Loriakh, por terra e mar

2 Rodnar - A âncora e o fogo


Uma fortaleza de muros puídos e poucos homens com condições de brandir uma espada, essa era Lodann, o clima estava quieto como a brisa do sul, que carregava consigo minúsculos grãos de areia que brilhavam no sol enquanto eram levados pelo vento, um veleiro de médio porte com bandeiras de Droth estava prestes a partir para Calisthee, cidade com o maior porto feito pelos homens.

– Içar velas, vamos partir para Calisthee. — Disse Rodnar. Um homem conhecido nos portos de Loriakh, mas com um passado duvidoso, as más-línguas ousam dizer que ele vendia joias roubadas de castelos e portos de cidades em que velejava.

– Espere-me irmão! Disse Vassili, O sonso, como costumava ser chamado.

– Quando aportarmos em Calisthee, não irei mais velejar, tenho maus presságios e pesadelos, estou velho demais para o mar. — Disse Rodnar, cabisbaixo e pensativo. Rodnar velejara mais de vinte anos, ele havia se cansado do mar.

– Já vi de tudo nessa vida, mas logo você tendo presságios? — Rodnar era um homem cético, ele dizer ter presságios surpreendeu Vassili.

Rodnar bufou, não estava querendo conversar, ele não gostava de seu irmão. Foi para sua cabine e deitou em sua cama feita de palha e panos, que era o máximo que conseguiu sem ter que gastar seu ouro, um homem como ele, era muitas vezes intitulado como Rodnar, o Mesquinho.

Dias depois, o veleiro chacoalhava muito e o sol nascia a leste, já era possível ver a grande Calisthee, com seus muros brancos, canhões apontados para o mar e soldados com suas armaduras azuis e elmos em forma de âncora por todos os lados, era sinônimo de guerra. A paisagem dos Campos do Dragão, chamado assim pois do sul de Calisthee a oeste do Castelo das Chamas tinha formato de um dragão, alternava entre florestas e montanhas enormes, só não eram maiores do que as do Vale das Montanhas, lugar cujo as montanhas tocam as nuvens.

Rodnar, ansioso por um descanso da sua vida no mar, disse:

– Aqui será minha casa, venderei o veleiro hoje mesmo.

– Ao menos me deixe desembarcar antes de fazê-lo, eu não sei nadar. — Disse o sonso em tom de deboche.

Rodnar, retrucou.

– Nada é sério para você?

– Mas que mal humor irmão, aproveite a calmaria do mar enquanto pode, você mesmo disse que coisas ruins estão por vir.

Estava em sua cama quando escutou o som de madeira rachando e sentiu uma forte pancada. O veleiro está sendo atacado, pensou Rodnar. Ainda assustado com aquilo sentiu e escutou a mesma coisa mais algumas vezes, agora três batidas seguidas e cada uma mais forte que a anterior, ele não havia batalhado desde quando era um soldado de Droth, o seu medo subiu as alturas e chegou ao seu ápice quando ouviu a porta de sua cabine sendo quebrada, cinco golpes, os mais fortes que já viu e de lá apareceu em meio a madeira e o pó um guerreiro Calistheer com sua lança em forma de machado, os lábios do guerreiro se separaram e da sua boca saíram palavras que não faziam sentido para Rodnar.

– Renda-se príncipe de Droth – O guerreiro era alto e apenas seus olhos eram visíveis em meio a bela armadura do mar, suas costas eram cobertas por uma capa azul e seu escudo feito do mais leve aço. — Essa é sua última chance. — Seus olhos não esboçavam medo, raiva ou qualquer sentimento.

Rodnar estava confuso e assustado, e não reagiu quando o guerreiro começou a andar em sua direção, o som de cada passo era um pesadelo para ele, e quando o enorme Calistheer se ergueu sobre ele, viu seus olhos, azuis como o mar. Rodnar ergueu seu olhar para a face do guerreiro.

– Morte. É apenas isso que você conseguirá, renda-se agora e não morrerá.

A face de Rodnar foi pintada com sangue e viu o fino aço atravessando a garganta do Calistheer, era Vassili, seu irmão. Puxou a espada pontuda para fora da garganta do guerreiro, que agora em vez de azul, vestia sangue.

– Este veleiro não está mais a venda. — Disse Vassili, seu salvador.

– Por que fomos atacados por Calisthee? Droth não é e nunca foi inimiga dos Campos do Dragão.

– Droth não era inimiga de Calisthee, mas parece que o lorde louco da Barbatana Azul cozinhou alguns homens do mar.

Rodnar não entendeu.

– Essa é a lei de Droth, os criminosos são queimados, isso não é motivo de guerra.

– Acontece que um desses homens do mar era filho do Rei Azul de Calisthee.

– Rei Azul?

– É como estão chamando Beldryc Listhee, agora que Calisthee superou Karin em poder naval. A frota de Karin era de mais de dois mil navios de guerra, o ambicioso Beldryc fez enormes empréstimos de Pulsarok e superou os Mestres de escravos, com três mil e duzentos navios de guerra, esplêndido.

– O que eles planejam com isso?

– Dominar todas as ilhas de Loriakh, inclusive Droth e Domenvar. — Domenvar é uma ilha que existe a leste de Calisthee, a maioria de seus habitantes são homens velhos e eunucos, mas lá também habitam antigos magos.

A ambição assustava Rodnar.

– Reis do mar.

– Exatamente. Acho que estamos sendo atacados... seus homens não aguentarão muito tempo, temos que usar o bote reserva e fugir para não virar comida de peixe. — Disse Vassili, enquanto limpava sua espada com panos velhos.

