Notas iniciais
Essa não é a continuação do capítulo 3, é uma nova linha de história que acontece quase ao mesmo tempo do anterior. O capítulo 3 será retomado após o capítulo 5.

– Vermelho e dourado, olhos azuis como a água refletem sua grande glória e coragem! — O poeta tremia e seu coração batia cada vez mais forte. Em sua frente estava o homem mais poderoso das terras do sul, um erro e sabe-se lá o que poderia acontecer com ele.

Toda aquela riqueza a sua volta, todo aquele poder, o que ele faria em um lugar como aquele. De paredes carmesim e chão prateado, o que um poeta estava a fazer na sala dos reis?

– Poesia, sim, essa é uma ótima poesia. Meu rei, iremos usá-la na grande festa? — Disse Syllina, uma mulher de cabelos dourados como aquele palácio, as joias em torno de seu pescoço poderiam comprar uma frota de navios. Rubis e diamantes, safiras e esmeraldas, faziam-na brilhar como a mais radiante estrela.

O rei estava cabisbaixo e pensativo, não havia sequer escutado a poesia, sua mente estava apenas focada em encontrar uma maneira de eliminar seus diversos inimigos, selvagens do norte, talenns do oeste, filhos do fogo do sul, e tantos outros que já não era possível memorizá-los. Dois, três, quatro mil do oeste, oito mil do Vale Real, as guerras estavam levando o rei à loucura.

– Syllina, reúna a Guardourada tenho assuntos a tratar nos arredores de Pyne. Poesia pode esperar. — Disse Taryk Drayk, descendente de Drayk Voriak, os reis da dinastia dourada recebiam o nome de seus antecessores, mas apenas se a sucessão fosse de sangue.

– À suas ordens majestade. — Disse a bela conselheira.

O poeta ficou parado, encarando o rei, o pobre homem não sabia o que fazer, apenas foi libertado daquela tortura quando o rei levantou-se do trono e saiu do palácio. Syllina era rápida, lá estavam os melhores espadachins de toda Loriakh, acompanhados pelos mais fortes e bonitos cavalos albinos do sul. Treinados por anos com sangue e fogo, tinham a mesma altura e postura, eram simétricos, os cinquenta da Guardourada, a guarda real de Pulsarok. Com suas armaduras de ouro puro, eram muitas vezes confundidos com paladinos. Os escudos foram colocados em frente as suas pernas, o que dizia que estavam prontos para receberem ordens reais.

– Devemos marchar para Pyne, lá os talenns queimam nossos vilarejos com sua escuridão e trazem desgraça a nossas plantações, marcharemos para oeste e atravessaremos esses fantasmas com nosso aço e nosso fogo. Mostraremos a eles a fúria da Guardourada. — Disse o rei, que inspirava coragem e força.

Syllina aproximou-se do rei e relembrou de uma coisa que para ele não era de grande importância.

– Majestade, a grande festa será daqui alguns dias, a marcha para a guerra pode durar semanas ou meses!

– Que durem anos! Loriakh não será dominada pelas trevas enquanto a dinastia dourada reinar sobre essas terras.

– Meu pai... — Não era de costume filhos de reis da dinastia dourada se referirem a eles por seus nomes parentescos, mas Syllina amava seu pai de todo coração. — Majestade, eu sei que você não liga para festas, mas não é só isso, significa mais, é política e nós precisamos que todos os senhores de guerra aliem seus exércitos ao nosso.

– Eu não preciso de exército nenhum, meus soldados são guerreiros exímios e treinados pelos melhores mestres do Coração e de todos as terras vassalas.

– Não precisamos de espadachins dourados, precisamos de catapultas, aríetes e arqueiros, se queremos reinar precisamos dominar. Você tem apenas tropas de batalha, precisamos de tropas de cerco, nosso império dourado é apenas uma farsa diante de todos os reinos beligerantes do leste, quando descobrirem que nosso ouro não é impenetrável seus cinquenta cavaleiros não conseguirão defendê-lo de ataques vindos do leste, norte e sul, não agora, não como está.

