Lorem
6 Capítulo 5 - Capturados
Apertado naquele minúsculo cubículo. Intensos barulhos de quedas, conversas, berros, manuseio de objetos, todos os sons mesclando-se em uma única infernal cacofonia. Aquele ambiente era deveras estressante. Espaço apertado, barulheira intensa, mas isso não era a pior parte, e sim o repetitivo, rotineiro e maçante serviço ao qual ele estava submetido.
Assim pode ser descrito o local de trabalho de Peter Ford, conhecido pelos amigos como \"Pete\". Pete tinha como habilidade a pirocinese, a manipulação de fontes de energia térmica como fogo, ou similares. Tal habilidade não era útil em seu emprego, no qual era reduzido a apenas assinar e gerenciar a papelada das despesas do setor financeiro do Complexo Delta, corporação de pesquisa de equipamentos experimentais, como armaduras super-potentes ou armas de intenso poder destrutivo. Era uma empresa interessante, porém seu papel nela não era nada mais do que entediante.
Ele trabalhava para o Complexo Delta já havia anos. Embora ele não soubesse, seria demitido depois de mais dois meses trabalhando lá por causa de um acidente de trabalho, e mais tarde conheceria os seus futuros dois melhores amigos: Jack e Claus. Mas antes disso, haveria de se submeter ao degradante serviço.
\"Toc. Toc.\" Alguém batia a porta minúscula de seu minúsculo cubículo. Devido a barulheira incessante, teve de berrar um \"Entre!\" para ser ouvido do outro lado. Adentrou em seu cubículo o seu patrão. Era um homem de cabelos pretos, embora as laterais já se encontravam grisalhas. Tinha a sombra de um bigode, e olhos cinzentos e autoritários. Passava um ar de poder, o que o destacou entre os funcionários da empresa, causando a sua promoção a gerente do setor financeiro. Ele era sempre visto usando um terno preto com camisa branca e gravata negra, e tinha algum tipo de ria com Pete, pois buscava uma razão para demití-lo desde que tal entrou na corporação.
–Peter Ford. Eu preciso ter uma conversa séria com você.
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Pete abriu vagarosamente os olhos, embora continuasse a não enxergar. Alguém vendara seus olhos, e ele não as podia retirar, pois o ser misterioso que o vendou também amarrara suas mãos e pernas, imobilizando-o. Tentou soltar-se, mas depois de tentativas frustadas notou que as cordas, embora leve, eram deveras resistentes. Sentiu a boca amordaçada, e sentiu também que estava balançando. Sentia o tato de uma pele macia em suas costas. Estava sendo levado a algum lugar, embora ainda não fizesse ideia de onde.
Parou para pensar em sua situação. E ao fazer isso, sentiu um medo desesperador. Quem o estava levando, e para onde? E o que poderiam fazer com ele ao chegarem ao seu destino? Eram possivelmente algum tipo de criatura predadora que estava o levando para sua toca onde alimentaria-se dele. Nesse caso, seriam criaturas inteligentes o suficiente para poder vendá-lo, amordaçá-lo e e amarrá-lo, imobilizando-o. Ele não se lembrava ao certo do que o atacara na caverna, pois não havia vido o que o atacara. Um monstro, talvez? Não sabia ao certo.
Começou a debater-se, tentando soltar-se. Ouviu um baixo ruído a sua esquerda, semelhante ao que estava fazendo. Deduziu que Claus estava na mesma situação, tentando soltar-se.
Foi quando uma ideia óbvia brotou em sua cabeça: Fogo. Como esquecera a sua habilidade? Criou uma pequena chama entre os dedos e tentou queimar a corda que o amarrava, sem sucesso. Sua única opção no momento seria criar uma intensa labareda que queimasse ou assustasse seu sequestrador. Foi o que tentou, mas parecia que o seu algoz era imune a fogo. Maldição.
Ouviu o ruído típico de faíscas a sua esquerda. Claus tentando o mesmo, e pela falta de ruído depois, ele deduziu que o resultado havia sido o mesmo.
Estava sem escapatória... estava sem saída...
Sentiu uma batida forte na cabeça, e mais uma vez ficou inconsciente.
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Pete abriu vagarosamente os olhos como havia feito horas antes. Mas, ao contrário daquela vez, ele conseguia enxergar. A luz forte e cegante do Sol fez com que suas pupilas contraíssem rapidamente, e sua visão ficou embaçada por alguns segundos, antes de recuperar o foco.
