Lobos entre ovelhas

1 Capítulo 1 - Judia no uniforme azul


É incrível como os dias são sombrios,como as palavras boas caem sob a pólvora de uma arma,como os lábios de uma mulher se calam a cada batida do relógio que passa...após aquele homem sair pela porta com um sorriso distraído no rosto,sabendo que aquela pode ser a ultima vez,que vera aqueles lábios novamente,felizes.

1 de setembro de 1939,o jornal anuncia "A Alemanha iniciou a marcha contra a polonia" fiquei pasmo...a final as histórias que meu pai me contava estavam saindo de sua mente e estavam ali,bem a minha frente desafiando meus ideais...sim,a 2 guerra havia começado,não estava apenas no papel,todos em Berlim sabiam que logo seriamos chamados para a frente de batalha.

8 de setembro de 1942

Sou Goring...Frederich Goring,meus amigos me chamam de Fred,isso se eu tivesse bons amigos...a maioria tem a arrogante ideia de me usar para conseguir altos elogios do meu pai...Hermann Goring,um fanfarrão nazista...por quem tenho uma certa admiração,mas ao mesmo tempo,um certo ódio,por sua ignorância.

Meu aniversário de 19 anos é em poucos dias e de "presente" vou administrar junto com mais 5 filhos de militares um campo de extermínio na polônia chamado Treblinka.

São meus amigos de infância então talvez não seja tão ruim quanto ouvir sermões facistas do meu pai dizendo "Quando você meter uma bala na cabeça de um judeu, você vai sentir orgulho de ser um ariano puro",eu sinceramente não pretendo meter uma bala na cabeça de alguém que não mereça e muito menos vou ter orgulho de ser loiro com olhos azuis,cá entre nós,nem o fuhrer é,porque isso seria motivo de orgulho?

21 de setembro de 1942

Era uma casa azul enorme com 3 andares e diversas janelas brancas espalhadas pelas paredes,a porta de madeira era enorme e tinha pequenos anjos entalhada nela,a cerca que ia para os fundos da casa ficava a direita nas extremidades do jardim.

Havia uma biblioteca a direita da porta principal e uma escada no meio que ia em direção a nossos quartos e também a algumas salas com munição,projetos,estatísticas de guerra e sobre o campo, a direita da escada ficava a sala de jantar e a esquerda ficava a cozinha, a esquerda da porta havia uma grande sala de reuniões com sofás,cadeiras e uma grande mesa ao centro com um mapa do território do campo.

Subi as escadas e entrei em meu quarto,tínhamos um quarto para cada um e três banheiros para dividir,deixei minha mala na cama e uma senhora de aparência apática chegou para dobrar minhas roupas.

– A senhora não precisa se preocupar,eu mesmo arrumo — disse eu sorrindo gentilmente.

Ela apenas acenou com a cabeça e saiu pela porta sem dizer uma palavra.

Após arrumar minhas coisas sai pela porta e andei pelo corredor até a escada e encontrei Hanz,o mais arrogante e convencido do grupo,subindo as escadas.

– Qual é o problema das pessoas por aqui? — Eu disse descontraidamente.

– São judeus...o que você esperava? Gentileza? Se fosse por mim,eles não estariam nem pisando no mesmo chão que eu piso.

Hanz deu um tapa nas minhas costas e subiu sorrindo.

Fui até a biblioteca e me deparei com milhares de estantes com milhões de livros e bilhões de páginas,meus olhos brilharam e eu me perdi naquela sala abarrotada de histórias...infelizmente...apenas permitidas pelo comando nazista.

Passei os dedos por cada estante procurando livros novos para ler e acabei achando alguns que peguei e coloquei na mesa ao lado de uma poltrona.

Me sentei na uma poltrona verde que ficava ao lado da escada em espiral,respirei fundo e após uns 5 minutos de repente ouvi a voz mais doce que havia invadido meus ouvidos em toda minha vida.

– Boa tarde senhor,precisa de algo?

