Livro II: O Eco dos Nossos Passos
7 O Infinito Entre Nós
O inverno havia transformado West Valley em um cenário de cartão-postal. A neve cobria os telhados e os jardins da vizinhança com um manto branco e espesso, enquanto as luzes pisca-pisca coloridas refletiam nos vidros das janelas da casa dos Styles. O cheiro de rabanada, assado com especiarias e pinho tomava conta de cada cômodo.
Após meses de mensagens rápidas e telefonemas de fim de noite por causa da rotina esmagadora da faculdade e dos contratos em Nova York, o Natal finalmente havia chegado, trazendo a promessa de uma pausa merecida.
O motor do Mustang preto roncou baixo na entrada da garagem cobertinha de neve. James desligou a ignição, ajeitou o casaco pesado de lã escura sobre os ombros e pegou uma pequena sacola de veludo no porta-luvas, guardando-a direto no bolso interno do paletó.
Assim que ele empurrou a porta da frente da casa, o calor do aquecedor e o som de músicas natalinas o abraçaram. Mas nada se comparou ao borrão loiro que cruzou o corredor em disparada.
— TIO JAMES! — o grito de Hope foi puro instinto.
Ela não caminhou; ela correu e, ignorando completamente o fato de que agora era uma jovem universitária, saltou em direção a ele exatamente como fazia quando tinha cinco anos de idade. James soltou uma risada limpa, largando a mala de mão no chão a tempo de firmar os pés e pegá-la no ar. Seus braços fortes envolveram a cintura de Hope, erguendo-a enquanto ela entrelaçava as pernas ao redor de sua cintura e jogava os braços pelo seu pescoço.
— Ei! Devagar, Styles! Você está mais pesada do que quando pulava do sofá — James brincou, a voz vibrando perto do ouvido dela, mas apertando-a contra o peito com uma saudade que ele mal conseguia mensurar.
— Eu não quero saber, Lâfrer! Você sumiu por dois meses inteiros! — Hope reclamou, afastando o rosto para olhar para ele, os olhos azuis faiscando de alegria. Ela usava um vestido de tricô vermelho que se ajustava perfeitamente ao seu corpo e o cabelo estava solto, caindo em ondas louras. — Senti sua falta, dono da bola.
— Também senti a sua, pirralha — James sorriu, colocando-a de volta no chão com cuidado, mas mantendo as mãos na cintura dela por um segundo a mais antes de soltá-la.
Garret e Sofia surgiram no arco da sala, ambos usando suéteres temáticos e trazendo taças de vinho.
— Olha só se não é o magnata de Manhattan — Garret exclamou, aproximando-se para o habitual abraço de irmão. — A Hope passou a tarde olhando pela janela, James. Achei que ela ia cavar um buraco no tapete.
— Não comece, pai! — Hope protestou, o rosto corando de leve enquanto pegava a mala de James para ajudar.
— É muito bom ter você aqui, James. O Natal só está completo com a família toda unida — Sofia disse, aproximando-se para dar um beijo carinhoso na bochecha do amigo. — Vai lá em cima deixar suas coisas e desce, a ceia está quase pronta.
A noite correu de forma perfeita. O jantar foi recheado de piadas antigas de Lucian, Elise mimando a neta com seus doces favoritos, e Garret e James discutindo sobre as contratações da liga de futebol americano de forma calorosa. Ethan não estava lá; havia viajado com a própria família para passar as festas no Canadá, o que, secretamente, fez o Natal de James ser dez vezes mais leve. Hope estava radiante, rindo de cada provocação e mantendo os olhos azuis frequentemente voltados para James.
Por volta das onze da noite, enquanto Lucian e Garret organizavam os jogos de tabuleiro na sala e Elise e Sofia preparavam a mesa de sobremesas, Hope puxou James discretamente pela manga da camiseta.
— Vem cá em cima comigo. Quero te mostrar uma coisa antes da meia-noite — ela sussurrou, com um brilho misterioso no olhar.
James a seguiu escada acima até o quarto de hóspedes onde ele sempre ficava. Ao entrarem, Hope fechou a porta e encostou-se nela, cruzando os braços. O quarto estava na penumbra, iluminado apenas pelo abajur de luz amarelada na mesa de cabeceira.
— O que foi, Hope? Algum problema com as notas da faculdade? — James perguntou, dando um sorriso de canto e encostando-se na cômoda de madeira.
— Claro que não, eu sou a melhor da turma de jornalismo — ela rebateu com o deboche habitual, mas sua postura mudou. Ela deu alguns passos lentos em direção a ele. — Eu só queria te dar o meu presente longe de todo mundo. E queria o meu. Sei que você trouxe algo no bolso. Eu vi você escondendo quando chegou.
James soltou uma risada baixa, balançando a cabeça.
— Você não perde o instinto de detetive, não é?
