​A manhã de domingo em West Valley começou com o cantar manso dos pássaros no jardim e o aroma inconfundível de café fresco passando na cozinha. A luz dourada do sol cortava as frestas da janela, iluminando James Lâfrer, que vestia apenas uma calça de moletom cinza. Com os cabelos levemente bagunçados e o semblante relaxado, ele operava a cafeteira e, com uma faca de chefe, cortava com precisão cubos de morango e manga em uma tigela de vidro.

​Passos leves ecoaram pelo piso de madeira. Hope surgiu vestindo um camisão de linho branco dele, que ficava largo e cobria metade de suas coxas. Ela caminhou mansamente por trás dele, enlaçou seus braços ao redor da cintura marcada de James e colou o rosto em suas costas nuas.

​— Bom dia, meu quarterback — ela sussurrou, a voz rouca de sono.

​James sorriu, largando a faca na tábua e virando-se dentro do abraço dela. Ele segurou o queixo de Hope com delicadeza, erguendo o rosto dela para iniciar um beijo lento, quente e profundo, daqueles que carregavam a certeza de que não precisavam mais se esconder do mundo.

​— Bom dia, Styles — James respondeu contra os lábios dela, os olhos escuros brilhando de paixão. — Dormiu bem?

​— Maravilhosamente bem — ela deu um sorriso travesso, pegando um pedaço de morango com os dedos e levando à boca. — Deixa eu te ajudar com isso. O meu pai já deve estar descendo e eu não quero que ele reclame que o genro dele está roubando as frutas da casa.

​James soltou uma risada limpa, entregando a ela uma colher. Eles terminaram de preparar a mesa juntos, trocando carícias espontâneas, risadas e pequenos beijos a cada movimento, imersos em uma cumplicidade apaixonada que parecia recuperar cada segundo perdido nos anos de separação.

​Dias depois, a rotina corporativa de Manhattan havia sido retomada, mas a atmosfera dentro da Lâfrer & Capital Media estava completamente transformada.

​No início do expediente de quarta-feira, a porta do elevador privativo se abriu no vigésimo quinto andar. James e Hope cruzaram o corredor de vidro fosco. Para a surpresa e o choque sutil dos analistas e secretárias que passavam com suas pastas, o grande presidente e a estagiária de jornalismo caminhavam abertamente de mãos dadas, com os dedos entrelaçados.

​Ao pararem em frente à porta do cubículo de redação de Hope, James virou-se para ela. Sem se importar com os olhares ao redor, ele segurou a nuca dela e lhe deu um beijo carinhoso na boca, rápido mas cheio de significado.

​— Bom trabalho hoje, Styles. Te vejo no almoço — James disse, com a voz suave.

​— Bom trabalho, Senhor Presidente. Vê se não me dá nenhuma bronca por memorando hoje — ela piscou, os olhos azuis cheios de graça, antes de entrar em sua sala.

​James ajeitou o paletó de seu terno escuro, deu um sorriso discreto e caminhou a passos firmes até a sua sala da presidência. Ao empurrar a porta de jacarandá, Ricardo Andrade já o esperava sentado em uma das cadeiras de couro, com um tablet na mão e um sorriso largo e bem-humorado no rosto.

​— Rapaz do céu, James... — Ricardo começou, soltando uma risada e balançando a cabeça. — Eu acabei de ver vocês dois entrando de mãos dadas pelo corredor. O mercado financeiro de Nova York não estava preparado para ver o "homem de gelo" derreter desse jeito em pleno horário comercial.

​James sentou-se em sua cadeira executiva, abrindo a pasta de relatórios com uma leveza que Ricardo nunca vira nele antes.

— O mercado vai ter que se acostumar, Ricardo. A vida é curta demais para se viver trancado em uma armadura. Agora, me mostre os números da campanha de Londres. Temos trabalho a fazer.

​— É assim que se fala, chefe! Vamos aos negócios — Ricardo celebrou, feliz pelo amigo, sabendo que a calmaria finalmente havia se instalado naquela empresa. Tudo agora seguia um curso sossegado, maduro e feliz.

​Enquanto a vida em Manhattan corria em perfeita harmonia, em West Valley o ritmo era de pacífica calmaria doméstica. Era o final da tarde e a casa estava silenciosa. Sofia estava na área de serviço, pegando um cesto de vime cheio de roupas limpas para colocar na máquina de lavar.