– Vejo que você cresceu filha, comande o castelo em minha ausência e reúna todos aliados que conseguir, o Coração irá pulsar novamente.

Os espadachins montaram em seus cavalos que refletiam a luz do sol e balançavam suas crinas brilhantes, seguiram o rei pela estrada da guerra, uma estrada larga que erguia-se em meio à cidade e era usada para movimentar exércitos e suprimentos para a guerra, foi aberto o portão maior e ali começaram sua marcha para as terras negras de Pyne.

As dezenas de vilas não estavam ali por acaso, era mais seguro, os rios paralelos à passagem de Pyne, conhecida como Estreito, forneciam proteção contra os bosques amaldiçoados e todos os demônios das terras do oeste, menos os alados, algumas vezes morcegros eram vistos por ali, não eram iguais aos morcegos do leste, eram criaturas vindas das ilhas do extremo oeste, eles se alimentavam de todo tipo de sangue e apreciavam ainda mais o sangue humano, sua pele era mais negra que a de todos os morcegos do mundo, por isso começaram a serem chamados de morcegros, morcegos negros.

O sol estava se pondo por trás das muralhas do Estreito, os soldados que guarneciam a passagem eram em sua maioria Pynes que depois de terem seu lar destruído pelos talenns, encontraram paz em defender o leste contra essas mesmas criaturas. O portão leste era guardado por cerca de vinte soldados, chegava a ser engraçado para os guardas do portão oeste, que o protegiam com mais de setecentos homens. Ao verem o estandarte dourado de Pulsarok se aproximar os soldados logo ergueram o portão e formaram fileiras aos seus lados, abrindo passagem para a cavalaria real, que cegavam os Pynes com suas armaduras douradas, Taryk estava prestes a entrar na fortaleza quando uma flecha em chamas se fincou no chão ao seu lado, — FILHOS DO FOGO! — Avisou um dos Pynes.

Eram centenas, haviam seguido a Guardourada pelo Coração e agora seu plano de extinguir a dinastia dourada estava mais próximo, todos arqueiros, estavam sobre uma montanha, acima da cavalaria, e em grande vantagem, uma luta em campo aberto não era uma escolha.

– Entrem na fortaleza! — Ordenou o rei, e assim todos os soldados e cavaleiros se espremiam no portão enquanto eram alvejados pelas flechas incandescentes, o fogo rasgava o couro e queimava a pele dos Pynes, a maioria dos soldados estavam para fora quando surgiram dezenas de espadachins, todos inimigos. A maior parte dos Pynes ainda não haviam entrado na fortaleza, mas, mesmo assim, o rei não tinha escolha, o portão precisava ser fechado ou todos morreriam para os Filhos do Fogo.

– FECHEM O PORTÃO! — Os guardas que estavam dentro da fortaleza se assustaram com a ordem do rei, mas sabiam que eram a única coisa a se fazer naquele momento, enquanto os portões desciam, um cavaleiro da Guardourada saltou de seu cavalo e se ajoelhou sob a madeira pesada do portão, seu nome era Goliad Trilhado, ergueu seus braços enormes e fez o que o rei mais temia, segurou o portão, com a ajuda de Goliad muitos Pynes conseguiram se arrastar pela terra e adentrarem na fortaleza, o cavaleiro tremia e gritava enquanto era esmagado pelo portão, tarde demais e ele ainda estava lá, seus músculos estavam prestes a explodir quando ele foi atravessado por uma espada de fora do portão e esmagado sem sentir dor.

Um dos guardas que havia entrado revelou-se inimigo, ele desembainhou sua espada e foi ao encontro do rei, mas Prantus Vloin também empunhou sua espada e cortou a barriga do traidor ao meio, dando um banho de sangue em todos ali. Os soldados do estreito foram convocados e todos subiram até as muralhas, mas já não restava nada do outro lado, os traidores haviam fugido, deixando apenas sangue e fogo.

A floresta de galhos secos e árvores mortas fez muitos cavalos relincharem nervosamente, Arborado, embora fosse a maior floresta de todo o reino, não era a mais bela, aliás, não havia nada de belo ali. Todos aqueles cavaleiros de ouro, acostumados com os belos bosques do Coração, pareciam intimidar-se com aquela floresta sombria e não por simples medo, eles sabiam o que enfrentariam ali.

