Lorde de Família
10 Um Passo para o Precipício, Dois para a Escada da Glória
Notas iniciais
– EU NÃO VOU DEIXAR ISSO SAIR BARATO! – Renly gritou com toda a sua raiva. – MEUS GUARDAS...
– Os seus guardas estão MORTOS – a voz rouca de Paulão Coração de Pedra engoliu o salão, perpetuando por todo o castelo de Delicium... vazio.
Paulão começou a andar vagarosamente pelo salão, saindo da escuridão que jazia no altar do trono. Ele foi em direção a Renly, passando pelos corpos e deixando o do defunto que era o Novo GRANDE Amor do dito-cujo no chão.
– Não vê? Estão todos mortos aqui, aos meus pés! – Paulão divava como nunca.
– E você será o próximo!! – o ex-pedreiro-e-agora-Lorde desembainhou sua espada; ela refulgiu à luz dos grandes candelabros e archotes que ornamentavam o espaço.
Renly reuniu toda sua fúria – como o Baratheon que era – ao segurar o cabo com suas duas mãos e preparar um ataque rápido e certeiro em Paulão. Porém seu alvo (repito: divando como nunca) ergueu o braço e fez um movimento rústico como se este também fosse uma espada; e aparentemente de sua mão, materializou-se uma grande e densa fumaça verde com aspecto purpurinado, que, ao chocar-se com a lâmina da arma de Renly, surpreendentemente a reduziu a minúsculas fagulhas prateadas que desapareceram no ar.
– Não... não pode ser... – ele soltou o cabo da espada, agora inútil, e levantou seu rosto novamente para encarar Paulão Coração de Pedra – QUE DIABOS É VOCÊ?!
– Já deve ter percebido que transcendi a condição humana, Renly... E estou além da sua compreensão. – com outro movimento divosamente rústico, irromperam correntes do ar acima do homem à sua frente que o amarraram, guiadas por uma força incontestavelmente sobrenatural.
Nas pernas de Renly houve um aperto tão bruto que o derrubou de cara no chão, debatendo-se, e agora com certeza de que seu nariz não estava lá muito inteiro.
Enquanto isso, Paulão pegou o cadáver do Novo Grande Amor de Renly, arrancou com facilidade sua espada fria (mas sim, AQUELA ESPADA), aproximou-se do ex-pedreiro-e-agora-Lorde, o colocou de pé com um puxão de cabelo e amarrou o instrumento morto que acabara de extrair no pescoço do mesmo.
– Com certeza esse “adorno” combina muito mais com você que qualquer coisa do reino – debochou Paulão, sarcasticamente, enquanto ainda o segurava pelo cabelo – como se sente percebendo que usa no pescoço aquilo que já foi usado pra te foder tantas vezes, e o último desse tamanho que poderia encontrar?
A humilhação queimava Renly por dentro e fazia qualquer som entalar em sua garganta. Manteve-se em silêncio, olhando de perfil para o Coração de Pedra, em seguida recebendo uma bofetada na cara.
– Que é, não vai responder não?! PEDE PRA SAIR CARALHO, PEDE PRA SAIR!! – ele o arrastou pelo pátio ensanguentado do Grande Salão, sem se importar em quantos corpos pisasse.
Ao saírem pelo portal, uma rajada congelante daquele vento que vinha do Inverno veio de encontro aos dois, mas afetando apenas a Renly e solidificando o sangue que escorria por sua face.
Conforme era arrastado, seu corpo dormente parecia perceber que o ar em volta esquentava... e a resposta estava apenas a alguns metros à frente dos dois: dezenas, talvez centenas de figuras sombrias – mas perceptivelmente humanas – seguravam tochas acesas e os aguardavam, suas silhuetas recortadas contra o horizonte cinzento do frio que lá permanecia, soturno.
Os capuzes negros que cobriam suas cabeças e impediam o reconhecimento dos indivíduos, os uniformes na mesma cor, apenas confirmavam: lá pairava a temida Irmandade dos Mecânicos Sem Estandartes.
* * *
Cersex e Nerd Stark estavam à beira da morte pelo frio, nenhum dos dois sentia sequer seus próprios dedos e os cabelos de ambos estavam tão frágeis e congelados que um toque poderia quebrá-los.
Prestes a desistirem e se entregarem à morte inevitável no meio daquela densa floresta, finalmente ambos viram ao mesmo tempo algo que vinha na melhor hora possível: uma cabana entre as árvores parecia esperar os dois há dias.
– N-não acredito... Vamos, Cersex! — exclamou o nerd com a voz cansada, soltando um vapor claro pela boca.
A ex-rainha não precisou nem expressar o quanto concordava, e rumou com ele ao local.
Era pequena, porém de paredes resistentes e um calor aconchegante. Havia uma cama um tanto dura, mas aquele não era momento para frescar, portanto os dois não pensaram duas vezes ao descansar seus corpos sobre ela.
– Há quanto tempo será que estamos caminhando, Nerd?... — murmurou Cersex.
– Perdi a noção do tempo — ele respondeu, a abraçando.
– Hm?
– Assim é mais fácil nos esquentarmos novamente (êeeh, manolo folgado).
Mas o conforto durou pouco tempo — barulhos sinistros ecoavam pela noite, acompanhados por uma repentina ventania. O Stark, que era o homem da cabana, teve a educação de levantar-se primeiro e ir até a porta, receoso, entender do que se tratava.
– Não me deixe aqui sozinha... — Cersex acompanhou-o até o exterior do recinto.
A ventania aumentou até atingir um nível descomunal, como se quisesse varrer até mesmo as imponentes árvores da floresta. E estranhamente o frio do Inverno parecia se dissipar.
Mais estranhamente ainda, uivos começaram a ser ouvidos e sim — seguidos por centenas de lobos, correndo pela floresta como se disso dependessem suas vidas, na mesma direção que a ventania: o Norte.
– O que está acontecendo? — ela tentava continuar observando o fenômeno (Ronaldo) enquanto mantinha seus olhos semicerrados, devido à neve poeirenta que levantara.
– Algo nada bom, eu tenho certeza — confirmou Nerd Stark.
Quando, minutos depois, a procissão gigantesca de lobos se dissipou, um frio avassalador que não tinha origens climáticas espalhou-se pelo local, acompanhando o vento forte e ruídos rascantes.
E a explicação surgia trazendo consigo uma densa neblina e fazendo os únicos humanos da cena se sobressaltarem.
Vinham marchando lentamente, a pé ou sobre cavalos mortos e desfigurados, tenebrosas figuras. Descarnados, humanoides, de corpos pálidos e aparência medonha, os terríveis Caminhantes Brancos (ou Bran's Cu) chegavam liderando uma enorme horda de zumbis-do-zóio-azul. Morbidamente, as criaturas continuavam a trilhar seu caminho em direção ao Norte, ignorando Nerd e Cersex, que observavam vidrados aquele fúnebre desfile.
– Nerd... — sussurrou ela, sensualmente, enquanto nele se agarrava.
– Shhh...
E aos pouco percebia-se uma luz nascendo por trás do grupo, iluminando a floresta e tornando a neblina em perolado. A luz aumentava, evoluía, contrastando com os troncos e galhos das árvores, agora secos. Os companheiros paralisaram, enquanto protegiam seus corpos mutuamente.
Então bruscamente aquela claridade chegou ao seu ápice, tingindo todo aquele ambiente de azul-prateado. Junto com a ventania, a luz emanava um poder inexplicável, engolindo as sombras, as árvores, os mortos-vivos, os humanos fugitivos e a cabana, prestes a revelar algo que renascia detrás da inabalável e intensa cortina esfumaçada.
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