Livro II: O Eco dos Nossos Passos
19 O Dono do Jogo
O quarto ainda exalava o calor daquela manhã. O sol de Nova York agora iluminava com clareza os lençóis bagunçados e as roupas espalhadas pelo chão. Hope estava deitada de lado, com a cabeça apoiada no peito largo de James, traçando círculos preguiçosos com o dedo indicador no abdômen dele, ainda úmido de suor.
James soltou uma risada abafada, uma risada que Hope não ouvia há anos. Ele virou o rosto, dando um beijo estalado no topo da cabeça dela e apertando sua cintura com intimidade. A carranca de gelo da holding havia sumido por completo; em seu lugar, surgia um James leve, relaxado e com um brilho malicioso nos olhos escuros.
— Sabe, Styles... — James começou, a voz grave arranhando o silêncio, num tom nitidamente brincalhão. — Se eu soubesse que o relatório de Boston vinha com esse tipo de bônus de desempenho, eu teria aprovado a sua contratação muito antes.
Hope ergueu a cabeça, apoiando o queixo no peito dele, arqueando uma sobrancelha com aquele deboche Styles que ele tanto amava.
— Ah, é? Então o grande presidente da holding agora faz piadinhas corporativas na cama? Que feio, Senhor Lâfrer. Onde foi parar aquele homem sério que me mandou calar a boca no elevador?
— Ele ficou preso na rodada de samba do Ricardo ontem à noite — James rebateu, rindo e rolando na cama para dar um tapa leve e estalado no bumbum nulo dela por baixo do edredom. Ele sentou-se na beira do colchão, espreguiçando-se, exibindo os músculos das costas definidos. — Mas agora é sério, dona Hope. Olhe para aquele relógio. São quase nove horas. Nós temos uma empresa para gerenciar e, tecnicamente, você ainda é minha estagiária. O que o RH vai dizer se a gente chegar atrasado?
Hope permaneceu deitada, com os braços cruzados sob o travesseiro, devorando a visão de James de pé. Ele caminhava até o banheiro com a postura imponente, totalmente à vontade com a própria nudez. Um sorriso malicioso e completamente satisfeito desenhou-se nos lábios dela.
— Quer saber de uma coisa, "tio" James? — Hope comentou em voz alta, fazendo questão de usar o título antigo de propósito, a voz arrastada de puro deleite. — Você pode ser um ogro rabugento na sala da presidência... mas na cama? Meu Deus. Você é simplesmente maravilhoso. Acho que valeu a pena esperar dois anos para ver o quarentão perder o controle.
James parou no batente do banheiro, olhou para trás por cima do ombro e deu um sorriso safado, os olhos faiscando de desejo.
— Você não viu nada, Styles. Guarda essa energia, porque o segundo turno no escritório vai ser longo. Vai tomar banho, te vejo lá.
Uma hora mais tarde, a realidade profissional voltou ao cenário. Cada um pegou seu próprio veículo no estacionamento do Greenwich Village. Hope dirigia seu sedan prata e James vinha logo atrás com seu SUV escuro, mantendo a distância protocolar pelo trânsito de Manhattan.
Eles estacionaram em suas respectivas vagas no subsolo da Lâfrer & Capital Media. Hope desceu primeiro, ajeitando o blazer de seu terninho escuro e caminhando até o hall dos elevadores. Segundos depois, James aproximou-se, vestindo seu terno cinza impecável, com a pasta de couro na mão.
Assim que a caixa de metal abriu, ambos entraram. No momento em que as portas magnéticas se fecharam isolando os dois do mundo exterior, a postura profissional desmoronou.
James largou a pasta no chão e, em um movimento rápido, prensou Hope contra a parede de espelhos do elevador. Seus lábios se colidiram em um beijo urgente, quente e barulhento. A língua dele invadiu a boca dela com uma posse selvagem, enquanto a mão grande de James subia pela cintura de Hope, apertando o tecido do blazer. Hope cravou as unhas na nuca dele, entregando-se ao momento com um arfar pesado.
— James... o andar da recepção... — ela murmurou entre os lábios dele, embora estivesse puxando-o para mais perto.
— Que se foda a recepção — ele sussurrou contra a boca dela, dando mais três selinhos demorados antes de se afastar com um sorriso safado.
O painel apitou: 25. James abaixou-se, pegou a pasta e ajeitou a gravata de forma mecânica. Quando as portas se abriram, ele saiu com a postura rígida de presidente, e Hope o seguiu logo atrás, segurando sua xícara de café com a maior cara de inocência do mundo, embora suas bochechas estivessem coradas.
O dia na redação correu sob uma tensão elétrica invisível. Durante as reuniões de pauta e as entregas de relatórios, James e Hope não trocaram uma única palavra que não fosse profissional, mas os olhares... os olhares eram devastadores. A cada vez que James cruzava o andar, seus olhos escuros fixavam-se na silhueta de Hope; e ela, por sua vez, sustentava a dinâmica com sorrisos de canto por trás dos óculos de leitura.
