Locked Out of Heaven
7 Breaking Some Walls
Notas iniciais
Santana Lopez não voltou para casa.
Não imediatamente. Depois de deixar Brittany na porta de casa com um rápido selinho, um sorriso fraco e nenhuma palavra, ela fez seu caminho de volta, mas continuou a dirigir sem rumo. Até que chegou à pracinha que vira em seu caminho quando ainda estava com Brittany. Ainda não era tarde da noite e havia pessoas passando por ali. De qualquer forma, ela era de Lima Heights Adjacent e sabia se defender muito bem sozinha.
Ela desceu do carro e começou a caminhar em direção aos balanços, vazios àquela hora. Sentou-se em um deles e pôs-se a pensar. Não tinha pressa alguma de voltar para casa. Seu pai estava de plantão no hospital essa noite e a mãe com certeza chegaria cansada demais, indo para o quarto rapidamente. Além disso, desde que visitara a avó pela última vez, Santana costumava receber olhares apreensivos dos pais. É claro que eles souberam da atitude de sua abuela, mas isso não significava que Santana precisasse da pena dos dois. Na verdade, essa era a última coisa que ela queria; mesmo que estivesse sofrendo, pena era algo pelo qual sentia repulsa. E aí estava outra coisa ensinada pela abuelita.
Ela estava protelando, mas não podia evitar: seus pensamentos acabaram voltando-se para Brittany, o que acontecera no restaurante… E Sebastian. Por isso mesmo, ela poderia jurar que estava delirando quando ouviu uma voz que vinha de algum lugar às suas costas:
– Santana Lopez. Que agradável encontrá-la mais uma vez esta noite. – Sebastian entrou em sua linha de visão fazendo uma leve reverência. O típico sorrisinho de escárnio estava em seus lábios, os olhos divertiam-se. Ele encaminhou-se para o balanço livre ao lado de Santana e ela só conseguiu pensar que aquilo não era um bom sinal; significava que ele não teria a menor pressa em deixá-la em paz. Mas o pior era constatar que ela não estava nas condições mais ideais para manter uma boa discussão com Sebastian.
– O que você quer, Smythe? – A latina tentava manter um tom de voz normal. Sebastian podia ver a dificuldade que ela tinha em manter o controle; aquilo o divertia mais ainda.
– Esta noite, eu desfrutei de um razoável jantar – para os padrões do Breadstix. Então eu estava dirigindo pra casa e...
– Sério que você já tem idade pra dirigir? Meus parabéns, Seb! – Santana o interrompeu e divertiu-se ao ver a careta que ele fez ao ouvir aquelas palavras… Ao ouvir a última palavra.
– E vi essa pessoa desolada e sozinha, sentada em um balanço. Então vi que era você e resolvi vir aqui, fazer uma boa ação. – Sebastian deliberadamente ignorara o que a morena dissera.
– Certo, mas… O que exatamente você entende por “boa ação”? – Ela disse fazendo aspas com as mãos.
– Você não deveria estar com a Pierce? – Ele ignorou a pergunta.
– Você não deveria dar o fora daqui? – A latina rebateu.
– Eu tive a leve impressão de que vocês estavam num encontro… Eu não costumo me enganar, é claro. Mas sempre existem exceções, não é mesmo? – Os olhos dele a fitavam com um interesse que parecia verdadeiro.
– O que você quer aqui? – Ela perguntou outra vez, de modo impaciente; voltar à defensiva foi inevitável.
– Eu vi o comercial. – De repente, o rosto de Sebastian ficara sério.
– É claro que viu! Quem nessa estúpida cidade não viu? Suponho que você tenha uma tv, certo? – Santana não fazia ideia do que ele pretendia com aquilo, mas a raiva a dominava naquele momento.
– Qual é, Lopez! Você não precisa fazer a durona… Não pra mim. Eu sei que aquilo foi uma empurrada pra fora do armário. E que empurrada! Pensei que você não fosse uma pessoa de cultivar muitas inimizades, mas, morando no subúrbio onde mora, era de se esperar que você fosse, no mínimo, jurada de morte. Devo dizer que estou surpreso que o seu povo consiga pensar em vinganças tão humilhantes.
– Céus, você faz monólogos maiores que os de Berry e isso definitivamente não é um elogio. Eu não escutei nem metade do que você disse, sabia? Mas, se você quer mesmo saber, os adversários da treinadora Sylvester queriam atingi-la e acabaram acertando em cheio, embora eu, particularmente, não ache que ela seja lésbica. Enfim. Satisfeito? – Santana tentava se esquivar.
– Estaria, se você abrisse um pouquinho mais o seu coração. – Sebastian disse, piscando. Ele parecia ter voltado a se divertir e não ter pressa alguma, o que incomodava Santana. Ela sabia que ele não iria desistir.
– Onde diabos você esqueceu seu bom senso? Não somos amigos, Sebastian. Pelo contrário. Eu não tenho um motivo sequer para confiar em você. – As palavras eram duras, mas Santana estava apenas incrédula.
– Sabe, Santana… Eu vi a cara que você fez quando a loirinha disse que não era gay. E em momento algum eu a vi ser mencionada naquele comercial… Isso não te dá a sensação de estar sozinha nessa?