​Ao se abaixar para recolher uma peça, uma tontura súbita e violenta atingiu sua cabeça. O teto pareceu girar de uma vez só e o ar sumiu de seus pulmões. Sofia levou a mão à testa, tentando se apoiar na borda da máquina, mas suas pernas vacilaram por completo. O cesto caiu no chão e Sofia desmaiou, caindo desfalecida sobre o piso de cerâmica.

​Minutos depois, Garret entrou em casa vindo da construtora. — Sofia? Meu amor, cheguei!

​Sem receber resposta, ele caminhou pela casa até os fundos. Ao cruzar o batente da lavanderia, seu coração disparou de pavor.

— Sofia! — Garret gritou, jogando as chaves no chão e correndo até a esposa. Ele a pegou nos braços, batendo levemente em seu rosto pálido. — Sofi, acorda! Por favor, fala comigo!

​Desesperado, percebendo que ela não reagia, Garret a pegou no colo de uma vez só, correu até a caminhonete e dirigiu em alta velocidade até o hospital municipal de West Valley.

​A espera na sala de atendimento parecia uma eternidade para Garret. Ele andava de um lado para o outro, com as mãos na cabeça, o suor frio escorrendo pela nuca. Sofia já havia sido levada para a ala de exames emergenciais.

​Após quarenta minutos de agonia, as portas duplas de metal se abriram. Uma médica de meia-idade, vestindo um jaleco branco e segurando um prontuário, caminhou até ele com uma expressão tranquila e um sorriso sereno nos lábios.

​— Senhor Garret Styles? — a médica chamou.

​— Sou eu, Dra.! Pelo amor de Deus, como está a minha esposa? O que ela tem? Por que ela desmaiou daquele jeito? — Garret disparou, as palavras atropelando-se de puro nervosismo.

​A médica colocou a mão de forma reconfortante no ombro dele, soltando uma risada baixa.

— Respire fundo, Senhor Styles. A sua esposa está perfeitamente bem. Nós fizemos os exames de sangue, checamos os sinais vitais e aplicamos um soro para estabilizar a pressão dela, que teve uma queda brusca. O desmaio foi apenas um sintoma clássico.

​Garret franziu o cenho, o coração desacelerando aos poucos. — Sintoma clássico de quê, Dra.? Ela está com alguma anemia?

​O sorriso da médica se expandiu. — Não, senhor. Parabéns, Senhor Styles. O desmaio e o mal-estar são decorrentes do primeiro trimestre de gestação. O casal está esperando um bebê.

​Garret paralisou no meio do corredor do hospital. Suas pupilas dilataram e ele piscou os olhos repetidamente, como se estivesse tentando processar uma informação em outra língua.

— Um... um bebê? A Sofia está... grávida?

​— Sim, grávida de aproximadamente sete semanas. Pode entrar no quarto, ela já acordou e está esperando pelo senhor.

​Garret nem soube como mover as pernas. Ele empurrou a porta do quarto de observação devagar. Sofia estava sentada na maca, com o acesso do soro no braço, os cabelos um pouco bagunçados, mas com um brilho misterioso e emocionado nos olhos castanhos. Ao ver o marido entrar com aquela cara de choque, ela soltou uma risada chorosa e abriu os braços.

​— Um bebê, Garret... — ela sussurrou, as lágrimas transbordando e escorrendo pelo rosto. — Nós vamos ser pais de novo.

​Garret correu até a maca, ajoelhando-se no chão ao lado do leito e envolvendo Sofia em um abraço absurdamente apertado, escondendo o rosto no pescoço dela enquanto seus próprios soluços de felicidade explodiam. Ele chorava como uma criança, beijando o rosto, a testa e as mãos dela com uma devoção sem limites.

​— Um bebê, meu amor... Deus, eu não consigo acreditar! — Garret dizia, a voz embargada, rindo e chorando ao mesmo tempo. Ele afastou-se um pouco, colando a palma da mão grande e trêmula contra a barriga ainda lisa de Sofia, por cima do lençol do hospital. — Um irmãozinho ou irmãzinha para a Hope... Nós vamos começar tudo de novo, Sofi.

​— Nós estamos radiantes, meu amor — Sofia sorriu, cobrindo a mão dele com a sua, o peito explodindo de amor. — A nossa família está completa, o James e a Hope estão bem, e agora essa benção... A vida é realmente maravilhosa.

​Eles se selaram em um beijo terno, longo e cheio de promessas para o futuro. Naquela sala de hospital, a certeza de uma nova vida trazia a renovação definitiva para a história dos Styles, provando que, após as tempestades do passado, o futuro reservava apenas frutos de pura felicidade.