãos com as unhas. – Por favor!
Ambos me fitaram, mas eu não prestei atenção em suas expressões. Eu não conseguia. Meu corpo tremia um pouco e minha visão estava turva e embaçada. Droga… Funguei fundo, sentindo o ar encher meus pulmões, e levei as costas das mãos ao olhos que novamente choravam. Droga, droga, droga!...
– Ei, ei! Feli, também não precisa chorar! – O albino exasperado apressou-se a se ajoelhar a minha frente, fitando-me com orbes preocupados.
– Desculpe-me, – o loiro pronunciou de maneira mansa, enquanto segurava uma de minhas mãos e esfregava seu dedão sobre as costas dela – eu não pensei que você fosse se abalar assim. Eu realmente sinto muito.
– E eu sinto por perguntar. Não que eu pudesse saber, mas, ainda assim.
– T-Tudo bem. D-Desculpem-me. E-Eu não sei o que há comigo.
O som de passos nos chamou a atenção, fazendo nós três virarmos para ver o moreno nos fitando curioso, enquanto pousava uma bandeja na mesa de centro. Ao ver minha situação, ele rapidamente se aproximou.
– Gil, o que você fez?! – Ele se aproximou do outro, puxando-o pela camisa para tê-lo em pé.
– Eu quero deixar bem claro que a culpa é apenas indiretamente minha! – O albino tinha um sorriso torto nos lábios. Ele então apontou ao irmão, que, junto a mim, encarava a cena sentado. – Foi ele!
– N-Não foi culpa de ninguém! – Esclareci, antes que tudo se complicasse ainda mais. – Eu apenas fiquei triste por meu fratello ter reagido assim, mesmo depois de quase seis meses separados… Mas acho que era de se esperar, né. Não é como se tempo mudasse tudo. Eu só queria saber o que exatamente fiz pra fazê-lo me odiar tanto.
– Eu não acho que seja ódio, Feli – disse Lud.
– Eu adoraria responder às suas dúvidas, mas também não faço ideia – foi a vez de Gil se pronunciar. – Mas parece que o Tonio sabe de algo. Vocês deviam ir lá, antes de voltarem pra Italia.
– Iremos então. – Ludwig respondeu, sua voz firme e decidida. Ele passou o braço em volta de mim e me puxou para mais perto, beijando o topo de minha cabeça. Minha face esquentou com o gesto, ao que nos vi observados pelos outros dois.
– Eles são adoráveis, não acha, Rod? Você podia aprender um pouco, afinal você disse que queria ser mais ativo e…
– Calado, Gil! – Roderich o interrompeu, batendo-o na cabeça de leve. A situação me fez rir de leve e causou um sorriso. Ao me ver enfim maus calmo, Lud me soltou.
A face do austríaco, que estava totalmente corada, sumiu logo de minha vista. Ele se virou, decidido a servir um pouco de café e biscoitos, os quais aceitei de bom grado, com um sorriso. Apesar de que o café estivesse bom, não consegui dar mais do que uma mordida no biscoito. Ok, talvez Roderich deve-se treinar um pouco mais…
Por educação, terminei o que eu comia, vendo Lud fazer um mesmo, com uma expressão semelhante à minha na face. Por outro lado, nem todos naquela sala eram sensíveis quanto aos sentimentos alheios, e assim, Gil não se conteve ao se erguer e levar os biscoitos de volta à cozinha.
– Desculpe, Rod, mas não posso deixar que eles corram o risco de uma intoxicação alimentar.
– Do que está falando? E volte aqui com esses biscoitos! Ei, Gil…
Gilbert o interrompeu no meio de suas reclamações, enfiando um dos biscoitos na boca do namorado. Roderich empalideceu e sua humilhação era facilmente percebida em sua face.
– Desculpe, jogue-os fora – ele disse, logo depois de se forçar a engolir o que ainda sobrava na boca.
– Você sempre pode tentar de novo, Roderich.
– Não diga isso, Feli. Sabe quem vai ter que comer essas tentativas? Eu! E certamente não desejo morrer por causa das experiências loucas dele na cozinha – balbuciou o albino, que voltava a se sentar, porém na poltrona oposta a nós. Ele tinha uma careta no rosto enquanto nos fitava.
– Bem, de qualquer forma… – Roderich mudou o assunto, sua face vermelha escondida por uma de suas mãos, que ajeitava os óculos de volta ao topo do nariz. – O que vocês queriam falar? Vocês disseram que precisavam do Gil porque tinham algo importante a anunciar.
– Ah, sim… Bem…. – Comecei, sentindo tanto minhas palavras quando eu próprio tremerem um pouco. Lud envolveu minha mão pela sua, em uma aperto reconfortante. Levei meus olhos aos seus, que me encaravam, e entendi o recado: ele desejava que fosse ele a dar as notícias. Nada mais justo, claro.
