Livro II: O Eco dos Nossos Passos
23 Desejos da Noite e o Desespero de Garret
A quietude da madrugada havia se instalado na casa dos Styles, mas a cozinha ainda mantinha um rastro de calor. Passava das duas da manhã quando Sofia, vestindo um robe confortável sobre o pijama, desceu os degraus de madeira para tomar um copo de água. A luz suave acima da bancada estava acesa, criando uma atmosfera acolhedora e silenciosa.
O som de passos leves e descalços denunciou a chegada de mais alguém. Hope entrou na cozinha, com a camisola de cetim vermelha ligeiramente desalinhada e os cabelos loiros bagunçados. Seus olhos azuis tinham um brilho cansado, mas o sorriso em seus lábios era puramente radiante.
— Sem sono, mãe? — Hope perguntou com a voz mansa, caminhando direto em direção à geladeira.
— Vim buscar um copo de água, mas acho que alguém aqui acordou com fome — Sofia comentou, cruzando os braços e encostando-se no balcão com um sorriso sereno.
Hope não respondeu de imediato. Ela abriu a gaveta de fatiados, pegou uma caixinha cheia de morangos frescos e os despejou em um prato de louça. Em seguida, de forma totalmente metódica, pegou um vidro de mel, cobriu as frutas com uma camada generosa e, para a surpresa de Sofia, pegou meio limão na porta da geladeira e espremeu todo o suco azedo por cima da mistura doce.
Sofia observou a combinação peculiar, segurando uma risada que teimava em escapar de seus lábios. Ela permaneceu em silêncio, apenas acompanhando com os olhos a filha devorar o primeiro morango com um estalo de satisfação.
— Mel com limão nos morangos, Hope? — Sofia finalmente quebrou o silêncio, soltando uma risada abafada. — Essa combinação é... no mínimo interessante para duas horas da manhã.
— É uma delícia, mãe. Eu acordei sentindo que se não comesse exatamente isso, eu não conseguiria voltar a dormir — Hope deu de ombros, dando mais uma garfada na mistura exótica.
Sofia deu um passo à frente, ajeitando uma mecha do cabelo da filha, e mudou o tom de voz para algo mais divertido e provocante.
— Sabe, meu amor... fico feliz que você tenha recuperado as energias. Mas da próxima vez que você e o James resolverem comemorar o noivado no quarto... tentem ser um pouco mais silenciosos. As paredes dessa casa antiga são de madeira, e eu consegui escutar perfeitamente o entusiasmo do meu novo genro.
Hope paralisou com o garfo no meio do caminho, as bochechas corando em um tom vermelho vibrante que competia com a sua camisola.
— Mãe! Meu Deus! — ela sussurrou, horrorizada e rindo ao mesmo tempo. — O James... ele perde o controle, eu não tenho culpa!
— Eu sei bem como o James perde o controle, Hope — Sofia piscou, rindo abertamente e dando um beijo na testa da filha. — Só estou avisando para o bem do coração do seu pai. Termina o seu lanche exótico e vai descansar.
Na manhã seguinte, o sol de Natal brilhava forte na janela da sala de estar. Hope estava jogada no sofá de pernas para o ar, assistindo a um especial de fim de ano na TV com uma preguiça confortável.
A porta do corredor se abriu e Garret entrou na sala. Ele havia acabado de tomar um banho demorado e feito a barba para o almoço de Natal; sua pele exalava um rastro forte e concentrado de loção pós-barba amadeirada, misturada com o cheiro do desodorante.
Assim que a lufada daquele perfume atingiu o nariz de Hope, seu estômago deu uma reviravolta violenta, como se estivesse em uma montanha-russa. Suas pupilas dilataram de pavor. ela jogou o controle remoto no estofado, cobriu a boca com as duas mãos e disparou em direção ao banheiro do corredor a passos desesperados.
No mesmo segundo, a porta da frente da casa abriu-se. James entrava na sala, vestindo roupas esportivas pretas, com o suor brilhando na testa após ter feito sua corrida matinal de cinco quilômetros pelo condomínio. Ele congelou no lugar ao ver a silhueta da noiva passar correndo por ele como um raio.
O som decorrente das ânsias de vômito de Hope ecoou de dentro do banheiro com a porta entreaberta.
James franziu o cenho, dando um passo na direção do corredor, genuinamente preocupado. — Hope? Tudo bem aí dentro?
Sentada em sua poltrona de canto, Elise tirou os óculos de leitura, olhou para a direção do banheiro, depois para o prato de morangos com mel e limão que Hope havia deixado na mesa de centro, e finalmente fixou os olhos em James. Uma risada sábia e cheia de graça escapou dos lábios da matriarca Styles.
— Bem... pelo visto, parece que teremos mais um bebê vindo para o Natal nesta família — Elise disparou, divertida, cruzando as mãos no colo.
Garret, que ainda segurava a toalha de rosto na mão, paralisou. Ele olhou para a mãe, processou a informação e girou o corpo lentamente na direção de James. Seus olhos se arregalaram em uma mistura de choque, ciúme paternal e uma fúria fingida que fazia seu peito inflar. Ele jogou a toalha no sofá e apontou o dedo indicador para o peito do ex-melhor amigo.