Ele enfiou a mão no bolso do paletó que estava pendurado na cadeira e puxou a pequena sacola de veludo escuro. Hope deu mais um passo, ficando a poucos centímetros dele. A proximidade trouxe de volta aquele perfume de baunilha e outono, tornando o ar do quarto subitamente mais denso.
James abriu a sacola e puxou uma corrente fina, delicada, de ouro branco. No centro dela, reluzia um pingente pequeno e minimalista com o símbolo do infinito (\infty), cravejado de pequenos brilhantes que refletiam a luz fraca do abajur.
Hope prendeu a respiração, os olhos azuis fixos na joia.
— É... lindo, James.
— Deixa eu colocar em você — James pediu, a voz baixando para um tom grave e suave.
Hope virou-se de costas, afastando os longos cabelos loiros para o lado. James aproximou-se por trás. Seus dedos grandes e calejados tocaram a pele quente e macia da nuca dela ao fechar o fecho dourado. O toque fez um arrepio visível correr pelos ombros de Hope, e James sentiu o próprio coração falhar uma batida.
Ela se virou de frente para ele devagar, levando os dedos ao pingente que agora descansava perfeitamente em seu colo.
— O que ele significa? — ela perguntou, erguendo o olhar, a voz saindo quase como um sussurro vulnerável.
James manteve os olhos fixos nos dela. A pose de tio protetor desmoronava a cada segundo que ele passava naquele quarto escuro olhando para a mulher que ela estava se tornando.
— Significa que não importa o quanto o tempo passe, Hope... não importa a distância, as faculdades ou as escolhas que você faça lá fora — James disse, com uma intensidade crua e avassaladora que fez o corpo de Hope tensionar. — O meu compromisso com você, o meu cuidado... é infinito. Você é a minha constante, Styles. Sempre foi.
Hope engoliu em seco, as pupilas dilatando na penumbra. Ela deu meio passo à frente, quebrando a última barreira de espaço entre eles. O topo de sua cabeça alinhava-se ao queixo dele. Ela ergueu o rosto, e James pôde sentir a respiração quente dela bater contra os seus lábios.
Havia uma voltagem elétrica, pesada e inegável cortando o ar. James não desviou o olhar; seus olhos desceram para a boca bem desenhada de Hope e depois voltaram para os azuis dela, tomados por um magnetismo que nenhum dos dois conseguia explicar ou conter. A mão de James subiu de forma quase involuntária, os dedos roçando suavemente a lateral do maxilar dela, enquanto Hope inclinava a cabeça de leve em direção ao toque, os olhos semicerrando-se.
Os rostos foram se aproximando milímetro por milímetro, o silêncio do quarto preenchido apenas pelo batimento acelerado de dois corações que pareciam tentar compensar os anos de silêncio. James podia sentir o calor dela, a rendição mútua prestes a acontecer no primeiro e mais proibido beijo de suas vidas—
Toc, toc, toc.
A maçaneta girou e a voz de Sofia ecoou clara do outro lado da porta, que estava apenas encostada.
— James? Hope? O Lucian já vai abrir o espumante para servir a sobremesa, desçam logo antes que o sorvete derreta!
O impacto da voz de Sofia fez os dois se afastarem em um sobressalto, como se tivessem sido despertados de um transe hipnótico. James recolheu a mão rapidamente, limpando a garganta e desviando o olhar para a janela, sentindo o sangue pulsar forte em suas têmporas.
Hope deu um passo para trás, ajeitando o moletom com as mãos trêmulas, o rosto completamente corado. Ela respirou fundo, tentando recuperar a voz.
— Já estamos indo, mãe! Só... terminando de ver o presente! — Hope gritou de volta, a voz saindo um pouco mais aguda que o normal.
Sofia deu dois passos no corredor e se afastou.
No quarto, o silêncio que ficou era carregado de uma tensão ensurdecedora. Hope olhou para James mais uma vez, a mão tocando o pingente do infinito contra o peito. Ela deu um sorriso trêmulo, mas que já carregava uma pontada daquele deboche defensivo que usava para se proteger.
— Acho melhor a gente descer, Lâfrer... antes que a minha mãe suba com o tático de busca — ela sussurrou, caminhando em direção à porta.
— É... vamos descer — James respondeu, a voz rouca, sem conseguir encará-la nos olhos.
Hope abriu a porta e saiu. James permaneceu parado no mesmo lugar por alguns segundos, com as mãos nos bolsos, tentando acalmar a tempestade que acabara de se instalar em seu peito. Ele olhou para o próprio reflexo no vidro da janela. O Natal havia sido feliz, mas a linha invisível que separava o passado do futuro não tinha sido apenas arranhada; ela quase havia desaparecido por completo. E o relógio para os vinte anos de Hope continuava a avançar, transformando o infinito em algo terrivelmente real.
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