– Eu vou morar na Itália depois que me formar – Ludwig disse, sem mais delongas.
Os segundos passaram silenciosos, enquanto Gilbert e Ludwig trocavam olhares firmes. Porém, não demorou muito até que a quietude fosse extinguida pela voz um tanto rouca do albino.
– Bem, eu já imaginava. Nada a ser feito. Sem problemas, afinal somos só nós dois mesmo. E se você vier de vez em quando me visitar, verei menos problema ainda – ele completou, com um sorriso.
– Desculpe, Gil. É por minha culpa. Mas eu não conseguiria deixar minha mãe e meu avô sozinhos, então espero que entenda e me perdoe.
– Já falei que não tem problemas, Feli! Eu entendo muito bem o que se passa entre vocês, afinal eu também tenho alguém que amo e por quem eu iria para fosse onde fosse se significasse poder ficar junto dele – o albino disse, calmamente. – Não é, Rod?
– Calado, Gil – exigiu o moreno, cuja face não podia estar mais vermelha. Chegava a ser adorável, inclusive. Se bem que adorável certamente não era a palavra certa para descrevê-lo; apenas foi a melhor que me veio a cabeça no momento.
– Haha, brincadeirinha, Rod. Afinal, eu não te deixaria sequer ir para qualquer lugar. Não sei nem como ainda não te arrastei pra morar comigo.
O som de risadas tomou o aposento. O clima agradável que tomava a sala naquele dia sem dúvidas seria uma lembrança agradável no futuro. Todavia, a amargura ainda me possuía o coração, e essa não me largaria até que eu me acertasse com Lovino; o que teria que acontecer em breve, se eu quisesse minha merecida tranquilidade.
– E quando vocês vão voltar à Itália?
– Em dois dias – informou o alemão. – Temos aulas a comparecer afinal.
É… Realmente muito pouco tempo… Muito pouco tempo para se juntar coragem suficiente e resolver assuntos que jaziam enrolados já há tantos anos.
– Então nós vamos indo, bruder. – Lud disse, enquanto se erguia. Simplesmente imitei o seu gesto, também me pondo em pé.
– Mas já?! Vocês acabaram de chegar! – Questionou o albino. Tanto ele quando o moreno estavam ambos bastante surpresos.
– Desculpem-nos, queríamos ficar mais tempo, mas ainda temos que ver mais algumas pessoas e visitar alguns lugares.
Gil e Rod trocaram olhares por um momento e então concluíram que realmente nada podia ser feito, pois o tempo que despúnhamos era mesmo pouco. Claro que essa conclusão só foi alcançada depois de de um longo e profundo suspiro de Gilbert.
Assim, seguimos em direção à porta. Gilbert guiava a fila, seguido por mim e por Lud, enquanto Rod vinha mais atrás. Na hora da despedida, Gil abraçou o irmão fortemente.
– Trate de cuidar direito do Feliciano.
O loiro correspondeu ao afeto do outro, sorrindo de leve.
– E eu espero que na próxima vez que eu vier visitar, você já tenha proposto ao Roderich.
A vermelhidão que tomou a face de Gilbert contrastou bem com a sua pele e cabelos brancos. Roderich observava-nos de dentro, um pouco distante. Considerando que as palavras de Lud não passaram de um murmuro, eu duvido que ele tenha chegado a ouvir o que era dito entre os irmão — o que explicaria sua confusão ao que o namorado o lançou um breve olhar envergonhado.
– N-Não precisa me dizer! Eu sei bem disso!
Ludwig sorriu mais um pouco antes de segurar minha mão, em um gesto silencioso para que eu me despedisse.
– Então até a próxima, Gil.
– Claro! – O outro disse, o mais animado possível, mas ainda visivelmente abalado. — Ah, e não se esqueçam de passar no Tonio. Seria bom se você ao menos tentasse falar com seu irmão.
– Iremos lá amanhã, – informou o loiro – mas só se o Feli quiser.
– Eu quero sim. Quero muito. Se eu voltar sem vê-lo, vou me sentir pior do que se tentasse e ele não quisesse me ver.
– Entendo – o albino anuiu a cabeça. – Boa sorte então. Lud, – ele virou ao irmão, suas expressões sérias – eu vou te mandar o telefone do celular do Tonio mais tarde, por mensagem. Por enquanto, apenas se concentrem em aproveitar a viagem.
– Certo, bruder.
Ainda de mãos dadas, Lud e eu descemos a rua, não olhando para trás sequer uma vez. Fazendo o que Gil aconselhara, evitei pensar sobre o dia de amanhã e me concentrei em aproveitar essa nossa pequena viagem.
Uma pena que nosso coração nem sempre siga nossos desejos, por mais profundos que sejam.
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