Lorem
18 Capítulo 17 - Separação
Notas iniciais
A dor em seu rosto era quase insuportável, mas Stewart não deixou de correr por nenhum segundo. Sentia filetes de sangue deslizarem suavemente pela parte esquerda de sua cabeça, marcas dos ferimentos que o palhaço havia causado. Também não conseguia locomover muito bem a mão esquerda, o que não era um problema dos muito grandes, visto que era destro.
Seus pensamentos afluíam por sua cabeça com uma nitidez não satisfatória. Não conseguia raciocinar direito, apenas continuava correndo, sempre em frente, em busca de conforto e alívio. A dor era cegante, anuviava seus sentidos e embaralhava sua mente. Ele conseguia ver o corredor exageradamente iluminado, desfocado ao seu redor, o caminho à sua frente. Conseguia ouvir os passos de seus colegas, enquanto sentia um deles o orientando, agarrando fortemente seu braço durante a corrida. Sentia em seus lábios o salgado gosto de sangue, e inalava o odor de suor que passava pelo seu corpo. Stu se sentia prestes a desmaiar, tamanha a dor e exaustão causados pela sua briga com Klown.
–Por esse lado... – a voz de Martin soou, e Stewart sentiu se braço ser puxado para a esquerda, enquanto entrava em outro corredor.
Estavam em algum ponto da estrutura da H. A. N. K., mas não sabia dizer onde. Via a padronizada parede de azulejos branca que, embora estivesse desfocada devido à seu mal estado, era facilmente visível.
–Estamos chegando ao hall. – ouviu novamente Martin
Enquanto corria, deixou a sua mente, confusa com o presente, se aventurar nos confins do passado.
Escola. Ah, bons tempos, quando tudo era mais fácil. Amigos aos montes, inimigos ainda mais. Aulas maçantes, intervalos interessantes, tempos mais normais... Tempos mais inocentes...
Stewart estava sentado em seu lugar, se divertindo com suas habilidades. Fazia um boneco de plástico batalhar contra outro usando telecinese, e sorria ao ver os dois se baterem como pessoas de verdade. Riu brevemente, satisfeito com o próprio ato. Estavam em pelo intervalo, logo após uma maçante aula de biologia. O garoto estava no auge de seus doze anos, já perdendo a sua inocência para se tornar um adulto.
–Ei, Ken. – um garoto o chamou ao longe.
“Ken” eram como seus amigos mais íntimos o chamavam naquela época. Como havia mais de um Stewart em sua sala de aula (o que era uma coincidência... Stewart não era um nome deveras comum), ele ficou conhecido por Kennedy, seu sobrenome. Seus amigos então o chamavam de Ken, para simplificar.
O garoto que havia lhe chamado era seu amigo, Matthew Walker. Alguns anos mais velho, ele estudava na classe do Stewart, pois tinha repetido o ano duas vezes. Ele possuía cabelos castanhos e espetados, e comumente trajava camisetas largas e um bermudão. Em seu rosto pipocava freqüentes espinhas, indicando o início de sua adolescência.
–Matt, olá! – respondeu Stu alegremente, se divertindo com seus bonecos.
–Quer se divertir um pouco? Meu irmão está por aqui, vamos fazer algo divertido...
–Não sei... Johnny nunca pareceu gostar muito de mim. – Stewart estava na defensiva, parando de se divertir com os bonecos. Ele se referira a Johnny, irmão de Matthew, que futuramente viria a ser um de seus melhores amigos.
Matt ponderou uns momentos. Era verdade que Johnny não ficava muito à vontade na frente de Stu, e vice versa.
–Bah, então está bem... se mudar de idéia, venha falar comigo...
Matt se afastou, um pouco amargurado. Não gostava de ser rejeitado, ainda mais de ficar entediado. Nada que se divertir um pouco não fosse resolver, depois...
Stewart ofegou quando seu braço finalmente foi solto e ele pôde descansar. Arquejou durante um momento, apoiando-se em seus joelhos. Então, sentiu uma dor lancinante em suas costas, e caiu no chão, gemendo de dor. Havia se esquecido de que Klown lhe quebrara uma ou duas costelas. Ele praguejou brevemente e se sentou com dificuldade. Podendo descansar, conseguia distinguir um pouco melhor as formas que o cercava, e viu Johnny e Martin, e o estranho que o ajudara a escapar. À sua frente estava o prédio da H.A.N.K, ligeiramente lascado.
–E-escapamos? – ele perguntou, ainda ofegante e tremendo.
–Sim... – o estranho lhe disse – Droga... eu vim aqui por respostas... e olha o que me acontece.
Os outros se entreolharam por um instante.
–Você é de Clare, como nós? – Johnny perguntou.
–Sim. – Claus respondeu, monotonamente – Claus Hillman, habitante de Clare. Meu veículo caiu aqui em uma colisão com um objeto não identificado, perdemos um motor...
–“Perdemos”? – Martin questionou
–Ah sim, eu tinha mais duas pessoas comigo, meus amigos. Um ficou para trás, mais a sul, e outro... – pensou em Jack – foi levado por nativos.
Claus se pos a narrar suas aventuras desde que colidira no local. Os quatro então concordaram que haviam colidido entre si, como causa de estarem ali. Depois ele explicou sobre os nativos, os prédios abandonados, e o desaparecimento de Jack, seguida da covardia de Pete.
–Talvez... se ele descobrir que não estamos sozinhos aqui... ele possa nos ajudar outra vez. – Claus concluiu.
Martin concordou com um breve aceno de cabeça.
–Uma coisa – ele disse – eu creio que este prédio não seja a única coisa “viva” por aqui. – ele pensou por um momento e então completou – devem existir mais moradores por aqui, humanos... Pensem, é lógico! Da onde teriam vindo as pessoas que trabalhavam ali? Deve ter uma sociedade por perto, ou algo similar!
Os olhos de Claus se iluminaram.
–Sim! Faria todo o sentido! Mas então... buscamos Pete ou procuramos esta tal sociedade?
Martin pensou.
–Somos quatro. Podíamos nos dividir e cada um seguir em uma direção. Claus, vamos nós dois atrás de Pete... e Johnny pode ir com Stewart procurar uma vila. Feito?
Todos concordaram com o plano e, em poucos momentos, estavam se separando. Haviam levado consigo os suprimentos que adquiriram em sua fuga, e dividiram igualmente. Daria por uns dois ou três dias, não era mais do que o suficiente para encontrar alguém.
Stewart, enquanto caminhava para o norte ao lado de Johnny, olhou para trás, mirando o prédio do qual havia escapado de fugir. Klown, se vivo, não escaparia do sofrimento que havia lhe causado.
Ele havia de sofrer.
Johnny alçou vôo, para ter uma visão mais panorâmica, enquanto Stewart continuou a caminhar lentamente, cada passo como uma martelada sobre suas pernas. Ele não ia parar, estava determinado a ajudar seus amigos. Sua mente continuava anuviando, e ele sentia várias lembranças que tinha mais embaçada. Uma leve sensação de ardor se espalhava pelo seu estômago. Seria conseqüência da luta ou... da operação que realizaram nele?
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