Ele não conseguia definir ao certo onde estava. Ele certamente estava de bruços sobre o chão árido. Não conseguia levantar, viu suas mãos e pés acorrentados. Aquelas correntes se assemelhavam ao material com o qual era feita a corda com a qual o amarraram. Logicamente, era tão imune a fogo quanto as cordas. Sua pirocinese seria inútil onde estava.
Da posição na qual estava, ele só conseguia visualizar o que estava acima dele e um pouco a frente. Acima dele, viu algo que se assemelhavam a prédios. Eram muito parecidos, mas não tinham a modernidade das construções de Clare e pareciam muito precários e frágeis, sendo que a maioria estava em ruínas, com vários pedaços faltando. A pintura da maioria estava com o acabamento por fazer. De fato, os construtores não deviam ter muito orçamento para terem terminado os prédios.
Pete ouviu um gemido ao seu lado, e viu Claus despertando.
–Claus! — sussurrou ele
–Pete!... Você faz ideia de onde estamos? — Claus olhou par acima e para os lados, não conseguindo distinguir sua localização.
–Não...
–Você viu Jack? – interrompeu
–Não, ele deve ter ficado para trás. Não entrou na caverna conosco, no final das contas...
Sua frase foi interrompida por ruídos atrás deles. Pete sentiu alguém se aproximando por suas costas, e o vendando com o pano de tecido de outrora. Soltaram as correntes de sua mão e, antes que pudesse reagir, a prenderam atrás dele com as cordas. Foi posto para andar.Ouviu os passos de Claus ao seu lado, assim como os leves passos de seus algozes. Lá estava calor, e Pete conseguia sentir gotas de suor escorrer pelo seu rosto e pingarem no chão enquanto caminhavam. Ele também sentia uma vontade desgraçada de tragar um cigarro, mas naquele momento aquilo parecia impossível e, de fato, era.
Fizeram-no parar, e tiraram sua venda. Ele permaneceu com os olhos fechados por alguns momentos, e os abriu devagar. Ao seu lado, estava Claus na mesma situação, mas aquilo não importava no momento, e sim o que estava a frente deles.
Ossos. Pilhas e pilhas de ossos. Estavam enfileirados e esculpidos no formato de uma grande cadeira, na qual sentava uma criatura muito, mas muito esquisita. Pete não conseguia se lembrar de ter estudado tal criatura alienígena anteriormente.
Se assemelhava a um humano, de certa forma. O diferencial é que a sua pele era pálida, extremamente pálida e cinzenta. E a criatura tinha olhos esbranquiçados, sem íris ou pupilas, apenas grande córnea branca que ocupava todo o globo ocular. Além disso, ela não tinha cabelo, e era alta. Tinha em média uns três metros de altura, e era corpulenta, tendo musculosos braços com mãos de quatro dedos cada.
A criatura levantou de seu trono, e se dirigiu rapidamente a ambos os prisioneiros. Ele disse apenas uma palavra, que se marcou na mente de ambos.
–Rornac.
\"Rornac\". Mas o que diabo era \"Rornac\"? Talvez alguma mensagem em sua linguagem que significava \"Atacar\"? Ele não tinha ideia.
Isto é, até a criatura apontar para si mesmo e repetir \"Rornac\". Pete compreendeu: Rornac era o nome da criatura. E se sentiu calmo, pois Rornac não parecia zangado ou coisa parecida ao se dirigir a eles. Se soltou um pouco, porém tremendo de medo.
Rornac deu as costas e retornou ao seu trono. Seus capangas apareceram. Eram como ele, só que magrelos e franzinos. Provavelmente eram eles que haviam prendido ambos, pois pelo jeito, Rornac não gostava muito de sair de seu trono. Parecia alguém que gostava de luxo e conforto, embora isso não era abundante naquele lugar.
Duvidando muito que fossem os lorenses que construíram aquele lugar, cheio de prédios, Pete julgou que foram construídos por uma civilização anterior a eles. Enquanto Pete pensava, os dois papeavam em um dialeto complexo, cheio de chiados e rosnados. Rornac parecia zangado agora. Berrou algo na direção de Claus e Pete, que estavam sendo conduzidos para outro lugar por dois lorenses comandados por Rornac.
Foi nesse momento que, saindo de um dos prédios, Jack surgiu. Parecia sujo e cansado, mas ele era super-forte e super-resistente. Como um Super-Homem que não voa e não tem visão laser e imune a criptonita.
Jack correu na direção de ambos, agarrou os dois lorenses e os jogou na direção de Rornac, que fez uma expressão perplexa para o trio, que agora se encontrava fugindo daquela zona de perigo.
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