São seis da manhã e eu já estou de pé. Tomada banho, arrumada e pronta para pedalar. Hoje decidi que não vou pedalar na ciclovia e nem vou a mesma biblioteca de sempre. Vou sair por ai, talvez ir na biblioteca do vilarejo onde a Rosalina mora ou talvez ir na biblioteca na próxima cidadezinha perto do vilarejo. Pode não parecer, mas Stones é uma cidade um tanto grande, com vários bancos, parques, vilarejos, shoppings,lojas e todo o resto que uma cidade normal tem. O dia amanheceu nublado e frio, coisa que nem sempre acontece.

Vovó já estou saindo... — falei abrindo a porta do quarto dos meus avós com cuidado.

Ah que horas você volta? — pergunta minha avó com a voz meia rouca.

Eu não sei... Vou passar na casa da Emma hoje, e depois vamos pedalar por ai... Não me espere para o almoço — informo.

Tudo bem, mas esteja aqui antes da hora do jantar — fala ela se virando para o outro lado da cama.

Tudo bem, tchau vovó... Tchau vovô

Tchau Nieta — fala meu avô.

Não se atrase para o jantar — repete vovó.

Antes que eu saia de casa, tenho que arrumar minha mochila com coisas bem básicas: kit de primeiros socorros, meu bloco de notas, dinheiro, garrafa de água e meu celular. Mas antes de tudo não posso esquecer de ligar para a Emma que já já estou chegando na casa dela.

Emma?

Alô?

Emma é a Antonieta... Já, já estou chegando na sua casa, você está pronta?

Ah, oi Neta.. Sim, já estou pronta, só estou terminando de arrumar minha mochila... Mas se você quiser vir, você pode... Até lá eu já terminei de arrumar...

Tudo bem, já estou saindo daqui. Beijos até já

Até.

Emma é minha melhor amiga, desde os cinco anos de idade. Seus pais eram amigos dos meus, mas o pai dela sofreu um acidente terrível quando ela tinha cinco anos de idade. Ele adorava caçar, e em um dia desses chuvosos e nublado — assim como o dia de hoje — ele foi atacado por um bicho na floresta, ninguém nunca descobriu qual foi o animal que o matou, mas dizem que seu rosto foi desconfigurado e seu corpo secou deixando os ossos a amostra. E desde esse dia a Emma mora só com sua mãe em uma pequena casa a trinta e sete quarteirões da casa dos meus avós. A Emma sempre foi uma menina aventureira, acho que até mais que eu. Está sempre disposta a se aventurar e sempre quando eu preciso ela me dá uma forcinha nas minhas pesquisas de campo. Sempre fui meio curiosa sobre a história da minha família, tias desaparecidas, pais separados e tantos outros acontecimentos que me deixam até de cabelo em pé só de pensar. Sempre tentei tirar informações do meu avô, mas toda vez que estou quase lá ele me censura e pede para eu parar de fazer tantas perguntas. É, a minha família esconde muitos segredos, mas parece que eu nunca vou descobrir quais são e porque eles esconderam tanto.

Emma já estou na frente da sua casa

Ok. Já estou descendo.

Toda vez que olho para a Emma ela está diferente mas sempre arrumada com estilo. Cabelo quase branco de tão loiro com mexas rosas e azuis, olhos negros, pele branca e só um pouco mais alta do que eu. Sempre irônica e sorridente, não consigo ficar um minuto sem rir ao lado dela.

E ai Ms Williams, pronta?

Com certeza! Mas... Vamos em qual biblioteca? A do vilarejo ou a biblioteca da cidadezinha aqui perto?

Cidadezinha? Aquela que fica no topo das rochas em um vilarejo sinistro?

Ata... Já entendi... Vamos na biblioteca da cidadezinha...

Ah vamos combinar que agente nunca foi lá, e também...

É claro que agente nunca foi lá, ninguém tem coragem de entrar naquele lugar Emma... Dizem que pessoas foram mortas perto daquela biblioteca...

Ótimo! é pra lá que vamos...

Não falei? A Emma adora coisas sinistras e uma boa aventura.

[...]

