Lobo da Meia Noite
2 Capítulo 2 - Sede
Notas iniciais
Capítulo 2
Quando acordou, sentiu que estava deitada. Arquejou de dor e olhou para baixo, vendo que Dominic cortara a perna de sua calça e estava costurando o machucado. Via claramente a camada de gordura e a carne, talvez um pedaço do osso, não sabia.
– Isso daqui vai demorar uns dois dias para fechar. – Dominic anunciou, dando os pontos necessários no ferimento. – Fique feliz por não ter sido atacada durante a lua de sangue, senão ficaria uma cicatriz bem feia.
– Claro. – bufou, olhando envolta, percebendo que estava na casa dele, em seu quarto. Era um quarto bem arrumado, exatamente como Dominic. Ajeitou-se minimamente, sentando-se, vendo-o dando o nó para que o ferimento não abrisse novamente. – Preciso ir pra casa.
– Sei lá, acho que com isso aqui, melhor não.
– Ah, é? E eu vou ficar na sua casa sem nenhuma roupa limpa?
– Na verdade, você quase sempre deixa roupas quando vem dormir aqui. – levantou o olhar para fitá-la dentro de seus olhos. – Todo tipo de roupa.
Nicole abriu a boca para retrucar, mas Dominic apenas tirou uma caixa de sob sua cama e a pôs ao lado da cama, antes de se levantar.
– Você sabe onde é o banheiro. – disse com simplicidade enquanto tirava a camisa. Os olhos de Nicole foram por seu tronco musculoso até as cicatrizes prateadas em seu ombro direito, descendo até após sua cintura do lado esquerdo. Sabia que a ponta delas chegava até o início de seu abdômen. Aqueles ferimentos haviam sido feitos em uma lua de sangue quando ele tinha dez anos, o único momento em que lobisomens poderiam transformar humanos e deixar cicatrizes em caçadores. Nicole fora perambular na floresta e fora atacada, mas Dominic se jogara em sua frente e quase morrera se não fosse o mestre de ambos. Ainda sentia o amargo gosta da incompetência toda vez que via aquelas cicatrizes, mas ele simplesmente saiu pela porta enquanto abria claramente o cinto.
Nicole soltou um suspiro e mexendo na caixa que Dominic pusera sobre a cama, e realmente, tinha todo tipo de roupa sua lá, sendo que se lembrava de revirar sua casa atrás de peças que estavam ali. Foi tomar um banho, arquejando diante o ardor da água e sabão sobre o ferimento, vestindo um short de tecido liso preto largo o suficiente para não triscar no machucado e uma regata vermelha, deixando a alça preta do sutiã aparecer ligeiramente. Pegou o pente de osso de Dominic e voltou para o quarto dele, penteando os longos cabelos, deixando-os soltos.
Quase sentia carne se juntando sob os pontos, mas recusou-se a olhar para o ferimento quando terminou de pentear o cabelo. Dominic empreitou-se pela porta, com uma camisa azul de mangas curtas e uma bermuda cáqui, os cabelos castanhos ligeiramente úmidos. Com certeza usara o banheiro da área de serviço e qualquer um que os visse pensaria que eram adolescentes normais.
– O que você quer comer? – perguntou, sentando-se ao seu lado na cama e brincando ligeiramente com uma mecha de seu cabelo.
– Não quero hambúrguer de novo. – anunciou, tirando os fios que haviam ficado presos no pente.
– O que quer então?
– Sei lá. Não quero sair com a perna remendada. – ignorou a expressão dele de “e você queria voltar pra casa!”. – Tem algum número?
– Talvez. – Dominic deu de ombros, indo em direção à mesa do lado e abriu a gaveta, mexendo em algumas coisas. – Comida mexicana, hambúrgueres, pizza, italiana, chinesa, o hot dog da esquina...
– Pizza. – falou distraidamente.
– Tá. Uma pequena de frango e uma de calabresa com cherry coke e coca. – ele adivinhou enquanto se levantava, e a campainha tocou, fazendo-o olhar por cima de seu ombro. – Quem será?
