Longevo
7 Capítulo 7
Minha única alternativa após aquele desastre ambulante foi dar uma caminhada pelo Romeu Wolf, parque próximo da minha casa. Deixei com que as lágrimas acumuladas em meus olhos escorressem enquanto fazia um percurso aleatório, como uma alma sem rumo, vagante pelo espaço.
A história com Abílio era um sepulcro caiado, o qual só sabíamos nós três: Selma, ele e eu.
Sim, Selma sabia. Soube na noite em que meus pais me fizeram cortejá-la enquanto recebia a visita dele. O olhar de meu pai para ele, vencedor de uma corrida acirrada, entregou toda a armação feita às pressas para o desvirtuado em questão — eu — não cair em tentação nos braços daquele que devia segurar somente moças, não rapazes.
Flagrou-me dando um beijo na testa dele ao nos despedirmos, naquele que julguei ser nosso último encontro. Como sempre, apenas lançou seu sorriso doce, dando-nos privacidade para concluir o que começamos.
Foi quando ele cometeu seu maior equívoco em sua existência:
— O mundo ainda saberá de nós — suas mãos delicadas passearam por meu rosto, ainda sem marcas do tempo — Assim que eu for aprovado no teste, te livrarei dessa vida antes que diga ‘sim’. Entendeu?
— Está certo — lancei um pequeno sorriso em meio a algumas lágrimas teimosas — Prometa que não morrerá aqui esse sentimento. Por favor…
Seus lábios, com aquele gosto inconfundível de mel, se aproximaram dos meus, acabarando com a distância entre si.
— Prometo.
Sim, ele falhou. Nós falhamos.
E segui com Selma até o fim de seus dias, me culpando todos os segundos possíveis, sobretudo quando sua vida findava, por não ser tão grandioso quanto ela merecia.
Não dei-lhe filhos, engravidou as duas vezes do rapaz com a qual foi impedida de casar para se unir a mim.
Não a desejava, pois seu corpo, mesmo belo como uma escultura, passava longe dos modelos másculos que mexiam comigo. Submeti-lhe a condição de traída, assim como ela também me traiu para satisfazer seus desejos inerentes a qualquer ser humano.
Logo, por mais toleráveis que tenham sido por ambas partes, não precisariam existir se tivéssemos um elemento fundamental: Coragem.
Podia ter sido diferente.
Cheguei em casa preso a esses pensamentos, tomando um susto ao dar de cara com Carlos e Renata sentados no sofá aguardando minha chegada. Tinham em mãos um papel dobrado ao meio, o qual Carlos tratou de me entregar.
— Lê que o senhor vai entender tudo, pai.
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