Os dois irmãos saíram da cabine sem serem percebidos pelos Calistheers. Passo a passo, sem barulho algum chegaram até os barcos reservas e conseguiram soltar um deles. Se lançaram para dentro do barco apertado e começaram a remar.

– Espere. Nós não temos comida, não temos roupas e somos procurados por dezenas de soldados, um plano infalível! — Disse Vassili.

– Bom, você não tem comida, você não tem roupas, eu tenho ouro, e alguém me deve um favor. — Disse Rodnar.

Após muitos minutos remando, Vassili percebeu algo estranho naquelas águas, elas estavam agitadas demais, não era o normal de Calismar. As ondas moviam-se como serpentes gigantes e quanto mais eles se afastavam de Calisthee, mais a água escurecia, passando de uma vez só de um azul matutino para um azul noturno que lembrava os céus negros do oeste.

– Rod, me diga que maldição está acontecendo! — Disse Vassili, que já havia largado os remos e colocado a mão sobre o cabo de sua espada. — Você já navegou por todos os cantos, diga logo, são demônios do mar, espíritos das profundezas ou é apenas minha imaginação fazendo a merda da água virar vinho? Porque se esse for o caso, eu chegarei em terra firme bêbado!

– Vassili... — Rodnar disse com os olhos arregalados. — Não me diga que você remou para oeste.

– Claro que não, acha que sou idiota? Eu usei uma bússola que encontrei em Lodann. — Vassili tirou a bússola do bolso e a entregou nas mãos de Rodnar que deu um peteleco no metal para ver se ela funcionava.

A bússola, que aparentava ser como qualquer outra, começou a girar para todas as direções, estamos mortos, pensou Rodnar, que sabia muito bem o que aquilo significava. Os giros tornaram-se tão rápidos que já não era possível ver as letras que indicavam o norte, sul, leste ou oeste. Ouviu-se um estalo e o vidro que protegia a bússola trincou, seguido pelo metal que amassou-se de dentro para fora e quebrou em vários pedaços. Parou de girar, mas já não estava mais lá, restou apenas vidro trincado e metal quebrado. Rodnar lembrou-se do poema que aprendera com seu pai

quando criança, “Ferro que guia, dê-me a direção, ou chegarei no Velho Ancião”, Rodnar sempre perguntava ao seu pai quem era o Velho Ancião, mas a única resposta que recebia era de que se tratava de um ancião velho, Talvez fosse apenas uma invenção, mas aquilo sempre intrigou Rodnar.

Parecia que Vassili havia se banhado em farinha, estava tão pálido que faria qualquer um pensar que era um defunto.

– Rod! Rodnar!! Nunca deveríamos ter saído de Lodann, nunca deveríamos ter pisado no seu maldito veleiro!

A água ao redor do barco começou a agitar-se ainda mais. O barco começou a ser levantado como se uma montanha de água se formasse sob ele. O pequeno bote pendeu para a esquerda e caiu como se estivesse sendo empurrado por uma onda gigante, o barco foi engolido por uma quantidade enorme de água, e Rodnar afogou-se.

– Rod! Rod! — Suas mãos chacoalhavam Rodnar. — Acorde miserável, RODNAR!

A areia estava fria e molhada, e seu corpo estava cheio dela, em lugares que não era possível descobrir como ela entrara ali, em seus ouvidos, dentro de seu nariz, o espaço dentro de sua boca não estava sendo ocupado apenas por sua língua e seus dentes, a maldita areia também conseguira penetrar ali. Se apoiou sobre seus joelhos e cuspiu uma mistura de saliva, água salgada e areia, levou sua mão até a bainha e... Ufa! Sua espada ainda estava lá.

– Pensei que ficaria dormindo pra sempre! Você é muito preguiçoso, acho que vou ficar com o caranguejo só para mim. — Disse Vassili, enquanto quebrava uma perna do caranguejo e engolia sem sequer mastigar.

– O que!? Onde você conseguiu isso? Me dê logo um pedaço!

Rodnar comeu com a mesma rapidez que Vassili, sem mastigar. Mal percebeu e o caranguejo havia acabado, mas sua fome não.

– Nós fomos arrastados pelas ondas até aqui, fiquei te esperando acordar por horas! Agora me diga que inferno de ilha é essa? — Disse Vassili.

– Nem a Adaga, nem Domenvar e muito menos Droth tem caranguejos, eles foram extintos dessas ilhas pelos homens. — Disse Rodnar com uma expressão que não era das melhores.

– Ma... Mas então isso quer dizer que estamos em Duryin!

– Sim irmão, estamos no antigo leste, a terra do nascimento. — Disse Rodnar. — O continente de onde todos os homens vieram, e de onde todos eles foram expulsos.

– Expulsos pelos nativos, o povo Duryindell. Se eles ainda vivem, é melhor começarmos a nadar de volta para o oeste, ou seremos escravizados. Vamos logo, já imaginou o grande Rodnar de Droth puxando uma carroça como um cavalo, ou ainda sendo mergulhado em um caldeirão, uma sopa de Rodnar não deve ser tão ruim assim!

– Você é mesmo um grande sonso! Os mestres de Karin escravizaram todos os nativos na Segunda Expedição.

– Não... Eu ouvi histórias, muitos ficaram aqui após a Segunda Expedição, Karin voltou em uma Terceira Expedição com toda sua frota, mas eles não estavam mais aqui, haviam sumido, sem deixar rastros para os mestres de escravos. Porque você ainda não se levantou para buscar madeira para o barco?

Rodnar ergueu sua mão acima de sua cabeça e em um giro deixou a marca de seus dedos na face de Vassili, que gritou de dor como uma donzela.