Quando abri os olhos lentamente me deparei com uma mulher de 18 ou 19 anos de cabelos castanhos escuros presos por uma fivela deixando algumas mexas para fora, a poucos centímetros de mim de uma forma que a luz que o sol emanava pela enorme janela da biblioteca ao fim de tarde a iluminasse perfeitamente.

Ela tinha olhos turquesa e tinha lábios finos e rosados,seu nariz era fino e delicado e seu rosto...perfeitamente afinado,ela usava um uniforme azul sujo com avental branco como as empregadas que se ajustava perfeitamente a sua cintura e ia até abaixo dos joelhos, percebi que a estava encarando a algum tempo de forma que a deixou constrangida,seu sorriso me fez parar no tempo e sorrir de forma boba para ela,era a mulher mais perfeita que eu havia conhecido em toda minha vida,era definitivamente a visão mais bela que eu já havia presenciado,era linda,perfeita,a mulher mais perfeita que eu já havia conhecido,ela era judia.

Percebi marcas em seu rosto,marcas roxas,arranhões em seu pescoço,cicatrizes em seus lábios e braços e aquilo me doeu,me fez pensar,me amoleceu de todos os sentidos.

– Ah...Não,não preciso de nada no momento, não precisa se preocupar eu só estava tentando dormir um pouco — Eu disse levantando levemente da poltrona.

– Mil perdões senhor...eu não sabia...mil...mil perdões senhor não quis atrapalhar. — Disse ela assustada com um tom meigo,cheio de medo e angustia ela me olhou como se esperasse uma surra.

– Por favor não se desculpe,não tem problema algum — Eu disse colocando a mão em seu ombro. — Qual seria seu nome? Pode me dizer? — Eu disse levando minha mão até a dela querendo beija-la.

– Ewa...Ewa simmel senhor... — Disse ela tirando a mão da minha delicadamente e rapidamente com vergonha.

– Ewa...é um belo nome,muito lindo mesmo...não fique com medo de mim...odiaria sentir que tem medo de mim...e que ninguém me ouça...não sou como esses hipócritas fascistas nojentos,se precisar de algo vou estar aqui,é só me chamar,vou cuidar de você eu prometo,farei o possível. — Eu disse sussurrando em seu ouvido.

– Obrigada senhor — Ela abriu um sorriso suave que me derreteu — Confio no senhor...não tenho medo. — Disse ela sorrindo e me olhando com seus grandes olhos turquesa.

– Não precisa me chamar de senhor Ewa...sou apenas um ano mais velho que você...eu imagino — Eu disse rindo levemente — me chame de Fred se quiser.

– Eles achariam um desrespeito não o chamar de senhor...perdão mas não posso — Disse ela de cabeça baixa.

– Tudo bem,não peça perdão...eu entendo. — Disse eu levantando sua cabeça com pelo queixo com os dedos.

– Vou fazer um favor pra você,você vai para cozinha assim que eu sair e eu arrumo as roupas do Hanz,não quero que ninguém apanhe,muito menos você,ele é ridiculamente exigente quanto a esse tipo de coisa — Eu disse sorrindo — Ele não vai saber eu prometo,não trará problemas para ninguém. Nos vemos no jantar Ewa? — Eu disse abrindo a porta da biblioteca.

– Sim senhor... — Ela disse me olhando de lado e sorrindo de leve apertando os punhos olhando para todos os lados com medo.

Eu fechei a porta e subi devagar para não ser visto,pensei,em minha mente enlouquecida por tão belo momento,que meu ódio por todo esse mundo aumentara,crescera em mim e se manifestara mais e mais a cada vez que via aquele belo rosto ferido,eu senti nojo,repulsa e ódio por ser um Goring,por dividir o mesmo sangue com um nazista nojento como meu pai...tenho nojo de ter que fazer esse trabalho sujo...o fato é que eu vou vê-la apanhar,vou vê-la sofrer e o máximo que vou poder fazer é virar as costas...isso vai me doer mais que tudo nesse mundo. Como pode tão perfeita garota me mudar?