London
3 Preto
Notas iniciais
O céu cinzento cobria a cidade como uma manta acolhedora e traiçoeira, fazendo um contraste especial com a grama verde do cenário de onde Ethan se encontrava. Ainda não conseguia acreditar no caixão que jazia aberto em sua frente, cercado pela família e amigos do cadáver, incluindo também as mulheres que já houveram estado em sua cama. Todos choravam e se abraçavam, compartilhavam memórias e experiências, enquanto miravam o corpo pálido e gélido de Snow.
O amigo estava deitado entre várias flores de perfume forte, que o fariam espirrar bastante se ainda estivesse vivo. Ethan esboçou um sorriso, que se foi tão rápido quanto se formou, ao se lembrar da personalidade do amigo. Lembrou de como ele odiava flores e toda vez que uma mulher lhe dava um buquê delas ele jogava direto no lixo.
O paletó com o qual vestiram Snow não escondia tão bem a linha roxa envolta em seu pescoço, como um colar maligno feito pela própria morte. As lembranças e pensamentos o atormentavam cada vez mais, fazendo-o decidir se afastar dali. Foi até a mesa onde se encontravam algumas bebidas e tira-gostos, ali perto. Pegou um copo e o encheu até a metade com whisky, já que não era sempre que podia tomar esse tipo de bebida.
O gosto amargo e frio pareceu queimar-lhe enquanto descia até suas entranhas.
– Olá, senhor Murray! — a voz feminina de uma das recepcionistas do Fishmarket apareceu atrás dele, empunhando um copo vazio. — poderia encher meu copo também?
– Olá, Meredith. — cumprimentou Ethan. — Não pensei que recepcionistas fossem convidadas para os enterros dos inquilinos.
– Ora, não pude recusar. — riu, enquanto o garoto enchia seu copo com a bebida cara. — Snow era um dos únicos que sempre pagava o aluguel em dia. A parte dele, no caso.
– É... — murmurou, dando um gole no whisky.
– Por falar nisso, senhor Murray, — deu uma súbita mudança em seu tom antes descontraído. — Agora que Snow está morto e o senhor tem uma dívida bem grande conosco, o senhor terá que se retirar do trezentos e dois. Ao menos — estendeu as sílabas da ultima palavra. — que o senhor pague tudo o que deve com juros e ainda dê conta de continuar pagando o aluguel todo sozinho de agora em diante.
A notícia teria caído como uma rocha sobre seus ombros, se ele já não tivesse muito mais rochas nestes e só mais uma não fizesse diferença.
– Quanto tempo eu tenho para sair? — suspirou.
– Cerca de cinco dias.
– Entendo. — assentiu e se afastou, enquanto ouvia a mulher mentir que sentia muito pela perda de Ethan.
Não, ela não sentia.
Nunca ninguém iria sentir.
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O cansaço e o vazio tomavam conta dele, enquanto via o caixão descer e adentrar o fundo retângulo obscuro, que levava embora seu amigo. Olhou para a lápide cinzenta de Snow, que agora era coberto por terra, e pensou se voltaria ali algum dia para deixar-lhe flores apenas com a finalidade de irritá-lo mesmo estando no além. Novamente, um sorriso passageiro passou por seu semblante. E assim que se foi, devolveu-o o sentimento oco que o tragava.
Saiu dali.
Andou mecanicamente até a saída do estabelecimento e encostou-se na parede de pedra ao lado da porta, deixando o olhar cair até a rua.
Foi então que ouviu um soluço.
Olhou para a direção do som e quase não conseguiu evitar sua boca de abrir-se.
A loira encontrava-se ali mais uma vez. Dessa vez mais próxima dele do que nunca. Ela chorava, abraçando os joelhos, ao lado de Ethan, olhando o além com seus olhos profundamente azuis. Estava tão perdida em devaneios que não percebeu a presença do garoto. Este, assustado e curioso, decidiu tentar interagir com a figura.
– Ei! — deixou escapar.
Assustada pelo repentino grito, a garota caiu para o lado, apoiando-se apenas com um braço agora. Ela se levantou desajeitadamente e correu para longe, antes que Ethan pudesse fazer qualquer outra coisa.
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A boate estava um inferno.
As luzes cegavam Ethan e o barulho era ensurdecedor, porém, não teria coisa melhor para fazer naquele dia. Passou aos tombos pelas pessoas que dançavam como loucas por ali até chegar ao balcão do bar, onde pediu por um copo de vodka com uma espécie de energético de sua preferência e esperou com os braços cruzados e apoiados à sua frente enquanto o homem buscava a bebida. Passou as mãos pela cabeça e olhou ao redor. Havia um tumulto dançante na pista de dança que parecia apenas uma mancha negra e espessa de silhuetas de pessoas, que se ascendiam e apagavam conforme a música e os jogos de luz do lugar. O dj parecia bem entediado, apenas mudando as músicas e balançando um pouco o corpo, parecendo não estar muito no humor para dançar, assim como Ethan. Haviam alguns sofás e cadeiras ao redor da pista e uma escada que levava até um lugar onde haviam ainda mais sofás e mais cadeiras, incluindo outro bar e um pequeno espaço que parecia com uma sacada interna.
