Longevo

19 Capítulo 19


Era tempo de mudança.

Enquanto terminava de colocar o terno que Renata mandou fazer de presente a este velho pai, e Abílio de fazer a barba depois de fazer sua higiene, essa frase disparou num flash de segundos na minha cabeça. No entanto, deixou sementes pelo caminho, que brotavam à medida que me dava conta de toda uma vida nova surgindo bem à nossa frente.

Justo a mim, que nada mais aguardava dela. Pensava ter deixado o palco para deixar os mais jovens tomarem frente no espetáculo da felicidade, uma vez que, bem ou mal, não fui infeliz, apenas não fui tão feliz quanto poderia se as circunstâncias fossem outras. Então, exigir da vida o que mais aos sessenta? Pelo jeito, quanto menos exigimos dela, mais a vontade se sente de fazer das suas. Que ironia!

Tudo em minha história passa pela palavra “tempo”, pois nem mesmo a vida, geniosa como é e continuaria sendo em todos os instantes, pode domá-lo. Engole suas vontades e caprichos apenas para vê-lo passar e passar… resolvendo angústias e urgências quando estamos prontos para lidar com isso.

Não penso na vida como uma megera, ao contrário, é apenas um grão de feijão, contente com o concreto, palpável, sem devaneios ou fantasias. Mas encará-la sem o passar das horas, dias e anos; invernos e verões; sois ou chuvas; é mergulhar numa profunda cratera, de onde poucos conseguem sair.

Quando descemos ao salão de atos e demos de cara com tantas personalidades importantes, enquanto não saíamos um do lado do outro, quis que o mesmo tempo que me trouxe o grande amor do passado de volta, me desse a honra de parar naqueles segundos e ficar congelado neles para sempre. Não pelo luxo ou pelos olhares dos colunistas e fotógrafos, mas pela grandiosidade de viver isso ao lado dele.

Por um instante, tive a nítida impressão de ver Selma, trajada por um vestido lilás que lhe dei de aniversário anos antes e que era seu bem querer, atrás daquelas pessoas todas. Lançava seu sorriso clássico, conhecido por aquelas almas de coração puro e acolhedor, fechando com um beijo ao vento jogado antes de sumir. Não temi. Estava cumprindo o que me escrevera.

Sentado na plateia minutos depois, assisti as palavras iniciais da cerimônia, as explicações técnicas e afins, até que, ao chegar a vez de Abílio dar seu comentário, parou em frente ao microfone e explicou.

— Perdão, senhoras e senhores, mas não posso iniciar minha fala sem antes dar os cumprimentos a alguém muito especial…

No mesmo instante, deu alguns passos em direção às escadas para, em seguida, vir à minha. Comecei a sentir meu coração errar as batidas e as mãos tornando-se cachoeiras. Ainda que não tivéssemos falado sobre, não era difícil imaginar o que seria feito.

Um beijo digno de novela foi dado entre nós numa fração de segundos. Letícia, aquela que fez uma personagem com nome de chiclete, deu um sorriso surpreso e palmas, Aracy lhe fez companhia. Já Susana, essa fez da cena um carnaval, com direito a um berro de “AMORECOOS!”.

Pessoas que eu assisti, me assistindo sendo alvo daquele carinho todo por parte dele. Emocionante. Incrível! Alguns com certeza seriam o homem do café, mas outros, de modo geral, seriam Susana. Um equilíbrio perfeito.

Não cabia dentro de mim tanta alegria. Esperar por aquilo e ver se realizando assim, com holofotes e tudo, apesar de deveras vergonhoso, tinha seu valor. Um valor simbólico que jamais se igualaria a nada.

Só pedi ao tempo, meu Senhor, que após aquele instante de alegria, tudo acontecesse de novo em cada minuto que passássemos juntos a partir de então.

Que todo momento o amor nos acolhesse em seu abraço e a ternura mostrasse a face em cada gesto simples que fizéssemos.

Que as palavras ditas fossem sempre com vistas a encorajar, jamais magoar, pois tanto elas já haviam nos ferido…

Pedi para que quem estivesse à nossa volta fosse encontrasse um amor assim também.

Me dirigi à vida, com uma súplica de um coração latente, cujos caprichos dela tentaram amagar, apenas me tornando melhor. Agradeci por isso.

E por fim, claro, assim como fez com Selma, que o ciclo fosse o mais longevo possível.

Notas finais
Penúltimo capítulo, galerinha! Um fan fact: Era para esse ser o último, mas, como este que vos escreve contou errado os capítulos, mais um foi escrito depois da história já concluída, servindo como uma espécie de "epílogo". Abração e vejo vocês amanhã! Deixa aquele review maroto que sempre alegra o coração! hehehe