Nicole deu de ombros. Não fazia a mínima ideia, obviamente. Dominic saiu novamente pela porta e ela levantou indo atrás e mancando ligeiramente por causa do machucado. Chegou a sala pequena com um sofá pequeno, uma poltrona e uma mesa de quatro cadeiras enquanto Dominic destrancava a porta, deparando-se com um homem de meia idade, óclinhos redondos com o cabelo castanho claro curto, com as laterais já sendo de um tom de grisalho já tornando-se branco. Ele usava um grosso casaco de lã marrom, estava encharcado e tinha um guarda chuva debaixo do braço. Ele franziu o cenho olhando primeiramente a Dominic e então à Nicole, antes de dizer:
– Sinto muito, acho que me enganei. – deu um sorrisinho sem graça.
– Se está procurando a vendedora de casacos, ela mora... – Dominic começou com uma expressão de aborrecimento que demonstrava muito bem que situações ocorriam frequentemente.
– Não, não! Estou atrás de um caçador que mora por aqui... – disse distraidamente, virando e pegando um papel.
– Ah, então é aqui mesmo! – Dominic o pegou pelo casaco e o arrastando para dentro da casa. – Mas por que está atrás de um caçador?
Ele olhou em volta, claramente avaliando a casa e Nicole viu seus olhos fugirem rapidamente do machucado em sua perna. Dominic bateu a porta atrás de si e cruzou os braços em frente ao peito, esperando a resposta.
– Meu nome é Frederico Walton. Sou vice-diretor da Lallemen High School. Mandamos uma solicitação ao Conselho quanto a um pedido a no mínimo dois caçadores...
Nicole quase soltou um suspiro alto e teatral, mas Dominic apenas balançou a cabeça.
– Deixe-me adivinhar: Algo como uma palestra quanto à vida e aos costumes de caçadores.
– Basicamente isto. – Walton disse, parecendo claramente aliviado. – Já passaram por uma situação parecida?
– Já. – Dominic deu de ombros. – Algumas vezes para falar a verdade. Eu e Nicole somos amigáveis uns com o outro, o que é difícil de encontrar, falando de caçadores. Para quando?
– Quinta feira da semana que vem, por volta das dez horas da manhã. – deu um sorrisinho sem graça. – Se não for incomodo... É apenas isso.
– Sério mesmo isso, Dom? – Nicole perguntou assim que Walton saiu pela porta da frente, jogando-se e afundando-se na poltrona macia e aconchegante. Tinha o cheiro dele.
– Claro. Não vejo problema algum. – replicou e pegou o telefone para ligar para a pizzaria.
– Ele não falou nada quanto a mim.
– Ele disse dois caçadores. Você deve estar incluída, pois quando se é referente a duplas, normalmente se coincide a sermos nós dois.
Ficou quieta enquanto ele fazia o pedido ao telefone, ficando tentada a ligar a televisão, mas não iria atrapalhar. Escutou a vizinha de Dominic gritando com seu neto no apartamento ao lado quanto ao fato de ter derrubado algo, seguido pelo som de tapas.
Deixou a mente vagar. Lembrava-se de ver na internet uma raça adorável de gatos de patas curtas. Não lembravam lobos de modo algum. Eram fofinhos. Talvez as patas curtas fizessem mal para sua saúde. Mas continuavam sendo fofinhos.
– Você está quieta demais. O que foi?
– Nada. – respondeu. – Talvez eu compre um gato.
Ele deu de ombros.
– Prefiro cachorros, mas a vida é sua.
– Cachorros? Sério Dom?
– Niki, há diferenças entre lobos e cães. E só caçamos lobos que viram “humanos”.
Deu de ombros. O latejar em sua perna indicava que a carne se fechava. Não queria dar palestras quanto a sua vida a pessoas que talvez fossem até mais velhas que si.
– Você está vendo alguma raça em especial? – Dominic questionou enquanto ligava a televisão.
– Munchkin. – respondeu distraidamente.
– Nunca ouvi falar.
– As pernas deles tem um terço do normal para gatos. Às vezes se apoiam como hamsters. São fofinhos.
– Deve ser. Sabe ao menos o preço de um desses?
– Entre trezentos e cinquenta a quinhentos dólares. Dá pra comprar.