Foi tirado de seus devaneios por sua bebida, que havia acabado de ser posta na sua frente para ser consumida. Pegou o copo e o levantou um pouco, num gesto de agradecimento ao garçom, que respondeu com um aceno de cabeça. Sorriu e deu o primeiro gole, logo sentindo a bebida queimar-lhe a garganta. Baixou o copo e olhou para as pessoas que estavam ali sentadas ao balcão como ele. Haviam dois homens que aparentavam ter trinta anos, uma garota que parecia ter a mesma idade do mesmo, e um casal de homens que, provavelmente já bêbados, riam e se beijavam o tempo inteiro.
Mirou então a garota, pensando no seu objetivo de estar ali. Não seria muito difícil consegui-lo e sabia disso, mas também sabia que provavelmente acabaria com um tapa na cara no dia seguinte. Porém, ele realmente não estava nem aí.
A garota tinha cabelos longos e castanhos, com uma parte deles presa atrás da cabeça, tornando-a ainda mais bonita. Os olhos eram verdes e ela tinha sardas pelo rosto inteiro. Seus lábios eram finos e delicados e as sobrancelhas também, fazendo uma combinação interessante em suas feições. Ele resolveu se aproximar e sentou ao seu lado, levando consigo a bebida.
– Olá. — disse, sem muita empolgação.
– Oi. — ela respondeu, também sem o menor interesse.
Ficaram algum tempo calados, até que ela suspirou e reclamou do barulho.
– Bom, é de se esperar de um lugar como esse. Se não gosta de barulho, deveríamos ir para outro lugar.
– E essa foi a pior tentativa de levar alguém pra cama que eu já vi. — riu-se e finalmente o encarou.
– Desculpe. — sorriu. — Não estou com muito humor para me elaborar hoje.
Mais silêncio.
– O que aconteceu? — indagou a moça.
Ethan hesitou.
– Meu — hesitou novamente. — irmão morreu ontem. Vim de seu funeral.
– Sinto muito. — seu olhar se tornou triste e os dois deram alguns goles em suas bebidas, em meio de outra pausa, dessa vez um pouco mais longa. — Minha mãe faleceu faz alguns dias, também.
– Entendo. — murmurou. — Por que morreu?
– Bem — ela riu nervosa, enquanto Ethan dava um gole de sua bebida. — foi suicídio.
A bebida estacou em sua garganta e o fez engasgar bem naquele momento. Engoliu a bebida e tossiu um pouco. Acabou por assustar um pouco a moça, que parecia bem confusa.
– Meu irmão também morreu assim. — comentou, sentindo a garganta farfalhar. — Isso tem sido bem comum ultimamente, não é?
– É. — confirmou. — Não sei o que deu na cidade. De repente houve uma epidemia de depressão? — indagou para si mesma.
– Talvez — pensou- não seja apenas coincidência.
– O que quer dizer?
Outra pausa.
– Não sei. — engoliu o resto de sua bebida. — Fome?
– Com certeza — sorriu. — A propósito, perdoe-me, sou Jocelyn.
– É um prazer Jocelyn, eu sou Ethan.
Sorriram e pagaram suas respectivas compras, logo em seguida se retirando juntos daquele lugar horroroso.
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Depois de um agradável jantar em uma daquelas hamburguerias retrôs com decoração brilhante de vermelho e azul com Jocelyn, Ethan havia conseguido, de alguma forma que nem ele mesmo entendia, levá-la para seu apartamento.
Enquanto subiam as escadas, o garoto lembrou de algo e com fervor meteu as mãos nos bolsos atrás de seu celular, quando o tocou, uma tristeza gélida e maldosa o invadiu. Lembrou-se de que não precisava avisar ninguém para sair do apartamento. Snow não estava mais lá para isso. Imaginou então em como o amigo o encheria o saco para sempre se o visse agora, levando uma garota para casa.
Segurou com força as lágrimas que ameaçaram cair de seus olhos.
– Ta tudo bem? — indagou Jocelyn, preocupada, segurando seu ombro para chamar sua atenção enquanto o mesmo pegava as chaves de maneira desajeitada, finalmente chegando à porta de casa.
– Sim, sim. — riu nervoso, abrindo a porta. — Seja bem-vinda!
A morena sorriu e entrou e ele a seguiu e fechou a porta novamente atrás de si.
Ela olhava de um lado para outro, como se inspecionasse a moradia do colega, que tirava o casaco e suspirava cansado. O dia havia sido uma merda, ele pensou. Jogou as chaves no balcão da cozinha, acendendo as luzes por onde ia.
– Você mora sozinho há quanto tempo, Ethan? — a pergunta de Jocelyn foi como um soco no estômago do garoto.
– Bom, — riu nervoso — eu morava com o... Meu irmão.
– Oh! — ela pôs a mão sobre a boca, como se tentasse expressar seu arrependimento. — Eu sinto muito.
– Tudo bem. — sentou na poltrona da sala, cabisbaixo.
Uma pausa longa e melancólica de instalou.
– Por favor, — se ajoelhou na sua frente, para ficar da sua altura e olhar em seus olhos. — vamos tentar esquecer as coisas ruins agora, ok? Tivemos uma noite divertida afinal, não é mesmo?
Ethan assentiu, erguendo as costas, para chegar mais perto da morena. Segurou-lhe o rosto com uma mão e aproximou-o do próprio, selando seus lábios nos dela, num beijo calmo.
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