Enquanto pedalávamos na trilha dentro da floresta, começava a ventar muito forte, de modo que tivemos que parar porque senão iriamos ser levadas pelo vento.

Acho que está vindo uma tempestade — falou Emma olhando para o céu cinzento daquela manhã.

Acho melhor agente voltar — falei olhando ao redor.

Não! Já estamos longe de casa... É melhor continuarmos sem pedalar... Estamos quase perto, vamos andando mesmo.

Enquanto nos arrumávamos para pegar a bicicleta e continuar andando na trilha, escuto um barulho estranho atras de mim.

O que foi isso? — falei virando bruscamente a cabeça e o corpo para tras.

Calma Nieta... Acho que são só as árvores, afinal, está ventando muito — falou Emma tentando me tranquilizar...

É deve ter sido mesmo.

Mas algo dentro de mim dizia que não era só o vento e as árvores. Acho que tinha mais alguém atras de nós... Alguém ou algum animal feroz em extinção nos vigiando e se preparando para atacar.

Enquanto caminhávamos não consegui tirar a ideia da cabeça que poderíamos ser sequestradas ou mortas... Mas tentei manter a calma.

Caramba, olha só! que penhasco gigantesco Nieta!

Para chegar na pequena cidade perto de Stones, tínhamos que passar perto de um penhasco, e lá embaixo tinha o majestoso Oceano Atlântico. O penhasco era de dar calafrios, muitas pessoas já pularam para a morte deste penhasco. Apesar de ter um nome incrivelmente tosco ''Penhasco da viúva'' ele tem toda uma história horripilante. Dizem que a muito tempo atras uma moça chamada Alison se jogou deste penhasco; ela tinha acabado de perdeu seu marido que já estava doente há alguns meses. Dizem também que ela era jovem e bonita, e que nunca ninguém imaginaria que ela teria coragem de fazer uma coisa desse tipo. Mas ela fez. Dizem que na noite em que ela morreu, alguns minutos antes de sair de casa ela estava estranha, o seu olhar estava sem brilho, ela já estava muito magra e quase não falava com ninguém mais, então ela veio até o penhasco, se viro e se jogou. Seu corpo bateu nas rochas e nas ondas do mar. Alguns irmãos da jovem até tentaram procurar o corpo dela, mas depois que ele caiu ninguém nunca mais conseguiu encontrar. Mas isso é apenas uma lenda urbana de Stones.

Não posso olhar para baixo... Fico até enjoada — respondo quase sem voz.

Cuidado para não escorregarem e acabarem morrendo acidentalmente — fala uma voz a poucos centímetros atras de nós duas. Meu coração até parou de bater por uns instantes, e quando olho pra trás é apenas um jovem que parece ter a mesma idade que nós duas. Alto, moreno, cabelos castanhos e encaracolados.

Nossa! que susto você nos deu! — informou Emma quase gritando de raiva.

Desculpe, não foi a minha intenção. Olha, sei que não é da minha conta, mas o que vocês duas fazem aqui a essa hora da manhã e com esse tempo horrível?

Ainda bem que você é esperto... Não é mesmo da sua conta — falou Emma acenando com a cabeça para a direita para que eu continue seguindo ela.

Tudo bem, não precisam falar nada... Mas tomem cuidado, essa floresta está repleta de coisas... Estranhas. Tomem muito cuidado aonde pisam e o que conversam, essas árvores tem ouvidos aguçados — falou o garoto entrando na floresta.

Ai, vamos Nieta... Não dê ouvidos para esse idiota

[...]

Seguimos o caminho por mais vinte minutos e finalmente chegamos na velha biblioteca da cidadezinha estranha. Foi uma viagem de uma hora de casa até aqui, o que teria sido menos se nós não tivéssemos parado para conversar e olhar para aquele penhasco gigantesco. São exatamente sete horas da manhã e o tempo aqui na cidadezinha parece que está pior do que no centro de Stones. As pessoas aqui são bem estranhas. A maioria são idosos e existem sim alguns jovens por aqui, mas é quase uma raridade, já que a cidade é tão antiga quanto Stones.