Pronto. Estava feito. Sebastian tocara bem na ferida. Santana não tinha argumentos contra aquilo e, depois disso, não conseguia pensar em formas de despachá-lo ou esquivar-se. Ele só falara a verdade.
– Britt não é co-capitã das Cheerios. – Ela disse, após um silêncio que foi breve — mas que parecera uma eternidade — como se aquilo explicasse tudo.
– E…? Outro fato sobre mim: eu também já tive que sair do armário, Lopez. E não foi algo agradável. – Não, ele não desistiria.
– Obrigada, mas não. Não tenho interesse algum em te contar algo da minha vida. Além disso, por que tanto interesse nisso tudo? Por que tanto interesse em mim? – A curiosidade da latina era real, mas as perguntas também tinham o propósito de desviar o foco da conversa. Ganhar tempo era o melhor a se fazer, já que o rapaz não dava sinais de que se retiraria. Por alguma razão, Santana também não cogitava ir embora. Na verdade, aquilo nem se passava por sua cabeça naquele momento.
– Eu não sei. – Sebastian disse. Santana pode ver o vinco que surgiu entre as sobrancelhas dele. Ela via a confusão nos olhos azuis e sentia a sinceridade daquelas palavras. Ela pensou por alguns instantes e, surpreendentemente, resolveu falar. Mesmo sem saber o porquê, parecia o certo a se fazer; ela não era a única quebrando barreiras ali.
– Bom, eu faço parte de um Glee Club. É claro que aquela escola só tem babacas, mas eles são boas pessoas; não foi exatamente um problema e todos já sabiam que eu era apaixonada pela Brittany. Cantamos o que eles chamaram de “músicas de lésbicas” e, depois de uma semana de orgulho gay, tudo ficou bem. Contar aos meus pais também não foi grande coisa. Eles me amam e, apesar dos olhos do meu pai quase terem saltado de seu rosto, eles me aceitaram. Foi um alívio… – Ela se ouviu dizer, antes de fazer uma pausa. O que viria a seguir era bem mais difícil de dizer. — Então eu contei à minha abuela e… Posso dizer que a reação dela não foi das melhores. Ela falou muitas coisas e, no fim, me expulsou de sua casa, dizendo que não queria mais me ver.
– Sua avó é uma vadia. Aposto que aprendeu tudo com ela. – Sebastian disse e Santana percebeu que ele sabia espanhol. Era um detalhe bobo, no meio de um assunto sério, mas aquilo chamara sua atenção.
– Sim… Esse é o problema. – Em sua voz havia tristeza e, ao mesmo tempo, amargura.
Os dois ficaram em silêncio por um tempo. Santana não sabia por que resolvera contar aquilo a Sebastian. Logo ele. Mas, estranhamente, ela sentia-se bem mais aliviada e isso a deixava mais intrigada ainda. Nem mesmo quando tivera Brittany para consolá-la, ela sentira-se daquele jeito. Parecia que estivera carregando toneladas e que, de repente, elas haviam sumido. Talvez fosse porque ele era gay e a entendia, mesmo que isso não fizesse muito sentido; apesar de ter Brittany, Kurt e Blaine, Santana sabia que nenhum dos três poderia realmente entendê-la. Brittany sempre tivera o amor e apoio incondicionais de Susan e Peter. Burt Hummel poderia concorrer a um troféu de melhor pai do mundo. E, mesmo não conhecendo a família Anderson, Santana sabia do suporte que Blaine sempre tivera. Ela achava que ninguém que conhecesse fosse capaz de compreender o que ela estava passando. Mas a vida era mesmo uma caixinha de surpresas e ela estava ali, sentada ao lado da pessoa mais improvável do mundo, fazendo confidências sobre assuntos dolorosos.
Agora que ouvira a experiência da latina, Sebastian não sabia o que fazer. É fato que ele não sabia ao certo por que queria tanto ouvi-la e, depois da conversa, ele não conseguia pensar em mais nada que pudesse dizer. Então ele pensou em sua própria experiência. É claro que ele não sabia se Santana queria, ou mesmo se estava disposta a escutar, mas ele sentia que ela deveria saber. De alguma forma, parecia ser o certo a se fazer. Não que ele estivesse tentando fazê-la se sentir melhor ou mais confortável, mas ele queria falar. Então deu-se conta: nunca compartilhara aquilo com alguém. De repente, não tinha mais certeza se deveria contar à latina. Por que dizer algo tão pessoal a ela? Mesmo que ela tivesse partilhado o assunto, ele não era obrigado a “retribuir”. Tais pensamentos não o agradaram. Mesmo negando, ele queria contar a ela o que acontecera. Por fim, convenceu-se de que estava fazendo isso por si, porque aquela era uma oportunidade de desabafar, de colocar para fora, mesmo que fosse com uma quase estranha e quase inimiga.
– Sabe, Santana... Você não foi a única que sofreu a rejeição de alguém da sua família. –Sebastian esperou que a latina dissesse algo, mas a garota permaneceu em silêncio, atenta ao que estava por vir. Ele suspirou e continuou: — Thomas Smythe costumava ser meu pai, antes de descobrir que eu prefiro homens.
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