Lobos.
2 Dois
Dois
Acordo em uma cabana pequena em uma floresta. Uma mulher de cabelos grisalhos sorri para mim e eu lhe retribuo o sorriso.
– Onde estou?
– Amazônia. – diz ela com sotaque indígena.
– Ai, meu Deus. Que horas são?
– Falta pouco para o amanhecer. O alfa a espera em sua cabana.
Assenti com a cabeça e me levantei da cama. Uma tontura leve me passa pela cabeça, mas eu ignoro. A mulher me dá espaço para sair e eu saio da cabana. Olho ao meu redor à procura da cabana do alfa. Avisto uma – a maior de todas. Dando de ombros, entro nela e avisto um homem que aparenta ter uns 25 anos, corpo atlético, pele morena e cabelos na altura dos ombros. É, eu devia imaginar que ele seria assim.
– Sinta-se em casa, Kyla Johnson.
Me curvo em sinal de respeito e me sento no chão. Ele sorri e me oferece uma tigela com frutas.
– Fico feliz que tenha vindo. Você é uma bela jovem. Dezesseis anos, certo? – assenti com a cabeça e ele sorri – Uma jovem de talento. A herdeira de Sara Johnson, certo?
– Correto, senhor.
– Paul. – corrigiu ele – Chame-me de Paul.
– Tudo bem, Paul. Por que me chamou?
– Preciso reunir os lobos do mundo todo. Se quiser se banhar, comer algo ou precisar de qualquer coisa, me avise.
– Preciso voltar para casa.
– Sua avó já foi avisada. Não se preocupe. Vá banhar-se. A noite foi longa para você.
Então Paul pegou meu rosto com as mãos e tocou meus lábios levemente com os seus. Um arrepio percorreu meu corpo e ele nos afastou. Virei para ir ao rui e segurei os calafrios. Era um cumprimento entre o alfa e seus lobos, eu sempre soube disso, mas senti algo mais. Talvez fosse só a sensação do primeiro beijo. Corri até o rio e me despi. Nua, pulei na água e soltei os cabelos. Nadei pelas águas calmas do rio e observo a Floresta Amazônica.
– É linda, não?
Quase salto com o susto e viro para ver o dono da voz. Um garoto moreno, queixo quadrado, sorriso largo e cabelos curtos e encaracolados – tipo o Super Homem – me olhava. Senti a face esquentar com o rubor e tentei rir.
– Oi. Eu sou Kyla.
– Mason. Você é a loba que caçou um coelho, certo?
– Como sabe? – senti a bílis ir ao esôfago e segurei a vontade de vomitar.
– Foi a única que caçou. Os outros comeram frutas. – ele sorriu.
– Ahn, me desculpe.
Ele era realmente lindo. Tipo assim, não era como nenhum garoto que eu já vira (os garotos da escola não são tão lindos) e não era como Paul, mas era lindo. Perguntei-me o que ele fazia ali – além de, é claro, estar por causa do chamado.
– Eu vou sair para você ficar mais à vontade.
Mason mergulhou nas águas profundas e eu senti uma pontada de desejo de segui-lo, mas me lembrei do porquê de estar ali. (tentei não pensar em Paul beijando Mason) Saí do rio e coloquei minhas roupas. Fui para a cabana em que acordei e procurei meu celular. Liguei para minha avó. Ela atendeu no terceiro toque e sua voz era sonolenta.
– Oi querida.
– Vó, preciso parar de caçar quando me transformo.
– Ora, querida! Seu corpo precisa dessas necessidades enquanto você é loba. – ela riu – Como foi com o alfa?
– A reunião será em algumas horas. Ele foi bem legal. – mordi o lábio inferior – Eu ligo quando sair. Beijos, te amo.
Desligo o celular e saio da cabana. “Foi sorte ter sinal aqui!” pensei. Passo a mão na barriga ao sentir fome e nojo ao mesmo tempo. Quando sou uma loba, meu organismo precisa comer o que um lobo come. Mas ao voltar a ser humana sinto náuseas e preciso vomitar, pois meu corpo não se adaptou ainda. A melhor parte de ser loba é a vida longa. Não somos imortais, mas vivemos décadas, e às vezes séculos, a mais que os humanos. Mas a família do lobo não pode saber do segredo. Tipo, minha avó sabe porque ela viu quando me transformei pela primeira vez aos cinco anos (e como minha ancestral não está viva alguém precisa me ajudar), mas meu avô, meu irmão e minha tia não sabem. Meu avô, na verdade, não nos visita há um bom tempo. Enfim, é algo que não deve ser dito à ninguém.
Nem notei o tempo passar quando a mulher que me acordara mais cedo me chamou. “Kyla Johnson, o alfa te espera” disse ela. Saio de cima da árvore em que estava (Deus, eu subi em uma árvore sem perceber!) e entro na cabana do alfa. Havia uns 15 homens e apenas três mulheres – contando comigo. Uma fogueira no centro da cabana e as pessoas (ou lobos) sentaram-se ao redor dela. Imitei o gesto e esperei a palavra do alfa. (todos falavam um inglês muito bom) Com uma lâmina, ele cortou o braço esquerdo e colocou o sangue em uma tigela. Com o dedo, ele desenha um lobo no peito e nos oferece a tigela para beber de seu sangue – o alfa nos serve e nós servimos à ele. Quando chega à mim, bebo com um nó no estomago e passo para a mulher ao lado. Nos olhos do alfa é possível ver um lobo correndo, assim como nos meus (eu sei, é estranho).