– Falando nisso, o banco já mandou uma mensagem para o meu celular que o depósito foi feito. Três mil dólares. – Nicole ergueu a sobrancelha, numa pergunta quanto ao que acontecera. – Éramos catorze. Dividiram o despojo.
– Mais da metade morreu. – Nicole disse preguiçosamente, vendo o vídeo musical que passava na televisão.
– Deve ter continuado com eles. – jogou-se para o lado no sofá, soltando um bocejo. – Quero comprar uma casa. Não aguento mais a minha vizinha perguntando por que eu vivo sozinho se sou tão novo, onde estão meus pais, o que eu faço já que não estudo e se você é minha namorada ou minha irmã.
– Fofoqueira. – Nicole resmungou.
– Claro.
– Diga que é um caçador de uma vez que ela cala a boca. Ela nunca te viu com o casaco?
– Não.
Depois de alguns minutos, a campainha tocou, indicando que o entregador de pizza chegara. Nicole comeu dois pedaços de sua pizza de frango enquanto Dominic devorava uma grande inteira, então foi para o quarto dele, metendo-se debaixo dos lençóis e do edredom e caindo no sono rapidamente.
Acordou no dia seguinte com os raios de sol dando em seus olhos. Soltou um resmungo, puxando o edredom para cobrir seus olhos, e viu o tecido azul à sua frente. Comum, a casa de Dominic só tinha um quarto, não seria a primeira vez que dormiam juntos. Na verdade, faziam isso desde pequenos, portanto, não sentia nenhuma necessidade de surpresa.
Sentou na cama, soltando um pequeno bocejo, então verificou sua coxa. Parecia que estava se cicatrizando há algumas semanas, o que a deixou satisfeita. Levantou, indo ao banheiro e escovando os dentes – olha só... Também tinha esquecido sua antiga escova de dente lá. -, então rumou para a cozinha, comendo lentamente um pedaço de pizza amanhecida.
Era um tanto tedioso. Poderia ir para onde quisesse e fazer o que quisesse, não tinha a obrigação de ir estudar ou trabalhar, já que uma caça a lobos era extremamente lucrativa. Por isso, sua vida resumia-se basicamente em sua casa, Dominic, a casa dele, e caçar lobisomens, com atividades aleatórias.
Não que achasse Dominic tedioso. Ele era a única pessoa por perto que ela realmente se importava, se bem que ele era melhor em demonstrar isso do que ela.
Ligou a TV e deu uma olhada na janela, antes de se aproximar. Do lado de fora, via os adolescentes rindo e conversando esperando o ônibus para irem para a escola, e havia crianças saindo com seus pais. Aí estava. Algo que nunca tivera. E quem nem tentaria, era antissocial demais.
– Vendo a “paisagem”? – Dominic perguntou em seu ouvido,
Deu um salto, quase dando outro ao perceber a proximidade. Quando ele chegara ali? Não o escutara se aproximando ou coisa parecida! Dom gargalhou, e acabou estapeando-o para que recuasse, mas ele apenas continuou a rir.
– Não faz mal. – deu de ombros. – Vou comer pizza no café da manhã, se não se importa.
XXX
– Merda, merda, merda. – grunhia continuamente, jogando as armas de prata que formigavam em suas mãos no chão. O sangue quente e grosso escorria por suas costas.
Que vontade de destruir o lugar. Mas não faria isso, pois poria muito a perder. O sol ardia em suas costas, e aquilo doía muito. Queimava. Parecia que ia partir sua pele em múltiplas partes. Pulou na água do lago, fazendo os ferimentos arderem, mas sentia a carne querendo fechar.
Teria de se refugiar da luz do sol caso quisesse se curar livremente. Transformou-se em um lobo novamente e saiu pingando do lago, se sacudindo, quando olhou para cima.
Problemas à vista.
Os lobos negros o encaravam, começando a rosnar. “Só pode ser brincadeira” pensou.
– Traidor da raça!
Não hesitou nem um pouco em sair correndo. Estava ferido e em menor número, obviamente morrer não estava em seus planos, mas os lobisomens estavam ao seu encalço. Não era exatamente um traidor porque queria, mas... Não que eles quisessem escutar suas explicações.