— Você... VOCÊ ENGRAVIDOU A MINHA FILHA, LÂFRER?! — Garret deu um grito que fez a estrutura da sala tremer.
James arregalou os olhos escuros, dando dois passos para trás com as mãos erguidas em sinal de rendição. — Garret, calma! A gente nem sabe se...
— Calma o caralho! Na minha casa, Lâfrer?! Embaixo do meu teto?! — Garret berrou, soltando uma risada histérica de puro desespero e correndo na direção dele. — Eu vou te matar, seu quarterback de meia-tigela!
James, vendo o tamanho do amigo vindo em sua direção com os punhos cerrados, não hesitou: deu meia-volta e saiu correndo pela porta da frente, disparando pelo jardim coberto de neve com Garret logo atrás, gritando e xingando em uma perseguição hilária ao redor dos pinheiros de Natal. Lucian apareceu na janela da cozinha com uma espátula na mão, rindo alto da cena de comédia dos dois marmanjos correndo como crianças.
Segundos depois, o som da descarga ecoou. Hope saiu do banheiro, limpando a boca com uma toalha de papel, com as bochechas pálidas, mas já recuperada. Ela olhou para a sala vazia, escutou os gritos de Garret que vinham do lado de fora — "Volta aqui, James! Você vai assumir esse neto agora mesmo!" — e franziu o cenho, totalmente sem entender nada.
— Vovó... o que está acontecendo lá fora? Por que o meu pai está correndo atrás do James com uma vassoura? — Hope perguntou, confusa.
Elise apenas deu de ombros, piscando os olhos com malícia. — Coisas de homens orgulhosos, minha querida. Vá escovar os dentes, acho que o seu noivo vai precisar de uma farmácia daqui a pouco.
Uma hora mais tarde, a poeira havia baixado. James havia retornado da corrida pela sobrevivência com o cabelo bagunçado e os pulmões bufando, enquanto Garret estava sentado na cozinha sob o olhar severo de Sofia, resmungando que "a justiça divina tardava, mas não falhava".
James entrou no quarto de Hope segurando uma sacola plástica branca que havia buscado na farmácia do centro da cidade na velocidade de um raio. Suas mãos estavam visivelmente trêmulas quando ele retirou três caixas de testes de gravidez digitais de dentro do plástico e as estendeu para ela, que estava sentada na beira da cama.
— Três marcas diferentes, Styles — James disse, a voz saindo um pouco mais rápida que o normal, os olhos escuros fixos nos dela com uma intensidade que misturava pavor e uma esperança avassaladora. — Faz os três. Só para termos certeza absoluta do tamanho do problema com o seu pai.
Hope olhou para os testes, sentindo o estômago dar um nó diferente daquele do perfume. Ela deu um sorriso de canto, pegou as caixas e caminhou até o banheiro do quarto, fechando a porta.
James passou os cinco minutos mais longos de sua vida andando em círculos pelo tapete do quarto. Ele roía a unha do polegar, olhava para a janela, ajeitava o moletom e contava os segundos no relógio de pulso. Aos quarenta e dois anos, ele já havia fechado negócios de bilhões de dólares em Wall Street sem suar uma única gota, mas a espera por aquele resultado estava fazendo seu coração bater na altura da garganta.
O clique da fechadura da porta do banheiro ecoou.
Hope saiu lentamente. Ela mantinha os olhos fixos nos três dispositivos de plástico que segurava nas mãos. Seu semblante estava calmo, mas uma lágrima solitária e brilhante escorreu por sua bochecha.
James parou no centro do quarto, o ar fugindo de seus pulmões. — E então, Hope...? O que deu?
Sem dizer uma palavra, ela caminhou até ele e estendeu os três visores digitais alinhados em sua palma. Em todas as três telas pequenas, a palavra se repetia de forma clara, indiscutível e perfeitamente nítida:
GRÁVIDA + 3 semanas.
James fixou os olhos nos testes. Suas pupilas dilataram e os nós de seus dedos relaxaram. Ele ergueu o olhar para o rosto de Hope, vendo o sorriso doce e emocionado que desenhava os lábios dela. O mundo pareceu parar por um segundo inteiro.
— Meu Deus... — James sussurrou, a voz quebrando por completo.
Ele não esperou mais nada. James deu um passo à frente, envolveu a cintura de Hope com os braços longos e a suspendeu no ar, girando-a pelo quarto enquanto soltava uma risada limpa, rouca e cheia de uma felicidade que transbordava de seu peito. Ele a deitou na cama com delicadeza, ficando por cima dela, colando a testa na dela enquanto suas mãos grandes acariciavam o rosto da noiva com uma devoção sem limites.
— Um bebê, Hope... nós vamos ter um filho — James murmurou contra os lábios dela, os olhos escuros marejados de puro orgulho. — Eu sou o homem mais sortudo desse mundo.
— Nós vamos ser pais, meu quarterback — Hope sorriu, puxando-o pela nuca para um beijo profundo, quente e cheio de promessas para o futuro.
A notícia da nova vida selava de uma vez por todas o destino deles. O jogo em Nova York havia mudado de figura, e agora eles estavam prestes a dar o passo mais bonito de suas vidas, ignorando os gritos de Garret no andar de baixo e entregando-se inteiramente àquele amor que havia gerado o maior milagre de suas vidas.
Fale com o autor