– Bom, agora que todos já se serviram, posso explicar o motivo do chamado. Como todos vocês já sabem, ao pôr-do-sol os hormônios – ele destacou bem a palavra – ficam mais... Agitados e muitos perdem o controle e se transformam. Chamei cada líder de uma família aqui hoje – ele gesticulou para cada um de nós – para alertar sobre um novo perigo. Para quem não sabe, os humanos estão descobrindo sobre nós e encontrando meios de nos destruir. Alguns de vocês, como Kyla Johnson – ele olhou e sorriu para mim –, vive em cidades e o segredo é mais fácil de ser revelado. É claro que a vida nas aldeias e florestas tem seus benefícios e malefícios, mas não é tão perigoso para nós.
Mason olhou sorrindo para mim e senti o calor vir à face. Tentei sorris e voltei a olhar para o alfa.
– Mas o que importa é que me preocupo com vocês, mesmo sem conhecê-los, são parte de quem sou. Os lobos estão em extinção, podem chamar assim, e as gerações estão aumentando. O plano seria que vocês se relacionassem com humanos para gerar mais de nós ou relacionassem uns com os outros.
Ao dizer estas palavras ele olhou diretamente para mim e senti meu corpo estremecer. Deus! Ele é o alfa e eu uma garota! não podia haver nada entre nós.
– Agora vocês podem voltar à suas cabanas e viajarão para suas casas ao anoitecer.
Levantando-se, o alfa cumprimentou cada um dos lobos (inclusive os machos) e senti uma ponta de ciúmes ao vê-lo beijar as garotas do meu lado. Certo, não era exatamente um beijo, era uma saudação ou despedida dos lobos, mas mesmo assim eu devia saber que era bobagem sentir isso. Quando chegou em mim, nossos lábios se tocaram de um modo diferente. Eu senti seu beijo e algo como uma força espiritual alfa nos possuiu. Me afastei meio tonta e sai de sua cabana.
– Odeio beijar homens!
Ri com as palavras de Mason (que me esperava perto do rio) e continuei o caminho para minha cabana.
– Não é um beijo.
– Eu sei, mas é nojento. – ele fez uma careta – Mas e aí, deve ser legal ser uma loba da cidade.
– Não o tempo todo. – dou de ombros – Preferia viver em Shoshone.
– Uau! – ele assoviou – E aí, qual é a do seu colar?
– É de família. Ganhei quando fiz cinco anos.
Reparei tarde demais que eu era a única que usava um colar daquele. (além do alfa) Mason arqueou as sobrancelhas e eu ri.
– Podemos apostar uma corrida, sei lá.
– Queria descansar. – menti.
– Eu entendo. Te vejo depois.
Tudo bem, eu estava meio exausta. Depois da transformação, o organismo fica cansado e nos lobos normais dá sono. Mas eu não sou tão normal – a começar pelos olhos. Mas eu também queria dormir um pouco. Sentia-me cansada, mas não muito. Entrei na cabana e vi as mensagens deixadas em meu celular. Kate perguntara várias vezes por que eu não fora à escola. “Queria poder contar...” pensei. Digo que é dor de cabeça e noto que – pelo sol– são quase dez horas. (meu Deus, o tempo voa)
Confusa, deito-me na cama. “Não será fácil dormir com esse corpo...” concluo. Não me lembrava de nada da noite passada. Isso era estranho, pois nunca sofri de amnésia após uma transformação. Viro do lado direito e tento dormir. Sem sucesso. Saio da cabana e vejo que a floresta parece deserta. Subo em uma árvore e pego uma fruta. Preciso ficar cansada para meu corpo descansar enquanto durmo. Sem perceber, devoro rapidamente a fruta e salto da árvore.
Se eu me transformar ficarei mais cansada e isso prejudicará meu organismo. Sento na beira do rio e brinco com a água usando as mãos. Sinto saudade de minha casa e tento não pensar nisso.
– Oi. Eu posso me sentar aqui?
Quase salto de susto ao ouvir a voz do alfa. Assinto com a cabeça e ele se senta ao meu lado.
– Você é uma jovem interessante, Kyla Johnson. Muito interessante.
– Kyla. – corrigi – Só Kyla.
– Certo. Não sei se alguém já lhe disse, mas tem um lobo nos olhos. Isso é raro. Sabe o que quer dizer?
– É o sinal do alfa? – arrisquei.
– Quer dizer que está destinada para grandes coisas.
Paul brincou com meus cabelos que estavam soltos e eu estremeci. Trancei-o para livrar-me de seu toque, mas ele pegou meu rosto com as mãos e beijou levemente minha testa para depois me beijar de leve nos lábios. Era o terceiro cumprimento do dia.
– E isso pode ser legal. Estou honrado de tê-la como minha serva, Kyla Johnson.
– Fico feliz em servi-lo, Paul.
Não era mentira. Paul era um alfa legal – considerando que é o primeiro alfa à quem obedeço. Nós, lobos, servimos à um alfa desde que nascemos, mesmo sem conhecê-lo. (é estranho, eu sei) Quero dizer, não os conhecemos pessoalmente, mas no coração sempre o conhecemos. É como os humanos que idolatram à um Deus jamais conhecido por eles – tipo, não tenho nada contra isso, só estou comparando. Me pergunto se o alfa antecessor à Paul era como ele e se eles tinham um laço familiar.
– É uma honra conhecê-la. Acho melhor você ir descansar. Te vejo mais tarde.
Paul levantou-se e foi para sua cabana. Achei melhor ir para a minha e fiquei de pé em um salto. Corri para minha cabana e me deitei na cama. Mason ficaria magoado se soubesse que não descansei de verdade. Com um sorriso no rosto, fechei os olhos e adormeci.
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