É incrível como em Stones a noite é fria. Não importa o calor que faça durante o dia, de noite sempre é frio e chuvoso.

Sempre admirei meu avô por vários fatores e o principal é pelo seu bom gosto musical, que é idêntico ao meu. Gostamos praticamente das mesmas bandas e cantores, exceto que ele prefere mais os cantores e bandas da época dele, já eu gosto de ambas, tanto antigamente como hoje em dia. Enquanto voltamos para casa, ele coloca para tocar nossa música favorita ''Everybody wants to rule the World'' da banda Tears For Fears. A noite como sempre está fria e chuvosa, as ruas de Stones sempre movimentadas de carros e pessoas, luzes em todos os lugares; me faz até lembrar da grande cidade de Nova York. Me lembro vagamente de lá, lembro-me que meus pais me levaram quando eu era pequena para lá, fomos assistir ao grande espetáculo na Broadway ''Cats'' um musical maravilhoso, que hoje em dia todos conhecem ou já ouviram falar. Me lembro que mesmo tão pequena, fiquei fascinada com tantas luzes e pessoas, coisa que nunca tinha visto na minha antiga cidade ''Califórnia'' mas não é a Califórnia que todos conhecem; a minha Califórnia fica no interior de Stones, uma cidadezinha rural com uma população quase que em extinção, com estimativa de vida para uns sessenta anos. Mas era uma cidadezinha modesta, com pessoas hospitaleiras e carinhosas.

E então Nieta, o que achou do filme? — questiona o meu avô.

Ah vovô eu gostei bastante... O senhor sabe que eu amo filmes de aventura, pena que nada do que acontece nos filmes acontece na vida real... Seria tão divertido poder ter poderes mágicos ou conhecer fadas e duendes... — falei observando a pista molhada sendo iluminada pelos faróis dos carros.

É, séria mesmo — diz vovô.

Nesse momento uma música triste e melancólica começa a tocar ''The Scientist'' da banda Coldplay.

Nieta, posso te fazer uma pergunta?

Pode vovô...

Você ainda se lembra dos seus pais?

Acho que sim... Mas nunca sei se o que eu lembro é real ou apenas uma coisa criada por mim mesma...

E do que você se lembra?

Lembro que minha mãe era como eu. Branca, olhos esverdeados, cabelos longos e alaranjados. E meu pai tinha os cabelos encaracolados e negros como a noite. Ele tinha um sorriso encantador também e uma voz linda, de dar inveja a qualquer um.

Então agora sei que você se lembra bastante deles — disse meu avô sorrindo. — Sabia que você e sua mãe são as únicas ruivas da família toda?

Não, não sabia... Mas vovô, porque eles se separaram?

Nieta um dia você vai entender... Um dia vai, mas agora ainda não é o momento...

Nunca entendo isso, eles me perguntam sobre o meu pai e logo depois quando eu pergunto sobre o motivo pelo qual eles se separaram sempre é o mesmo papo '' um dia você entende'' Isso me deixa furiosa! Queria saber o motivo pelo qual eles se separaram e porque nunca ninguém me dá explicações sobre isso.

Você está com fome?

Muita!

Sabia — sorri meu avô. — Vamos na lanchonete da Rosalina?

Vamos, estou louca pra comer aquela torta de amora — falo passando a mão na barriga. Meu estômago logo reclama.

Rosalina é uma velha amiga da família... Mas não sei como ela conheceu toda a minha família. Ela é uma jovem moça de pele clara, cabelos longos e rosa, olhos castanhos cor de mel e tatuagens pelo corpo todo. Ela deve ter uns vinte e cinco anos de idade. Nasceu e vive até hoje num pequeno vilarejo de Stones, chamado ''Lírios do campo'' lá ela mora com a filha Angelina, que tem apenas cinco anos de idade. Ela trabalha em tempo integral na lanchonete Black Rose. Sei o que todos estão pensando e não, ela não é a dona da lanchonete, mas todos falam '' Lanchonete da Rosalina'' porque ela é a garçonete mais querida de lá; ao contrário da velha chata e arrogante que é a verdadeira dona do estabelecimento.

Olá meu amores, como estão? — pergunta Rosalina assim que sentamos no mesmo local de sempre.

Oi Rosalina, tudo certo... e com você? — fala meu avô.

Tudo ótimo! — sorri ela. — e com você Antonieta? tudo bem?

Tudo certo Rosa — falo sorrindo.

E o que vão querer hoje?

O de sempre e eu vou querer um suco de laranja ao invés da cerveja... Hoje estou sem a Luana, então não vou poder beber...

Ok. Então vão ser dois hambúrgueres completos, duas tortas de amoras, um suco de laranja e.... E você Antonieta, vai querer beber o que?

Quero um suco de morango

Com leite ou com água?

Com leite por favor...

Beleza gente, já já trago o pedido de vocês.

Enquanto ela dá as costas, um casal sobe no palco e começa a cantar uma musica que eu particularmente amo! Se chama ''Tendo a Lua'' a música me faz lembrar de algumas coisas passadas e até de alguns romances engraçados que li nos livros da biblioteca.

[...]

Depois que comemos tudo, conversamos e rimos bastante, voltamos para casa exaustos. É o tipo de segunda-feira que eu sempre estou esgotada de cansaço, mas esse passeio noturno as segundas só acontecem nas férias, quando eu volto as aulas eles são transferidos para as sextas-feiras. Sempre que chegamos em casa a vovó está assistindo seu seriado favorito na tevê, que só começa a passar as nove e quarenta e cinco da noite, ''Sabrina, a bruxinha adolescente'' é um seriado tão antigo quanto a minha própria avó, mas até que é engraçadinho. Sempre que assisto tenho vontades de ter superpoderes ou tias tão engraçadas e atrapalhadas quanto as que a Sabrina tem. Mas pelo que eu saiba, minhas tias sumiram do mapa literalmente. Ninguém sabe o que aconteceu com elas, isso até me preocupa as vezes, mas a minha família age tão naturalmente com essa história que as vezes fico meia desconfiada, se eles realmente não sabem sobre o que aconteceu com elas. Mas estão muito cansada para pensar nisso, abro a porta e dou boa noite para minha avó, subo as escadas e me jogo direto na cama, com a roupa do corpo mesmo, apenas tirando os sapatos. Tenho que dormir o suficiente para acordar cedo e ir pedalar na ciclovia. Só espero não encontrar mais alguém atrapalhado e desastrado como o cara da última vez.