Perto do final do expediente, Ricardo Andrade estava na sala de James revisando os números da campanha de marketing. Ele parou de falar no meio de uma frase sobre o orçamento de Miami ao notar que James olhava fixamente pelo vidro fosco, acompanhando Hope caminhar até a impressora.
Ricardo soltou uma risada limpa, balançando a cabeça e largando a caneta na mesa.
— Sabe, James... eu posso ser brasileiro e amar uma festa, mas eu não sou cego.
James desviou o olhar para o diretor de marketing, a expressão voltando a ficar séria. — Do que você está falando, Ricardo?
— Estou falando de você e da Hope — Ricardo deu de ombros, com um sorriso que misturava uma leve pontada de tristeza com bom humor. — Ontem no meu aniversário eu achei que era apenas o meu charme que não estava funcionando, mas hoje? Esse escritório está parecendo um campo magnético. O jeito que vocês se olham... a eletricidade dá para sentir daqui. Eu até tentei dar uma investida no "pitel lindo", mas confesso que o jogo já estava ganho antes mesmo de eu entrar em campo. Vocês se gostam, não é?
James encarou o amigo por alguns segundos. Ele relaxou os ombros, encostou-se na cadeira de couro e soltou um suspiro longo. Ricardo era um cara de confiança, e James precisava tirar aquele peso do peito.
— A história é longa, Ricardo — James começou, a voz saindo sincera. — A Hope é filha do Garret, meu melhor amigo de uma vida inteira. Eu me afastei por dois anos, criei essa fachada de homem de gelo e quebrei a minha amizade com o pai dela porque achei que era o certo a fazer para protegê-la. Mas a verdade é que eu sou completamente louco por aquela mulher. E ontem, no seu banheiro... tudo o que eu tentei segurar por anos veio abaixo.
Ricardo piscou os olhos, abismado com a revelação, mas logo soltou uma gargalhada genuína, erguendo as mãos em sinal de rendição.
— Caramba, James! No meu banheiro? Você é mesmo um jogador implacável. Mas quer saber? Eu fico feliz por vocês. Dava para ver na cara da Hope ontem que o coração dela não estava na pista de dança, estava no bar, onde um certo quarentão rabugento estava quase quebrando o copo de uísque com os dentes. Olha, ninguém jamais sobreviveria no meio desse romance de vocês. A intensidade é de outro planeta. Boa sorte com o Sr. Garret, você vai precisar.
James deu um sorriso contido. — Obrigado, Ricardo. E desculpe pelo gelo.
Mais tarde, a noite nova-iorquina engoliu a cidade. Após mais uma rodada de entrega absoluta e sexo selvagem — dessa vez na enorme cama de casal da cobertura de James —, o silêncio aconchegante voltou a reinar.
Hope estava deitada de bruços, com o lençol cobrindo-a apenas até a cintura, revelando as marcas leves dos dedos de James em seus quadris. James estava sentado ao lado dela, com as costas apoiadas na cabeceira, passando os dedos suavemente pelos cabelos loiros dela.
O clima de romance deu espaço para a inevitável pergunta que pairava no ar.
— James... — Hope chamou baixinho, virando o rosto para olhá-lo. — Como nós vamos fazer agora? A minha mãe já desconfia de tudo desde aquela noite na cobertura. E o meu pai... ontem mesmo a minha mãe contou para ele o real motivo do seu sumiço. O meu pai sabe que você se afastou por causa de mim.
James parou o carinho por um segundo, os olhos escuros tornando-se reflexivos. Ele sabia que o tabuleiro familiar era o terreno mais perigoso de todos.
— O Garret sabe? — James perguntou, a voz grave.
— Sabe. A minha mãe não aguentou ver ele sofrendo pela perda da sua amizade e contou a verdade. O meu pai disse que se você tivesse vindo homem a homem conversar com ele, as coisas teriam sido diferentes. Mas agora... nós estamos juntos de verdade. Não dá mais para esconder.
James soltou o ar lentamente pelo nariz, puxando Hope para mais perto e envolvendo-a em seus braços protetores.
— Eu fui um idiota orgulhoso, Hope. Tentei carregar o peso do mundo nas costas achando que o exílio era a única resposta. Mas eu não vou fugir de novo. Eu vou achar um jeito, Styles. Nós vamos até West Valley no próximo final de semana. Eu vou olhar nos olhos do meu irmão e vou dizer a ele que, apesar de todas as regras que eu quebrei, eu amo a filha dele com a minha vida. Nós vamos enfrentar isso juntos.
Hope sorriu, sentindo uma segurança profunda invadir seu peito. Ela colou os lábios nos dele em um selinho demorado. O dilema ainda existia, a conversa com a família seria uma tempestade, mas ali, nos braços do homem que ela sempre soube que seria seu, Hope tinha a certeza de que nenhuma barreira em Nova York seria forte o suficiente para pará-los.
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