Longevo
20 Capítulo 20
Se eu falar que tudo em minha vida continuou exatamente como era depois daquela cerimônia, estaria mentindo. Na realidade, no frigir dos ovos, nem minha versão mais jovem podia acreditar naquele novo cenário.
Ao escolher sustentar o casamento com Selma e me contentar com ver Abílio envelhecendo pelas capas das revistas, papéis ou entrevistas na televisão, havia escolhido parar e seguir uma vida de espião. Um espião mundano, sem valor algum, diga-se de passagem.
Menos de um ano antes, se caísse na rua, seria, no máximo, acolhido por alguma boa alma apiedada de mais um senhor estabanado. Contudo, os ventos da vida foram mudando, o curso do destino também, e ao quebrar o cóccix em pleno calçadão de Ipanema enquanto visitava o rio na semana passada, meu rosto estampou tudo o que foi coisa.
O título da manchete? “Novo amor de Abílio Moraes caiu… mas não de amores!”
Bem, vivi seis décadas para meu novo RG me identificar como “Novo amor de Abílio Moraes”, mesmo com o próprio rindo da cara que o fotógrafo registrou no maldito ato: como quem vê uma assombração.
Novo amor de Abílio Moraes foi me soar dias depois, deitado na mesma cama onde permaneço, com a diferença da distância do ocorrido, que era menor. Passei a rever tudo o que vivemos até ali. Cheguei, após o fim da revolta provocada pelo orgulho ferido, a uma conclusão:
Um equívoco me chamar de Novo Amor!
Não era novo, apesar de ser amor!
Era o grande amor de Abílio Moraes!
Soava mais digno a quem me sentia e ao que ele sentia por mim.
E, por mais que o tempo tenha nos afastado por tantos anos, era correto dizer que: “O GRANDE amor de Abílio Moraes caiu na rua, sim… mas de amores também!”.
Esteja dito!
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