– Em frente! Não seremos intimidados por servos de Lanzur. — Os soldados engoliram seu medo e começaram a mastigar aquelas palavras do rei, mas quanto tempo elas durariam? — Somos filhos do ouro, nossos corações pulsam honra, enquanto os deles são escuros e tristes.

Partiram floresta adentro, já com as mãos na bainha, o que não serviria de nada.

– Onde está minha espada? — Perguntou um cavaleiro ancião, mas que aparentava perder a espada pela primeira vez.

– A minha também não está na bainha. — Disse outro cavaleiro.

E um após outro os cavaleiros revelavam estarem sem espadas, até que o rei também percebeu o mesmo. Não havia como terem esquecido as espadas já que todos estavam com a sua espada na bainha a alguns minutos atrás. O rei ficou calado e o único som que se escutava era o das águas que rastejavam em meio a floresta morta. As raízes de todas aqueles olmos começaram a remexer-se como minhocas cavando a terra, elas se aproximavam cada vez mais dos cavaleiros e antes que pudessem recuar, seus cavalos estavam totalmente amarrados as raízes.

– Isso não é bom! Não é nada bom. — Disse um espadachim recém-treinado.

– Deixem seus cavalos e corram para o campo! A floresta é maldita.

Obedecendo as ordens do rei os cavaleiros começaram a pular dos pobres cavalos brancos que jaziam enterrados em raízes malditas, caindo ao chão de costas, ajoelhados e até de cabeça, feito realizado por Prantus Vloin, cara de lagarto, o espadachim mais feio da Guardourada.

– Estão todos aqui? — Perguntou o rei.

– Estamos em quarenta e oito, Goliad foi esmagado no Estreito, e algum de nós foi mais lento que as raízes.

O rei tinha um lema, “Nunca abandonar seus servos”, e para honrar este lema ele voltou para as sombras em busca do espadachim ancião. Não havia mais raízes vivas no chão, não as amaldiçoadas, desviando dos galhos secos ele voltou ao lugar que haviam sido surpreendidos por aquilo. O ancião estava ajoelhado no chão com os olhos fixados nos céus, mas Taryk sabia que havia algo oculto ali.

– Essas são as terras verdes do oeste! — Sua voz se elevava como o rugido de um leão. — Você não reina aqui, servo do mal, você não tem poder perante mim.

A face do ancião virou-se para ele bruscamente, seus olhos estavam negros como vinho, da sua boca escorria sangue e ele se retorcia como um rato que acabara de receber uma pancada.

– Eu deveria? — A voz do ancião amaldiçoado soava como um trovão, palavras negras de talenn.

– Você é apenas um vazio. — O rei se matinha firme, mesmo falando com um demônio. — Eu sou Taryk, o vigésimo da dinastia dourada, o sangue dos grinários corre por minhas veias, eu te expulso dessas terras espírito do mal.

O chão tremia como se mil cavalos de guerra estivessem galopando por ali.

– Apenas palavras na escuridão, brilho nas trevas, os homens são fracos e insolentes, e eu matarei o rei deles.

O corpo do espadachim foi sublimado por uma fumaça negra, que fazia tudo que era vivo, morrer. O espírito talenn surgiu, com seus olhos vermelhos e sua espada espectral. Liva, Taryk se lembrou, a adaga sagrada estava dentro de uma de suas bolsas, que ele perdera enquanto fugia das raízes. Correu a procura de sua bolsa em meio aos cavalos mortos, não encontrou a bolsa mas sim a adaga. O talenn já estava a sua frente, Taryk o perfurou com a adaga.

– Ferro algum pode ferir as sombras, rei estúpido.

– Isso não é ferro, isso é ouro. — O rei atravessou a adaga no espectro, que se contorcia com gemidos agudos de dor que podiam facilmente deixar alguém surdo.

O demônio foi exorcizado, o primeiro dos milhares que vagavam por Pyne.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.