Longevo

13 Capítulo 13


Se dissesse que as horas seguintes eu passei mergulhado num mar de rosas relembrando o ato há tanto almejado, mentiria. Na realidade, só pensava em quantas chibatadas divinas me aguardavam tão logo o Espírito Santo levasse embora meu sopro da vida. Um híbrido de angústia, medo e felicidade domavam meus pensamentos.

Beijar para mim sempre foi um ato quase tão corriqueiro que podia distribuir pelas ruas caso não fosse preso por atentado à moral. Perdeu o sentido, a razão de ser, enfim, como se trocar saliva fosse algo biológico, sem fins emocionais. Tudo ficou em cheque, porém, tão logo tive os lábios de Abílio tão próximos aos meus.

Mas por que vinha cheio de receios? Não podia simplesmente aceitá-lo e pronto?

Pela primeira vez em muito tempo, enxerguei a gaiola que me enjaulava e impedia de bater asas. Jaula soldada a ferro por mim em primeiro lugar, reconheço. Perceber seus semelhantes interessado em vodkas, mulheres solteiras ou adolescentes e carros importados e em nada reconhecer seus gostos acende um alerta vermelho, e, da época em que vivi, duas eram as possibilidades: ou enfrentava com peito estufado para morrer na praia ou vivia infeliz, mas vivia.

Fácil adivinhar qual foi minha escolha.

Agora, porém, a vida me dava a chance de viver de novo, numa idade em que nem sabia ser possível reverter tal inércia. Quando observava as fotos dele dando entrevistas sobre novos trabalhos, parecia tão distante tê-lo ali ao meu lado. E agora havia acontecido.

Deixei-o na porta da hospedaria me vendo retornar para casa com a promessa de visitar logo cedo, portanto, devia esperá-lo com café pronto. Curioso, pois fora um dos prazeres domésticos de Selma por anos. Apreciar a companhia um do outro, regada a café, pães fresquinhos e chimia de uva ou doce de leite.

Uma vida nova surgia no horizonte. O sorriso diabólico nos lábios de meu pai encarando Abílio na oficialização de meu noivado com Selma, enfim, parecia perder força em meus pensamentos. Mesmo ele sendo puro suco da lei do mais forte, e tendo sua presença física há muito extinta no planeta, penso que foi naquele momento em que, definitivamente, ele descansou, mas longe de ter paz.

Que aproveitasse o bronzeado da brasa quente onde devia estar!

Enquanto isso, me preparava para um nascer do sol bem diferente daquele com o qual me acostumei. Era um novo Aurélio sob um novo sol.

Notas finais
Nossos "guris" estão aprendendo, hein?! hahahaha Gostou? Deixa um review! Abração e até amanhã!