– Sanguessuga!
– É de nascença! – retrucou enquanto corria.
Era bem mais rápido na sua forma “humana” – para falar a verdade, não era propriamente humana. -, mas correr nu em uma floresta não estava em seus planos.
– Olá!
Olhou para o lado e viu um lobo negro correndo ao seu lado. Olhou para o outro e havia uma loba ali, e ambos atiraram-se em sua direção. Deixando a vergonha de lado, transformou-se muito rapidamente em humano e saltou, agarrando um galho a sete metros de altura, escutando os lobos se chocando.
Escondido entre as folhagens, sofrendo pela luz do sol e suas marcas prateadas brilhando como um chamariz devido a isso. Observou os lobos se reunindo ao redor da árvore em que estava, então reconheceu onde estava.
– Oh, aqui está você! – exclamou ao ver a calça de linho branca dobrada e posta entre dois galhos, vestindo-a rapidamente. Fora ali que a deixara quando saíra na noite anterior então. O sangue escorria por suas costas, correu sem problemas por um fino galho em equilíbrio perfeito e saltou para outra árvore, escutando os rosnados abaixo de si.
Saltou por algumas árvores antes saltar novamente para o chão, os olhos prateados cerrados devido à claridade. Os passos eram bem mais leves e rápidos agora, e quase riu ao escutar os lobos tentarem acompanhar seu ritmo.
Torceu seu nariz ao passar perto de uma área rochosa e sentiu o cheiro de lobos acima de si. Uma bela de uma armadilha. Desviou de um que saltou sobre si e apertou o passo, voltando para a mata fechada, mas algo completamente fora de seus planos aconteceu. Uma loba vinda do nada saltou sobre si, fazendo-o cair por um barranco. Passou os braços por ela com força, os ossos do imenso corpo estalando e ela ganiu. Ambos rolaram pelo barranco, então a atirou com força em sua frente quando chegou ao final, escutando-a chocar-se contra uma árvore.
Levantou-se meio agachado e a viu se arrastando pelo chão em sua forma humana com longos cabelos negros, e o cheiro veio em sua direção. Sangue. O doce cheiro de sangue.
Sua boca começou a salivar, e os ferimentos, os da noite anterior e os novos, começaram a clamar para serem fechados.
Seus olhos acompanharam o líquido rubro pingando pelas marcas negras em direção ao chão. A perna dela estava quebrada. Não dava para fugir. As presas sensíveis aumentavam dentro de sua boca, ardendo quando sua língua roçava contra elas.
Não resistiu. Foi até ela, agarrou-a pelos cabelos, fazendo-a soltar um grunhido e debater-se furiosamente, mas suas presas foram certeiras em direção à veia em seu pescoço.
Ela gritou e começou a bater em suas costas, mas não lhe deu atenção, apenas prendeu seus braços e continuou. O gosto inebriante do sangue inundava lhe a boca e bebia com avidez e gula. O ardor das feridas começou a atenuar numa velocidade atenuante, e vinha com ele aquela sensação extasiante.
Não dava mais atenção ao seu redor, portanto não percebeu quando ela parou de se debater fracos e os gritos transformaram-se em gemidos fracos, mas uma mordida em suas costas o fez soltar-se dela com irritação e atirou o imenso lobo atrás de si quase que barranco acima. Soltou um rugido animalesco e todos os outros lobos pareceram parar, seus olhos como os de uma besta, o sangue escorrendo lhe abundantemente pela boca e pelas presas brancas. Eles pareciam pensar duas vezes em ataca-lo, então voltou sua atenção novamente à loba que murmurava coisas inteligíveis abaixo de si.
Para sua irritação, o sangue acabou rápido, então se voltou para os lobos que deram meia volta e começaram a correr, mas agarrou o primeiro que viu, enfiando as mãos sob sua pele e obrigando-o voltar à forma humana, cravando suas presas em seu ombro.
Quando acabou, percebeu que queria mais. Muito mais. O cheiro dos outros ainda estava por ali.
Ah... Iria saciar sua sede, nem que precisasse matar todos.
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